sábado, 24 de março de 2012

Encontro das Águas

Certo dia meu pai conseguiu algumas entradas para um passeio bem diferente. Visitaríamos uma das últimas áreas da floresta amazônica que ainda estavam de pé, supostamente intactas. Quero dizer, muitas crianças passavam anos pedindo para seus pais que as levasse ali para passear, ver as florestas tão altas quanto os prédios chineses e, se tivessem alguma sorte, até algum animal vivo. E lá fomos nós, uma semana depois. Meu pai não estava realmente animado com aquilo, mas meu coração batia forte com a perspectiva de pisar naquelas terras ancestrais, onde ainda havia vida selvagem; e não apenas prédios titânicos e autômatos.

Toda essa minha ansiedade não provinha apenas de animação, mas sim do medo. Medo de que eu estivesse esperando demais daquele passeio. Aliás, passei anos me debruçando sobre livros velhos dos meus avós maternos, enquanto observava fotos de seres magníficos que não mais existiam. Onças de boca escancarada com seus dentes prontos para o bote, aves de penas mais coloridas que o carnaval, salamandras tão pequenas quanto a ponta de um dedo, peixes que nadavam uma distância gigantesca só para por seus ovos... Tudo acabado. E eu costumava chorar, deixar ali minhas lágrimas infantes, tão inocentes. Imaginava como toda aquela vida havia se perdido e o quão isso era injusto, e tudo causado pela soberba. Sim! Soberba! Uma espécie acreditando que não precisava mais das outras. Minha alma estava presa naquele martírio eterno, melancólica como se alguma parte dela tivesse sido arrancada e destroçada.

De qualquer forma, fomos ao passeio em um dia de chuva suave. Chegamos lá e havia algumas outras pessoas se reunindo num átrio pequeno. Meu pai falou com algumas, provavelmente clientes, enquanto fiquei sentado num canto. Após vários minutos o guia entrou na sala na qual esperávamos e começou a nos conduzir para a entrada da trilha. Fui andando devagar, bem atrás do grupo, para não ter que ouvir a ladainha dos outros e para poder ter uma experiência própria, pessoal.

O primeiro passo nas folhas úmidas daquela floresta foi mileumanoitesco. Senti um pulso elétrico partindo da terra e disparando por todo meu sistema nervoso, deixando-me arrepiado. Deslumbrado, agachei-me ali mesmo e toquei o chão com a ponta dos dedos. Senti a umidade em minha pele enquanto algo acontecia em meu coração. Um sorriso, impossível de esconder, surgiu em minha tez adolescente. Olhei de soslaio para o grupo à frente, verificando se estavam reparando em mim. Ao perceber que estavam ensimesmados, arranquei meus sapatos e meias, e deixei meu pé encostar-se às folhas e galhos caídos no chão da floresta. Tal qual uma criança levada, segui-os cuidadosamente para que não vissem minha transgressão.

Estava deslumbrado pelos pequenos detalhes da mata ainda intocada. Ouvia o canto de aves, que só tinha visto em filmes e em vídeos na internet, mas nunca ao vivo. Eram de uma suavidade divina, que poderiam trazer a qualquer pessoa um pouco de felicidade espontânea. Reparei numa esperança do mais vivo verde apoiada em uma folha e me lembrei de tudo o que havia lido sobre aqueles insetos em meus livros. Fui me aproximando lentamente, querendo saber se seus membros traseiros realmente eram alongados e preparados para o salto. Quando estava a apenas alguns centímetros, ela saltou repentinamente. A beleza daquilo me arrancou o fôlego, e meus olhos marejaram.

Procurei onde o pequenino havia pousado, dei mais uma olhada para o grupo, que agora ouvia uma longa explicação sobre o passado, e segui para dentro da mata. Fui chegando perto novamente, como sabia que felinos selvagens costumavam fazer quando estavam preparando um ataque surpresa, e tentei captura-lo, em vão. Mais uma vez ele fugira de mim e se embrenhara por entre as árvores. Comecei a seguir seus saltos, concentrado naquela alegria inocente que toda criança deveria ter tido, mas que fora arrancada da nova geração por seus arrogantes antepassados. Feliz, pulei de local em local, por vários minutos, sempre perseguindo meu pequeno amigo.

Comecei a ouvir o barulho de água correndo e neste instante perdi o inseto de vista. Observei que um pouco distante de mim passava um rio bem na beira da floresta, como se esta estivesse prestes a ser coberta pela água. O estranho: aparentemente havia alguém ali. Cheguei perto devagar, com medo de que a pessoa brigasse comigo por ter me desviado do grupo de turismo. Mas, qualquer coisa, diria que tinha me perdido - e o máximo que a pessoa poderia fazer seria reclamar por algum tempo.

- Com licença? Você trabalha aqui? – perguntei quando cheguei a uns dois metros da pessoa. Percebi que era uma mulher de longos cabelos negros que escorriam por sua pele morena. Ela estava virada para o rio, suas pernas mergulhadas na água que passava lentamente por aquele trecho.

Por um momento ela pareceu não ouvir o que eu tinha falado. Deslizava sua mão na superfície da água, e eu percebi que havia dezenas de minúsculos peixes ali, como se ela estivesse lhes alimentando. Após alguns segundos, nos quais eu fiquei em dúvida se saía dali enquanto tinha a chance ou se tentava lhe dirigir a palavra novamente, ela virou seu rosto delicadamente em minha direção. Tinha traços indígenas puros, seu nariz curto e arredondado levantado num aspecto altivo e olhos puxados. Embasbacado e com o coração a ponto de sair pela boca, sentei-me ao seu lado, deixando a água cobrir minhas canelas e molhar minha calça jeans; sua beleza era sobrenatural, sedutora, feérica.

- De certa forma, sim. Trabalho aqui, vivo e sou aqui. – respondeu, voltando-se novamente para a atividade de deslizar sua mão sobre a água.

Fiquei lhe observando por minutos sem nada falar, ainda tentando entender o que ela estava fazendo na beira do rio sem ninguém por perto. Depois destes minutos, percebi o quanto deveria ser estranho um babaca lhe olhando por minutos sem falar nada – além de assustador, é claro. Abri a boca, incerto do que falar para engatar uma conversa com a moça. Mas logo que decidi sobre o que falar, ela recomeçou:

- Trouxe-te aqui por um motivo, mortal. – falou, fixando seus olhos negros nos meus com intensidade, quase agressivos. – Há muito tempo eu estou e sou esse rio, essas águas. Vi flechas e balas, remos e motores, negros e brancos, vida e morte. Mas agora estou desaparecendo, junto com meus santuários, crenças e tudo o que represento.

Algumas lágrimas vertiam de meus olhos enquanto vertigens surgiam, deixando-me inerme diante aquele ser. Cada célula do meu corpo gritava de medo e dor, querendo paradoxalmente fugir e me agarrar àquela divindade, temer e adorar. Séculos se passaram em minha cabeça, como se eu estivesse ligado às lembranças dela. Vi índios pescando, botos nadando, frutos caindo e peixes nascendo - tudo ali, naquele rio que agora era o alvo do meu amor. Ela se aproximou e encostou seus lábios nos meus, e senti um vapor deslizando e entrando em meus poros e garganta. Senti sua energia milenar me preenchendo como um todo e finalmente me deixando completo, ciente do meu amor maior transcrito de cada proteína do meu corpo.

- Carregue parte da minha essência e divida-a entre os merecedores. Preciso descansar. Peço-te que me proteja enquanto isso. Não deixe esta última essência da vida morrer. – Apesar de seu porte orgulhoso, sabia que era uma súplica desesperada da respiração final da natureza.

Afastou-se de mim e entrou na água, fundindo-se a ela. Levantei em silêncio e voltei para o grupo. Mas agora todas as sensações eram únicas. Eu enxergava cada ligação daquela floresta e a possibilidade de cada mínimo ser viver ou padecer. Percebia em cada árvore seus inúmeros habitantes, andando rotineiramente naquele perigo maravilhoso que a vida oferece. Mais do que isso: sentia-me parte daquilo, e a dor por ter de me afastar por um tempo era absurda. Mesmo assim os encontrei novamente e sequer pareciam ter percebido meu sumiço. Segui com eles, como tinha de ser, mas agora com um objetivo.

Não permitirei que a vida se esgote.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Santuário dos Prazeres

A noite possui uma beleza doce, inesgotável, por isso sempre fora muito mais agradável que os sufocantes dias que sua cidade já tão verticalizada lhe fornecia durante as incontáveis manhãs. Marcelo lembrava-se perfeitamente que desde criança possuía uma ligação intrínseca com a lua e seus mistérios, e por vezes sem conta seus hábitos noturnos lhe renderam pequenos problemas. Sua mãe quase morria de preocupação quando tinha que lhe botar da cama, dia após dias, para que ele fosse para aula. Seus poucos amigos dificilmente poderiam compartilhar suas ideias e brincadeiras, por sempre ter estado mais agitado após as 22:00. E, como todos sabem o quão crianças podem ser más, sofrera por causa da palidez fantasmagórica que sua pele apresentava e olheiras profundas que sempre marcaram sua tez tão diferente daquelas de outras crianças. Mas agora tudo isto se tornara lembranças, por vezes doloridas; mas apenas lembranças.

Desenvolvera-se num homem incomum, de poucos amigos, daqueles que dificilmente seriam agraciados como protagonista de um best-seller no qual o cara tão comum é impaciente e toma suas vontades à força. Ao contrário da vida pulsante dos guerreiros, Marcelo conservava desde criança uma passividade e frieza diante as várias situações de sua vida; mais por indolência que por falta de capacidade de tomar um controle de sua vida, como qualquer livro de ajuda poderia lhe direcionar a fazer. Por inúmeras vezes desejou ter a inconsequente força de vontade de um herói moderno, que chamaria milhões ao cinema para verem seus gritos e personificações de aparência louvável; tal qual o Perseu juvenil ou o potente Thor.

Costumava frequentar os sebos em sua cidade. Aquele que ficava perto da Praça da República era de sua preferência. Era um dos mais antigos da cidade e normalmente se encontravam novos livros. Passava horas sentado ali, solitário, quando havia alguma folga. E sempre que seus intervalos de trabalho permitiam, chegava cansado e sem fôlego. Jogava-se no canto mais distante do estabelecimento, murmurando uma breve saudação para a envelhecida dona ao passar por ela. Sentado ao chão, passava horas lendo algum pequeno livro em alemão ou italiano, e no final levava qualquer coisa para continuar a leitura em sua casa num preguiçoso modo de vida. Pensava que dificilmente qualquer coisa poderia lhe arrastar para longe de sua confortável cama e sofá; e para qualquer pessoa nova em sua vida, estabelecia rapidamente os limites. ‘Meu espaço. Seu espaço’.

Sua casa era bem pequena, mas abrigava todas suas necessidades. Como poderia ser deduzido diante a índole de Marcelo, pouco daquilo fora fruto de trabalho próprio. O apartamento havia sido comprado pelo pai e deixado. Os eletrodomésticos dados pela mãe, já em outro casamento, numa tentativa de desculpar-se silenciosamente pela distância. As poucas janelas estavam sempre fechadas, o ar carregado de um cheiro úmido de mofo e o chão obscurecido por uma camada asquerosa de poeira. Podiam ser observados livros jogados pelo chão do quarto ou desarrumados por cima de uma mesa perto da janela lacrada, além de roupas sujas e limpas misturadas numa bagunça adolescente.

Característica marcante dele era o gosto por ficar deitado em seu quarto olhando para o teto e paredes, mesmo que houvesse convites e compromissos estendidos a ele. Diante qualquer tipo de evento social, poderia até ficar animado por alguns dias, mas uma ou duas horas antes de se locomover para fora de sua vida enclausurada, o tédio o acometia. Preferia ficar ali, aprisionado com sua indolência, observando o tórrido andar das formigas perto de restos de comida ao chão ou as marcas na parede, que ocasionalmente formavam histórias tão ilusórias como daquelas surgidas por alguns tragos. Por vezes desistiu de sair com algumas garotas para apenas ficar ali ao som do relógio. E, por mais que permanecesse vazio das vontades, todas elas pareceram brotar com a chegada de Lúcia.

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Decidira ir a uma dessas livrarias de pessoas que têm dinheiro para comprar livros caros. Juntara pouco mais de cem reais para poder fazer uma pequena compra neste lugar (provavelmente daria para apenas dois livros, no máximo três), mas gostaria de comprá-los em bom estado e mantê-los dessa forma. Sentado ao chão da loja, como ocasionalmente uma ou outra pessoa pode ser encontrada, observava uma das várias estantes de Literatura Estrangeira, arrumadas por gênero, e dentro de gênero por ordem alfabética do sobrenome do autor. Estava mais do que interessado em levar a coleção de Henry Miller, com sua força tão masculina, ou até do demoníaco Rimbaud, que inspirara tantos dos seus autores preferidos. Aprisionado em suas fantasias, permanecia alheio às pessoas ao seu redor.

Após alguns minutos de abstração, percebeu que uma moça já estava há algum tempo por ali, parecendo indecisa sobre o que levar. Observou suas feições por algum tempo. Não era linda, tampouco feia. Possuía um corpo pequeno, tal quais as fadas d’As Brumas de Avalon. Conservava uma proporcionalidade bela, em cada porção. Suas roupas não eram vulgares, mas permitiam ver suas curvas e pele feéricas. Enquanto apreciava sua beleza, tão comum e natural, lembrava-se de manhãs ensolaradas num parque, dias que nunca foram seus na realidade. Quase podia sentir o sol tocando sua tez, uma vez tão indiferente a esses pequenos prazeres. Talvez ela emanasse essa felicidade terrena. Foi impelida a falar-lhe, ajuda-la, aproximar-se.

‘Com licença, você está procurando algo?’ – perguntou, com a voz trêmula por causa da falta de costume de interagir com outros humanos de modo espontâneo.

‘Ah! Sim, sim. Eu estava procurando algum tipo de paródia, sei lá...’ – respondeu Lúcia, transbordando vida, intensidade, sensações antes desconhecidas por Marcelo fora de seus livros.

Levado por tais sensações ainda não bem desenvolvidas, o rapaz lhe indicou alguns livros, entre eles a coleção infanto-juvenil do Douglas Adams. A conversa continuou, passando de literatura para cinema, e então para revistas em quadrinhos. Enquanto a conversa prosseguia, começaram a andar pela praça que ficava próxima à livraria. Observavam as pequenas flores, tão frágeis mesmo com suas cores vibrantes, além de borboletas e aves chegando e partindo com o leve bater de suas frágeis asas. Mesmo quando os assuntos do dia pareciam ter se esgotado, começaram a conversar sobre o céu sobre suas cabeças e a terra sob seus pés em qualquer dos bancos da praça. De fato, nenhum dos dois queria se distanciar naquele momento, mesmo que fosse apenas para ficarem ali parados, sem nada para fazer. E ali os dois ficaram observando as pessoas passarem, falando sobre roupas, sapatos, bancos, praças, sorvetes. Mais do que tudo, sobre a felicidade ao qual o mundo parecia submerso mesmo que para cada sorriso houvesse uma lágrima e para cada casamento houvesse um suicídio promovido pela exclusão e solidão. Marcelo, sobretudo, não gostaria de voltar para sua ignóbil privacidade.

Em algum momento seu encontro teve de terminar, para a infelicidade de ambos os jovens. Nenhum deles queria se afastar, mesmo assim o fizeram. No entanto, iriam se encontrar na casa de uma conhecida dela. Disse-lhe que sua amiga dava as melhores house parties, e que eles deveriam se encontrar lá na semana seguinte. Com esta promessa de um encontro recente, eles deixaram o espaço os manter afastados por alguns dias.

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Era uma manhã ensolarada, com pássaros de melodias divinas e aquele burburinho suave que ocorre no encontro do vento com as folhas, quando voltaram a se encontrar. Encontrou-a em frente à sua casa, ela mantinha em sua tez um sorriso encantador e forte, com aquele pequeno sinal um pouco acima de sua boca e cabelos curtos num desafio tácito ao comum. Sua vida e espontaneidade abateram-no imediatamente, levando-o a um estado inerme, de quase asfixia pelo contraste entre a luz e as trevas. A caminho do local da festa, a conversa andou calmamente e sem seguir os roteiros previamente estabelecidos pelos dois, numa óbvia conexão.

A casa era estonteante, não importando quantas vezes alguém a visse. Erguia-se imponente entre as duas pequenas construções que a cercavam, sua grandiosa porta da mais cara madeira abria-se depois de um longo caminho de pedras esculpidas cuidadosamente e de algumas vagas dum estacionamento cercado por grama de verde intenso, como tudo mais ali. Alguns carros já estavam posicionados displicentemente sobre o concreto quente, enquanto uma estátua de uma mulher desnuda com seus braços estendidos acima da cabeça, entrelaçados, permanecia bem no centro daquela porção aberta da propriedade. A mulher, imóvel sobre seu pedestal, seus seios fartos e curvas acentuadas, dispunha de um sorriso belo e convidativo, talhado cuidadosamente.

Dando um passo para dentro da casa, abria-se um mundo quase onírico, mesclando de modo tenaz o refinamento burguês com sensações divinas, como se ali fosse o templo de uma divindade moderna para burgueses com religião. Para qualquer pessoa com uma sensibilidade elevada, como Marcelo, percebia-se a fina linha entre os paralelos perdendo vitalidade, tornando-se ínfimas, permitindo que o que se acha que é imaginário se mescle com o que se acredita ser real. Um grandioso aquário repleto de peixes de cores vibrantes permanecia num dos cantos da Sala de Estar, esbanjando seus gobídeos e estrelas-do-mar na água salgada. Dois sofás de um vermelho intenso acomodavam cinco pessoas, que conversavam calmamente. Marcelo percebeu a peculiar leveza que pairava sobre eles, embriagados pela presença dos outros; assustou-se com uma mulher de nariz adunco e cabelos tingidos de branco que trajava uma fantasia de mulher-gato, mas ainda assim falava naturalmente, como se não fosse nada absurdo. Um homem vestido com smoking branco, de grande porte e pele negra, olhou para o casal de relance e deixou à mostra seus dentes brancos. Lúcia sorriu de volta, sintonizada com o ambiente, enquanto seu amigo ainda ia se adaptando às diferentes vibrações presentes naquela casa.

A cada passo naquele santuário de carne e espírito, os dois abandonavam vulgarmente seus prensas e moldes, deixando-se embeber no clima erótico de cada luz turva e cheiro forte. Passaram por um corredor imenso, com inúmeras portas fechadas à esquerda; uma única aberta ao fim, deixando à mostra uma larga cama de casal e um solo rapaz de aspecto intelectual jogado na cama, sua camisa verde de abotoar desprendidas de sua bermuda cáqui. O rapaz nem olhou na direção do casal, que parara na porta por um instante, interrogativos. Seguiram adiante, passando por uma belíssima cozinha branca e chegando aos jardins, sublimes. Um casal veio em nossa direção, belos como anjos de pele clara e sorrisos como o paraíso, revirando os sentimentos no corpo de qualquer mortal que os visse e quase os submetendo à vontade de se ajoelhar e lhes beijar os pés. Marcelo apertou a mão do serafim, sentindo o aperto majestoso trancafiá-lo, deixando-o sem oxigênio. Os dois passaram, seus cabelos adornados com flores de diferentes cores como aquele do quadro de Caravaggio, alegando ter que receber os outros convidados.

Atônito, Marcelo encarou Lúcia, recebendo em retorno apenas um riso descontraído de uma criança que descobre agora as flores azuis e vermelhas nos bem cuidados jardins de sua avó. Não se aguentou e riu também, liberando a tensão que guardava em seu coração e embarcando no clima suave e paradisíaco daquele local. Sentaram-se em uma cadeira de balanço que se misturava perfeitamente em meio às begônias e lírios, além das pequenas abelhas que sobrevoavam por ali. Viram outros casais pelo local. Um casal de meninos de aparência inocente e infantil dividiam cerejas debaixo de uma alta árvore por entre os raios solares que as folhas deixavam passar eventualmente, banhando-os com um clima sensual. Algumas outras pessoas corriam pelo imenso jardim, as garotas com vestidos claros e os homens com boinas, seus sorrisos sempre abertos, lindos, magníficos. Uma piscina artificial com o molde de um lago de águas negras abrigava dois casais que se banhavam despidos, esguichando água uns nos outros e nadando naturalmente naquela água fria com suas risadas alegres, contagiosas.

Recebeu algo para beber de alguma direção, um licor mais doce e inebriante que os vinhos de Baco, carregado por um cântaro de algum metal (talvez prata). Sequer teve tempo de achar aquilo estranho, pois o casal divino voltara, acompanhados por uma mulher negra de seios fartos, tão linda quanto eles, e um gato preto ao seu lado. Olhar para eles era tantalizante, mas lhe era impossível desviar o olhar. E quando conseguiu, percebeu que Lúcia ainda lhe observava com o mesmo sorriso, mas ao seu redor os fatos mudavam drasticamente. Os dois meninos, antes inocentes, entrelaçavam-se bestialmente, suas mãos lutando pelo domínio, tal qual guerreiros, e seus sexos rijos se esfregavam numa cadência hipnótica cada vez mais acelerada. Os casais que corriam pelo limitado campo agora estavam absortos numa brincadeira sensual, os dois rapazes sentados na grama com o olhar vidrado nas duas moças – agora desnudas – que se beijavam delicadamente, com a leveza de um beijo à flor. Suas mãos finas de dedos compridos, como aquelas desejadas por uma moça na cidade de Faldum, deslizavam pelo corpo da outra; sentindo toda a maciez inerente do alheio. Na piscina artificial os casais se beijavam, trocando eventualmente de parceiro com naturalidade, ensimesmados naquela embriaguez coletiva.

Nenhuma imagem, no entanto, chegava a ser tão fantástica quanto às feições de deleite da negra, cortejada pelos anjos daquele santuário, angélico e infernal. As bocas dos dois percorriam o corpo da mulher sem receios, procurando-lhe as fontes líquidas de seu prazer, trazendo-lhe à superfície um incêndio feérico que a todos absorveu imediatamente, desintegrando-os com sua paixão antes contida. Mãos passeavam fortes como feras, em busca das passagens estreitas para o prazer emanado do outro e absorvido completamente, irracionalmente.

Marcelo, ainda não completamente absorto, procurou alguma sanidade em sua companheira; mas Lúcia procurava sua explosão pessoal, adentrando pelo rio de seus prazeres sublimes. Atordoado pelo tantalizante e contínuo fluxo inesgotável de imagens e sons do ambiente, levantou-se. Sentia-se embriagado pelos gemidos e outros sons. O perfume do sexo arrebatou-lhe, arrancando o pouco de sanidade que lhe sobrara. Ergueu sua parceira, prendendo as pernas da fêmea em sua cintura e fincando-a o sexo como uma lança, selvagem. Conduzido por um ritmo frenético que só aquele templo de desejos poderia prover, trouxe-lhes prazer em diversas posições. Dominava-a pelos cabelos, puxando-os pela base, enquanto seu órgão rijo entrava e saía violentamente. O primeiro orgasmo do casal chegou durante um único momento, quando ela sentiu uma mordida em seu pescoço apertar-lhe a carne.

Repentinamente calmo depois do ápice de satisfazer seu sexo, abandonou Lúcia ali, curioso. Sequer ouviu os pedidos da menina para voltar para ela, que logo desvaneceram enquanto ela se juntava às duas outras moças que ainda se dividiam diante os rapazes. Olhou para trás e a viu abaixada diante duas garotas, divertindo-se ao tocar o sexo das ninfas com sua língua ávida. Aproximou-se do trio divino, que agora se estendia sobre o chão com seus gemidos oníricos, e mãos e olhos esfaimados pela carne. As duas mulheres endeusadas se prostravam sobre o homem, uma sobre seu órgão e a outra sobre sua boca. Reparou que os olhos das mulheres haviam adquirido um formado de fenda, como felinos, enquanto seus corpos se movimentavam lentamente sobre aquela figura sobrenatural. Passou pelo grupo, absorto por alguns segundos naquela imagem que ficaria por quase uma década na sua cabeça, e percebeu que o gato já não era gato. Agora uma pantera negra pairava atrás do grupo, olhando-os com displicência. Alguma lembrança ameaçou vir-lhe para completar o quadro, mas não chegou ao seu destino.

Inconsciente de que o tecido entre duas realidades havia sido destituído, permitindo a breve fusão entre dois paralelos, voltou para dentro da casa. Caminhou em direção da sala, aproveitado aquela nova sensação e mistura de sentidos que lhe eram tão estranhos. Cada lajota tinha agora uma coloração mágica e lhe atraía o olhar, como o de uma criança para quem tudo no mundo lhe é novidade. Passou diante do quarto onde vira o rapaz sozinho assim que entrara na casa, mas agora o quarto estava lotado. Vários homens e mulheres estavam dispersos pelo grande cômodo, mas todos eles pareciam ter uma pele inconsistente, inumana, com cores antes nunca vistas e feições que mais pareciam pertencer aos filmes de ficção. O rapaz estava ajoelhado diante uma mulher, acariciando lentamente seu clitóris, completamente absorvido naquela atividade que parecia tão simples. Marcelo passou pela porta, aproveitado cada imagem desfocada como de um sonho. Sentiu uma mão em seu pulso, e este único toque lhe transmitiu impulsos de dor e prazer que lhe acenderam imediatamente. Observou que um homem de quase 2 metros, tão estranho quanto aquela mulher ali deitada, puxava-o para um grupo; era feito de fragmentos de fantasia e sonhos, sua pele como marfim e seus lábios irreais, além daquele contato divino. Sentiu as criaturas humanoides tocando-lhe o corpo, passando-lhe levemente seus longos dedos, e a cada deslize sentia como se todo o mundo tivesse sido desconstruído e construído novamente. Beijou o homem que o puxara e sentiu sua pele pegando fogo ao toque dos lábios daquele ser. Cada gosto que lhe era aprazível surgiu ali. Afastou-se amedrontado e fugiu daquele quarto insano.

Arrastou-se pelo corredor iluminado majestosamente, apoiando-se sempre um dos braços na parede. Ouvia gritos de prazer, graves e agudos, em línguas peculiares. Chegou à sala, ainda assustado com tudo o que vira e ouvira, mas ainda querendo ter mais sensações daquela amalucada casa dos prazeres celestiais. Estático, observou a mulher-gato andar calmamente pelo local, rodeando os homens. Seu olhar famélico parecia ter entrado em guerra com o dos homens e os destruíra, deixando-os submissos e dóceis. Seu andar era de uma caçadora e seu cheiro de besta escorria pelos outros cômodos, intenso, almiscarado, envolvente. Com um único olhar dela seu coração acelerou e quase se deixou levar para sua armadilha, quando as mãos de Lúcia o alcançaram. Sentiu seu toque, frágil e humano, e sem pensar a empurrou na parede. Beijou-lhe com selvageria e fez-lhe apertar seu sexo por entre suas mucosas, fotografando com os olhos as feições extasiadas até que o ápice do incêndio que os consumira cessasse.

Sua noção de tempo já perdida por entre universos – ou até o tempo real já perdido -, dedicou-se a descobrir cada cômodo e pessoa. Deitou-se com os guerreiros dos jardins, percebendo a excitação natural que nasce em batalha, e com eles aprendeu a lutar pela dominação. Por várias vezes perdeu e foi destroçado pelas bocas, mãos e sexos dos jovens. Descobriu pela primeira vez a paixão sensual por outro homem, aproveitando a tenacidade de suas peles e o roçar dos pelos em sua boca, levando-o a orgasmos sem nem mesmo se tocar. ‘Pelos deuses! Que transe magnífico!’.

Lembra-se que certo dia se sentou numa sala estranha, ainda desconhecida, onde vários homens com roupas formais estavam em bancos. Era uma sala de strip-tease, típica de filmes norte-americanos. Sentou-se junto com eles, ao lado de um homem ruivo. Duas mulheres entraram logo em seguida, acompanhadas de uma música lenta. Seus movimentos eram hipnóticos e paralisavam o tempo. Dançaram lentamente em frente aos homens, tirando peça por peça de seus trajes. Quando deu por si, Marcelo se masturbava no mesmo ritmo que elas se moviam quais serpentes. Enquanto o odor das mulheres o atingia, percebeu que vários dos homens gozavam, misturando o masculino com o feminino num rito ancestral. Chegou ao seu próprio clímax nesse instante, na união indelével dos sexos.

Ficou no templo durante dias e noites que já não tinham diferença alguma entre si, enquanto experimentava cada ninfa e herói, cada criatura bisonha e observava cada prazer bizarro. Submeteu-se à vontade da mulher-gato, conheceu os orgasmos mais fortes com as fadas, que com cada toque lhe traziam êxtase infindo. E divertiu-se humanamente com os casais que corriam pelos jardins ou que se trancafiavam nos quartos por dias, buscando com afinco apenas os prazeres físicos dos outros. Deixou-se absorver todo o prazer que a vida poderia lhe dar, cedendo às tentações luxuriosas. Imaginando que eventualmente seus olhos e mente se apagariam, aproveitou cada pedaço de felicidade que aquele mundo lhe estendeu. Não tinha certeza do quanto sua vida iria durar e, portanto, não ficaria sujeito aos preconceitos burgueses sob os quais tinha sido criado.

Certo dia acordou com o sol queimando seu rosto. Levantou-se confuso, apoiando-se sobre suas mãos. Sem saber sequer seu nome, vagou pelas ruas com seu olhar vidrado, tentando recobrar a consciência que se escondia em sua cabeça. Alguns flashes vinham constantemente, sempre parecidos a sonhos loucos de noites conturbadas. Aprisionado pelo irreal, por muitos anos andou a procura do Santuário dos Prazeres. Pedia ensandecido para que os deuses daquele local o readmitissem, prometendo fidelidade eterna; mas nenhuma resposta lhe apareceu. Padeceu muitos anos depois, sem saber se o que vivera pertencia a alguma realidade ou se tinha sido tudo ilusão.

Mas tendo certeza de toda a felicidade que o Eros do lugar havia lhe trazido, qual diferença teria se era realidade ou ficção?

 
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