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segunda-feira, 9 de julho de 2012

Diário Psiquê


Hoje a chuva de todos os lados tentou invadir a janela.
É uma boa escolha, a melhor que eu poderia ter, mas não é a escolha certa, ainda não. Não foi desta vez.
Não trata-se necessariamente de mim, não mais. Prefiro não selecionar partículas intangíveis, entre migalhas espalhadas aos pombos em meu pequeno parque individual e secreto. Mas estas migalhas tem estado muito por aqui ultimamente. Estas sementes tem dado um pé de seja-lá-o-que-for que eu gostaria que não estivesse aqui. Não o pedi, não o desejei, não o amo, se é que é isso que eu deveria sentir por ele. Talvez eu deva mesmo hostiliza-lo, para que ele e eu aprendamos que não se deve precipitar quando se recebe migalhas; já perdi muitos pombos assim, não desejo perder mais nenhum.
Hoje eu gostaria de celebrar um pouco mais toda essa estupidez. Esse desperdício. Desperdício de mim. Já não sou mais quem eu costumava ser - em meus sonhos - e sim aquilo em que um dia me disseram que me tornaria, tornaria-me nisso, ou nisto, porque estou aqui. Presente, e apresentável. Não posso dizer que bem, mas se fizessem uma escala de avaliação veriam que de uns tempos pra cá o resultado seria no mínimo satisfatório. Então tudo bem, eu estou bem, os pombos estão indo bem também. Bem, bom, satisfatório. Não vejo muito como pode passar disso. Não mais.
Hoje tive um pequeno tsunami interno. Uma onda minúscula, mas que se posta dentro de um ser humano torna-se literalmente uma catástrofe natural, apanhou-me de chofre, e eu deixei-me levar - como se pudesse ter tido alguma reação que não fosse essa. Me permiti nadar por entre os fragmentos do que o tsunami arrastou. Desviando dos dejetos, fiz-me criatura flutuante em meio ao caos. 
Finalmente, em um longo espaço-tempo, senti-me feliz de fato. Feliz... Feliz? 
-Ora poupe-me metáfora, já disse que não temos nada para conversar!
Hoje descobri que eu sei perder. Sei perder mesmo quando acreditava que ia ganhar. Sei perder pra quem sei jamais poder vencer, pra quem eu sei que jamais eu poderia superar. Aprendi a engolir um pouco mais palavras nobres, e a cuspir de volta uns termos mais singelos, corriqueiros, o que seja. Aprendi que pra ganhar, deve-se ser um vencedor. Isto bastou para me convencer a sair, de bom grado, do campo de batalha.
Hoje eu tenho certeza de que tudo o que está por vir, me fará ainda pior do que o que já passou. Não sei como essa história termina, e não vou ficar para ver o final.

domingo, 6 de maio de 2012

O Herdeiro Letal



Acordei pensando em tornar-me mais apresentável. Quando se diz “apresentável” no sentido literal, diz-se igualmente “pessoa digna de ser apresentada”. Se consultados os amigos “Aurélios” ou “Houaiss”. Diz-se também que a pessoa em questão faz por merecer - ou se faz digna, como preferirem - de ser mostrada, exibida como mercadoria, para os outros do convívio dele ou dela que apresenta; Aceitável, moderada, ligeiramente corrigível. Trivial, e sem provocar grandes escândalos. Apresentável. Eu seria dali em diante.

O primeiro dia foi a barba, que já cobria o queixo e boa parte do pescoço. Mesmo que a aparência que escolhi manter fosse jovem, aquela penugem grotesca me envelhecia e fazia parecer cada vez menos higiênico. Livrei-me da barba no primeiro dia.

No segundo dia, as roupas. O armário transbordava de roupas novas, quase sem uso, que minha última namorada - e quando digo última, se sinta a vontade se quiser valer-se da quantia de tempo que a palavra tende a conotar as vezes – me forçou a comprar, e que agora roubavam-me o precioso espaço antes ocupado por Hesse, Miller ou Anaïs Nin. Usaria aquelas roupas, afinal, custaram-me tanto dinheiro quanto tempo dentro de lojas experimentando-as, em mais uma tentativa errônea de manter uma mulher ao meu lado por fazer suas vontades em vez de expor minhas já tão parcas virtudes. Mais um artifício dentre tantos, para tentar preservar o amor de uma mortal, sabendo-me indigno do mesmo. Usaria algumas daquelas roupas dali em diante, afinal, já bastava de andar roto por aí. Daria preferência às camisas sociais e ternos de cores neutras, mas os suéteres, destes passaria longe. Para o incinerador com os suéteres! Certamente eles são a pior invenção humana já vista, depois de Back Street Boys.

Não sei a quem estive tentando enganar... Mais provável que a mim mesmo, por forças do Destino que há tempos não vem jogar um pôquer comigo. Se a Morte soubesse disso, ficaria realmente muito aborrecida, já que ela lhe pediu com toda a gentileza que pode encontrar para ficar de olho em mim sempre que pudesse – eu não deveria ter essa informação, mas o Destino sempre fala demais. Hoje, no terceiro dia após a grande decisão de me tornar aceitável, decidi relatar em linhas mais uma parte de meu tão extenso diário de modo um tanto mais moderno, e pela primeira vez estou escrevendo no computador. Me disseram que era prático aprender a usar essas maquininhas para as aulas na universidade. Lembro quando as inovações tecnológicas começaram a tomar conta do mundo, e popularizarem-se entre os mortais. A princípio tive dificuldade de aceitar a convivência. Uma característica que me compete é a capacidade de adaptação, mas no ponto de vista que precisa envolver fibra ótica e código binário, confesso, prefiro o bom e velho pergaminho envelhecido, tão bonito em contato com a pena untada de tinta e a caligrafia que preservei do período imperial! Mas não dá pra fazer isso. Infelizmente, não dá.

Mas devo admitir que os pergaminhos com o tempo vão se tornando gastos, enquanto os arquivos que guardo no email tem prazo de validade... Até quando durar a internet. Tenho utilizado-me em demasia destes recursos tecnológicos desde que surgiram. Minha necessidade é passar-me por igual. Por sorte a aparência que conservo durante o dia é de mortal comum, e minha mãe agraciou-me com uma das melhores feições que poderia. A pele pálida e os olhos azuis profundos e significativos vem arrancando suspiros das mulheres – e depois que a sociedade se tornou tão liberal até mesmo de alguns homens – por onde passo. O detalhe porém que mais aprecio nesta imagem esculpida pelas mãos ossudas da própria Morte com a qual fui presenteado são os cabelos finos, negros como a imensidão do espaço, que me fazem lembrar de onde venho todas as vezes que encaro o espelho. Mas como possuo de longe a mãe mais ingrata e egocêntrica de todas, ela não poderia deixar de dar o retoque final, para que eu parecesse ser de fato sua imagem e semelhança: A aparência noturna.

Vamos falar da Morte, para início de conversa. Todas as vezes que me propus a documentar algum fato marcante dessa minha jornada milenar no mundo dos homens, precisei abrir um pequeno parêntese para lembrar de onde vim, e principalmente: Para ter a oportunidade de ofende-la um pouco em palavras. Talvez uma parte de mim tenha a esperança de que um dia algum mortal encontre esses documentos, e os publique como ficção. Nossa, como sou fascinado pela literatura mortal! A capacidade de criar dos homens vem a ser quase tão sublime quanto a capacidade de destruir da morte. Se somos nós – filhos da destruição e do caos - os arautos da morte, seriam os homens os interinos de deus? Eis uma questão singular que jamais consegui solucionar, e nem mesmo o Destino, com toda sua sabedoria e graça, foi capaz de trazer-me maiores esclarecimentos sobre o assunto, e sinceramente já desisti de procurar respostas para esta e para milhares de outras dúvidas. O que preciso deixar claro nestes relatos é: A cada cem anos, a Morte – safada do jeito que é – resolve passar uma curta temporada na Terra, com fins de conhecimento e aprendizado dos homens. Isso pode parecer até culto da parte dela, quando o aprendizado em questão não acaba sempre se transformando em anatomia. Existe a lenda de que ela possui uma lista e leva cada um no momento em que foi determinado pelo Destino, mas o coitado na verdade nada tem a ver com o sadismo dessa vadia. Ela, a Morte, leva quem bem entende, e na hora que bem entende. Passa dias e dias, anos e anos, em seu refúgio sombrio, tramando milhares de maneiras diferentes de acabar com a raça dos humanos, animais e demais criaturas viventes. Ela, com suas mãos ossudas e cadavéricas, costuma as vezes até matar pessoalmente alguns exemplares da coleção divina, induzindo-os ao suicídio ou simplesmente colocando o pé na frente para que eles tropecem no meio fio. Por vezes ela encontra-se tão ocupada infernizando uma família com quem não simpatizou, ou torturando um cidadão em quem enfiou alguma doença crônica que até se esquece de outros mortais, e eles acabam vivendo mais tempo do que deveriam. Este é o caso daqueles idosos que aparecem no livro dos recordes, tendo vivido mais de um século ainda lúcidos e cruzando nossos passeios. Aí quando chamam a atenção para o caso, ela lembra de fazer seu trabalho e vai lá resolver o problema. Ela e esse seu ego enorme, adorando os cultos pagãos que são levantados em seu nome, e principalmente: adorando o medo que os mortais se acostumaram a sentir com a singela menção de seu nome. O Destino acha que aqueles que realmente não a temem, e que realmente esperam por ela, até de forma provocativa em certos casos, são os que ela mais detesta e despreza, preservando-os para padecerem em meio as desgraças que seus próprios semelhantes e ancestrais criaram. A imundice irreversível na qual transformou-se o mundo deles. Discordo. Acho que os que não a temem conseguem parecer, ao seu modo, ameaças a sua petulância e invulnerabilidade, e que por conta disso ela acaba evitando o contato até que eles a irritem muito, ou até o momento necessário.

Acabei por perder-me nas divagações sobre o caráter profundamente duvidoso da Morte, e esquecendo que o objetivo principal é relatar sua atividade secular. De volta a anatomia... Durante essas visitas a Terra que ela mesma decidiu fazer a cada cem anos, ela costuma materializar-se em um corpo mortal – sendo sempre o topo do padrão de beleza genérico da época – e passear por entre os humanos, experimentando seus costumes, gostos e culturas. Até aí tudo pareceria bastante simples, se ninguém percebesse que ela é a Morte e tudo o mais, o problema é que eventualmente ela resolve beber além da conta, se drogar além da conta e comete alguma atrocidade. Há mais ou menos mil anos, eu fui a atrocidade da vez. Ela decidiu desfrutar de um momento de luxúria com um mortal e o corpo que ela materializou passou a portar uma nova... Será que eu posso chamar de vida? Vendo pelo lado mitológico da questão, eu seria fruto da junção da vida e da morte. Seria então um semi-morto, um semi-vivo, um morto-vivo, ou como preferirem chamar. O importante é que naquele ano a Morte gerou a vida, e isso abalou toda a estrutura do universo. Vim ao mundo em forma humana, mas os dons da Morte logo tratariam de revelar minha verdadeira natureza. Durante o dia parecia o bebê mais bonito que já se havia tido notícia, rosadinho e saudável, como essas parafernálias de revistas de bebê exibem nas capas, mas durante a noite assumia a imagem da criatura bizarra que havia me parido, e a pele ressecava, cadavérica, os dedos assumiam uma aparência ossuda e medonha, e os dentes tornavam-se presas afiadas, prontas para se alimentarem do medo mortal. Nem preciso dizer que encontros noturnos não são meu forte, quando estou tentando levar alguém para a cama. Ela não estava realmente interessada em mim, mas viu em meu nascimento a possibilidade de um ajudante gratuito, melhor do que precisar lidar com certos demônios mercenários, e me levou consigo para o refúgio onde habita. Cresci como seu interino, aprendendo a profissão da família. Pronto para ceifar a vida de qualquer criatura que respirasse. Atingi a forma adulta, a forma de atualmente, mas definitivamente não estive satisfeito com o modus operandi de minha mãe. Não é que eu seja um modelo de graça e benevolência, e acredite que os mortais devem viver e desfrutar de suas existências doces e pirilampas. A alguns deles eu mesmo fiz questão de proporcionar o fim mais trágico e sangrento possível, mas julgo desnecessária essa necessidade que ela possui de limitar-se a sua função, quando dona de tamanhas habilidades. Até mesmo o Destino precisa cruzar os braços quando ela entra em ação, e lá está ela, cumprindo as ordens de quem quer que seja, eliminando os mortais como um leão amestrado. Perdi a paciência, e como todo bom jovem rebelde, fugi de casa.

Não sei se fugir é uma palavra adequada, já que ela sabe exatamente onde estou a todo tempo. Não sei se a esta altura, tantos séculos depois, eu já poderia ter poder semelhante ao dela, e permitir que se aposentasse, mas a verdade é que decidi fazer permanentemente o que ela faz a cada século, e viver entre os mortais, alimentando-me de seus medos e preocupações, aterrorizando-os com o nome e poder de minha mãe e principalmente: tentando entender o que eles tanto vêem de interessante nessa dádiva reles que possuem - a vida. Acontece que quando ela permitiu que eu fugisse para a Terra e não veio atrás de mim, sabia o que estava fazendo. A desgraçada sabia o que eu enfrentaria pela frente, e as evidências de meu erro logo começaram a aparecer. Como eu poderia, tendo vivido até então nos domínios da Morte, sobreviver entre criaturas tão hostis e traiçoeiras como os humanos? Eu rodei o mundo e conheci suas maravilhas geográficas, mas nunca vi em toda minha existência criatura com maior capacidade para o mal do que o próprio homem. E pior: o mal é feito contra os de sua própria espécie. Não sei se os amo ou desprezo por isso.

Precisaria me esconder a noite, e isso tornou-se óbvio desde o começo, quando em meus primeiros dias na Terra alguns camponeses correram atrás de mim com tochas. Humanos estúpidos! Mas esse período de fuga serviu para que eu descobrisse que meu corpo pode se regenerar com a mesma facilidade que aterrorizo qualquer portador da vida, mas não é por isso que vou sair oferecendo meu couro para qualquer um que quiser me espancar ou queimar vivo. Não sei se por defeito de fábrica, mas sou capaz de sentir dor e eis uma sensação com a qual não aprecio compactuar.

A redoma cristalina que os mortais teceram em torno do oculto e desconhecido é o que tem me fortalecido. Caminho por entre os homens com destreza e segurança, crente de que qualquer um pode servir-me de alimento. Posso comer, como qualquer um deles - Como e como, em ambos os sentidos – mas o meu alimento real é o medo, a fuga, o desespero... A súplica pela centelha doce e cálida que é a vida, o sopro nas narinas de Adão. Eu prefiro retirar deles o bem mais precioso, para que não me falte, para que não enfraqueça. Dos que ainda não pretendo me livrar, furto um ou cinco anos de vida restantes, e os absorvo. É assim que mantenho a aparência jovial e o poder percorrendo o corpo, morto ou não. Tenho pulso, tenho calor, mas não tenho a tão estimada alma da qual se fala a respeito na literatura e nas conversas de bar. Nunca me fez falta, mas confesso que por vezes sinto uma certa necessidade de estar com um deles, os vivos. É claro que vivendo no mundo deles, convivo diariamente com diversos, então a necessidade que sinto é um tanto quanto mais íntima. Gosto de seduzir as mulheres, gosto de sair com os amigos pra tomar um drinque após o expediente, mas em casos como estes preciso executar alguns serviços antes. É prático: a aparência noturna obviamente vem quando o sol se vai, mas se eu atingir uma certa cota de mortes em alguns dias certos, posso garantir uma boa temporada na qual meu corpo não se transforma... É quase como a Morte dizendo “muito bem, Johan, fez pipi no peniquinho e agora mamãe vai te dar um presente”. Então, em alguns anos, chego a eliminar famílias inteiras, dezenas de operários, centenas de prostitutas e eventualmente até algumas crianças malcriadas que importunam a harmonia de meu estimado Tchaikovsky enquanto brincam aos berros no corredor do meu andar. Atendida a cota anual, torno então a busca-los, procurar pela simpatia e principalmente: pelo amor que eles podem me oferecer. É quase um vício em ambos os casos, seduzi-los e elimina-los, não necessariamente nesta ordem. Foi buscando a convivência com os mortais que iniciou-se esta história que vos narrarei.

Alguns anos atrás decidi fazer usufruto de meu Pós-Doutorado em Sociologia – aí uma vantagem de viver tanto tempo: poder me graduar em quantos cursos decidir fazer – e tornei-me – pasmem, através do método tradicional de concurso e entrevistas de emprego – professor universitário. A aparência jovem na época era um problema, então decidi deixar a barba crescer. Escrevendo agora consigo rememorar a razão de ter andado tão desleixado nos últimos semestres. Acabo de sentir falta da barba ao passar a mão já acostumada com os pêlos grossos e desorganizados sobre o queixo e descobri-lo nu. Acredito porém que foi a lembrança deste período que trouxe-me a sensação nostálgica, não a ausência dela... Mas não posso permitir-me divagar, preciso contar essa história de uma vez, sem enrolações. Acho que é meu inconsciente propositalmente me fazendo tentar evitar, mas seguirei em frente, custe o que custar.

A universidade era o campo perfeito para caça. Alunos jovens e atraentes, gozando de muitos e muitos anos de vida pela frente para que eu usurpasse... Jovialidade na vitrine, longevidade em liquidação. Algum tempo se passou desde que comecei a exercer a profissão efetivamente, mas tudo se resumia a aulas repetitivas e rotineiras, salários ruins que mal dariam pra sustentar um terço de meus vícios e encontros efêmeros com jovens universitárias de peles rubras como o sangue que lhes percorria as veias, bronzeadas pelo sol dos melhores verões. No meu terceiro ano de magistrado uma jovem do curso de medicina foi encontrada morta em uma parte mais deserta do rio que lambia as margens do campus... Ela exibia um belíssimo sorriso entalhado por uma navalha e encontrava-se exatamente como fora vista pela última vez, com o mesmo vestido azul e o mesmo salto agulha. Lamentei ter decidido assistir aquela maratona de batman porque isso reduziu minha originalidade, e o caso acabou dando mais o que falar do que eu gostaria. Decidi então que passaria algum tempo sem executar nenhuma delas, e me dedicaria à minha outra atividade favorita, que era observar.

Uma nova turma iniciou o curso no semestre seguinte após as férias. Eles eram exatamente como os outros, porque pra mim pareciam todos iguais... Uma enorme vala de mediocridade com carteiras de madeira velha. Nesses tempos é raro encontrar um humano que realmente se destaque entre os demais, e tornando ao conhecimento empírico, tornei-me cada dia menos assustador e misterioso aos seus olhos, o que torna tudo realmente mais chato.

As aulas começavam a me irritar quando ela apareceu. Parecia singela ao primeiro olhar, com seus cabelos de cor preta comum, seus olhos verdes comuns, sua pele alva e comum... Aceitável, moderada, ligeiramente corrigível. Trivial, e sem provocar grandes escândalos. Aceitável. Era a palavra correta para defini-la. Sem sombra de dúvidas era dona de beleza incontestável, mas mesmo isso não a tornava especial... Na verdade havia algo nela que me chamava atenção, mas definitivamente não era a beleza de sua casca mortal, apenas não conseguia definir exatamente o quê.

Fosse qual fosse o atrativo que via na garota, ela sentava na primeira fileira todas as noites e eu não conseguia tirar os olhos dela. Ela por sua vez parecia valer-se de minha inquietação em prol de seu próprio lucro... Na época acreditei que se tratasse de mais uma daquelas alunas oportunistas que ao perceberem interesse pela parte do professor, passavam a tentar seduzi-lo para obterem melhores notas ao final do semestre, caso típico nas Universidades, mas algo me dizia que ainda não era isso... Ela sustentava aquele risinho irônico que precisava apenas de metade dos lábios para existir, e era esse risinho em questão que me levava a crer cada dia mais que não era bem este o motivo dela estar retribuindo meus olhares penetrantes com sarcasmo. O semestre se seguiu como era de se esperar, e ela, Annie, como soube chamar-se ao longo das aulas, permanecia a me enfrentar como se fosse capaz de qualquer coisa, como se pudesse medir forças comigo, e aquilo começava a me irritar profundamente, mas havia a promessa de que não eliminaria ninguém naquele período... Não foi bem possível cumprir minha promessa cem por cento porque em certa ocasião fui ao banheiro após as aulas e vi o lado esquerdo de meu rosto assumir uma tonalidade acinzentada e envelhecida, e eu sabia a razão. Percorri a extensão do Campus até a beira do rio, onde sempre havia um casal qualquer namorando ou algum drogadinho fumando um baseado, e selecionei um deles que estava sozinho, sem nem reparar muito bem no que fazia. Retirei do bolso a foice em miniatura que carrego comigo desde o período colonial e entalhei um corte firme e singular no pescoço do rapaz. Senti cada partícula daquela vida talvez nem tão promissora aquecer-me a pele e fortalecer-me os ossos. Senti cada gota do sangue que jorrava conspicuamente e aquecia meus dedos invadir minha própria essência, preencher-me o corpo e devolver-me a juventude. O cheiro de ferro invadia minhas narinas violentamente, e eu agradecia silenciosamente por ter escolhido alguém tão saudável. Enquanto a vida se esvaía daquele agora cadáver, eu revia como sempre cada morte anterior provocada por mim, e questionava se minha mãe teria orgulho, e se isso realmente me importava. Estava feito, minha aparência noturna estaria escondida por mais algum tempo, mas naquela noite tive a impressão de ver um vulto movendo-se com velocidade por entre as árvores escuras... Tentei seguir seu rastro, mas foi em vão.

Nos dias seguintes escutei algumas pessoas mencionarem o novo assassinato na faculdade, e pensei que talvez fosse melhor começar a procurar pessoas externas, para evitar aquela ladainha de polícia que eu conheci tão bem anos antes no México. Annie por sua vez era o que mais me preocupava... Não ela como um todo, mas a maneira que passou a me olhar. Parecia me julgar silenciosamente, mas por vezes sorria debochada, principalmente quando eu mencionava algo sobre convivência em meios sociais distintos, e por conta disso passei a observar que ela não conversava com ninguém da sala, nunca era vista por mim usando telefone, ou qualquer outro meio de comunicação e que até então eu só escutara sua voz quando ela precisava debater sobre um trabalho ou prova. Sempre fazia os trabalhos sozinha, mesmo os de grupo, e nunca havia pedido explicação extra sobre absolutamente nada mencionado nas aulas, mas ainda assim obtinha excelentes pontuações ao término do período de provas. Algo estava errado ali, e não saber o que exatamente me frustrava ainda mais. Era hora de avançar um nível em minha constante observação. Decidi que dentro de algumas noites iria segui-la. Mais precisamente na sexta-feira, que era um dia em que a maioria das pessoas da idade dela preferiam emendar da aula para suas festinhas, sociais nos apartamentos de amigos ou bares. Não era possível, mesmo com toda a reclusão durante as aulas, que ela não mantivesse uma vida social fora dali... Eu descobriria.

Até encerrei a aula mais cedo, esperando que ela se apressasse em ir embora, mas como se para me contrariar, simplesmente saiu andando com toda a calma do mundo da sala até o estacionamento, como se até me desse uma certa margem de distância para não ser notado propositalmente. Afastei essa ideia, que no momento parecia-me um tanto absurda e continuei seguindo-a. Se ela me visse, usaria o pretexto de ir buscar meu próprio carro e tudo estaria bem. Descobri que ela dirigia um modelo popular na cor preta, e como era semelhante a escolha de meu próprio veículo, justamente porque eu apreciava chamar um mínimo de atenção, me senti seguro em dar a partida logo depois dela, e segui-la mantendo uma distância considerável.

Annie seguiu pelas ruas mais desertas no início, o que me forçava a eventualmente mudar o caminho e deduzir por onde ela iria, para encontra-la mais na frente e camuflar a perseguição, até que finalmente ganhou uma avenida movimentada e eu pude me misturar aos outros carros que se amontoavam entre um sinal fechado e outro. Segui-la tomou-me em média vinte minutos, até que encontrei o destino da jovem. Tratava-se de um edifício de em média vinte andares na área nobre da cidade, onde ela ultrapassou o portão com facilidade rotineira e desapareceu garagem adentro. Passei direto da frente do prédio e estacionei meu próprio carro um quarteirão a frente, era melhor voltar andando para ser discreto. Alcancei a portaria e sequer me identifiquei, apenas disse ao porteiro que possuía assuntos pendentes com alguém ali dentro, utilizando-me da aparência noturna original por alguns segundos... Ele deve ter pensado que era uma aparição ou coisa assim, mas abriu o portão temendo ser escolhido no lugar do desafortunado morador.

Havia um elevador que me guiaria com mais velocidade, mas como não sabia realmente qual era o apartamento, preferi seguir o cheiro dela – ainda forte em minhas narinas – pelas escadas até alcançar meu destino final. Treze andares depois, o cheiro intensificou-se. Cruzei a porta metálica da escadaria e segui pelo corredor parcialmente iluminado, e quando comecei a caminhar na direção da porta escolhida, uma das lâmpadas no teto começou a falhar, produzindo um lusco-fusco sombrio que me animava... Realmente gosto de efeitos especiais.

Fiquei alguns segundos parado na porta, tentando escutar alguma coisa... Não era exatamente isso que eu tinha em mente, mas precisava certificar-me de que não havia ninguém no cômodo onde aquela porta dava para poder entrar sem ser notado, mas meu dilema não durou muito, já que a porta repentinamente se abriu, revelando Annie com a mesma expressão zombeteira da sala de aula. Fiquei completamente desconcertado, principalmente porque não conseguia compreender como não escutara os passos dela ao se aproximar da porta pelo lado de dentro. Meus sentidos aguçados sempre funcionaram muito bem, obrigado. Aquela era uma péssima hora para decidirem dar defeito, levando em conta que somados à furtividade e discrição impecáveis, são meus dons favoritos, dentre os que possuo. “Então professor, vai ficar aí parado me olhando ou vai entrar e explicar por que me seguiu até aqui?” Ela espalhou as palavras pelo ar, e as mesmas atingiram meus ouvidos com um estrondo... Só então notei que minha audição aguçada estava funcionando normalmente.

Aquilo havia realmente me irritado. Era a primeira vez em séculos que me sentia completamente surpreendido... ou tapeado, que seria a palavra correta. Segui minha aluna sem raciocinar muito bem, agora observando o minúsculo short de algodão na cor cinza que ela trajava em conjunto com a camiseta preta que parecia ser vários números maior do que o seu tamanho. O movimento que suas coxas e bunda faziam enquanto andava de costas pra mim me prendeu a atenção até ela virar-se novamente de frente para sentar no sofá da sala, e finalmente retomar a palavra. “Eu sei que você me seguiu, mas gostaria de saber se foi apenas para ficar me olhando como faz na sala de aula, ou se deseja algo mais... Porque sinceramente não estou interessada em ficar ouvindo cantadas baratas nem tentativas desnecessárias de sedução. Se quer fazer algo comigo, apenas faça e vá embora, e ambos estaremos bem”. Eu mal podia acreditar em meus ouvidos... Aquela garota estava mesmo me desafiando? Ela não fazia ideia do que estava procurando para si mesma com aquele apenas faça e vá embora. Pensei que ela havia perdido a noção do perigo, mas depois lembrei que para ela eu era apenas um professor jovem e belo que estava interessado em sexo casual. Era algo que ela podia oferecer.

Ponderei por vários segundos que pareceram horas se eu daria vazão à minha raiva e a eliminaria ou simplesmente colocaria em prática a ideia inicial que era descobrir mais detalhes sobre ela apenas com intuito de observa-la e aprende-la. Decidi pela segunda opção quando a cabeça começou a esfriar, e inventei qualquer coisa sobre realmente estar interessado no que ela propunha. Avancei sobre ela no sofá, arranquei e arremessei para longe o short cinza, a blusa, as peças íntimas... O corpo de Annie parecia não apresentar defeitos, e daquele jeito que eu a via agora, entranhando as unhas longas em meus ombros nus, sussurrando em meus ouvidos tudo que qualquer homem gostaria de escutar e misturando seu suor ao meu no movimento ritmado de nossos corpos, ela me parecia a mulher mais bela que já vira caminhar sobre a Terra. Mantivemos o entrelace por algumas horas, terminando e recomeçando, caindo do sofá para o carpete felpudo, e depois rumando para a cama dela. Senti coisas que nunca havia sentido antes, enquanto nos braços de Annie. Nunca sentira antes tanto prazer, tanto desejo e principalmente tanta necessidade de manter-me colado a ela, próximo, mantendo contato físico. Não haviam palavras em nenhum dos idiomas que eu conhecesse para descrever o que eu sentia, e mal pude aceitar quando ela deu fim à sessão de sexo e alojou-se em meu braço. Não vi mais ninguém no apartamento, e concluí que ela vivia sozinha ali, então aproveitei a abertura para entrar no assunto.
    - Você vive sozinha? - perguntei fingindo curiosidade casual.
    - Se a pergunta é se moro sozinha, sim, moro. Se a pergunta é se sou solteira, sim, sou. Agora se a pergunta é se passo a maior parte do meu tempo sozinha...
    - É óbvio que não! Como poderia? - respondi sorrindo malicioso, em atitude tipicamente masculina, mas ela não sorriu de volta. Sustentou a expressão desinteressada e apenas levantou uma das sobrancelhas mediante minha interrupção.
    - ... Sim, eu passo. - concluiu com simplicidade.
    - Mal posso acreditar... Não vejo motivos para isso!
    - Não precisam haver motivos para explicar o que não importa. É como gosto de viver, e gostaria que isso fosse respeitado e não transformado em tese para suas aulas, okay? - então ela sorriu, mas não tenho certeza se foi um sorriso positivo.
    -Jamais pensei em fazer isso, Annie. Perguntei apenas por efeito de curiosidade.

Mas ela não parecia realmente interessada em grandes diálogos, foi logo me entregando minhas roupas e alegando ter matérias de outros professores para estudar, me empurrou até a porta, deu-me um selo nos lábios e fechou a peça de madeira “na minha cara” antes que eu pudesse lhe dar boa noite. Fiquei parado ali, atônito, ansioso por ter mais dela... Mas logo o efeito de seja lá o que for que ela provocava em mim foi abandonando meu corpo, e consegui sair do prédio e dirigir até meu refúgio. Tudo era muito estranho, até para mim...

Desejei que o Destino aparecesse para me visitar, me esclarecer, mas ele não veio. Nas aulas dos próximos dias então que eu não conseguia desviar os olhos de minha aluna. Qualquer movimento que seus cabelos faziam, seus olhares irônicos, seu ar intelectual que surgia naturalmente... Tudo nela passara a me encantar desesperadamente, e eu começava a ficar perdido. Tentei aborda-la de várias maneiras na faculdade. Ela sempre cedia até certo ponto, permitindo que eu a arrastasse para alguma árvore num canto escuro ou para dentro de meu carro. Me fornecia várias doses de seus gemidos, toques e carícias viciantes, permitia que eu a possuísse, mas quando tudo terminava, ela me descartava como um copo plástico e retomava sua vida normalmente. Eu não conseguia mais sentir impulsos assassinos em relação a ela... Seria difícil imaginar um mundo onde ela não estivesse.

Aproximadamente três meses após nosso primeiro encontro, aconteceu algo que me deixou realmente aborrecido. Annie esperou que eu desse a partida em meu carro e o guiasse para o primeiro portão da Universidade, e só então levou um rapaz do curso de Direito para o meio do bosque. Ela pensava que eu não havia visto, mas vi, e aquilo me enervou profundamente. Desejei sair do carro, encontrar e matar os dois ali mesmo, com direito a sessão particular de tortura na qual eu arrancava o brinquedinho dele lentamente, rindo enquanto ele imploraria para que eu parasse, e então eu poderia fazer pequenas perfurações nos testículos com a ponta da foice, para ver todos os futuros filhos dele escorrerem junto com o sangue e secreções. Em seguida eu desenharia alguns símbolos pela costa e peito do infeliz, mas não necessariamente símbolos satânicos, que eu considero um monte de baboseiras... Talvez desenhasse alguns cartoons famosos, ou frases de auto-ajuda, tanto fazia! Desde que sangrasse o bastante. Então eu finalmente me voltaria para Annie e...

Não parecia possível, mas eu acabara de constatar que talvez fosse incapaz de mata-la.

Dirigi freneticamente até meu refúgio e me atirei na cama. Os pensamentos iam a mil por hora, e não conseguia conter a culpa. Era surreal, improvável, impossível que eu fosse incapaz de matar um humano. Não que eu não fosse conseguir se tentasse, mas simplesmente me sentia incapaz de tentar. Annie definitivamente estava me fazendo mal, e aquilo precisava acabar.

Reuni forças no dia seguinte, saí cedo da cama e rumei diretamente para a periferia, buscando aquele monte de moleques trombadinhas que vivem pelos becos cheirando cola de sapateiro e executando pequenos assaltos nos desavisados. Separei a maior foice que tenho e levei comigo. Não tive cautela nem precaução, apenas eliminei um a um, na tentativa reles de amenizar minha sede por morte... Não funcionou. Saí de lá pior do que cheguei, ainda muito perturbado com a imagem de Annie rumando para o bosque com aquele desgraçado. Naquela noite eu não daria aula para a turma dela, mas sabia que nossos horários na universidade iriam coincidir, por isso fiquei aguardando que ela fosse apanhar o carro.
Abordei-a assim que desativou o alarme.
    - Quem era aquele com você ontem? - perguntei enfurecido, descontrolado, me desconhecendo. Ela inicialmente sobressaltou-se com minha abordagem, mas em seguida devolveu à face a expressão de costumeiro descaso.
    - Em primeiro lugar, solta meu braço Johan, está me machucando. Em segundo lugar, quando isso passou a ser da tua conta? - e ela livrou o braço de meu aperto ligeiramente aborrecida quando afrouxei a mão.
    - Isso passou a ser da minha conta quando eu não aprovei a ideia de te ver indo pro mato com outro cara... Resolveu que vai sair com todos os que passarem pela frente, é isso? - eu ia me auto-inflamando, enquanto a expressão dela agora voltava para o deboche, ainda mais notório e irritante nesta circunstância.
    - Sair com qualquer um? Mas de que porra estamos falando, Johan? Será que você ainda não entendeu que não lhe devo satisfação? - E durante esta frase ela me empurrou sem força para longe da porta de seu carro, apenas para que eu abrisse espaço para ela entrar no mesmo.
    - Annie! Você não pode agir assim comigo, ouviu? Não pode! Eu fiz tudo o que você me pediu, do jeito que pediu! Qual é o seu problema afinal?

Quando dei por mim estava gritando, porque o carro já havia sido acelerado por ela e estava a caminho do portão. Eu continuei ali parado, observando o veículo se distanciar, sem acreditar que aquela discussão havia sido iniciada por mim.

Caminhei até meu carro com passos ruidosos e firmes, quase uma marcha, e rodei sem rumo pela cidade por algum tempo, tentando entender o que sentia. A raiva começou a tomar meu corpo de forma incontrolável... Ela não tinha o direito! Como ousava? Eu não conseguia parar de pensar na discussão, e no fato de ter me dito que não me devia satisfações. Em meio ao meu impulso, rumei para o já conhecido edifício onde ela morava. O porteiro tentou me impedir de entrar sem identificação, então agarrei a mão livre – a que não segurava a foice – em seus cabelos e golpeei contra a mesa por mais vezes do que seria preciso para que ele morresse. O sangue inundou minhas mãos e a mesa da portaria, e eu entrei. Desta vez não subi pelas escadas internas, e sim pela escadaria de incêndio do lado de fora do prédio. Esgueirei-me por aquela enorme peça de ferro fundido até alcançar a janela dela, a qual abri sem pudores e entrei com um estrondo. Annie estava na sala lendo, mas ao me ver ali com a foice em mãos e com sangue pingando em seu carpete, tentou escapar em desespero, mas nada a salvaria. Eu sentia tanta raiva, tanta mágoa... Não saberia descrever aquele sentimento também, com nenhuma palavra que conhecesse, então precisava apenas me livrar da causa. Ela correu para baixo da mesa, mas ao me ver aproximando talvez tenha entendido que fora uma escolha ruim, então correu para o quarto. Caminhei sem pressa pelo corredor sentindo o coração que nem tinha real utilidade saltar dentro do peito. Annie aparentemente caíra ao tentar se esconder no armário, e agora estava implorando pela vida em meio a lágrimas abundantes e gritos trêmulos. Senti uma ligeira vontade de desistir, mas precisava fazer aquilo de uma vez por todas. Acertei-a com a foice, com toda força que consegui reunir, e o sangue dela espirrou em meu rosto e pela parede salmon de seu quarto. De alguma maneira que desconheço, enquanto eu armava o segundo golpe ela conseguiu rolar para o lado e correr para a porta. Virei-me agora apressado e segui correndo atrás dela. Minha aluna alcançou o corredor do prédio, mas em vez de bater na porta de qualquer vizinho para pedir ajuda, desceu correndo as escadas rumo à garagem, comigo em seu encalço.

Annie não conseguiu chegar até seu carro, pois lancei a foice em sua direção, e o cabo a derrubou. Ela caiu entre um carro e outro, realmente encurralada e longe das vistas de qualquer possível salvador. Eu poderia ter juntado a foice e executado-a rapidamente, mas preferi recolher um pé de cabra que estava escorado na parede. Foi quando aconteceu.

Ela começou a rir descontroladamente, me encarando com os olhos zombeteiros que eu tanto detestava e desejava. Senti a raiva pulsar com força em cada artéria e veia de meu corpo. O que ela achava que estava acontecendo ali?

Eu me empenhava por desmontar seu sorriso com o pé de cabra, já um bocado desgastado pelo uso cotidiano. Sentia-me frustrado. A cada novo golpe, ela sorria ainda mais, e mesmo quando arrebentei parte de seus dentes frontais com um golpe mais preciso, ela continuava exibindo o vácuo sangrento entre os lábios, como se permanecessem ali, como se recebesse carinho terno e acolhedor. Bati com mais força na região do queixo, e vi aquele jato de sangue tingir a parede encardida da garagem. - Pare imediatamente de sorrir! - Berrei sentindo a jugular pulsar, ela parecia não ouvir. Não deveria ser assim! Estava tudo errado! Eu não estava lhe oferecendo prazer! Ou estava?

Tentei por mais algumas vezes, mas ela não morria e nem parava de rir. Já havia uma enorme poça de sangue ao seu redor, e nada parecia ter mudado, até que eu finalmente compreendi. Eu não podia mata-la! Eu era incapaz de mata-la... Realmente incapaz! Não era apenas a minha vontade, mas o corpo dela não perecia como os demais... Ela era como... como se fosse... imortal? Era como se fosse... Eu. Tomado pelo choque, fiquei encarando seus olhos com a expressão completamente atônita, arregalando gradativamente os meus, perplexo. Vi quando o maxilar dela retornou ao lugar quase que imediatamente, assim que parei de bater. Os dentes faltantes começaram a crescer, e os ossos da face aos poucos retornavam aos seus lugares originais. Naquele momento, milhares de possibilidades me percorriam a mente, mas nada no mundo poderia me preparar para o que estava por vir.

Annie apoiou-se no chão e estendeu a mão para que eu lhe ajudasse a levantar... E pasmem! Eu ajudei.

Ela passou a costa da mão em todo o sangue que se espalhava pela testa e pelas maçãs do rosto, e finalmente começou a falar.

Hoje estou aqui, sentado escrevendo este relato, e ainda sinto os pelos da nuca arrepiarem ao lembrar daquela noite. Independente do que tenha significado para ela, certamente aquele acontecimento foi a linha divisória entre tudo o que vivi até ali, e meu desejo por tornar-me mais apresentável, minhas novas ambições, minhas novas buscas... Tudo hoje depende do fato dela ter me dito com todas as letras naquela noite, após rir sonoramente em um misto de piedade e zombaria... Bem, eis o que aconteceu:

Annie estava de pé e caminhou em minha direção. Seus dedos envolveram os cabelos de minha nuca, e ela me beijou intensamente, espalhando o sabor de seu sangue por todas as minhas papilas gustativas. Em seguida me encarou severamente, como quem repreende uma criança levada, e disse em alto e bom tom:
    - Sinceramente, Johan... Pelo jeito que você me toca, pensei que era mais forte! Bate como uma moça! O que é isso? Eu esperava mais de você!
    - Ahn... - franzi a testa confuso. Não havia muito o que fazer ali. - Mas como você...?
    - Como eu não morri? Ora Johan, você me subestima... Acha mesmo que nunca tive um namorado ciumento antes? Uma mulher precisa desenvolver suas próprias defesas! Não acha? Tenho certeza de que você não fez por mal querido, por isso lhe perdoarei desta vez e não lhe maltratarei, mas da próxima vez que tentar me matar, juro que não vou brincar de teatrinho com você me fazendo de vítima para alimentar seus joguinhos sexuais – e neste momento ela fechou a mão em torno de meu pênis por cima do meu jeans – e então eu te capo quantas vezes forem necessárias, todas as vezes que o seu bichinho crescer novamente. Estamos entendidos? - Agora ela parecia determinada, e até cruel, eu não podia compreender.
    - Mas o que diabos é você? - Indaguei em um misto de irritação e constrangimento.
    - Ora, como assim “o que”? Assim você me ofende, meu querido... E você deveria parar de me comparar a esses diabos diáfanos que circulam por aí... Definitivamente não sou um deles...
    - Mas então o que...?
    - Seja educado, por favor e aguarde enquanto termino de falar, sim? - Ela parecia definitivamente uma professora de jardim de infância falando daquele jeito. - Agora é minha vez de lhe dar uma aula, Johan. Você lembra quando sua querida mãe veio à Terra e se fez carne para desfrutar dos prazeres mortais, e acabou fazendo você? - Ela parecia não se importar com o local ou com a sujeira, e eu simplesmente assenti com a cabeça, como um boi amestrado. - Então, depois de você ter fugido de casa, ela decidiu retornar e acabou fazendo novamente, mas desta vez foi proposital... Ela aprendeu enquanto estava com você que era útil ter esses monstrinhos espalhados por aí, fazendo o serviço que ela tem preguiça de fazer em larga escala, e então ela me fez. Não é encantador? Mas confesso que se eu soubesse que tinha um irmão tão gostoso já teria procurado por ele antes, e isso é tudo que você precisa saber! - Ela finalmente retirou a mão de meu pênis, mas não antes de dar uma última apertada.
    - Então... você é...?
    - Sim, seu imbecil. Sua irmã, filha da Morte, filha da sua mãe.
    - Então... Aquele cara que você levou para o bosque...
    - Sim, ele está morto, qual é o seu problema afinal? Ainda essa crise de ciúmes, Johan? Esperava que meu irmão mais velho fosse mais seguro de si, sinceramente! - A ironia dela parecia não ter fim.
    - Eu não estou com ciúmes de você! - Finalmente consegui cair em mim – Aquilo foi apenas...
    - Ah, claro Johan, vamos fingir que acreditamos nisso, okay? - Ela piscou de modo forçado, deixando claro que estava sendo sarcástica. - Agora me dá licença... Se você já sabe quem eu sou, não vejo muito sentido em vivermos próximos um do outro. O objetivo é manter a discrição e cuidar do próprio umbigo... Vou indo nessa.

Ela me empurrou para o lado, e seguiu até seu carro. Caminhei em passos largos e segurei seu braço, mas ela simplesmente me olhou nos olhos e sussurrou algo como “ah, desculpe, esqueci de me despedir!” E então me beijou novamente, e entrando no carro completamente banhada de sangue, ela seguiu para fora do edifício, rumo à eternidade.

Revirei o apartamento todo, buscando entre as coisas dela algum motivo para que retornasse até ali, mas como se revistasse minha própria casa, não encontrei nenhum. Annie era como eu, então sabia que eventualmente se faz necessário deixar toda uma vida para trás e recomeçar do zero em outro lugar. Voltei para casa naquela noite ainda incrédulo, mas logo caí em mim e compreendi que não poderia tê-la matado mesmo que ela fosse mortal, pois alguma coisa dela agora vivia em mim, e eu não conseguiria lutar contra isso jamais. Annie plantara em mim uma semente mortal, humana, latente e dolorida, e agora se fora, deixando para trás toda essa dormência em meu peito, esse nó em minha garganta, esse buraco negro em minha existência...

Hoje, após minha jornada em busca do auto-conhecimento, da boa apresentação e dos bons costumes, partirei em outra jornada: em busca de Annie, que jamais permitirei escapar de mim novamente, e custe o que custar ficaremos juntos... Até que a Morte nos separe.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Hortelã e Alecrim

Senti-me completamente insano em beijar as sandálias dela. Eram sandálias simples de borracha na cor preta, pequenas para acompanhar o tamanho dos pés, ligeiramente desbotadas pelo tempo longo de uso, mas o mais importante: eram as sandálias dela, e eram também as únicas coisas que lhe pertenciam que haviam restado em meu lar.
Era interessante retornar àquela casa para só então sofrer novamente por amor. A casa que pertencera à minha infância e adolescência, onde sonhei e desisti de sonhos, onde recebi pessoas que jamais vira na vida durante as festinhas particulares que embalaram minha juventude, e especialmente onde iniciei e reatei a maior parte de meus romances, marcantes ou não. Era exatamente ali que eu escondia minhas memórias, boas ou não. E agora, após tantos anos vivendo em outros locais, as circunstâncias fizeram o apartamento no centro perder a qualidade de habitação e lá estava eu de volta à casa.
Passamos um longo período juntos, reformando o quarto e arrumando as coisas no lugar – esta parte em especial cabia mais a ela do que a mim, levando em conta que nunca fui lá o melhor dos decoradores – e realmente acreditando, sonhando em uníssono, que a partir daquele período nós dois seríamos bem mais felizes, iríamos esquecer os infortúnios pelos quais vínhamos passando e daríamos um novo parágrafo inicial às nossas vidas, ao romance e a todo o resto. A casa ainda precisava terminantemente de muitos ajustes, mas me habituara a viver em um cenário decadente – que julguei sempre ser quase poético – e mesmo assim não tardaríamos a colocar tudo em ordem, ou pelo menos aquele era o meu plano inicial.. Agora, agora... Agora seremos felizes. Mas não fomos.
O estado de letargia que acometeu-nos nos meses seguintes foi tamanho, que nem me dei conta do tempo que já havíamos perdido no ano que mal entrara. Me sentia um completo inútil, dedicando-me apenas aos meus escritos, enquanto ela se ocupava com os serviços simples de designer no computador ou os trabalhos acadêmicos que começavam a se amontoar em sua mente e em seu HD externo. Comecei a imaginar como reagir diante deste marasmo que tomou-nos de chofre. Trocávamos a noite pelo dia, e eu sabia o quanto isso não ia bem, mas mesmo assim por alguma razão me sentia impotente diante da responsabilidade de encontrar alguma solução. Tentei reunir ânimo por diversas vezes para levantar no horário, organizar as coisas, compreender que, embora eu quisesse, jamais poderia viver apenas de escrita, pois isto de fato é uma regalia para quem já tem algum capital ou para quem pelo menos possui um tanto mais de talento do que eu. Mas não consegui reunir forças de lugar algum, e ela se sentia cada dia mais oprimida na atmosfera âmbar que nos engolia como um dragão de papel em meio ao carnaval chinês, colorindo as ruas e deixando um rastro-vácuo atrás de si em meio à multidão. Nós éramos o rastro-vácuo do mundo.
Sentia-me por vezes motivado em momentos que ela se queixava de não encontrar mais sentido na própria existência. Eu sabia que ela possuía talentos que eu jamais poderia sonhar em me aproximar sequer, e a via desperdiçando-os com amenidades e proezas que a maioria aprecia apenas como decoração. Sempre repeti exaustivamente que ela recolhesse todas as qualidades que possuía e saísse por aí as expondo ao mundo. É claro que havia o medo de perde-la - aliás, este medo era o mesmo que se alojara em mim desde que ela foi minha pela primeira vez – mas o que mais eu poderia fazer? Um dragão não deve ser aprisionado entre grades. A ele deve ser permitido todo o céu para voar, cidadelas inteiras para tostarem ao calor de seu fogaréu, uma mitologia inteira para ter as páginas e pergaminhos adornados com sua presença... Um dragão deve ser livre e, por isso, a deixava livre na esperança de que um dia retornasse ao simplório e diminuto lar que cultivara com esmero para ela, dentro de meu peito amante e eterno admirador. Então, quando ela começava a lamentar-se em busca de um sentido para a vida, eu sentia aquela animosidade e adrenalina, sentia que deveria de fato resolver as pendências que negligenciamos ao longo do tempo perdido e que, se não podia me comparar a ela em termos de talento, que pelo menos estivesse aqui como suporte, para que quando ela chegasse até o topo do que a vida lhe permite – ou seja, quando chegasse ao ponto mais alto do céu em seu voo noturno – eu pudesse ao menos ser um pequeno motivo para que ela retornasse para a Terra com intenção de dar uma boa olhada no que deixara para trás. Era assim que eu a via, voando por entre as nuvens e brilhando com a intensidade de mil sóis. Mas não, aquele não era o momento para dizer tais palavras. Talvez eu tenha esperado demais, e perdido o ponto exato de minhas intenções.
Como era de esperar, em curto prazo de tempo, cá estava eu com meus planos adiados, tentando equilibrar ora aqui, ora ali, quando ela decidiu voar por si só, sem precisar mais sequer de meu suporte para tal – e logo pude constatar que havia a perdido de vez, já que esta fora de fato a minha única função, e eu tinha plena consciência disso. Ela parecia prometer demorar pra voltar, e se voltasse, talvez viesse apenas recolher o pouco que deixara pra trás. Na dúvida, escondi sua sandália e preservei-a no local mais seguro que pude encontrar, como um troféu ou talismã. Como a única memória física, palpável, do que um dia foi meu mundo inteiro. Não desejo compaixão, é importante ressaltar. Desejo apenas o conforto de acreditar que pelo menos alguma parte de meu plano fracassado valeu a pena, já que sei que agora ela será realmente feliz e realizada, longe de meu marasmo infindável.
Porém me peguei pensando, logo que minha vida se fez vazia, no que poderia ser feito então. Eu jamais conseguiria fazê-la acreditar que estava realmente disposto a tentar colocar as coisas no lugar agora, que o medo de perdê-la se tornou sólido quando ela atravessou a porta da frente naquela tarde de chuva e que agora, agora sim estava pronto para o nosso recomeço, para retomar nossos planos de onde paramos, e para lhe dar o suporte que soneguei quase inconscientemente. Agora era tarde demais... Ela não estava mais aqui para pelo menos considerar a possibilidade de creditar minhas palavras – sinceras, agora eu tinha certeza – e me permitir ser a pista de pouso de seus voos ilimitados e belos. Agora restávamos apenas eu e a pilha de cinzas na qual se transformara meu coração, após receber a última graça do dragão: uma perene baforada de fogo gelado, que queima sem deixar marcas visíveis, mas que abre feridas incapazes de cicatrizar até reduzir tudo ao redor ao pó.
Lá estava eu novamente na casa, o recanto de minhas desilusões, mas ela nunca antes me parecera tão escura, tão vazia, tão... morta. Era como eu desejava estar também, mas me faltava a coragem necessária para partir em definitivo. Começava eu mesmo a desejar o que ela tanto me alegara pretender fazer, em seus momentos de sofreguidão e desespero por ver as coisas ao redor não fluírem, mudarem, tomarem um rumo diferente. Deus! Eu poderia ter desviado o caminho! Eu poderia ter lutado mais! Poderia tê-la aprendido, tê-la compreendido, tê-la ajudado. Mas jamais, jamais poderia tê-la prendido a mim. Não se amarra um dragão a uma estaca com corrente, mas... Eu poderia ter sido poste, torre, muralha... poderia ter sido mais forte, mais seguro... Poderia ter sido tudo. Não fui. Não bastei, nunca poderia ter bastado... pois a pessoa forte que eu apresentava ser quando precisava sustenta-la retirava forças justamente de todo o amor que sentia por ela, e por todo o desejo incontrolável de fazê-la feliz. Agora que as forças se foram, não havia mais como ser muralha ou fortaleza. Só poderia ser toco cortado ao meio, perdido na grama alta, nada mais.
Decidi que acabaria de uma vez com isso, e eu mesmo agora daria meu jeito de alçar voo em direção ao mais alto dos céus, na vã tentativa de acompanha-la. Seria o suficiente para vê-la por uma última vez, já que ela se fazia completamente inacessível e fora de meu alcance. Decidi que não seria mais neste plano que eu lhe daria suporte, uma vez que falhei na tentativa de retribuir toda a felicidade que ela me proporcionara, e em uma tarde exatamente idêntica à que ela se foi, também me fui, parti sem volta, para o mundo dos dragões.


Referência ao texto "Os dragões não conhecem o paraíso", de Caio Fernando Abreu.
 
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