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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Notre Belle Èpoque pt. 8

Páginas retiradas do diário de Anita Simões

12 DE SETEMBRO DE 1882

Meu coração batia incessantemente desde o amanhecer, e me acordou com seus anseios absurdos antes mesmo do grande Apolo ultrapassar-nos com sua carruagem. Meu marido não dormia ao meu lado como de costume, e seu lado da cama permanecia frio como muitos de meus sentimentos por ele naquele dia. Deixei que meus pés tocassem o chão frio, silenciosos, e preparei um chá. Tomei-o enquanto observava o sol chegando à minha (nossa) propriedade, pensando no dia que viria. Antes que todos da casa acordassem, voltei aos meus aposentos e verifiquei falhas no vestido que usaria e em minha tez. E quando todos já despertavam, comecei a verificar os detalhes da casa, retirando qualquer resquício de rústico e desagradável aos olhos.

Uma hora antes do marcado com Amélia, solicitei que me ajudassem com minha vestimenta. O vestido que escolhi por usar é moderno e refinado, mas sem muitos adereços como essas moçoilas simplórias costumam usar. Esperei-lhe à porta, com o frenesi por sua chegada assomando-se a outros pequenos nervosismos. Meu coração pareceu parar assim que lhe vi chegando, e com toda a felicidade a recebi com abraços e cumprimentos repletos de cordialidade. Conversamos longamente durante a tarde, abordando temáticas como moda e vida na Europa. O tempo caminhava lentamente enquanto eu via suas feições darem forma às palavras, sua voz aveludadas acariciando minha alma, suave, suave. Sinto que tivemos uma conexão instantânea, feminina, como nunca antes tive. E certamente não quero que se acabe, não quero que meus olhos desviem para nenhum outro canto.

Experimentamos várias das peças do alfaiate, e tivemos apenas uma pequena pausa para o chá. E depois de tantas roupas, nossas costas já doendo de tanto esforço, parti para o magnífico vestido que Antoine trouxe para mim, tecido sob minhas medidas. Dispensei as minhas damas de companhia, nem sei bem o motivo disto – mas admito que premeditei a ideia de ficar só com Amélia ao menos por alguns poucos minutos. Despi-me, como uma adolescente inconsequente faria diante seu amado. Senti minha respiração ficando mais pesada nesse instante, e fixei meu olhar confuso na parede logo à minha frente.

- Amélia, tu poderias me ajudar com o espartilho? – acho que perguntei algo similar a isso. Senti a vibração que seus suaves passos faziam sobre o chão, e logo ela estava logo atrás de mim. Falou algo ininteligível para mim, deixando-me com os pelos eriçados. A partir daí tudo ficou confuso, diáfano. Percebia que eventualmente sua pele encostava à minha, mas nada mais se poderia discernir. Além desta sensação maravilhosa, tudo era fosco, e sua pele era minha perdição completa. Tempo, tempo. Apenas sei que ele passou por, repentinamente, perceber que Antoine batia à porta, preocupado conosco. Terminei de me arrumar rapidamente e lhe abri a porta, de sorriso aberto.

Nada mais depois disso foi importante. Amélia teve que voltar para seus próprios afazeres e eu fiquei com o vestido. Agora a dúvida surge. Real? Imaginação? Deus, ajuda-me a discernir esse emaranhado de sensações que me acometem.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Notre Belle Èpoque pt. 7

Páginas retiradas do diário de Amélia Cavaleiro


Belém, dez de Setembro de mil oitocentos e oitenta e dois


O palacete no qual Anita residia com seu cônjuge era grandioso e elegante. Perfeitamente condizente com a natureza fina do casal. Senti-me intimidada diante de tanto luxo e ordem. Condenei-me como senhora do lar, intimamente. Anita recebeu-me trajando um belo modelito moderno, simples e sem os babados habituais dos vestidos de hoje em dia. Ainda pensava em minha manhã ao chegar ali. Fora uma manhã fantástica aquela! Eu havia descido para meu costumeiro passeio pelos jardins de nossa casa, preparando-me para o encontro de após com Anita e seu alfaiate. Marieta, minha aia mais estimada, acompanhava-me por entre os arbustos e pequenas árvores que se estendiam por todo o trajeto. Foi Marieta em si que me deu uma manhã magnífica, diga-se de passagem. Enquanto percorríamos o caminho habitual de meu passeio matutino, Marieta distraiu-se com um coelho branco que tentava esconder-se por entre a grama baixa que cercava as maiores árvores. Observei por consequência o animalzinho que possivelmente fugira da coelheira. Joaquim teria descarregado sua raiva no primeiro escravo que estivesse por perto, o que acabaria sobrando para a pobre Marieta. Ai dela! Eu não gostaria que saísse prejudicada, levando em consideração que sabia não possuir culpa pela fuga do coelho travesso. Ela passara a manhã inteira em minha companhia, e não teria como dar conta de tudo. Decidi que ajudaria Marieta. Agora a pobre aia me espiava pelo "rabo do olho" quase suplicante. Joaquim talvez amasse mais aqueles coelhos do que a mim. Não... Não devo mencionar isso nem de brincadeira. O caso era: precisava restituir o coelho para a coelheira, isso antes que Joaquim descobrisse que havia escapado para os jardins. Marieta também sabia disso e quando busquei seu olhar a fim de fazê-la compreender a gravidade da situação, ela retribuiu com cumplicidade. Passamos então as duas a caçar o coelho pelo jardim. O danado parecia ter sabão no pelo, de modo que sempre que quase o capturávamos, ele fugia pra mais distante ainda. Ríamos, as duas. Permiti que ela risse e se divertisse mediante a situação perigosa. Divertimo-nos juntas, eu e Marieta. A jovem aia é uma mulata bem formada, com cachos longos e negríssimos. A pele é demasiadamente mais alva do que a da maioria dos negros de nossa propriedade. Uma bela escrava. Devo vigiar para que Joaquim não se perca pelo meio do caminho. Capturamos o coelho no final das contas, e o devolvemos para a coelheira. Eu ainda ria de suas escapadas espertas. Fui alimentar-me e aprontar-me para a ida à casa de minha amiga.


De volta ao encontro com Anita. Após a recepção calorosa de minha anfitriã, seguimos para a sala onde o alfaiate nos aguardava, acompanhado pelas damas de companhia de Anita. A tarde seguiu-se agradável, entre diálogos envolvendo a Europa, a moda de lá e as novas tendências futuras. Trocamos algumas peças com ajuda das moças de Anita, demos uma pausa e após tomarmos um chá, retornamos ao alfaiate. O assunto fluía bem, e olhávamos nos olhos uma da outra o tempo todo. Eu sabia que a afinidade que sentia por ela era recíproca. Anita anunciou então que experimentaria a última peça. A mais bela que lhe fora exibida, feita sob medida por seu alfaiate para ela. Estranhei ela ter dispensado as moças, mas aguardei a conclusão de seu raciocínio. Anita despiu-se até as peças íntimas, e o ar ficou denso, pesado, difícil de aspirar. O alfaiate aguardava do lado de fora da sala, e os raios de sol começavam a abandonar o céu. Amélia... Ela começou dizendo. Será que tu poderias me ajudar com o espartilho? Senti certo frio na espinha, e levantei-me lentamente. Caminhei em silêncio absoluto até ela, e postei-me atrás de seu corpo despido, para só então responder: Claro. O espartilho cobriu seu busto, e passei a amarrá-lo delicadamente. Minha mão roçava na pele de sua costa, de propósito ou não. Eu não saberia dizer. Ela movia-se lentamente, e respirava forte quando isso acontecia, permitindo-me perceber o que se passava. Após organizar as fitas da peça, passei a prendê-las com força, para que ficassem firmes como deveriam ser. A cada novo nó, Anita arqueava a coluna e seus poros salientavam-se por sobre a pele alvíssima. Quando terminei de amarrar suas vestes, o que demorou bem mais do que deveria, o alfaiate já batia na porta perguntando se precisávamos de ajuda. Não poderia precisar o tempo que passamos ali. Posso alegar que vivemos um momento ímpar, e eu e Anita sabemos disso. Ela comprou o vestido.


Já era chegada a hora do jantar, então precisei despedir-me de Anita e do alfaiate, e apressar-me para que Joaquim não se aborrecesse. Dei meu endereço para o alfaiate, afim de que enviasse as minhas contas para Joaquim. O cocheiro guiou-me até nossa residência, e no caminho tive a impressão de ver novamente aquela carruagem que seguiu-nos na noite do Theatro. Desfiz-me da preocupação dessa vez. Agora, repasso infinitamente em meus pensamentos o dia de hoje. Boa noite.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Notre Belle Èpoque pt. 6

Páginas retiradas do diário de Anita Simões

03 DE SETEMBRO DE 1882

Reli diversas vezes os escritos diretamente no mais fino papel abaixo. Imagino mãos femininas, mas firmes, escrevendo temerariamente. Não como eu quando escrevo, que paro uma ou duas vezes, penso um eufemismo, escolho dizer um quarto fato, e então transformo meu pensamento em palavras. É moça similar a mim, mas em tudo diferente, peculiar, chamativa, forte. Não me admiro ou espanto por nossas cartas serem tão distintas. Está quase amanhecendo e eu não gostaria de largar este pedaço da consciência de Amélia, pois ela afasta grande parte da insegurança que dentro de mim vive, de meus temores infantis e da tenebrosidade que a escuridão me trás. Anexo sua carta cuidadosamente aqui. Voltarei para ler quantas vezes forem necessárias para que minha vontade de sua companhia seja minimamente saciada. Mas sei que esta noite terminarei no vazio de sua ausência, de sua inexistência.

Belém, 02 de Setembro de 1882

Caríssima amiga,

Como poderia eu, nas torpes e vãs palavras que nossa língua oferece, expressar-lhe toda minha gratidão pelo convite estendido por vossa senhoria à minha pessoa? Temo, porém, que para lhe justificar a razão de toda minha alegria, deva informar-lhe meus reais motivos: desde casada com Joaquim, não possuo amiga sequer que me acompanhe em atividades femininas, como provar nobres tecidos ou comentar a respeito de outrem. É lisonjeante, então, que vossa senhoria querida tenha visto em mim a possibilidade de uma amizade pura e livre de toda maledicência que circunda atualmente nosso meio social.
Asseguro-lhe de que Joaquim não tardará em permitir-me a visita à vossa propriedade, que confesso estar ansiosa por vislumbrar, tendo em vista que julgo ser de extremo bom gosto, levando em consideração seus bons modos e costumes.
Confesso-lhe secretamente, porém, que estive desejosa por escrever-lhe antes de receber seu manuscrito, porém temia perturbar sua alegria conjugal ao tomar-lhe o tempo. Todavia, tendo em vista que na atual circunstância tu própria és quem convidas, não tardo em aceitar, e prometo-te levar um bom vinho de nossa adega para degustação.

Até breve,
tua amiga
Amélia Cavaleiro

Obs.: Peço-te perdão se abuso de tua intimidade por, ao final da carta, tratar-te por “tu”.




Post escrito com a ajuda de Saah Tavares.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Notre Belle Èpoque pt. 5

Páginas retiradas do diário de Amélia Cavaleiro

Belém, trinta de agosto de mil oitocentos e oitenta e dois

Mal posso caber em mim diante da hecatombe causada pela mais recente chegada de um mensageiro à nossa propriedade. Recebi-o hoje pela manhã, após meu ritual sagrado de regar os jasmins recém-plantados (à meu pedido).

Anita enviou-me correspondência, e estou segura de que desta vez a iniciativa partiu da própria. Receio-me incapaz, porém, de expressar em sentimentos o conteúdo do escrito, quando o mesmo como um todo faz-se eloquente e palpável (tal qual as doces palavras que minha amiga sempre ofereceu-me). Quase pude ouvir sua voz aveludada e monocórdia enquanto degustava cada palavra desenhada no papel fino selado com esmero. Anexo então, nestas folhas de diário, a razão de toda minha alegria:


Belém, 30 de Agosto de 1882

Querida Sra. Cavaleiro (ou Amélia, caso me seja permitido),

Agora que o princípio dos negócios de nossos amados findou, partindo para uma nova etapa da relação entre ambos, aumenta monumentalmente a improbabilidade de uma reunião próxima entre nossas famílias. Ainda que nossos encontros tenham sido breves, e poucos deles tenham ocorrido, sinto falta de sua presença me cercando, de seu espírito intenso a incitar a rebeldia e a vida que há dentro de mim. Gostaria que não me considerasse uma louca por querer lhe oferecer uma tarde da minha mais cara hospitalidade. Saiba que espero, partindo de todos os recantos mais obscuros do meu ser, que atendas a meu pedido, que pode lhe parecer um pouco estranho. Meu alfaiate virá à cidade na próxima semana e passará todo um dia comigo, ajeitando-me vestidos e costuras adequadas. Estendo-lhe o convite de vestir-se comigo dos mais belos vestidos que Paris pode oferecer através das hábeis mãos de Monsieur LeBlanc.

Infelizmente, meu marido estará ausente neste dia. Sinto que passará todas as próximas semanas se distanciando ocasionalmente. Sendo assim, o seu senhor provavelmente acharia nossas atividades enfadonhas, principalmente por não ter nenhum empregado do sexo masculino para lhe fazer companhia adequada. Faço votos de que nem você nem seu senhor ir-se-ão melindrar por tal premissa.

O encontro deverá ocorrer em minha casa na próxima quarta-feira, que será o sexto dia do mês de Setembro. Certamente será uma bela manhã. Caso você chegue antes do alfaiate em minha residência, podemos fazer um calmo passeio pelo jardim para observar as flores e ouvir o canto das aves sonoras. É estranho pensar em como este ano, que se iniciou tão enfadonho, agora me parece fantástico apenas pela chegada de uma pessoa especial em minha vida; mais uma, quero dizer.

Com toda a ternura de vossa amiga,

Anita



Post escrito com a ajuda de Bruno Eleres.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Notre Belle Èpoque pt. 4

Páginas retiradas dos diários de Amélia Cavaleiro

Belém, dezenove de agosto de mil oitocentos e oitenta e dois.

Acabo de recostar-me esbaforida à parede de meus aposentos. Após respirar com tanta voracidade que minhas palpitações pareciam quase visíveis em meu colo alvo, corri para a penteadeira, e destranquei a gaveta onde escondo meu diário, na carência desesperada de relatar meu infortúnio. Hoje era chegada a noite pela qual eu tanto ansiava, em meio a meus devaneios. Notoriamente não se assucedeu como esperado por mim, levando em conta o estado que me encontro, descrito linhas acima, porém a mudança na ordem dos fatos ocorridos não indica necessariamente que a noite foi ruim. Muito pelo contrário! A noite foi encantadora, maravilhosa... quase não encontro adjetivos para descrever os tão sublimes momentos por mim vividos horas mais cedo. O caso é que não posso de fato afirmar que a noite, como um todo, foi assim magnífica. Corri perigo, senti medo. Estas sensações afloraram-me no início da noite, e retornaram no final dela... Nem sei dizer se já se foram de vez.
Fui ao Theatro, como outrora combinara com Anita. Esperava encontrá-la como eu mesma me encontrava, a sós. Não aconteceu. Carlos estava ali, no auge de sua elegância de bancário, parado ao lado de sua elegantíssima esposa. Anita. Minha doce e bela Anita. Sempre conservando seus bons modos, seu fino porte, sua cálida delicadeza. Surpreendi-me inicialmente. Tivera tanto trabalho para conseguir sair naquela noite sem que Joaquim me acompanhasse! Mais trabalho ainda para que ele me permitisse sair sem ele. Agora, lá estava ela, e Carlos, lado a lado. Eu, sozinha, correndo o risco de ser mal vista. Mal interpretada. Talvez tomada por adúltera ou solteirona, levando em consideração que estava desacompanhada. Preferi afastar esses pensamentos, a visão de Anita me inebriara o bastante para que eu esquecesse temporariamente o constrangimento do momento. Carlos perguntou-me por Joaquim, e informei a ele o motivo, inventado anteriormente por mim, para que meu cônjuge não estivesse presente para apreciar a ópera conosco. Levei em conta que não poderia ser diferente, e parti rapidamente para o camarote na companhia do casal, esperando ser reconhecida por poucos amigos da família, e a ausência de Joaquim passar despercebida. Por certos momentos, lamentei não tê-lo levado, mas sinceramente não faria diferença. Ele não entenderia absolutamente nada sobre a ópera de qualquer jeito, apesar do Carlos Gomes sempre jantar em nossa residência com a família, e de Joaquim anunciar de maneira enfadonha a cada novo encontro o quão maravilhosa estava a Salvador Rosa, sua nova ópera (a bendita ópera a qual eu, Anita e Carlos Simões vislumbramos hoje), eu e Joaquim sabemos muito bem que ele sempre dorme quando vamos ao Theatro, e que por vezes é preciso que eu o balance com força para que pare de roncar tão alto.
O ponto forte da noite, no entanto, foi o momento em que Carlos nos deixou a sós para pitar um cigarro do lado de fora do teatro. Eu e Anita finalmente encontramo-nos a sós. Sorri para ela, enquanto a ópera acontecia, e ela retribuiu de forma serena. Comentei sobre a amizade de Joaquim com o autor da obra, e ela parecia confortável, até o instante sublime em que a ópera tornou-se mais intensa, mais forte, mais envolvente. Anita, frágil como é, sobressaltou-se, e não sei se por susto ou emoção, tocou-me o braço com as pontas dos dedos, apertando-os levemente em torno de minha pele. Senti aquele toque único, latente, aveludado como tudo em Anita, e então foi meu coração que sobressaltou-se. Ela disfarçou o constrangimento após o ato, e recolheu sua mão ao próprio colo.
A noite seguiu-se calma, sem maiores impressões. Carlos ofereceu levar-me até em casa, mas minha carruagem aguardava-me ali, e mesmo assim nossa propriedade não ficava tão distante. Agradeci, e retornei para casa agradecida pelo novo encontro com Anita, ansiando um novo e breve.
O caminho de volta, no entanto, trouxe-me uma preocupação. Notei uma carruagem estranha seguindo a minha, com as cortinas fechadas e cavalos negros, de crinas muito bem escovadas. Ao passo que meu cocheiro acelerava, sob minhas ordens, a carruagem repetia nossos atos, sem hesitar. Perguntei ao cocheiro se aquilo significaria algo para ele, e ele disse para não me preocupar.
Joaquim está subindo as escadas. Preciso cumprir com minhas obrigações. Vou pensar em Anita.

Notre Belle Èpoque pt. 3

Aviso: Infelizmente tivemos um atraso para postar este final de semana. No caso, este meu post deveria ter sido ontem (10/12/2011), no entanto não pude postar. Hoje, portanto, haverá um post meu e da Sacha Tavares.


Páginas retiradas dos diários de Anita Simões.

19 DE AGOSTO DE 1882

Ah! Que noite maravilhosa! Poderia passar a eternidade buscando palavras dos mais variados poetas medievais e românticos, mas jamais encontraria algumas que parecessem corretas para descrever o que hoje ocorreu. Já tive o prazer de apreciar os bucólicos quadros de Salvator Rosa (tenho especial apreço pela obra intitulada “L’ombre de Samuel apparaissant à Saüt chez la pythonisse d’Endor”, o qual pude admirar em minha estadia em Paris). Admiro de longa data sua obra, encontrando uma parte de mim há anos perdida, a porção pouco ortodoxa e extravagante, despedaçada ao longo de um casamento tradicional. Minha rebeldia de moça, outrora tão aparente, pouco se revela nos dias de hoje, tomando como recôndito meus diários e escritos; os quais tenho o prazer de me entregar enquanto meu doce marido ingressa no terreno onírico. Suas insolentes sátiras também me são aprazíveis e adoraria ter em mãos páginas suas que tanto traçam sobre o natural e os defeitos humanos, diferenciando-se assim dos autores de sua época, mas apenas tive o prazer de tê-las em uma biblioteca na França.

Fui convidada para ir a uma ópera por Amélia há uma semana, e mais cedo concretizamos o convite em uma maravilhosa descoberta de minha parte. De mesmo nome do pintor e poeta que antes comentei, mas de cerne completamente diferente deste, foi a ópera a qual assistimos. Encantou-me por suas melodias cotidianas e extremamente naturais em uma vida na cidade. Mas não foi apenas a sublime arte de Antônio Carlos Gomes a esse estado de felicidade ideal. A companhia foi perfeitamente agradável.

Creio, no entanto, que houve alguma espécie de obstáculo em sua residência, já que Joaquim não a acompanhava. Faço silenciosos votos de que não tenha sido nenhuma espécie de problema com sua saúde, tampouco problemas tão singulares aos casais. Disse-nos que ele estava indisposto por causa do trabalho, mas nem sempre a verdade deve ser dita publicamente, principalmente para pessoas recém-conhecidas. Nesta sociedade, cabe-nos perfeitamente o papel de enfeitarmos nossa realidade com todos os acessórios que a Europa puder nos oferecer, tornando-se assim aceitável à vista dos desocupados. Percebi um pouco de desconforto, inicialmente, partindo tanto de Amélia quanto de Carlos. Tinha conhecimento que ele esperava companhia masculina para se conservar ocupado, pois pouco lhe interessava aquele gênero de eventos que eu tanto apreciava. Fazia-me as vontades, e este era um dos motivos de ser tão querido. Quanto à pobre Amélia, deve ter ficado dividida entre a pequena vergonha de faltar um compromisso social marcado antecipadamente e o de ser vista sozinha, como uma dessas mulheres que valorizam os prazeres mundanos, ou ainda pior, solteira.

A música de Carlos Gomes era imortalizada em meu pensamento e transcendíamos num êxtase infindo. Apesar de todas nossas peculiaridades, eu e Amélia aparentávamos estar no mesmo ritmo naquele instante, em uma sintonia divina. Percebi que em um dos instantes meu marido se retirou de nosso camarote, provavelmente para fumar um charuto em algum local da titânica construção, e fiquei só ao lado de minha mais nova conhecida. Comentou algo sobre uma amizade próxima com o compositor daquela peça que certamente será um marco milenar na história da música, mas, em dado instante, os violinos adquiriram uma intensidade tantalizante e senti todo o meu corpo estremecer diante os acordes. Uma pressão partia do meu interior em direção ao ambiente num súbito prazer pungente. Não pude conter minha mão, que se agarrou ao braço de Amélia, envolvendo-o em parte. Quando meu coração voltou a se acalmar e meus pensamentos já eram donos de si, percebi minha falta de educação que permanecera sobre sua pele. Enrubesci imediatamente num calmo, mas complexo, encontro e posterior desencontro de prazer pela proximidade e vergonha pela fissão de nosso decoro feminino.

Permaneci inquieta durante a continuação do evento e um pouco mais quando Carlos avisou para Amélia que poderia levar-lhe em casa, mas esta negou sabiamente a oferta (afinal, sua carruagem já a esperava em frente ao Theatro). A noite trouxe a benção do olvido devido a doces conversas que tive com meu consorte. Mas aquela inquietação surge silenciosa, atravessando minhas portas e me alcançando, impassível à minha dor. Temo não ser levada a todos os sonhos que normalmente a noite me concede.

sábado, 26 de novembro de 2011

Notre Belle Èpoque pt. 2

Primeiro registro dos diários de Amélia

Belém, doze de agosto de mil oitocentos e oitenta e dois.

Percorri pela manhã todo o jardim da propriedade por nós recém adquirida. Joaquim disse-me que após o Natal mandaria encomendar-me uma fonte, ornada das mais belas e caras lajotas portuguesas, ou talvez esculpida em rococó ou eclético, que estão em ascensão e muito me agradam. Acontece que, nesta fatídica manhã, sentada ali, no banco de pedra feito sob medida para o meu jardim, flagrei-me por não conseguir mais apreciar a beleza das flores. As rosas pareciam-me tão menos rubras, e as tulipas recém plantadas pareciam-me apenas pequenas e patéticas peças de louça esmigalhada junto às areias do tempo. Não via mais as margaridas balançarem-se alegremente ao sabor do vento que as embalava. Via apenas, irremediavelmente, os olhos de Anita, de azul tão profundo que tornava os lírios foscos. A visita daquela dama à minha casa na véspera do dia de hoje perseguiu-me por entre os ladrilhos do jardim, inundando meus pensamentos com idéias que não parecem ser minhas. Lembro-me do perfume doce que ela exalava. Lembrei-me dos lírios, enquanto conversávamos sobre receitas, e rememorei o toque de suas mãos delicadas quando ela recebia de minhas próprias mãos a xícara de chá por mim oferecida, e esta lembrança, a das mãos sedosas de Anita, acometeu-me justamente quando dedilhei os benditos lírios azuis.
Voltei para a casa, ainda nostálgica, lacônica de mim.
Flagro-me recordando de cada momento, cada segundo significativo ou trivial que circulou por minha sala. A sala que fiz questão de decorar com tanto esmero e pessoalmente. A sala que tanto agradou Anita. Devo estar revivendo os dias de catequese, quando observava por longas horas a maneira como Carlota movimentava os lábios e cabelos com suavidade. Naquela época tudo pareceu-me tão difuso, tão fugaz. Eu conhecia aquele sentimento, por já tê-lo vivido anteriormente, porém cria piamente que após contrair matrimônio com Joaquim, que me cortejara desde meus treze anos, jamais tornaria a me sentir deste modo diante de outra moça. Agora, cá estou eu entre lençóis, recordando o quão afortunada fui por Joaquim e Carlos, o esposo de Anita, terem carecido daquela reunião no horário do chá, e por terem os dois trancafiado-se no escritório de Joaquim durante horas, que para mim, desde a primeira visão de Anita, portando aquele vestido alvo, que denotava pureza e suavidade, pareceram segundos velozes. Talvez pequenas frações de tempo, que escorriam-me entre os dedos sem que eu pudesse agarrá-los à mim. Ela carregava um pesado livro de capa escura, sobre o qual, sinceramente, sequer procurei saber, mas quando mencionamos o Neo-clássico belíssimo sob o qual o Theatro da paz fora construído, Anita alegou-me com aquele comportamento doce e benevolente que ainda não o conhecia senão por menções. Ri-me do fato de que talvez Paris a tenha privado de conhecer uma das mais belas mostras arquitetônicas do século, porém, intimamente glorificava aquela magnífica revelação. Ora, se Anita ainda não vislumbrara espetáculo algum no Theatro, aquilo significaria que, como esposa do mais novo sócio do marido dela, não fazia mais do que minha obrigação em acompanhá-la pessoalmente à ópera que viria à apresentar-se na semana seguinte. Cá estou, ansiando por um novo encontro, que soa-me quase perigoso por não ter comunicado à Joaquim.

Notre Belle Èpoque pt. 1

Meu nome é Flávia Fortunato, acadêmica de literatura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS). Hoje estou particularmente chocada com algo que encontrei no sótão de meu pai, enquanto buscava desesperadamente algum material que me ajudasse com o maldito TCC. Encontrei em um baú de madeira velho como o mundo alguns manuscritos umedecidos e em sépia, que custei a acreditar que ainda estivessem legíveis. Os diários de minhas tataravós estavam ali. Meu pai bem havia me dito que existiam em algum lugar, e que ele próprio nunca os havia lido. Uma herança de família inútil, por assim dizer. Demorei um bocado de tempo pra identificar onde começava tudo aquilo, ou onde havia sido feito o primeiro relato. Amélia e Anita, eram os nomes delas. Aparentemente o primeiro dos registros foi feito por Anita, 11 de Agosto de 1882. O caso é que, ao ler apenas a primeira página do que ela escreveu, percebi que, se a história seguiu-se como começa, definitivamente tenho um material e tanto em mãos. Vou manter aqui um pequeno diário de bordo, enquanto tento digitalizar toda essa parafernália e ver no que dá. Espero que alguém no mundo compartilhe do meu choque, já que eu sou egoísta e não gosto de me apavorar sozinha.

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BELÉM, 11 DE AGOSTO DE 1882.

Minhas luvas estavam pousadas sobre a mesa de centro daquele grande Salão de Estar, tão delicadas quanto minhas mãos. Deslizava minhas visões e comentários pelo local, atentando para os pequenos objetos dispostos naquela casa. Tudo ali era belo, do mais bom gosto. Ainda que diferente de minha própria casa, o espírito ali cativo me despertava interesse, como os velhos romances que lia durante as horas de sono de Carlos. Essa similaridade entre o meu bem estar e o daquela casa era obra de outra dama da alta sociedade, como eu. Amélia. Observava-a sentada logo ao meu lado, num grande mobiliário construído de mogno e com estofado branco. Sorri levemente envergonhada por ter me perdido em meus próprios pensamentos, o que frequentemente ocorria.

Nossos consortes haviam marcado uma pequena reunião para discutir sobre assuntos masculinos, os quais, felizmente, não necessitavam de minha atenção. Disse-lhe que poderia lhe acompanhar, mas que Paul Verlaine e seus Poèmes saturniens iriam comigo, impedindo assim que momentos enfadonhos permanecessem em minha presença. Ainda que seus poemas me agradassem em demasia, não necessitei abrir o manuscrito europeu. Fascinara-me inegavelmente. Não apenas seu gosto arquitetônico sublime ou sofisticado gosto musical; sua presença era impetuosa e sobrepujava a minha sem piedade. Sentia-me sufocada ali, ao seu lado, mesmo que falássemos apenas de futilidades. Eu era uma menina perto dela, ainda não despertara para a vida; e ela uma mulher.

Conversamos longamente. Mas, em dado instante, algo lhe chamara a atenção em outro canto da casa. Desesperei-me com aquela cena, pois exigia toda sua atenção para mim, somente para mim. Hesitei por alguns segundos. Pensei-lhe em tocar as mãos, suplicando-lhe seu olhar e palavras; mas não, isto seria de uma ousadia exacerbada. Enquanto imaginava várias outras maneiras fantásticas de dar continuidade à conversa, Amélia voltou-se para mim. Falamos apaixonadamente de vários outros assuntos, como pequenos festejos em nosso meio social e algumas atrações que haveriam de ocorrer no recém-fundado Theatro da Paz. Infelizmente, eu passara os últimos anos em Paris e, por isso, ainda não tinha tido a oportunidade de visitar a obra neoclássica e suas peças. Ela me respondeu com toda a paixão que dedicava ao arquitetônico, explicando-me bastante sobre o estilo da construção e tudo que ali ocorria. Convidou-me para lhe acompanhar a uma ópera no local. A conversa não se alongou por muito mais tempo, visto que os homens haviam terminado seus negócios. Agradeci-lhe por toda a hospitalidade que nos havia reservado, elogiei uma última vez seu bom gosto para decoração e lhe disse que em breve nos encontraríamos.

Poucos minutos atrás eu informei a Carlos sobre o convite que Amélia nos estendeu, e provavelmente ele não se importará em aceita-lo juntamente comigo. Já estou a imaginar como será tão magnífica noite. Estou ressentida com meu amado esposo, pois este está me exigindo seus direitos conjugais.


Post construído com auxílio da co-autora Sacha Tavares.

 
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