domingo, 20 de maio de 2012

Ao público

     Algumas cidades, tal qual o Rio de Janeiro, simplesmente exalam sensualidade. Cada menina andando pelas ruas abastadas de pessoas, cada surfista de pele dourada pelo sol correndo pela praia e cada trabalhador exaltado ainda que extremamente bem arrumado; há de ter apenas raras exceções dentre os indivíduos que compartilham desta aura quase que mágica que a capital carioca dispensa aos seus moradores. Pouco também pode ser explicado do motivo para existir a sexualidade tão à superfície da pele, abrangendo todo o local com seus odores imperceptíveis. Talvez tenha algo relacionado ao sol, às praias de água gelada ou simplesmente ao modo de vida o qual seus residentes tão bem se apropriaram, com vitalidade juvenil.
            O fato é: não importa por onde você ande, percebe-se o quanto a cidade é erótica mesmo em seu dia-a-dia. E alguns forasteiros, tão desacostumados ao clima abafado de sensualidade, deslumbram-se com muita frequência em suas descobertas, as quais vão desde em passeios de dois quarteirões até o supermercado mais próximo ou longas viagens de ônibus que são necessárias se você quer chegar da lapa na praia da Barra. Leonardo, ainda extremamente curioso com a inquietude que sentia desde que chegara ali uma única semana antes, passeava absorto em Ipanema ou entre os bares de Copacabana todo final de tarde. Sob uma profunda hipnose, observava cada pessoa que passava por ali, ignorando idade ou sexo.
            Ainda não compreendia com exatidão cartesiana aquilo que revolvia seu interior e pressionava seu ventre de quinze em quinze minutos. Vindo de uma cidade pequenina, de interior, ao norte do estado amapaense, pouco estava acostumado com esse clima tão profano. Não que fosse um rapaz muito dado às proibições da alma ou às regras geralmente impostas pelo senso comum. Aliás, achava-se até aquele momento possuidor nato de uma mente aberta a experiências que a vida poderia lhe proporcionar. Mesmo assim, aquela atmosfera pesada lhe era bisonha, como se saída diretamente das descrições da Paris do século XX na literatura erótica – tão pouco valorizada. Lembrava-se, inclusive, de uma situação com uma moça, religiosa de berço, na qual passara longa hora travando uma discussão sobre a não corrupção de sua imagem ao ser associado a este tipo de literatura.
            Agora, numa cidade extremamente maior do que a sua própria, na qual a percepção geral é mais abrangente que os próprios limites da cidade, sentia-se mais liberto, mas ainda desacostumado à nova liberalidade. Imaginou, por vezes, se esconder seus preconceitos não seria apenas um truque adverso da mentalidade urbana. Mas, com os dias se passando sem que observasse grandes complicações em seus caminhos diários, acabou por se conformar com sua situação atual – na verdade, acreditar mais do que confirmar, pois nenhum pesar tinha em ter se estabelecido ali (com a exceção, talvez, da separação do seu irmão mais velho).
            Morando perto da estação de Uruguaiana e tendo conseguido um emprego como garçom num restaurante próximo à Copacabana, costumava ir ao trabalho de metrô. Gostava de ter um espaço maior para si, o que usualmente acontecia já que o metrô normalmente estava vazio no horário que saía para trabalhar. Porém, em certa segunda-feira, decidiu sair mais cedo para entregar seu currículo em um hospital. Formado em enfermagem, com especialização em obstetrícia, Leonardo ainda não conseguira um emprego em sua área de serviço no Rio de Janeiro; mas atribuía isto ao pouco tempo que passara ali até o instante. Aceitara, por isso, o emprego menos interessante para ele, mas de igual valia para qualquer ser humano de bom coração, no restaurante próximo à praia.
            Tendo acordado uma hora e meia mais cedo do que o compromisso que marcara para a entrega de seu currículo e se arrumando com a velocidade diária, o tempo não era um fator importante naquele dia. Decidiu por tomar o ônibus até o local que poderia ser seu novo trabalho em breve. Encaminhou-se lentamente à parada, presenteando-se com a simplicidade de observar as pessoas que andavam apressadas aos seus próprios trabalhos. Reparou, por vezes, no porte atlético de homens e mulheres que por ele passavam.
            Esperou por poucos minutos sua condução chegar e foi um dos primeiros a entrar nela, dentre uma multidão não muito amistosa. Sentou-se ao fundo, no assento imediatamente ao lado do corredor. Observou os outros passageiros subindo e passando pela catraca, automáticos, enchendo o longo veículo gradualmente. O número de pessoas que entrava no ônibus, a cada parada, era maior que o número que descia. Logo o número de passageiros chegou num estopim, inviabilizando qualquer locomoção.
            Reparou, neste instante, um homem prostrado bem a sua frente, o qual estava trajado com vestes da aeronáutica. Suas roupas modelavam perfeitamente seu corpo forte e cheio de vigor. Leonardo, neste mesmo instante, sentiu a pressão em seu ventre voltar a lhe acometer, surgindo tão silenciosamente quanto desaparecia. Seu olhar, curioso, começou a deslizar pelo corpo jovial à sua mercê. Observava cada detalhe de sua tez endurecida para depois descer e se deparar com os músculos preenchendo o tecido – e imaginou o quanto seria bom poder tocar naquele tecido. Depois de longa observação, desceu para observar as pernas e a zona púbica do desconhecido, que preenchia a calça com bastante volume.
            O calor passou a tomar conta de seu corpo, inflamando-o dos pés à cabeça com igual fervor. A vontade de encostar-se à roupa acetinada era gigantesca, mas conservando ainda muito pudor, permaneceu afastado do rapaz. A excitação afastou qualquer outro pensamento, por todo o caminho, aumentando drasticamente quando curvas forçavam o militar a se aproximar do rosto de Leonardo. Esforçava-se grandemente para esconder sua respiração pesada, e percebeu seu sexo rijo sob a calça. Com receio de que alguém reparasse, pôs sua mochila sobre seu colo. Mas a pressão do objeto apenas aumentou ainda mais o que sentia. Hipnotizado, esfregava eventualmente sua mochila contra si para arrancar algum prazer, o que era intensificado a cada curva ou quando alguma pessoa passava e empurrava o objeto de seu prazer em sua direção.
            Eventualmente, o outro homem desceu, deixando-o ali sentado. Ainda assim o desejo não passou, chegando a se desesperá-lo pela intensidade. Desceu numa parada próxima do hospital onde entregaria seu currículo, após apenas cinco minutos. Andou em passos apressados, quase correndo, reparando em cada homem que passava por ele. Chegou ao hospital ofegante e nem sequer parou na secretaria, entrando direto no banheiro e se trancou num boxe. Havia visto alguns homens ali, mas não prestou atenção em nenhum. Sentou-se num dos vasos e abriu seu zíper com pressa. Afastou sua cueca vermelha – a qual gostava bastante – e tirou seu pênis para fora. Masturbou-se com violência, enquanto soltava fracos gemidos e imaginava a situação pela qual passara, com o homem ali à sua frente, prestes a se entregar a ele. Seus pensamentos fluíam de forma confusa, misturados com imagens de antigos relacionamentos, mas sempre voltavam à explosão de desejo que sentira poucos minutos antes. Em pouco tempo, mais ou menos dois minutos, Leonardo gozou, lançando seu líquido para mais longe do que se lembrava de ter feito alguma vez na vida – sujando a parede do lugar onde se metera. Cansado, apoiou-se na parede que estava imediatamente ao seu lado por algum tempo, recuperando lentamente o fôlego para poder seguir com sua rotina enfadonha.
            Na noite que seguiu o evento, Leonardo dormiu com certo incômodo a lhe ruir os pensamentos. Pensava, cheio de moralidade, em como aquilo fora errado e poderia ser extremamente mal visto caso alguém soubesse. Depois de muito pensar, adormeceu com dificuldade naquela mistura antitética de morais e prazeres. Atormentado por sonhos absurdos, onde fazia sexo com algum de seus ex-namorados ou mulheres estranhas em meio a ruas apinhadas de pessoas, conhecidas ou desconhecidas. Acordou atordoado, sem se lembrar do sonho, mas ainda sofrendo os efeitos em seu corpo.
            Três semanas se passaram sem que voltasse a sentir algo com tanta força. Sua rotina o absorveu inteiramente e em pouco tempo já não se lembrava com tanta vivacidade do que ocorrera. No meio desta semana recebeu uma chamada com boas novidades. Havia sido aceito no hospital e começaria a trabalhar em algumas semanas, portanto precisava comprar alguns equipamentos pessoais para o trabalho (não necessariamente precisava ter itens pessoais, mas o preferia a utilizar os oferecidos pela instituição). Decidiu ir ao shopping no dia seguinte à ligação.
            Logo após de um dos seus últimos dias de trabalho no restaurante, dirigiu-se ao shopping. Encaminhou-se calmamente, tomando água e imaginando como seriam seus próximos meses de árduo dia-a-dia como enfermeiro num hospital grande na área de urgência e emergência. Chegou na loja onde tinha jaleco e estetoscópio, demorando apenas alguns minutos para fazer suas compras, distraído e sem se importar exacerbadamente com suas escolhas.
            Saiu da loja e percebeu que precisava ir ao banheiro. Com seus lentos passos chegou ao banheiro. Ensimesmado, deixou seus pertences em cima de uma das pias e se dirigiu ao mictório ao lado de um homem. Abriu sua braguilha e se preparou para urinar, no mesmo instante em que outro chegava ali e ocupava o mictório do seu outro lado. Olhou para ele, inicialmente apenas para identificar quem estava perto dele, mas ficou embasbacado com a visão. Fitou-o longamente, a ponto de nem perceber que o mictório ao seu lado vagara. Era um homem alto, de ombros largos que preenchiam exageradamente a camisa, a qual descia para encontrar uma calça social que deixava o formato de suas nádegas e pernas. O mais chamativo, no entanto, era seu rosto divino. Seu cabelo era cortado baixo, mas se encontrava com sua barba cheia, e ambos eram ruivos como àqueles dos nórdicos e formavam um conjunto de masculinidade cheia de pujança – ainda mais quando somados com seus traços duros e queixo quadrado. Seus olhos azuis e boca bem desenhada juntavam-se ao conjunto integralmente, com perfeita sintonia.
            O outro lhe encarou. Na perspectiva do loiro de ares galeses, Leonardo não seria uma de suas primeiras escolhas num bar ou boate. Mas, em dias como aquele, nos quais passava o dia todo trabalhando, qualquer pequena diversão que pudesse ter significava um alívio. Os cabelos negros e desgrenhados de Leonardo lhe davam feições joviais, e seu rosto era de traços fortes, mas não rudes – combinando assim com as esferas negras como a noite que preenchiam seus olhos, levemente puxados, exóticos. Um rasgão em suas convenções irrompeu, ocasionado pela adrenalina. Sorriu.
            Leonardo ficou, por apenas dois segundos, envergonhado pelo sorriso do outro. Mas logo seus batimentos cardíacos aceleraram e começou a pensar em inúmeras possibilidades de diversão com o ruivo. Imaginava-o sem camisa, deixando seus pelos e músculos abdominais à mostra – e queria passar a mão pelo corpo dele, enquanto lhe beijava e se esfregava em sua barba. Sentiu seu sexo ganhando vitalidade, e logo estava enrijecido em sua mão. Abaixou seus olhos e percebeu que o outro já se tocava lentamente enquanto olhava em sua direção. Inflamou-se rapidamente e acelerou os movimentos da mão, encarando a masturbação frenética do outro cara. Ser observado daquela forma, tornando-se um objeto de desejo, era extremamente excitante – e nunca experimentara algo do tipo. Outro cara chegou e ficou ao seu lado, cercando-o – não era tão bonito quanto o primeiro, mas seu ar indie de barba mal feita e piercings era um adendo interessante. E então estavam os três em seus movimentos apressados, desesperados. O enfermeiro olhava para os dois lados, em dúvida sobre qual dos desejos lhe era mais atraente – mas nem precisou escolher de fato, pois logo gozou no mictório, soltando um gemido abafado. Afastou-se apressadamente, sem olhar a continuação da cena pornográfica.
            Ciente e acostumado com o erotismo que surgira em sua vida, começou a aproveitar mais alguns pequenos fatos cotidianos. Qualquer caminhar era interessante por estar entre pessoas tão cheias de vida; e andar de ônibus se tornou a maior das felicidades, pois tinha oportunidade de se aproximar das pessoas para sentir seus cheiros e calor, além de perceber suas formas – às vezes permanecia de pé, encostando-se às pessoas que se tornavam o alvo. Era como uma extensão do seu próprio eu – toda aquela sexualidade que exalava por seu caminho -, e tornava todos seus dias intensos, pesados.
            Certa vez, ao voltar do trabalho no hospital, avistou um rapaz de beleza não convencional. Possuía um rosto estranho, de cabelo e barba desgrenhados e despojados. Uma transversal e um alargador se juntavam em sua orelha esquerda. Seus olhos grandes não tinham vida, ainda que fossem quase infantis e superficiais. O corpo também não era nada de mais, porém Leonardo sentiu que poderia lhe envolver em seus braços de tão pequeno que era. Talvez pudesse lhe ter confundido com um cantor de pop/rock sem fama ou dinheiro.
            Deixou que o tumulto do veículo na hora do rush o levasse até o pequeno artista, o que não demorou muito. Em pouco mais que dois minutos, encostava-se ao outro. Sentiu seu cheiro evanescente, mas ainda assim forte como de um homem, entorpecente. Sua excitação começou a crescer enquanto se encostava ao raparigo e Leonardo, inconsciente do que fazia, pressionou seu sexo contra as nádegas do rapaz. Michel, que sentira um homem quase lhe envolvendo por trás, voltou-se para trás por um momento para ver quem era o babaca. Mas quando viu a imagem do outro a lhe desejar tanto, sua paixão foi acesa. Deixou-se ser envolvido, e às vezes se mexia para dar mais prazer ao desconhecido – e seu próprio sexo parecia quase explodir.
            Suplicou para ser levado para outro lugar, baixinho. Leonardo o levou para o seu próprio apartamento – que era tão desarrumado como de qualquer outro rapaz que more sozinho. Entorpecidos por seus beijos e toques, jogaram-se num ritual lento e repleto de sensualidade, onde seus lábios e mãos eram os protagonistas. Mas, enquanto livrava-se de suas roupas, o enfermeiro percebeu que seu sexo já não reagia tão bem quanto na frente das outras pessoas. Tentaram insistentemente fazer com que o sexo funcionasse, mas nada parecia ajudar. Leonardo, cheio de frustração e humilhação, mandou que o outro saísse dali, no auge de sua revolta.
            Sozinho em seu apartamento, aproximou-se da sacada, tentando se acalmar diante sua falha. Viu que o outro saía agora do prédio e andava pelas ruas escuras, indefeso entre a multidão que ainda vagava por ali. Lembrou-se de seu corpo nu, de como ele se esfregava dentro do ônibus, e seu sexo voltou a endurecer. Ainda mais, veio-lhe à mente o cheiro de vários homens que encontrara por entre suas viagens, e todos os odores se misturaram num movimento extático. Pegando seu próprio sexo, sentindo todos os cheiros, toques e calores, masturbou-se à inconsciência animal, transbordando violência e paixão – sua moral esquecida num canto como seus deuses -, e gozou ali mesmo por entre a grade, atirando seu prazer em vários jatos abundantes para os transeuntes, ao público.

domingo, 6 de maio de 2012

O Herdeiro Letal



Acordei pensando em tornar-me mais apresentável. Quando se diz “apresentável” no sentido literal, diz-se igualmente “pessoa digna de ser apresentada”. Se consultados os amigos “Aurélios” ou “Houaiss”. Diz-se também que a pessoa em questão faz por merecer - ou se faz digna, como preferirem - de ser mostrada, exibida como mercadoria, para os outros do convívio dele ou dela que apresenta; Aceitável, moderada, ligeiramente corrigível. Trivial, e sem provocar grandes escândalos. Apresentável. Eu seria dali em diante.

O primeiro dia foi a barba, que já cobria o queixo e boa parte do pescoço. Mesmo que a aparência que escolhi manter fosse jovem, aquela penugem grotesca me envelhecia e fazia parecer cada vez menos higiênico. Livrei-me da barba no primeiro dia.

No segundo dia, as roupas. O armário transbordava de roupas novas, quase sem uso, que minha última namorada - e quando digo última, se sinta a vontade se quiser valer-se da quantia de tempo que a palavra tende a conotar as vezes – me forçou a comprar, e que agora roubavam-me o precioso espaço antes ocupado por Hesse, Miller ou Anaïs Nin. Usaria aquelas roupas, afinal, custaram-me tanto dinheiro quanto tempo dentro de lojas experimentando-as, em mais uma tentativa errônea de manter uma mulher ao meu lado por fazer suas vontades em vez de expor minhas já tão parcas virtudes. Mais um artifício dentre tantos, para tentar preservar o amor de uma mortal, sabendo-me indigno do mesmo. Usaria algumas daquelas roupas dali em diante, afinal, já bastava de andar roto por aí. Daria preferência às camisas sociais e ternos de cores neutras, mas os suéteres, destes passaria longe. Para o incinerador com os suéteres! Certamente eles são a pior invenção humana já vista, depois de Back Street Boys.

Não sei a quem estive tentando enganar... Mais provável que a mim mesmo, por forças do Destino que há tempos não vem jogar um pôquer comigo. Se a Morte soubesse disso, ficaria realmente muito aborrecida, já que ela lhe pediu com toda a gentileza que pode encontrar para ficar de olho em mim sempre que pudesse – eu não deveria ter essa informação, mas o Destino sempre fala demais. Hoje, no terceiro dia após a grande decisão de me tornar aceitável, decidi relatar em linhas mais uma parte de meu tão extenso diário de modo um tanto mais moderno, e pela primeira vez estou escrevendo no computador. Me disseram que era prático aprender a usar essas maquininhas para as aulas na universidade. Lembro quando as inovações tecnológicas começaram a tomar conta do mundo, e popularizarem-se entre os mortais. A princípio tive dificuldade de aceitar a convivência. Uma característica que me compete é a capacidade de adaptação, mas no ponto de vista que precisa envolver fibra ótica e código binário, confesso, prefiro o bom e velho pergaminho envelhecido, tão bonito em contato com a pena untada de tinta e a caligrafia que preservei do período imperial! Mas não dá pra fazer isso. Infelizmente, não dá.

Mas devo admitir que os pergaminhos com o tempo vão se tornando gastos, enquanto os arquivos que guardo no email tem prazo de validade... Até quando durar a internet. Tenho utilizado-me em demasia destes recursos tecnológicos desde que surgiram. Minha necessidade é passar-me por igual. Por sorte a aparência que conservo durante o dia é de mortal comum, e minha mãe agraciou-me com uma das melhores feições que poderia. A pele pálida e os olhos azuis profundos e significativos vem arrancando suspiros das mulheres – e depois que a sociedade se tornou tão liberal até mesmo de alguns homens – por onde passo. O detalhe porém que mais aprecio nesta imagem esculpida pelas mãos ossudas da própria Morte com a qual fui presenteado são os cabelos finos, negros como a imensidão do espaço, que me fazem lembrar de onde venho todas as vezes que encaro o espelho. Mas como possuo de longe a mãe mais ingrata e egocêntrica de todas, ela não poderia deixar de dar o retoque final, para que eu parecesse ser de fato sua imagem e semelhança: A aparência noturna.

Vamos falar da Morte, para início de conversa. Todas as vezes que me propus a documentar algum fato marcante dessa minha jornada milenar no mundo dos homens, precisei abrir um pequeno parêntese para lembrar de onde vim, e principalmente: Para ter a oportunidade de ofende-la um pouco em palavras. Talvez uma parte de mim tenha a esperança de que um dia algum mortal encontre esses documentos, e os publique como ficção. Nossa, como sou fascinado pela literatura mortal! A capacidade de criar dos homens vem a ser quase tão sublime quanto a capacidade de destruir da morte. Se somos nós – filhos da destruição e do caos - os arautos da morte, seriam os homens os interinos de deus? Eis uma questão singular que jamais consegui solucionar, e nem mesmo o Destino, com toda sua sabedoria e graça, foi capaz de trazer-me maiores esclarecimentos sobre o assunto, e sinceramente já desisti de procurar respostas para esta e para milhares de outras dúvidas. O que preciso deixar claro nestes relatos é: A cada cem anos, a Morte – safada do jeito que é – resolve passar uma curta temporada na Terra, com fins de conhecimento e aprendizado dos homens. Isso pode parecer até culto da parte dela, quando o aprendizado em questão não acaba sempre se transformando em anatomia. Existe a lenda de que ela possui uma lista e leva cada um no momento em que foi determinado pelo Destino, mas o coitado na verdade nada tem a ver com o sadismo dessa vadia. Ela, a Morte, leva quem bem entende, e na hora que bem entende. Passa dias e dias, anos e anos, em seu refúgio sombrio, tramando milhares de maneiras diferentes de acabar com a raça dos humanos, animais e demais criaturas viventes. Ela, com suas mãos ossudas e cadavéricas, costuma as vezes até matar pessoalmente alguns exemplares da coleção divina, induzindo-os ao suicídio ou simplesmente colocando o pé na frente para que eles tropecem no meio fio. Por vezes ela encontra-se tão ocupada infernizando uma família com quem não simpatizou, ou torturando um cidadão em quem enfiou alguma doença crônica que até se esquece de outros mortais, e eles acabam vivendo mais tempo do que deveriam. Este é o caso daqueles idosos que aparecem no livro dos recordes, tendo vivido mais de um século ainda lúcidos e cruzando nossos passeios. Aí quando chamam a atenção para o caso, ela lembra de fazer seu trabalho e vai lá resolver o problema. Ela e esse seu ego enorme, adorando os cultos pagãos que são levantados em seu nome, e principalmente: adorando o medo que os mortais se acostumaram a sentir com a singela menção de seu nome. O Destino acha que aqueles que realmente não a temem, e que realmente esperam por ela, até de forma provocativa em certos casos, são os que ela mais detesta e despreza, preservando-os para padecerem em meio as desgraças que seus próprios semelhantes e ancestrais criaram. A imundice irreversível na qual transformou-se o mundo deles. Discordo. Acho que os que não a temem conseguem parecer, ao seu modo, ameaças a sua petulância e invulnerabilidade, e que por conta disso ela acaba evitando o contato até que eles a irritem muito, ou até o momento necessário.

Acabei por perder-me nas divagações sobre o caráter profundamente duvidoso da Morte, e esquecendo que o objetivo principal é relatar sua atividade secular. De volta a anatomia... Durante essas visitas a Terra que ela mesma decidiu fazer a cada cem anos, ela costuma materializar-se em um corpo mortal – sendo sempre o topo do padrão de beleza genérico da época – e passear por entre os humanos, experimentando seus costumes, gostos e culturas. Até aí tudo pareceria bastante simples, se ninguém percebesse que ela é a Morte e tudo o mais, o problema é que eventualmente ela resolve beber além da conta, se drogar além da conta e comete alguma atrocidade. Há mais ou menos mil anos, eu fui a atrocidade da vez. Ela decidiu desfrutar de um momento de luxúria com um mortal e o corpo que ela materializou passou a portar uma nova... Será que eu posso chamar de vida? Vendo pelo lado mitológico da questão, eu seria fruto da junção da vida e da morte. Seria então um semi-morto, um semi-vivo, um morto-vivo, ou como preferirem chamar. O importante é que naquele ano a Morte gerou a vida, e isso abalou toda a estrutura do universo. Vim ao mundo em forma humana, mas os dons da Morte logo tratariam de revelar minha verdadeira natureza. Durante o dia parecia o bebê mais bonito que já se havia tido notícia, rosadinho e saudável, como essas parafernálias de revistas de bebê exibem nas capas, mas durante a noite assumia a imagem da criatura bizarra que havia me parido, e a pele ressecava, cadavérica, os dedos assumiam uma aparência ossuda e medonha, e os dentes tornavam-se presas afiadas, prontas para se alimentarem do medo mortal. Nem preciso dizer que encontros noturnos não são meu forte, quando estou tentando levar alguém para a cama. Ela não estava realmente interessada em mim, mas viu em meu nascimento a possibilidade de um ajudante gratuito, melhor do que precisar lidar com certos demônios mercenários, e me levou consigo para o refúgio onde habita. Cresci como seu interino, aprendendo a profissão da família. Pronto para ceifar a vida de qualquer criatura que respirasse. Atingi a forma adulta, a forma de atualmente, mas definitivamente não estive satisfeito com o modus operandi de minha mãe. Não é que eu seja um modelo de graça e benevolência, e acredite que os mortais devem viver e desfrutar de suas existências doces e pirilampas. A alguns deles eu mesmo fiz questão de proporcionar o fim mais trágico e sangrento possível, mas julgo desnecessária essa necessidade que ela possui de limitar-se a sua função, quando dona de tamanhas habilidades. Até mesmo o Destino precisa cruzar os braços quando ela entra em ação, e lá está ela, cumprindo as ordens de quem quer que seja, eliminando os mortais como um leão amestrado. Perdi a paciência, e como todo bom jovem rebelde, fugi de casa.

Não sei se fugir é uma palavra adequada, já que ela sabe exatamente onde estou a todo tempo. Não sei se a esta altura, tantos séculos depois, eu já poderia ter poder semelhante ao dela, e permitir que se aposentasse, mas a verdade é que decidi fazer permanentemente o que ela faz a cada século, e viver entre os mortais, alimentando-me de seus medos e preocupações, aterrorizando-os com o nome e poder de minha mãe e principalmente: tentando entender o que eles tanto vêem de interessante nessa dádiva reles que possuem - a vida. Acontece que quando ela permitiu que eu fugisse para a Terra e não veio atrás de mim, sabia o que estava fazendo. A desgraçada sabia o que eu enfrentaria pela frente, e as evidências de meu erro logo começaram a aparecer. Como eu poderia, tendo vivido até então nos domínios da Morte, sobreviver entre criaturas tão hostis e traiçoeiras como os humanos? Eu rodei o mundo e conheci suas maravilhas geográficas, mas nunca vi em toda minha existência criatura com maior capacidade para o mal do que o próprio homem. E pior: o mal é feito contra os de sua própria espécie. Não sei se os amo ou desprezo por isso.

Precisaria me esconder a noite, e isso tornou-se óbvio desde o começo, quando em meus primeiros dias na Terra alguns camponeses correram atrás de mim com tochas. Humanos estúpidos! Mas esse período de fuga serviu para que eu descobrisse que meu corpo pode se regenerar com a mesma facilidade que aterrorizo qualquer portador da vida, mas não é por isso que vou sair oferecendo meu couro para qualquer um que quiser me espancar ou queimar vivo. Não sei se por defeito de fábrica, mas sou capaz de sentir dor e eis uma sensação com a qual não aprecio compactuar.

A redoma cristalina que os mortais teceram em torno do oculto e desconhecido é o que tem me fortalecido. Caminho por entre os homens com destreza e segurança, crente de que qualquer um pode servir-me de alimento. Posso comer, como qualquer um deles - Como e como, em ambos os sentidos – mas o meu alimento real é o medo, a fuga, o desespero... A súplica pela centelha doce e cálida que é a vida, o sopro nas narinas de Adão. Eu prefiro retirar deles o bem mais precioso, para que não me falte, para que não enfraqueça. Dos que ainda não pretendo me livrar, furto um ou cinco anos de vida restantes, e os absorvo. É assim que mantenho a aparência jovial e o poder percorrendo o corpo, morto ou não. Tenho pulso, tenho calor, mas não tenho a tão estimada alma da qual se fala a respeito na literatura e nas conversas de bar. Nunca me fez falta, mas confesso que por vezes sinto uma certa necessidade de estar com um deles, os vivos. É claro que vivendo no mundo deles, convivo diariamente com diversos, então a necessidade que sinto é um tanto quanto mais íntima. Gosto de seduzir as mulheres, gosto de sair com os amigos pra tomar um drinque após o expediente, mas em casos como estes preciso executar alguns serviços antes. É prático: a aparência noturna obviamente vem quando o sol se vai, mas se eu atingir uma certa cota de mortes em alguns dias certos, posso garantir uma boa temporada na qual meu corpo não se transforma... É quase como a Morte dizendo “muito bem, Johan, fez pipi no peniquinho e agora mamãe vai te dar um presente”. Então, em alguns anos, chego a eliminar famílias inteiras, dezenas de operários, centenas de prostitutas e eventualmente até algumas crianças malcriadas que importunam a harmonia de meu estimado Tchaikovsky enquanto brincam aos berros no corredor do meu andar. Atendida a cota anual, torno então a busca-los, procurar pela simpatia e principalmente: pelo amor que eles podem me oferecer. É quase um vício em ambos os casos, seduzi-los e elimina-los, não necessariamente nesta ordem. Foi buscando a convivência com os mortais que iniciou-se esta história que vos narrarei.

Alguns anos atrás decidi fazer usufruto de meu Pós-Doutorado em Sociologia – aí uma vantagem de viver tanto tempo: poder me graduar em quantos cursos decidir fazer – e tornei-me – pasmem, através do método tradicional de concurso e entrevistas de emprego – professor universitário. A aparência jovem na época era um problema, então decidi deixar a barba crescer. Escrevendo agora consigo rememorar a razão de ter andado tão desleixado nos últimos semestres. Acabo de sentir falta da barba ao passar a mão já acostumada com os pêlos grossos e desorganizados sobre o queixo e descobri-lo nu. Acredito porém que foi a lembrança deste período que trouxe-me a sensação nostálgica, não a ausência dela... Mas não posso permitir-me divagar, preciso contar essa história de uma vez, sem enrolações. Acho que é meu inconsciente propositalmente me fazendo tentar evitar, mas seguirei em frente, custe o que custar.

A universidade era o campo perfeito para caça. Alunos jovens e atraentes, gozando de muitos e muitos anos de vida pela frente para que eu usurpasse... Jovialidade na vitrine, longevidade em liquidação. Algum tempo se passou desde que comecei a exercer a profissão efetivamente, mas tudo se resumia a aulas repetitivas e rotineiras, salários ruins que mal dariam pra sustentar um terço de meus vícios e encontros efêmeros com jovens universitárias de peles rubras como o sangue que lhes percorria as veias, bronzeadas pelo sol dos melhores verões. No meu terceiro ano de magistrado uma jovem do curso de medicina foi encontrada morta em uma parte mais deserta do rio que lambia as margens do campus... Ela exibia um belíssimo sorriso entalhado por uma navalha e encontrava-se exatamente como fora vista pela última vez, com o mesmo vestido azul e o mesmo salto agulha. Lamentei ter decidido assistir aquela maratona de batman porque isso reduziu minha originalidade, e o caso acabou dando mais o que falar do que eu gostaria. Decidi então que passaria algum tempo sem executar nenhuma delas, e me dedicaria à minha outra atividade favorita, que era observar.

Uma nova turma iniciou o curso no semestre seguinte após as férias. Eles eram exatamente como os outros, porque pra mim pareciam todos iguais... Uma enorme vala de mediocridade com carteiras de madeira velha. Nesses tempos é raro encontrar um humano que realmente se destaque entre os demais, e tornando ao conhecimento empírico, tornei-me cada dia menos assustador e misterioso aos seus olhos, o que torna tudo realmente mais chato.

As aulas começavam a me irritar quando ela apareceu. Parecia singela ao primeiro olhar, com seus cabelos de cor preta comum, seus olhos verdes comuns, sua pele alva e comum... Aceitável, moderada, ligeiramente corrigível. Trivial, e sem provocar grandes escândalos. Aceitável. Era a palavra correta para defini-la. Sem sombra de dúvidas era dona de beleza incontestável, mas mesmo isso não a tornava especial... Na verdade havia algo nela que me chamava atenção, mas definitivamente não era a beleza de sua casca mortal, apenas não conseguia definir exatamente o quê.

Fosse qual fosse o atrativo que via na garota, ela sentava na primeira fileira todas as noites e eu não conseguia tirar os olhos dela. Ela por sua vez parecia valer-se de minha inquietação em prol de seu próprio lucro... Na época acreditei que se tratasse de mais uma daquelas alunas oportunistas que ao perceberem interesse pela parte do professor, passavam a tentar seduzi-lo para obterem melhores notas ao final do semestre, caso típico nas Universidades, mas algo me dizia que ainda não era isso... Ela sustentava aquele risinho irônico que precisava apenas de metade dos lábios para existir, e era esse risinho em questão que me levava a crer cada dia mais que não era bem este o motivo dela estar retribuindo meus olhares penetrantes com sarcasmo. O semestre se seguiu como era de se esperar, e ela, Annie, como soube chamar-se ao longo das aulas, permanecia a me enfrentar como se fosse capaz de qualquer coisa, como se pudesse medir forças comigo, e aquilo começava a me irritar profundamente, mas havia a promessa de que não eliminaria ninguém naquele período... Não foi bem possível cumprir minha promessa cem por cento porque em certa ocasião fui ao banheiro após as aulas e vi o lado esquerdo de meu rosto assumir uma tonalidade acinzentada e envelhecida, e eu sabia a razão. Percorri a extensão do Campus até a beira do rio, onde sempre havia um casal qualquer namorando ou algum drogadinho fumando um baseado, e selecionei um deles que estava sozinho, sem nem reparar muito bem no que fazia. Retirei do bolso a foice em miniatura que carrego comigo desde o período colonial e entalhei um corte firme e singular no pescoço do rapaz. Senti cada partícula daquela vida talvez nem tão promissora aquecer-me a pele e fortalecer-me os ossos. Senti cada gota do sangue que jorrava conspicuamente e aquecia meus dedos invadir minha própria essência, preencher-me o corpo e devolver-me a juventude. O cheiro de ferro invadia minhas narinas violentamente, e eu agradecia silenciosamente por ter escolhido alguém tão saudável. Enquanto a vida se esvaía daquele agora cadáver, eu revia como sempre cada morte anterior provocada por mim, e questionava se minha mãe teria orgulho, e se isso realmente me importava. Estava feito, minha aparência noturna estaria escondida por mais algum tempo, mas naquela noite tive a impressão de ver um vulto movendo-se com velocidade por entre as árvores escuras... Tentei seguir seu rastro, mas foi em vão.

Nos dias seguintes escutei algumas pessoas mencionarem o novo assassinato na faculdade, e pensei que talvez fosse melhor começar a procurar pessoas externas, para evitar aquela ladainha de polícia que eu conheci tão bem anos antes no México. Annie por sua vez era o que mais me preocupava... Não ela como um todo, mas a maneira que passou a me olhar. Parecia me julgar silenciosamente, mas por vezes sorria debochada, principalmente quando eu mencionava algo sobre convivência em meios sociais distintos, e por conta disso passei a observar que ela não conversava com ninguém da sala, nunca era vista por mim usando telefone, ou qualquer outro meio de comunicação e que até então eu só escutara sua voz quando ela precisava debater sobre um trabalho ou prova. Sempre fazia os trabalhos sozinha, mesmo os de grupo, e nunca havia pedido explicação extra sobre absolutamente nada mencionado nas aulas, mas ainda assim obtinha excelentes pontuações ao término do período de provas. Algo estava errado ali, e não saber o que exatamente me frustrava ainda mais. Era hora de avançar um nível em minha constante observação. Decidi que dentro de algumas noites iria segui-la. Mais precisamente na sexta-feira, que era um dia em que a maioria das pessoas da idade dela preferiam emendar da aula para suas festinhas, sociais nos apartamentos de amigos ou bares. Não era possível, mesmo com toda a reclusão durante as aulas, que ela não mantivesse uma vida social fora dali... Eu descobriria.

Até encerrei a aula mais cedo, esperando que ela se apressasse em ir embora, mas como se para me contrariar, simplesmente saiu andando com toda a calma do mundo da sala até o estacionamento, como se até me desse uma certa margem de distância para não ser notado propositalmente. Afastei essa ideia, que no momento parecia-me um tanto absurda e continuei seguindo-a. Se ela me visse, usaria o pretexto de ir buscar meu próprio carro e tudo estaria bem. Descobri que ela dirigia um modelo popular na cor preta, e como era semelhante a escolha de meu próprio veículo, justamente porque eu apreciava chamar um mínimo de atenção, me senti seguro em dar a partida logo depois dela, e segui-la mantendo uma distância considerável.

Annie seguiu pelas ruas mais desertas no início, o que me forçava a eventualmente mudar o caminho e deduzir por onde ela iria, para encontra-la mais na frente e camuflar a perseguição, até que finalmente ganhou uma avenida movimentada e eu pude me misturar aos outros carros que se amontoavam entre um sinal fechado e outro. Segui-la tomou-me em média vinte minutos, até que encontrei o destino da jovem. Tratava-se de um edifício de em média vinte andares na área nobre da cidade, onde ela ultrapassou o portão com facilidade rotineira e desapareceu garagem adentro. Passei direto da frente do prédio e estacionei meu próprio carro um quarteirão a frente, era melhor voltar andando para ser discreto. Alcancei a portaria e sequer me identifiquei, apenas disse ao porteiro que possuía assuntos pendentes com alguém ali dentro, utilizando-me da aparência noturna original por alguns segundos... Ele deve ter pensado que era uma aparição ou coisa assim, mas abriu o portão temendo ser escolhido no lugar do desafortunado morador.

Havia um elevador que me guiaria com mais velocidade, mas como não sabia realmente qual era o apartamento, preferi seguir o cheiro dela – ainda forte em minhas narinas – pelas escadas até alcançar meu destino final. Treze andares depois, o cheiro intensificou-se. Cruzei a porta metálica da escadaria e segui pelo corredor parcialmente iluminado, e quando comecei a caminhar na direção da porta escolhida, uma das lâmpadas no teto começou a falhar, produzindo um lusco-fusco sombrio que me animava... Realmente gosto de efeitos especiais.

Fiquei alguns segundos parado na porta, tentando escutar alguma coisa... Não era exatamente isso que eu tinha em mente, mas precisava certificar-me de que não havia ninguém no cômodo onde aquela porta dava para poder entrar sem ser notado, mas meu dilema não durou muito, já que a porta repentinamente se abriu, revelando Annie com a mesma expressão zombeteira da sala de aula. Fiquei completamente desconcertado, principalmente porque não conseguia compreender como não escutara os passos dela ao se aproximar da porta pelo lado de dentro. Meus sentidos aguçados sempre funcionaram muito bem, obrigado. Aquela era uma péssima hora para decidirem dar defeito, levando em conta que somados à furtividade e discrição impecáveis, são meus dons favoritos, dentre os que possuo. “Então professor, vai ficar aí parado me olhando ou vai entrar e explicar por que me seguiu até aqui?” Ela espalhou as palavras pelo ar, e as mesmas atingiram meus ouvidos com um estrondo... Só então notei que minha audição aguçada estava funcionando normalmente.

Aquilo havia realmente me irritado. Era a primeira vez em séculos que me sentia completamente surpreendido... ou tapeado, que seria a palavra correta. Segui minha aluna sem raciocinar muito bem, agora observando o minúsculo short de algodão na cor cinza que ela trajava em conjunto com a camiseta preta que parecia ser vários números maior do que o seu tamanho. O movimento que suas coxas e bunda faziam enquanto andava de costas pra mim me prendeu a atenção até ela virar-se novamente de frente para sentar no sofá da sala, e finalmente retomar a palavra. “Eu sei que você me seguiu, mas gostaria de saber se foi apenas para ficar me olhando como faz na sala de aula, ou se deseja algo mais... Porque sinceramente não estou interessada em ficar ouvindo cantadas baratas nem tentativas desnecessárias de sedução. Se quer fazer algo comigo, apenas faça e vá embora, e ambos estaremos bem”. Eu mal podia acreditar em meus ouvidos... Aquela garota estava mesmo me desafiando? Ela não fazia ideia do que estava procurando para si mesma com aquele apenas faça e vá embora. Pensei que ela havia perdido a noção do perigo, mas depois lembrei que para ela eu era apenas um professor jovem e belo que estava interessado em sexo casual. Era algo que ela podia oferecer.

Ponderei por vários segundos que pareceram horas se eu daria vazão à minha raiva e a eliminaria ou simplesmente colocaria em prática a ideia inicial que era descobrir mais detalhes sobre ela apenas com intuito de observa-la e aprende-la. Decidi pela segunda opção quando a cabeça começou a esfriar, e inventei qualquer coisa sobre realmente estar interessado no que ela propunha. Avancei sobre ela no sofá, arranquei e arremessei para longe o short cinza, a blusa, as peças íntimas... O corpo de Annie parecia não apresentar defeitos, e daquele jeito que eu a via agora, entranhando as unhas longas em meus ombros nus, sussurrando em meus ouvidos tudo que qualquer homem gostaria de escutar e misturando seu suor ao meu no movimento ritmado de nossos corpos, ela me parecia a mulher mais bela que já vira caminhar sobre a Terra. Mantivemos o entrelace por algumas horas, terminando e recomeçando, caindo do sofá para o carpete felpudo, e depois rumando para a cama dela. Senti coisas que nunca havia sentido antes, enquanto nos braços de Annie. Nunca sentira antes tanto prazer, tanto desejo e principalmente tanta necessidade de manter-me colado a ela, próximo, mantendo contato físico. Não haviam palavras em nenhum dos idiomas que eu conhecesse para descrever o que eu sentia, e mal pude aceitar quando ela deu fim à sessão de sexo e alojou-se em meu braço. Não vi mais ninguém no apartamento, e concluí que ela vivia sozinha ali, então aproveitei a abertura para entrar no assunto.
    - Você vive sozinha? - perguntei fingindo curiosidade casual.
    - Se a pergunta é se moro sozinha, sim, moro. Se a pergunta é se sou solteira, sim, sou. Agora se a pergunta é se passo a maior parte do meu tempo sozinha...
    - É óbvio que não! Como poderia? - respondi sorrindo malicioso, em atitude tipicamente masculina, mas ela não sorriu de volta. Sustentou a expressão desinteressada e apenas levantou uma das sobrancelhas mediante minha interrupção.
    - ... Sim, eu passo. - concluiu com simplicidade.
    - Mal posso acreditar... Não vejo motivos para isso!
    - Não precisam haver motivos para explicar o que não importa. É como gosto de viver, e gostaria que isso fosse respeitado e não transformado em tese para suas aulas, okay? - então ela sorriu, mas não tenho certeza se foi um sorriso positivo.
    -Jamais pensei em fazer isso, Annie. Perguntei apenas por efeito de curiosidade.

Mas ela não parecia realmente interessada em grandes diálogos, foi logo me entregando minhas roupas e alegando ter matérias de outros professores para estudar, me empurrou até a porta, deu-me um selo nos lábios e fechou a peça de madeira “na minha cara” antes que eu pudesse lhe dar boa noite. Fiquei parado ali, atônito, ansioso por ter mais dela... Mas logo o efeito de seja lá o que for que ela provocava em mim foi abandonando meu corpo, e consegui sair do prédio e dirigir até meu refúgio. Tudo era muito estranho, até para mim...

Desejei que o Destino aparecesse para me visitar, me esclarecer, mas ele não veio. Nas aulas dos próximos dias então que eu não conseguia desviar os olhos de minha aluna. Qualquer movimento que seus cabelos faziam, seus olhares irônicos, seu ar intelectual que surgia naturalmente... Tudo nela passara a me encantar desesperadamente, e eu começava a ficar perdido. Tentei aborda-la de várias maneiras na faculdade. Ela sempre cedia até certo ponto, permitindo que eu a arrastasse para alguma árvore num canto escuro ou para dentro de meu carro. Me fornecia várias doses de seus gemidos, toques e carícias viciantes, permitia que eu a possuísse, mas quando tudo terminava, ela me descartava como um copo plástico e retomava sua vida normalmente. Eu não conseguia mais sentir impulsos assassinos em relação a ela... Seria difícil imaginar um mundo onde ela não estivesse.

Aproximadamente três meses após nosso primeiro encontro, aconteceu algo que me deixou realmente aborrecido. Annie esperou que eu desse a partida em meu carro e o guiasse para o primeiro portão da Universidade, e só então levou um rapaz do curso de Direito para o meio do bosque. Ela pensava que eu não havia visto, mas vi, e aquilo me enervou profundamente. Desejei sair do carro, encontrar e matar os dois ali mesmo, com direito a sessão particular de tortura na qual eu arrancava o brinquedinho dele lentamente, rindo enquanto ele imploraria para que eu parasse, e então eu poderia fazer pequenas perfurações nos testículos com a ponta da foice, para ver todos os futuros filhos dele escorrerem junto com o sangue e secreções. Em seguida eu desenharia alguns símbolos pela costa e peito do infeliz, mas não necessariamente símbolos satânicos, que eu considero um monte de baboseiras... Talvez desenhasse alguns cartoons famosos, ou frases de auto-ajuda, tanto fazia! Desde que sangrasse o bastante. Então eu finalmente me voltaria para Annie e...

Não parecia possível, mas eu acabara de constatar que talvez fosse incapaz de mata-la.

Dirigi freneticamente até meu refúgio e me atirei na cama. Os pensamentos iam a mil por hora, e não conseguia conter a culpa. Era surreal, improvável, impossível que eu fosse incapaz de matar um humano. Não que eu não fosse conseguir se tentasse, mas simplesmente me sentia incapaz de tentar. Annie definitivamente estava me fazendo mal, e aquilo precisava acabar.

Reuni forças no dia seguinte, saí cedo da cama e rumei diretamente para a periferia, buscando aquele monte de moleques trombadinhas que vivem pelos becos cheirando cola de sapateiro e executando pequenos assaltos nos desavisados. Separei a maior foice que tenho e levei comigo. Não tive cautela nem precaução, apenas eliminei um a um, na tentativa reles de amenizar minha sede por morte... Não funcionou. Saí de lá pior do que cheguei, ainda muito perturbado com a imagem de Annie rumando para o bosque com aquele desgraçado. Naquela noite eu não daria aula para a turma dela, mas sabia que nossos horários na universidade iriam coincidir, por isso fiquei aguardando que ela fosse apanhar o carro.
Abordei-a assim que desativou o alarme.
    - Quem era aquele com você ontem? - perguntei enfurecido, descontrolado, me desconhecendo. Ela inicialmente sobressaltou-se com minha abordagem, mas em seguida devolveu à face a expressão de costumeiro descaso.
    - Em primeiro lugar, solta meu braço Johan, está me machucando. Em segundo lugar, quando isso passou a ser da tua conta? - e ela livrou o braço de meu aperto ligeiramente aborrecida quando afrouxei a mão.
    - Isso passou a ser da minha conta quando eu não aprovei a ideia de te ver indo pro mato com outro cara... Resolveu que vai sair com todos os que passarem pela frente, é isso? - eu ia me auto-inflamando, enquanto a expressão dela agora voltava para o deboche, ainda mais notório e irritante nesta circunstância.
    - Sair com qualquer um? Mas de que porra estamos falando, Johan? Será que você ainda não entendeu que não lhe devo satisfação? - E durante esta frase ela me empurrou sem força para longe da porta de seu carro, apenas para que eu abrisse espaço para ela entrar no mesmo.
    - Annie! Você não pode agir assim comigo, ouviu? Não pode! Eu fiz tudo o que você me pediu, do jeito que pediu! Qual é o seu problema afinal?

Quando dei por mim estava gritando, porque o carro já havia sido acelerado por ela e estava a caminho do portão. Eu continuei ali parado, observando o veículo se distanciar, sem acreditar que aquela discussão havia sido iniciada por mim.

Caminhei até meu carro com passos ruidosos e firmes, quase uma marcha, e rodei sem rumo pela cidade por algum tempo, tentando entender o que sentia. A raiva começou a tomar meu corpo de forma incontrolável... Ela não tinha o direito! Como ousava? Eu não conseguia parar de pensar na discussão, e no fato de ter me dito que não me devia satisfações. Em meio ao meu impulso, rumei para o já conhecido edifício onde ela morava. O porteiro tentou me impedir de entrar sem identificação, então agarrei a mão livre – a que não segurava a foice – em seus cabelos e golpeei contra a mesa por mais vezes do que seria preciso para que ele morresse. O sangue inundou minhas mãos e a mesa da portaria, e eu entrei. Desta vez não subi pelas escadas internas, e sim pela escadaria de incêndio do lado de fora do prédio. Esgueirei-me por aquela enorme peça de ferro fundido até alcançar a janela dela, a qual abri sem pudores e entrei com um estrondo. Annie estava na sala lendo, mas ao me ver ali com a foice em mãos e com sangue pingando em seu carpete, tentou escapar em desespero, mas nada a salvaria. Eu sentia tanta raiva, tanta mágoa... Não saberia descrever aquele sentimento também, com nenhuma palavra que conhecesse, então precisava apenas me livrar da causa. Ela correu para baixo da mesa, mas ao me ver aproximando talvez tenha entendido que fora uma escolha ruim, então correu para o quarto. Caminhei sem pressa pelo corredor sentindo o coração que nem tinha real utilidade saltar dentro do peito. Annie aparentemente caíra ao tentar se esconder no armário, e agora estava implorando pela vida em meio a lágrimas abundantes e gritos trêmulos. Senti uma ligeira vontade de desistir, mas precisava fazer aquilo de uma vez por todas. Acertei-a com a foice, com toda força que consegui reunir, e o sangue dela espirrou em meu rosto e pela parede salmon de seu quarto. De alguma maneira que desconheço, enquanto eu armava o segundo golpe ela conseguiu rolar para o lado e correr para a porta. Virei-me agora apressado e segui correndo atrás dela. Minha aluna alcançou o corredor do prédio, mas em vez de bater na porta de qualquer vizinho para pedir ajuda, desceu correndo as escadas rumo à garagem, comigo em seu encalço.

Annie não conseguiu chegar até seu carro, pois lancei a foice em sua direção, e o cabo a derrubou. Ela caiu entre um carro e outro, realmente encurralada e longe das vistas de qualquer possível salvador. Eu poderia ter juntado a foice e executado-a rapidamente, mas preferi recolher um pé de cabra que estava escorado na parede. Foi quando aconteceu.

Ela começou a rir descontroladamente, me encarando com os olhos zombeteiros que eu tanto detestava e desejava. Senti a raiva pulsar com força em cada artéria e veia de meu corpo. O que ela achava que estava acontecendo ali?

Eu me empenhava por desmontar seu sorriso com o pé de cabra, já um bocado desgastado pelo uso cotidiano. Sentia-me frustrado. A cada novo golpe, ela sorria ainda mais, e mesmo quando arrebentei parte de seus dentes frontais com um golpe mais preciso, ela continuava exibindo o vácuo sangrento entre os lábios, como se permanecessem ali, como se recebesse carinho terno e acolhedor. Bati com mais força na região do queixo, e vi aquele jato de sangue tingir a parede encardida da garagem. - Pare imediatamente de sorrir! - Berrei sentindo a jugular pulsar, ela parecia não ouvir. Não deveria ser assim! Estava tudo errado! Eu não estava lhe oferecendo prazer! Ou estava?

Tentei por mais algumas vezes, mas ela não morria e nem parava de rir. Já havia uma enorme poça de sangue ao seu redor, e nada parecia ter mudado, até que eu finalmente compreendi. Eu não podia mata-la! Eu era incapaz de mata-la... Realmente incapaz! Não era apenas a minha vontade, mas o corpo dela não perecia como os demais... Ela era como... como se fosse... imortal? Era como se fosse... Eu. Tomado pelo choque, fiquei encarando seus olhos com a expressão completamente atônita, arregalando gradativamente os meus, perplexo. Vi quando o maxilar dela retornou ao lugar quase que imediatamente, assim que parei de bater. Os dentes faltantes começaram a crescer, e os ossos da face aos poucos retornavam aos seus lugares originais. Naquele momento, milhares de possibilidades me percorriam a mente, mas nada no mundo poderia me preparar para o que estava por vir.

Annie apoiou-se no chão e estendeu a mão para que eu lhe ajudasse a levantar... E pasmem! Eu ajudei.

Ela passou a costa da mão em todo o sangue que se espalhava pela testa e pelas maçãs do rosto, e finalmente começou a falar.

Hoje estou aqui, sentado escrevendo este relato, e ainda sinto os pelos da nuca arrepiarem ao lembrar daquela noite. Independente do que tenha significado para ela, certamente aquele acontecimento foi a linha divisória entre tudo o que vivi até ali, e meu desejo por tornar-me mais apresentável, minhas novas ambições, minhas novas buscas... Tudo hoje depende do fato dela ter me dito com todas as letras naquela noite, após rir sonoramente em um misto de piedade e zombaria... Bem, eis o que aconteceu:

Annie estava de pé e caminhou em minha direção. Seus dedos envolveram os cabelos de minha nuca, e ela me beijou intensamente, espalhando o sabor de seu sangue por todas as minhas papilas gustativas. Em seguida me encarou severamente, como quem repreende uma criança levada, e disse em alto e bom tom:
    - Sinceramente, Johan... Pelo jeito que você me toca, pensei que era mais forte! Bate como uma moça! O que é isso? Eu esperava mais de você!
    - Ahn... - franzi a testa confuso. Não havia muito o que fazer ali. - Mas como você...?
    - Como eu não morri? Ora Johan, você me subestima... Acha mesmo que nunca tive um namorado ciumento antes? Uma mulher precisa desenvolver suas próprias defesas! Não acha? Tenho certeza de que você não fez por mal querido, por isso lhe perdoarei desta vez e não lhe maltratarei, mas da próxima vez que tentar me matar, juro que não vou brincar de teatrinho com você me fazendo de vítima para alimentar seus joguinhos sexuais – e neste momento ela fechou a mão em torno de meu pênis por cima do meu jeans – e então eu te capo quantas vezes forem necessárias, todas as vezes que o seu bichinho crescer novamente. Estamos entendidos? - Agora ela parecia determinada, e até cruel, eu não podia compreender.
    - Mas o que diabos é você? - Indaguei em um misto de irritação e constrangimento.
    - Ora, como assim “o que”? Assim você me ofende, meu querido... E você deveria parar de me comparar a esses diabos diáfanos que circulam por aí... Definitivamente não sou um deles...
    - Mas então o que...?
    - Seja educado, por favor e aguarde enquanto termino de falar, sim? - Ela parecia definitivamente uma professora de jardim de infância falando daquele jeito. - Agora é minha vez de lhe dar uma aula, Johan. Você lembra quando sua querida mãe veio à Terra e se fez carne para desfrutar dos prazeres mortais, e acabou fazendo você? - Ela parecia não se importar com o local ou com a sujeira, e eu simplesmente assenti com a cabeça, como um boi amestrado. - Então, depois de você ter fugido de casa, ela decidiu retornar e acabou fazendo novamente, mas desta vez foi proposital... Ela aprendeu enquanto estava com você que era útil ter esses monstrinhos espalhados por aí, fazendo o serviço que ela tem preguiça de fazer em larga escala, e então ela me fez. Não é encantador? Mas confesso que se eu soubesse que tinha um irmão tão gostoso já teria procurado por ele antes, e isso é tudo que você precisa saber! - Ela finalmente retirou a mão de meu pênis, mas não antes de dar uma última apertada.
    - Então... você é...?
    - Sim, seu imbecil. Sua irmã, filha da Morte, filha da sua mãe.
    - Então... Aquele cara que você levou para o bosque...
    - Sim, ele está morto, qual é o seu problema afinal? Ainda essa crise de ciúmes, Johan? Esperava que meu irmão mais velho fosse mais seguro de si, sinceramente! - A ironia dela parecia não ter fim.
    - Eu não estou com ciúmes de você! - Finalmente consegui cair em mim – Aquilo foi apenas...
    - Ah, claro Johan, vamos fingir que acreditamos nisso, okay? - Ela piscou de modo forçado, deixando claro que estava sendo sarcástica. - Agora me dá licença... Se você já sabe quem eu sou, não vejo muito sentido em vivermos próximos um do outro. O objetivo é manter a discrição e cuidar do próprio umbigo... Vou indo nessa.

Ela me empurrou para o lado, e seguiu até seu carro. Caminhei em passos largos e segurei seu braço, mas ela simplesmente me olhou nos olhos e sussurrou algo como “ah, desculpe, esqueci de me despedir!” E então me beijou novamente, e entrando no carro completamente banhada de sangue, ela seguiu para fora do edifício, rumo à eternidade.

Revirei o apartamento todo, buscando entre as coisas dela algum motivo para que retornasse até ali, mas como se revistasse minha própria casa, não encontrei nenhum. Annie era como eu, então sabia que eventualmente se faz necessário deixar toda uma vida para trás e recomeçar do zero em outro lugar. Voltei para casa naquela noite ainda incrédulo, mas logo caí em mim e compreendi que não poderia tê-la matado mesmo que ela fosse mortal, pois alguma coisa dela agora vivia em mim, e eu não conseguiria lutar contra isso jamais. Annie plantara em mim uma semente mortal, humana, latente e dolorida, e agora se fora, deixando para trás toda essa dormência em meu peito, esse nó em minha garganta, esse buraco negro em minha existência...

Hoje, após minha jornada em busca do auto-conhecimento, da boa apresentação e dos bons costumes, partirei em outra jornada: em busca de Annie, que jamais permitirei escapar de mim novamente, e custe o que custar ficaremos juntos... Até que a Morte nos separe.
 
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