Acordei
pensando em tornar-me mais apresentável. Quando se diz
“apresentável” no sentido literal, diz-se igualmente
“pessoa digna de ser apresentada”. Se consultados os amigos
“Aurélios” ou “Houaiss”. Diz-se também que a
pessoa em questão faz por merecer - ou se faz digna, como
preferirem - de ser mostrada, exibida como mercadoria, para os outros
do convívio dele ou dela que apresenta; Aceitável,
moderada, ligeiramente corrigível. Trivial, e sem provocar
grandes escândalos. Apresentável. Eu seria dali em
diante.
O
primeiro dia foi a barba, que já cobria o queixo e boa parte
do pescoço. Mesmo que a aparência que escolhi manter
fosse jovem, aquela penugem grotesca me envelhecia e fazia parecer
cada vez menos higiênico. Livrei-me da barba no primeiro dia.
No
segundo dia, as roupas. O armário transbordava de roupas
novas, quase sem uso, que minha última namorada - e quando
digo última, se sinta a vontade se quiser valer-se da quantia
de tempo que a palavra tende a conotar as vezes – me forçou
a comprar, e que agora roubavam-me o precioso espaço antes
ocupado por Hesse, Miller ou Anaïs Nin. Usaria aquelas roupas,
afinal, custaram-me tanto dinheiro quanto tempo dentro de lojas
experimentando-as, em mais uma tentativa errônea de manter uma
mulher ao meu lado por fazer suas vontades em vez de expor minhas já
tão parcas virtudes. Mais um artifício dentre tantos,
para tentar preservar o amor de uma mortal, sabendo-me indigno do
mesmo. Usaria algumas daquelas roupas dali em diante, afinal, já
bastava de andar roto por aí. Daria preferência às
camisas sociais e ternos de cores neutras, mas os suéteres,
destes passaria longe. Para o incinerador com os suéteres!
Certamente eles são a pior invenção humana já
vista, depois de Back Street Boys.
Não
sei a quem estive tentando enganar... Mais provável que a mim
mesmo, por forças do Destino que há tempos não
vem jogar um pôquer comigo. Se a Morte soubesse disso, ficaria
realmente muito aborrecida, já que ela lhe pediu com toda a
gentileza que pode encontrar para ficar de olho em mim sempre que
pudesse – eu não deveria ter essa informação,
mas o Destino sempre fala demais. Hoje, no terceiro dia após a
grande decisão de me tornar aceitável, decidi relatar
em linhas mais uma parte de meu tão extenso diário de
modo um tanto mais moderno, e pela primeira vez estou escrevendo no
computador. Me disseram que era prático aprender a usar essas
maquininhas para as aulas na universidade. Lembro quando as inovações
tecnológicas começaram a tomar conta do mundo, e
popularizarem-se entre os mortais. A princípio tive
dificuldade de aceitar a convivência. Uma característica
que me compete é a capacidade de adaptação, mas
no ponto de vista que precisa envolver fibra ótica e código
binário, confesso, prefiro o bom e velho pergaminho
envelhecido, tão bonito em contato com a pena untada de tinta
e a caligrafia que preservei do período imperial! Mas não
dá pra fazer isso. Infelizmente, não dá.
Mas
devo admitir que os pergaminhos com o tempo vão se tornando
gastos, enquanto os arquivos que guardo no email tem prazo de
validade... Até quando durar a internet. Tenho utilizado-me em
demasia destes recursos tecnológicos desde que surgiram. Minha
necessidade é passar-me por igual. Por sorte a aparência
que conservo durante o dia é de mortal comum, e minha mãe
agraciou-me com uma das melhores feições que poderia. A
pele pálida e os olhos azuis profundos e significativos vem
arrancando suspiros das mulheres – e depois que a sociedade se
tornou tão liberal até mesmo de alguns homens – por
onde passo. O detalhe porém que mais aprecio nesta imagem
esculpida pelas mãos ossudas da própria Morte com a
qual fui presenteado são os cabelos finos, negros como a
imensidão do espaço, que me fazem lembrar de onde venho
todas as vezes que encaro o espelho. Mas como possuo de longe a mãe
mais ingrata e egocêntrica de todas, ela não poderia
deixar de dar o retoque final, para que eu parecesse ser de fato sua
imagem e semelhança: A aparência noturna.
Vamos
falar da Morte, para início de conversa. Todas as vezes que me
propus a documentar algum fato marcante dessa minha jornada milenar
no mundo dos homens, precisei abrir um pequeno parêntese para
lembrar de onde vim, e principalmente: Para ter a oportunidade de
ofende-la um pouco em palavras. Talvez uma parte de mim tenha a
esperança de que um dia algum mortal encontre esses
documentos, e os publique como ficção. Nossa, como sou
fascinado pela literatura mortal! A capacidade de criar dos homens
vem a ser quase tão sublime quanto a capacidade de destruir da
morte. Se somos nós – filhos da destruição e
do caos - os arautos da morte, seriam os homens os interinos de deus?
Eis uma questão singular que jamais consegui solucionar, e nem
mesmo o Destino, com toda sua sabedoria e graça, foi capaz de
trazer-me maiores esclarecimentos sobre o assunto, e sinceramente já
desisti de procurar respostas para esta e para milhares de outras
dúvidas. O que preciso deixar claro nestes relatos é: A
cada cem anos, a Morte – safada do jeito que é – resolve
passar uma curta temporada na Terra, com fins de conhecimento e
aprendizado dos homens. Isso pode parecer até culto da parte
dela, quando o aprendizado em questão não acaba sempre
se transformando em anatomia. Existe a lenda de que ela possui uma
lista e leva cada um no momento em que foi determinado pelo Destino,
mas o coitado na verdade nada tem a ver com o sadismo dessa vadia.
Ela, a Morte, leva quem bem entende, e na hora que bem entende. Passa
dias e dias, anos e anos, em seu refúgio sombrio, tramando
milhares de maneiras diferentes de acabar com a raça dos
humanos, animais e demais criaturas viventes. Ela, com suas mãos
ossudas e cadavéricas, costuma as vezes até matar
pessoalmente alguns exemplares da coleção divina,
induzindo-os ao suicídio ou simplesmente colocando o pé
na frente para que eles tropecem no meio fio. Por vezes ela
encontra-se tão ocupada infernizando uma família com
quem não simpatizou, ou torturando um cidadão em quem
enfiou alguma doença crônica que até se esquece
de outros mortais, e eles acabam vivendo mais tempo do que deveriam.
Este é o caso daqueles idosos que aparecem no livro dos
recordes, tendo vivido mais de um século ainda lúcidos
e cruzando nossos passeios. Aí quando chamam a atenção
para o caso, ela lembra de fazer seu trabalho e vai lá
resolver o problema. Ela e esse seu ego enorme, adorando os cultos
pagãos que são levantados em seu nome, e
principalmente: adorando o medo que os mortais se acostumaram a
sentir com a singela menção de seu nome. O Destino acha
que aqueles que realmente não a temem, e que realmente esperam
por ela, até de forma provocativa em certos casos, são
os que ela mais detesta e despreza, preservando-os para padecerem em
meio as desgraças que seus próprios semelhantes e
ancestrais criaram. A imundice irreversível na qual
transformou-se o mundo deles. Discordo. Acho que os que não a
temem conseguem parecer, ao seu modo, ameaças a sua petulância
e invulnerabilidade, e que por conta disso ela acaba evitando o
contato até que eles a irritem muito, ou até o momento
necessário.
Acabei
por perder-me nas divagações sobre o caráter
profundamente duvidoso da Morte, e esquecendo que o objetivo
principal é relatar sua atividade secular. De volta a
anatomia... Durante essas visitas a Terra que ela mesma decidiu fazer
a cada cem anos, ela costuma materializar-se em um corpo mortal –
sendo sempre o topo do padrão de beleza genérico da
época – e passear por entre os humanos, experimentando seus
costumes, gostos e culturas. Até aí tudo pareceria
bastante simples, se ninguém percebesse que ela é a
Morte e tudo o mais, o problema é que eventualmente ela
resolve beber além da conta, se drogar além da conta e
comete alguma atrocidade. Há mais ou menos mil anos, eu fui a
atrocidade da vez. Ela decidiu desfrutar de um momento de luxúria
com um mortal e o corpo que ela materializou passou a portar uma
nova... Será que eu posso chamar de vida? Vendo pelo lado
mitológico da questão, eu seria fruto da junção
da vida e da morte. Seria então um semi-morto, um semi-vivo,
um morto-vivo, ou como preferirem chamar. O importante é que
naquele ano a Morte gerou a vida, e isso abalou toda a estrutura do
universo. Vim ao mundo em forma humana, mas os dons da Morte logo
tratariam de revelar minha verdadeira natureza. Durante o dia parecia
o bebê mais bonito que já se havia tido notícia,
rosadinho e saudável, como essas parafernálias de
revistas de bebê exibem nas capas, mas durante a noite assumia
a imagem da criatura bizarra que havia me parido, e a pele ressecava,
cadavérica, os dedos assumiam uma aparência ossuda e
medonha, e os dentes tornavam-se presas afiadas, prontas para se
alimentarem do medo mortal. Nem preciso dizer que encontros noturnos
não são meu forte, quando estou tentando levar alguém
para a cama. Ela não estava realmente interessada em mim, mas
viu em meu nascimento a possibilidade de um ajudante gratuito, melhor
do que precisar lidar com certos demônios mercenários, e
me levou consigo para o refúgio onde habita. Cresci como seu
interino, aprendendo a profissão da família. Pronto
para ceifar a vida de qualquer criatura que respirasse. Atingi a
forma adulta, a forma de atualmente, mas definitivamente não
estive satisfeito com o modus operandi de minha mãe.
Não é que eu seja um modelo de graça e
benevolência, e acredite que os mortais devem viver e desfrutar
de suas existências doces e pirilampas. A alguns deles eu mesmo
fiz questão de proporcionar o fim mais trágico e
sangrento possível, mas julgo desnecessária essa
necessidade que ela possui de limitar-se a sua função,
quando dona de tamanhas habilidades. Até mesmo o Destino
precisa cruzar os braços quando ela entra em ação,
e lá está ela, cumprindo as ordens de quem quer que
seja, eliminando os mortais como um leão amestrado. Perdi a
paciência, e como todo bom jovem rebelde, fugi de casa.
Não
sei se fugir é uma palavra adequada, já que ela sabe
exatamente onde estou a todo tempo. Não sei se a esta altura,
tantos séculos depois, eu já poderia ter poder
semelhante ao dela, e permitir que se aposentasse, mas a verdade é
que decidi fazer permanentemente o que ela faz a cada século,
e viver entre os mortais, alimentando-me de seus medos e
preocupações, aterrorizando-os com o nome e poder de
minha mãe e principalmente: tentando entender o que eles tanto
vêem de interessante nessa dádiva reles que possuem - a
vida. Acontece que quando ela permitiu que eu fugisse para a Terra e
não veio atrás de mim, sabia o que estava fazendo. A
desgraçada sabia o que eu enfrentaria pela frente, e as
evidências de meu erro logo começaram a aparecer. Como
eu poderia, tendo vivido até então nos domínios
da Morte, sobreviver entre criaturas tão hostis e traiçoeiras
como os humanos? Eu rodei o mundo e conheci suas maravilhas
geográficas, mas nunca vi em toda minha existência
criatura com maior capacidade para o mal do que o próprio
homem. E pior: o mal é feito contra os de sua própria
espécie. Não sei se os amo ou desprezo por isso.
Precisaria
me esconder a noite, e isso tornou-se óbvio desde o começo,
quando em meus primeiros dias na Terra alguns camponeses correram
atrás de mim com tochas. Humanos estúpidos! Mas esse
período de fuga serviu para que eu descobrisse que meu corpo
pode se regenerar com a mesma facilidade que aterrorizo qualquer
portador da vida, mas não é por isso que vou sair
oferecendo meu couro para qualquer um que quiser me espancar ou
queimar vivo. Não sei se por defeito de fábrica, mas
sou capaz de sentir dor e eis uma sensação com a qual
não aprecio compactuar.
A
redoma cristalina que os mortais teceram em torno do oculto e
desconhecido é o que tem me fortalecido. Caminho por entre os
homens com destreza e segurança, crente de que qualquer um
pode servir-me de alimento. Posso comer, como qualquer um deles -
Como e como, em ambos os sentidos – mas o meu alimento real é
o medo, a fuga, o desespero... A súplica pela centelha doce e
cálida que é a vida, o sopro nas narinas de Adão.
Eu prefiro retirar deles o bem mais precioso, para que não me
falte, para que não enfraqueça. Dos que ainda não
pretendo me livrar, furto um ou cinco anos de vida restantes, e os
absorvo. É assim que mantenho a aparência jovial e o
poder percorrendo o corpo, morto ou não. Tenho pulso, tenho
calor, mas não tenho a tão estimada alma da qual se
fala a respeito na literatura e nas conversas de bar. Nunca me fez
falta, mas confesso que por vezes sinto uma certa necessidade de
estar com um deles, os vivos. É claro que vivendo no mundo
deles, convivo diariamente com diversos, então a necessidade
que sinto é um tanto quanto mais íntima. Gosto de
seduzir as mulheres, gosto de sair com os amigos pra tomar um drinque
após o expediente, mas em casos como estes preciso executar
alguns serviços antes. É prático: a aparência
noturna obviamente vem quando o sol se vai, mas se eu atingir uma
certa cota de mortes em alguns dias certos, posso garantir uma boa
temporada na qual meu corpo não se transforma... É
quase como a Morte dizendo “muito bem, Johan, fez pipi no
peniquinho e agora mamãe vai te dar um presente”. Então,
em alguns anos, chego a eliminar famílias inteiras, dezenas de
operários, centenas de prostitutas e eventualmente até
algumas crianças malcriadas que importunam a harmonia de meu
estimado Tchaikovsky enquanto brincam aos berros no corredor
do meu andar. Atendida a cota anual, torno então a busca-los,
procurar pela simpatia e principalmente: pelo amor que eles podem me
oferecer. É quase um vício em ambos os casos,
seduzi-los e elimina-los, não necessariamente nesta ordem. Foi
buscando a convivência com os mortais que iniciou-se esta
história que vos narrarei.
Alguns
anos atrás decidi fazer usufruto de meu Pós-Doutorado
em Sociologia – aí uma vantagem de viver tanto tempo: poder
me graduar em quantos cursos decidir fazer – e tornei-me –
pasmem, através do método tradicional de concurso e
entrevistas de emprego – professor universitário. A
aparência jovem na época era um problema, então
decidi deixar a barba crescer. Escrevendo agora consigo rememorar a
razão de ter andado tão desleixado nos últimos
semestres. Acabo de sentir falta da barba ao passar a mão já
acostumada com os pêlos grossos e desorganizados sobre o queixo
e descobri-lo nu. Acredito porém que foi a lembrança
deste período que trouxe-me a sensação
nostálgica, não a ausência dela... Mas não
posso permitir-me divagar, preciso contar essa história de uma
vez, sem enrolações. Acho que é meu inconsciente
propositalmente me fazendo tentar evitar, mas seguirei em frente,
custe o que custar.
A
universidade era o campo perfeito para caça. Alunos jovens e
atraentes, gozando de muitos e muitos anos de vida pela frente para
que eu usurpasse... Jovialidade na vitrine, longevidade em
liquidação. Algum tempo se passou desde que comecei a
exercer a profissão efetivamente, mas tudo se resumia a aulas
repetitivas e rotineiras, salários ruins que mal dariam pra
sustentar um terço de meus vícios e encontros efêmeros
com jovens universitárias de peles rubras como o sangue que
lhes percorria as veias, bronzeadas pelo sol dos melhores verões.
No meu terceiro ano de magistrado uma jovem do curso de medicina foi
encontrada morta em uma parte mais deserta do rio que lambia as
margens do campus... Ela exibia um belíssimo sorriso entalhado
por uma navalha e encontrava-se exatamente como fora vista pela
última vez, com o mesmo vestido azul e o mesmo salto agulha.
Lamentei ter decidido assistir aquela maratona de batman
porque isso reduziu minha originalidade, e o caso acabou dando mais o
que falar do que eu gostaria. Decidi então que passaria algum
tempo sem executar nenhuma delas, e me dedicaria à minha outra
atividade favorita, que era observar.
Uma
nova turma iniciou o curso no semestre seguinte após as
férias. Eles eram exatamente como os outros, porque pra mim
pareciam todos iguais... Uma enorme vala de mediocridade com
carteiras de madeira velha. Nesses tempos é raro encontrar um
humano que realmente se destaque entre os demais, e tornando ao
conhecimento empírico, tornei-me cada dia menos assustador e
misterioso aos seus olhos, o que torna tudo realmente mais chato.
As
aulas começavam a me irritar quando ela apareceu. Parecia
singela ao primeiro olhar, com seus cabelos de cor preta comum, seus
olhos verdes comuns, sua pele alva e comum... Aceitável,
moderada, ligeiramente corrigível. Trivial, e sem provocar
grandes escândalos. Aceitável. Era a palavra correta
para defini-la. Sem sombra de dúvidas era dona de beleza
incontestável, mas mesmo isso não a tornava especial...
Na verdade havia algo nela que me chamava atenção, mas
definitivamente não era a beleza de sua casca mortal, apenas
não conseguia definir exatamente o quê.
Fosse
qual fosse o atrativo que via na garota, ela sentava na primeira
fileira todas as noites e eu não conseguia tirar os olhos
dela. Ela por sua vez parecia valer-se de minha inquietação
em prol de seu próprio lucro... Na época acreditei que
se tratasse de mais uma daquelas alunas oportunistas que ao
perceberem interesse pela parte do professor, passavam a tentar
seduzi-lo para obterem melhores notas ao final do semestre, caso
típico nas Universidades, mas algo me dizia que ainda não
era isso... Ela sustentava aquele risinho irônico que precisava
apenas de metade dos lábios para existir, e era esse risinho
em questão que me levava a crer cada dia mais que não
era bem este o motivo dela estar retribuindo meus olhares penetrantes
com sarcasmo. O semestre se seguiu como era de se esperar, e ela,
Annie, como soube chamar-se ao longo das aulas, permanecia a me
enfrentar como se fosse capaz de qualquer coisa, como se pudesse
medir forças comigo, e aquilo começava a me irritar
profundamente, mas havia a promessa de que não eliminaria
ninguém naquele período... Não foi bem possível
cumprir minha promessa cem por cento porque em certa ocasião
fui ao banheiro após as aulas e vi o lado esquerdo de meu
rosto assumir uma tonalidade acinzentada e envelhecida, e eu sabia a
razão. Percorri a extensão do Campus até a beira
do rio, onde sempre havia um casal qualquer namorando ou algum
drogadinho fumando um baseado, e selecionei um deles que estava
sozinho, sem nem reparar muito bem no que fazia. Retirei do bolso a
foice em miniatura que carrego comigo desde o período colonial
e entalhei um corte firme e singular no pescoço do rapaz.
Senti cada partícula daquela vida talvez nem tão
promissora aquecer-me a pele e fortalecer-me os ossos. Senti cada
gota do sangue que jorrava conspicuamente e aquecia meus dedos
invadir minha própria essência, preencher-me o corpo e
devolver-me a juventude. O cheiro de ferro invadia minhas narinas
violentamente, e eu agradecia silenciosamente por ter escolhido
alguém tão saudável. Enquanto a vida se esvaía
daquele agora cadáver, eu revia como sempre cada morte
anterior provocada por mim, e questionava se minha mãe teria
orgulho, e se isso realmente me importava. Estava feito, minha
aparência noturna estaria escondida por mais algum tempo, mas
naquela noite tive a impressão de ver um vulto movendo-se com
velocidade por entre as árvores escuras... Tentei seguir seu
rastro, mas foi em vão.
Nos
dias seguintes escutei algumas pessoas mencionarem o novo assassinato
na faculdade, e pensei que talvez fosse melhor começar a
procurar pessoas externas, para evitar aquela ladainha de polícia
que eu conheci tão bem anos antes no México. Annie por
sua vez era o que mais me preocupava... Não ela como um todo,
mas a maneira que passou a me olhar. Parecia me julgar
silenciosamente, mas por vezes sorria debochada, principalmente
quando eu mencionava algo sobre convivência em meios sociais
distintos, e por conta disso passei a observar que ela não
conversava com ninguém da sala, nunca era vista por mim usando
telefone, ou qualquer outro meio de comunicação e que
até então eu só escutara sua voz quando ela
precisava debater sobre um trabalho ou prova. Sempre fazia os
trabalhos sozinha, mesmo os de grupo, e nunca havia pedido explicação
extra sobre absolutamente nada mencionado nas aulas, mas ainda assim
obtinha excelentes pontuações ao término do
período de provas. Algo estava errado ali, e não saber
o que exatamente me frustrava ainda mais. Era hora de avançar
um nível em minha constante observação. Decidi
que dentro de algumas noites iria segui-la. Mais precisamente na
sexta-feira, que era um dia em que a maioria das pessoas da idade
dela preferiam emendar da aula para suas festinhas, sociais nos
apartamentos de amigos ou bares. Não era possível,
mesmo com toda a reclusão durante as aulas, que ela não
mantivesse uma vida social fora dali... Eu descobriria.
Até
encerrei a aula mais cedo, esperando que ela se apressasse em ir
embora, mas como se para me contrariar, simplesmente saiu andando com
toda a calma do mundo da sala até o estacionamento, como se
até me desse uma certa margem de distância para não
ser notado propositalmente. Afastei essa ideia, que no momento
parecia-me um tanto absurda e continuei seguindo-a. Se ela me visse,
usaria o pretexto de ir buscar meu próprio carro e tudo
estaria bem. Descobri que ela dirigia um modelo popular na cor preta,
e como era semelhante a escolha de meu próprio veículo,
justamente porque eu apreciava chamar um mínimo de atenção,
me senti seguro em dar a partida logo depois dela, e segui-la
mantendo uma distância considerável.
Annie
seguiu pelas ruas mais desertas no início, o que me forçava
a eventualmente mudar o caminho e deduzir por onde ela iria, para
encontra-la mais na frente e camuflar a perseguição,
até que finalmente ganhou uma avenida movimentada e eu pude me
misturar aos outros carros que se amontoavam entre um sinal fechado e
outro. Segui-la tomou-me em média vinte minutos, até
que encontrei o destino da jovem. Tratava-se de um edifício de
em média vinte andares na área nobre da cidade, onde
ela ultrapassou o portão com facilidade rotineira e
desapareceu garagem adentro. Passei direto da frente do prédio
e estacionei meu próprio carro um quarteirão a frente,
era melhor voltar andando para ser discreto. Alcancei a portaria e
sequer me identifiquei, apenas disse ao porteiro que possuía
assuntos pendentes com alguém ali dentro, utilizando-me da
aparência noturna original por alguns segundos... Ele deve ter
pensado que era uma aparição ou coisa assim, mas abriu
o portão temendo ser escolhido no lugar do desafortunado
morador.
Havia
um elevador que me guiaria com mais velocidade, mas como não
sabia realmente qual era o apartamento, preferi seguir o cheiro dela
– ainda forte em minhas narinas – pelas escadas até
alcançar meu destino final. Treze andares depois, o cheiro
intensificou-se. Cruzei a porta metálica da escadaria e segui
pelo corredor parcialmente iluminado, e quando comecei a caminhar na
direção da porta escolhida, uma das lâmpadas no
teto começou a falhar, produzindo um lusco-fusco sombrio que
me animava... Realmente gosto de efeitos especiais.
Fiquei
alguns segundos parado na porta, tentando escutar alguma coisa... Não
era exatamente isso que eu tinha em mente, mas precisava
certificar-me de que não havia ninguém no cômodo
onde aquela porta dava para poder entrar sem ser notado, mas meu
dilema não durou muito, já que a porta repentinamente
se abriu, revelando Annie com a mesma expressão zombeteira da
sala de aula. Fiquei completamente desconcertado, principalmente
porque não conseguia compreender como não escutara os
passos dela ao se aproximar da porta pelo lado de dentro. Meus
sentidos aguçados sempre funcionaram muito bem, obrigado.
Aquela era uma péssima hora para decidirem dar defeito,
levando em conta que somados à furtividade e discrição
impecáveis, são meus dons favoritos, dentre os que
possuo. “Então professor, vai ficar aí parado me
olhando ou vai entrar e explicar por que me seguiu até aqui?”
Ela espalhou as palavras pelo ar, e as mesmas atingiram meus ouvidos
com um estrondo... Só então notei que minha audição
aguçada estava funcionando normalmente.
Aquilo
havia realmente me irritado. Era a primeira vez em séculos que
me sentia completamente surpreendido... ou tapeado, que seria a
palavra correta. Segui minha aluna sem raciocinar muito bem, agora
observando o minúsculo short de algodão na cor cinza
que ela trajava em conjunto com a camiseta preta que parecia ser
vários números maior do que o seu tamanho. O movimento
que suas coxas e bunda faziam enquanto andava de costas pra mim me
prendeu a atenção até ela virar-se novamente de
frente para sentar no sofá da sala, e finalmente retomar a
palavra. “Eu sei que você me seguiu, mas gostaria de saber se
foi apenas para ficar me olhando como faz na sala de aula, ou se
deseja algo mais... Porque sinceramente não estou interessada
em ficar ouvindo cantadas baratas nem tentativas desnecessárias
de sedução. Se quer fazer algo comigo, apenas faça
e vá embora, e ambos estaremos bem”. Eu mal podia acreditar
em meus ouvidos... Aquela garota estava mesmo me desafiando? Ela não
fazia ideia do que estava procurando para si mesma com aquele apenas
faça e vá embora. Pensei que ela havia perdido a
noção do perigo, mas depois lembrei que para ela eu era
apenas um professor jovem e belo que estava interessado em sexo
casual. Era algo que ela podia oferecer.
Ponderei
por vários segundos que pareceram horas se eu daria vazão
à minha raiva e a eliminaria ou simplesmente colocaria em
prática a ideia inicial que era descobrir mais detalhes sobre
ela apenas com intuito de observa-la e aprende-la. Decidi pela
segunda opção quando a cabeça começou a
esfriar, e inventei qualquer coisa sobre realmente estar interessado
no que ela propunha. Avancei sobre ela no sofá, arranquei e
arremessei para longe o short cinza, a blusa, as peças
íntimas... O corpo de Annie parecia não apresentar
defeitos, e daquele jeito que eu a via agora, entranhando as unhas
longas em meus ombros nus, sussurrando em meus ouvidos tudo que
qualquer homem gostaria de escutar e misturando seu suor ao meu no
movimento ritmado de nossos corpos, ela me parecia a mulher mais bela
que já vira caminhar sobre a Terra. Mantivemos o entrelace por
algumas horas, terminando e recomeçando, caindo do sofá
para o carpete felpudo, e depois rumando para a cama dela. Senti
coisas que nunca havia sentido antes, enquanto nos braços de
Annie. Nunca sentira antes tanto prazer, tanto desejo e
principalmente tanta necessidade de manter-me colado a ela, próximo,
mantendo contato físico. Não haviam palavras em nenhum
dos idiomas que eu conhecesse para descrever o que eu sentia, e mal
pude aceitar quando ela deu fim à sessão de sexo e
alojou-se em meu braço. Não vi mais ninguém no
apartamento, e concluí que ela vivia sozinha ali, então
aproveitei a abertura para entrar no assunto.
- Você
vive sozinha? - perguntei fingindo curiosidade casual.
- Se
a pergunta é se moro sozinha, sim, moro. Se a pergunta é
se sou solteira, sim, sou. Agora se a pergunta é se passo a
maior parte do meu tempo sozinha...
- É
óbvio que não! Como poderia? - respondi sorrindo
malicioso, em atitude tipicamente masculina, mas ela não
sorriu de volta. Sustentou a expressão desinteressada e
apenas levantou uma das sobrancelhas mediante minha interrupção.
- ... Sim,
eu passo. - concluiu com simplicidade.
- Mal
posso acreditar... Não vejo motivos para isso!
- Não
precisam haver motivos para explicar o que não importa. É
como gosto de viver, e gostaria que isso fosse respeitado e não
transformado em tese para suas aulas, okay? - então ela
sorriu, mas não tenho certeza se foi um sorriso positivo.
-Jamais
pensei em fazer isso, Annie. Perguntei apenas por efeito de
curiosidade.
Mas
ela não parecia realmente interessada em grandes diálogos,
foi logo me entregando minhas roupas e alegando ter matérias
de outros professores para estudar, me empurrou até a porta,
deu-me um selo nos lábios e fechou a peça de madeira
“na minha cara” antes que eu pudesse lhe dar boa noite. Fiquei
parado ali, atônito, ansioso por ter mais dela... Mas logo o
efeito de seja lá o que for que ela provocava em mim foi
abandonando meu corpo, e consegui sair do prédio e dirigir até
meu refúgio. Tudo era muito estranho, até para mim...
Desejei
que o Destino aparecesse para me visitar, me esclarecer, mas ele não
veio. Nas aulas dos próximos dias então que eu não
conseguia desviar os olhos de minha aluna. Qualquer movimento que
seus cabelos faziam, seus olhares irônicos, seu ar intelectual
que surgia naturalmente... Tudo nela passara a me encantar
desesperadamente, e eu começava a ficar perdido. Tentei
aborda-la de várias maneiras na faculdade. Ela sempre cedia
até certo ponto, permitindo que eu a arrastasse para alguma
árvore num canto escuro ou para dentro de meu carro. Me
fornecia várias doses de seus gemidos, toques e carícias
viciantes, permitia que eu a possuísse, mas quando tudo
terminava, ela me descartava como um copo plástico e retomava
sua vida normalmente. Eu não conseguia mais sentir impulsos
assassinos em relação a ela... Seria difícil
imaginar um mundo onde ela não estivesse.
Aproximadamente
três meses após nosso primeiro encontro, aconteceu algo
que me deixou realmente aborrecido. Annie esperou que eu desse a
partida em meu carro e o guiasse para o primeiro portão da
Universidade, e só então levou um rapaz do curso de
Direito para o meio do bosque. Ela pensava que eu não havia
visto, mas vi, e aquilo me enervou profundamente. Desejei sair do
carro, encontrar e matar os dois ali mesmo, com direito a sessão
particular de tortura na qual eu arrancava o brinquedinho dele
lentamente, rindo enquanto ele imploraria para que eu parasse, e
então eu poderia fazer pequenas perfurações nos
testículos com a ponta da foice, para ver todos os futuros
filhos dele escorrerem junto com o sangue e secreções.
Em seguida eu desenharia alguns símbolos pela costa e peito do
infeliz, mas não necessariamente símbolos satânicos,
que eu considero um monte de baboseiras... Talvez desenhasse alguns
cartoons famosos, ou frases de auto-ajuda, tanto fazia! Desde que
sangrasse o bastante. Então eu finalmente me voltaria para
Annie e...
Não
parecia possível, mas eu acabara de constatar que talvez fosse
incapaz de mata-la.
Dirigi
freneticamente até meu refúgio e me atirei na cama. Os
pensamentos iam a mil por hora, e não conseguia conter a
culpa. Era surreal, improvável, impossível que eu fosse
incapaz de matar um humano. Não que eu não fosse
conseguir se tentasse, mas simplesmente me sentia incapaz de tentar.
Annie definitivamente estava me fazendo mal, e aquilo precisava
acabar.
Reuni
forças no dia seguinte, saí cedo da cama e rumei
diretamente para a periferia, buscando aquele monte de moleques
trombadinhas que vivem pelos becos cheirando cola de sapateiro e
executando pequenos assaltos nos desavisados. Separei a maior foice
que tenho e levei comigo. Não tive cautela nem precaução,
apenas eliminei um a um, na tentativa reles de amenizar minha sede
por morte... Não funcionou. Saí de lá pior do
que cheguei, ainda muito perturbado com a imagem de Annie rumando
para o bosque com aquele desgraçado. Naquela noite eu não
daria aula para a turma dela, mas sabia que nossos horários na
universidade iriam coincidir, por isso fiquei aguardando que ela
fosse apanhar o carro.
Abordei-a
assim que desativou o alarme.
- Quem
era aquele com você ontem? - perguntei enfurecido,
descontrolado, me desconhecendo. Ela inicialmente sobressaltou-se
com minha abordagem, mas em seguida devolveu à face a
expressão de costumeiro descaso.
- Em
primeiro lugar, solta meu braço Johan, está me
machucando. Em segundo lugar, quando isso passou a ser da tua conta?
- e ela livrou o braço de meu aperto ligeiramente aborrecida
quando afrouxei a mão.
- Isso
passou a ser da minha conta quando eu não aprovei a ideia de
te ver indo pro mato com outro cara... Resolveu que vai sair com
todos os que passarem pela frente, é isso? - eu ia me
auto-inflamando, enquanto a expressão dela agora voltava para
o deboche, ainda mais notório e irritante nesta
circunstância.
- Sair
com qualquer um? Mas de que porra estamos falando, Johan? Será
que você ainda não entendeu que não lhe devo
satisfação? - E durante esta frase ela me empurrou sem
força para longe da porta de seu carro, apenas para que eu
abrisse espaço para ela entrar no mesmo.
- Annie!
Você não pode agir assim comigo, ouviu? Não
pode! Eu fiz tudo o que você me pediu, do jeito que pediu!
Qual é o seu problema afinal?
Quando
dei por mim estava gritando, porque o carro já havia sido
acelerado por ela e estava a caminho do portão. Eu continuei
ali parado, observando o veículo se distanciar, sem acreditar
que aquela discussão havia sido iniciada por mim.
Caminhei
até meu carro com passos ruidosos e firmes, quase uma marcha,
e rodei sem rumo pela cidade por algum tempo, tentando entender o que
sentia. A raiva começou a tomar meu corpo de forma
incontrolável... Ela não tinha o direito! Como ousava?
Eu não conseguia parar de pensar na discussão, e no
fato de ter me dito que não me devia satisfações.
Em meio ao meu impulso, rumei para o já conhecido edifício
onde ela morava. O porteiro tentou me impedir de entrar sem
identificação, então agarrei a mão livre
– a que não segurava a foice – em seus cabelos e golpeei
contra a mesa por mais vezes do que seria preciso para que ele
morresse. O sangue inundou minhas mãos e a mesa da portaria, e
eu entrei. Desta vez não subi pelas escadas internas, e sim
pela escadaria de incêndio do lado de fora do prédio.
Esgueirei-me por aquela enorme peça de ferro fundido até
alcançar a janela dela, a qual abri sem pudores e entrei com
um estrondo. Annie estava na sala lendo, mas ao me ver ali com a
foice em mãos e com sangue pingando em seu carpete, tentou
escapar em desespero, mas nada a salvaria. Eu sentia tanta raiva,
tanta mágoa... Não saberia descrever aquele sentimento
também, com nenhuma palavra que conhecesse, então
precisava apenas me livrar da causa. Ela correu para baixo da mesa,
mas ao me ver aproximando talvez tenha entendido que fora uma escolha
ruim, então correu para o quarto. Caminhei sem pressa pelo
corredor sentindo o coração que nem tinha real
utilidade saltar dentro do peito. Annie aparentemente caíra ao
tentar se esconder no armário, e agora estava implorando pela
vida em meio a lágrimas abundantes e gritos trêmulos.
Senti uma ligeira vontade de desistir, mas precisava fazer aquilo de
uma vez por todas. Acertei-a com a foice, com toda força que
consegui reunir, e o sangue dela espirrou em meu rosto e pela parede
salmon de seu quarto. De alguma maneira que desconheço,
enquanto eu armava o segundo golpe ela conseguiu rolar para o lado e
correr para a porta. Virei-me agora apressado e segui correndo atrás
dela. Minha aluna alcançou o corredor do prédio, mas em
vez de bater na porta de qualquer vizinho para pedir ajuda, desceu
correndo as escadas rumo à garagem, comigo em seu encalço.
Annie
não conseguiu chegar até seu carro, pois lancei a foice
em sua direção, e o cabo a derrubou. Ela caiu entre um
carro e outro, realmente encurralada e longe das vistas de qualquer
possível salvador. Eu poderia ter juntado a foice e
executado-a rapidamente, mas preferi recolher um pé de cabra
que estava escorado na parede. Foi quando aconteceu.
Ela
começou a rir descontroladamente, me encarando com os olhos
zombeteiros que eu tanto detestava e desejava. Senti a raiva pulsar
com força em cada artéria e veia de meu corpo. O que
ela achava que estava acontecendo ali?
Eu
me empenhava por desmontar seu sorriso com o pé de cabra, já
um bocado desgastado pelo uso cotidiano. Sentia-me frustrado. A cada
novo golpe, ela sorria ainda mais, e mesmo quando arrebentei parte de
seus dentes frontais com um golpe mais preciso, ela continuava
exibindo o vácuo sangrento entre os lábios, como se
permanecessem ali, como se recebesse carinho terno e acolhedor. Bati
com mais força na região do queixo, e vi aquele jato de
sangue tingir a parede encardida da garagem. - Pare imediatamente de
sorrir! - Berrei sentindo a jugular pulsar, ela parecia não
ouvir. Não deveria ser assim! Estava tudo errado! Eu não
estava lhe oferecendo prazer! Ou estava?
Tentei
por mais algumas vezes, mas ela não morria e nem parava de
rir. Já havia uma enorme poça de sangue ao seu redor, e
nada parecia ter mudado, até que eu finalmente compreendi. Eu
não podia mata-la! Eu era incapaz de mata-la... Realmente
incapaz! Não era apenas a minha vontade, mas o corpo dela não
perecia como os demais... Ela era como... como se fosse... imortal?
Era como se fosse... Eu. Tomado pelo choque, fiquei encarando seus
olhos com a expressão completamente atônita, arregalando
gradativamente os meus, perplexo. Vi quando o maxilar dela retornou
ao lugar quase que imediatamente, assim que parei de bater. Os dentes
faltantes começaram a crescer, e os ossos da face aos poucos
retornavam aos seus lugares originais. Naquele momento, milhares de
possibilidades me percorriam a mente, mas nada no mundo poderia me
preparar para o que estava por vir.
Annie
apoiou-se no chão e estendeu a mão para que eu lhe
ajudasse a levantar... E pasmem! Eu ajudei.
Ela
passou a costa da mão em todo o sangue que se espalhava pela
testa e pelas maçãs do rosto, e finalmente começou
a falar.
Hoje
estou aqui, sentado escrevendo este relato, e ainda sinto os pelos da
nuca arrepiarem ao lembrar daquela noite. Independente do que tenha
significado para ela, certamente aquele acontecimento foi a linha
divisória entre tudo o que vivi até ali, e meu desejo
por tornar-me mais apresentável, minhas novas ambições,
minhas novas buscas... Tudo hoje depende do fato dela ter me dito com
todas as letras naquela noite, após rir sonoramente em um
misto de piedade e zombaria... Bem, eis o que aconteceu:
Annie
estava de pé e caminhou em minha direção. Seus
dedos envolveram os cabelos de minha nuca, e ela me beijou
intensamente, espalhando o sabor de seu sangue por todas as minhas
papilas gustativas. Em seguida me encarou severamente, como quem
repreende uma criança levada, e disse em alto e bom tom:
- Sinceramente,
Johan... Pelo jeito que você me toca, pensei que era mais
forte! Bate como uma moça! O que é isso? Eu esperava
mais de você!
- Ahn...
- franzi a testa confuso. Não havia muito o que fazer ali. -
Mas como você...?
- Como
eu não morri? Ora Johan, você me subestima... Acha
mesmo que nunca tive um namorado ciumento antes? Uma mulher precisa
desenvolver suas próprias defesas! Não acha? Tenho
certeza de que você não fez por mal querido, por isso
lhe perdoarei desta vez e não lhe maltratarei, mas da próxima
vez que tentar me matar, juro que não vou brincar de
teatrinho com você me fazendo de vítima para alimentar
seus joguinhos sexuais – e neste momento ela fechou a mão
em torno de meu pênis por cima do meu jeans – e então
eu te capo quantas vezes forem necessárias, todas as vezes
que o seu bichinho crescer novamente. Estamos entendidos? - Agora
ela parecia determinada, e até cruel, eu não podia
compreender.
- Mas
o que diabos é você? - Indaguei em um misto de
irritação e constrangimento.
- Ora,
como assim “o que”? Assim você me ofende, meu querido... E
você deveria parar de me comparar a esses diabos diáfanos
que circulam por aí... Definitivamente não sou um
deles...
- Seja
educado, por favor e aguarde enquanto termino de falar, sim? - Ela
parecia definitivamente uma professora de jardim de infância
falando daquele jeito. - Agora é minha vez de lhe dar uma
aula, Johan. Você lembra quando sua querida mãe veio à
Terra e se fez carne para desfrutar dos prazeres mortais, e acabou
fazendo você? - Ela parecia não se importar com o local
ou com a sujeira, e eu simplesmente assenti com a cabeça,
como um boi amestrado. - Então, depois de você ter
fugido de casa, ela decidiu retornar e acabou fazendo novamente, mas
desta vez foi proposital... Ela aprendeu enquanto estava com você
que era útil ter esses monstrinhos espalhados por aí,
fazendo o serviço que ela tem preguiça de fazer em
larga escala, e então ela me fez. Não é
encantador? Mas confesso que se eu soubesse que tinha um irmão
tão gostoso já teria procurado por ele antes, e isso é
tudo que você precisa saber! - Ela finalmente retirou a mão
de meu pênis, mas não antes de dar uma última
apertada.
- Sim,
seu imbecil. Sua irmã, filha da Morte, filha da sua mãe.
- Então...
Aquele cara que você levou para o bosque...
- Sim,
ele está morto, qual é o seu problema afinal? Ainda
essa crise de ciúmes, Johan? Esperava que meu irmão
mais velho fosse mais seguro de si, sinceramente! - A ironia dela
parecia não ter fim.
- Eu
não estou com ciúmes de você! - Finalmente
consegui cair em mim – Aquilo foi apenas...
- Ah,
claro Johan, vamos fingir que acreditamos nisso, okay? - Ela piscou
de modo forçado, deixando claro que estava sendo sarcástica.
- Agora me dá licença... Se você já sabe
quem eu sou, não vejo muito sentido em vivermos próximos
um do outro. O objetivo é manter a discrição e
cuidar do próprio umbigo... Vou indo nessa.
Ela
me empurrou para o lado, e seguiu até seu carro. Caminhei em
passos largos e segurei seu braço, mas ela simplesmente me
olhou nos olhos e sussurrou algo como “ah, desculpe, esqueci de me
despedir!” E então me beijou novamente, e entrando no carro
completamente banhada de sangue, ela seguiu para fora do edifício,
rumo à eternidade.
Revirei
o apartamento todo, buscando entre as coisas dela algum motivo para
que retornasse até ali, mas como se revistasse minha própria
casa, não encontrei nenhum. Annie era como eu, então
sabia que eventualmente se faz necessário deixar toda uma vida
para trás e recomeçar do zero em outro lugar. Voltei
para casa naquela noite ainda incrédulo, mas logo caí
em mim e compreendi que não poderia tê-la matado mesmo
que ela fosse mortal, pois alguma coisa dela agora vivia em mim, e eu
não conseguiria lutar contra isso jamais. Annie plantara em
mim uma semente mortal, humana, latente e dolorida, e agora se fora,
deixando para trás toda essa dormência em meu peito,
esse nó em minha garganta, esse buraco negro em minha
existência...
Hoje,
após minha jornada em busca do auto-conhecimento, da boa
apresentação e dos bons costumes, partirei em outra
jornada: em busca de Annie, que jamais permitirei escapar de mim
novamente, e custe o que custar ficaremos juntos... Até que a
Morte nos separe.