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sábado, 24 de março de 2012

Encontro das Águas

Certo dia meu pai conseguiu algumas entradas para um passeio bem diferente. Visitaríamos uma das últimas áreas da floresta amazônica que ainda estavam de pé, supostamente intactas. Quero dizer, muitas crianças passavam anos pedindo para seus pais que as levasse ali para passear, ver as florestas tão altas quanto os prédios chineses e, se tivessem alguma sorte, até algum animal vivo. E lá fomos nós, uma semana depois. Meu pai não estava realmente animado com aquilo, mas meu coração batia forte com a perspectiva de pisar naquelas terras ancestrais, onde ainda havia vida selvagem; e não apenas prédios titânicos e autômatos.

Toda essa minha ansiedade não provinha apenas de animação, mas sim do medo. Medo de que eu estivesse esperando demais daquele passeio. Aliás, passei anos me debruçando sobre livros velhos dos meus avós maternos, enquanto observava fotos de seres magníficos que não mais existiam. Onças de boca escancarada com seus dentes prontos para o bote, aves de penas mais coloridas que o carnaval, salamandras tão pequenas quanto a ponta de um dedo, peixes que nadavam uma distância gigantesca só para por seus ovos... Tudo acabado. E eu costumava chorar, deixar ali minhas lágrimas infantes, tão inocentes. Imaginava como toda aquela vida havia se perdido e o quão isso era injusto, e tudo causado pela soberba. Sim! Soberba! Uma espécie acreditando que não precisava mais das outras. Minha alma estava presa naquele martírio eterno, melancólica como se alguma parte dela tivesse sido arrancada e destroçada.

De qualquer forma, fomos ao passeio em um dia de chuva suave. Chegamos lá e havia algumas outras pessoas se reunindo num átrio pequeno. Meu pai falou com algumas, provavelmente clientes, enquanto fiquei sentado num canto. Após vários minutos o guia entrou na sala na qual esperávamos e começou a nos conduzir para a entrada da trilha. Fui andando devagar, bem atrás do grupo, para não ter que ouvir a ladainha dos outros e para poder ter uma experiência própria, pessoal.

O primeiro passo nas folhas úmidas daquela floresta foi mileumanoitesco. Senti um pulso elétrico partindo da terra e disparando por todo meu sistema nervoso, deixando-me arrepiado. Deslumbrado, agachei-me ali mesmo e toquei o chão com a ponta dos dedos. Senti a umidade em minha pele enquanto algo acontecia em meu coração. Um sorriso, impossível de esconder, surgiu em minha tez adolescente. Olhei de soslaio para o grupo à frente, verificando se estavam reparando em mim. Ao perceber que estavam ensimesmados, arranquei meus sapatos e meias, e deixei meu pé encostar-se às folhas e galhos caídos no chão da floresta. Tal qual uma criança levada, segui-os cuidadosamente para que não vissem minha transgressão.

Estava deslumbrado pelos pequenos detalhes da mata ainda intocada. Ouvia o canto de aves, que só tinha visto em filmes e em vídeos na internet, mas nunca ao vivo. Eram de uma suavidade divina, que poderiam trazer a qualquer pessoa um pouco de felicidade espontânea. Reparei numa esperança do mais vivo verde apoiada em uma folha e me lembrei de tudo o que havia lido sobre aqueles insetos em meus livros. Fui me aproximando lentamente, querendo saber se seus membros traseiros realmente eram alongados e preparados para o salto. Quando estava a apenas alguns centímetros, ela saltou repentinamente. A beleza daquilo me arrancou o fôlego, e meus olhos marejaram.

Procurei onde o pequenino havia pousado, dei mais uma olhada para o grupo, que agora ouvia uma longa explicação sobre o passado, e segui para dentro da mata. Fui chegando perto novamente, como sabia que felinos selvagens costumavam fazer quando estavam preparando um ataque surpresa, e tentei captura-lo, em vão. Mais uma vez ele fugira de mim e se embrenhara por entre as árvores. Comecei a seguir seus saltos, concentrado naquela alegria inocente que toda criança deveria ter tido, mas que fora arrancada da nova geração por seus arrogantes antepassados. Feliz, pulei de local em local, por vários minutos, sempre perseguindo meu pequeno amigo.

Comecei a ouvir o barulho de água correndo e neste instante perdi o inseto de vista. Observei que um pouco distante de mim passava um rio bem na beira da floresta, como se esta estivesse prestes a ser coberta pela água. O estranho: aparentemente havia alguém ali. Cheguei perto devagar, com medo de que a pessoa brigasse comigo por ter me desviado do grupo de turismo. Mas, qualquer coisa, diria que tinha me perdido - e o máximo que a pessoa poderia fazer seria reclamar por algum tempo.

- Com licença? Você trabalha aqui? – perguntei quando cheguei a uns dois metros da pessoa. Percebi que era uma mulher de longos cabelos negros que escorriam por sua pele morena. Ela estava virada para o rio, suas pernas mergulhadas na água que passava lentamente por aquele trecho.

Por um momento ela pareceu não ouvir o que eu tinha falado. Deslizava sua mão na superfície da água, e eu percebi que havia dezenas de minúsculos peixes ali, como se ela estivesse lhes alimentando. Após alguns segundos, nos quais eu fiquei em dúvida se saía dali enquanto tinha a chance ou se tentava lhe dirigir a palavra novamente, ela virou seu rosto delicadamente em minha direção. Tinha traços indígenas puros, seu nariz curto e arredondado levantado num aspecto altivo e olhos puxados. Embasbacado e com o coração a ponto de sair pela boca, sentei-me ao seu lado, deixando a água cobrir minhas canelas e molhar minha calça jeans; sua beleza era sobrenatural, sedutora, feérica.

- De certa forma, sim. Trabalho aqui, vivo e sou aqui. – respondeu, voltando-se novamente para a atividade de deslizar sua mão sobre a água.

Fiquei lhe observando por minutos sem nada falar, ainda tentando entender o que ela estava fazendo na beira do rio sem ninguém por perto. Depois destes minutos, percebi o quanto deveria ser estranho um babaca lhe olhando por minutos sem falar nada – além de assustador, é claro. Abri a boca, incerto do que falar para engatar uma conversa com a moça. Mas logo que decidi sobre o que falar, ela recomeçou:

- Trouxe-te aqui por um motivo, mortal. – falou, fixando seus olhos negros nos meus com intensidade, quase agressivos. – Há muito tempo eu estou e sou esse rio, essas águas. Vi flechas e balas, remos e motores, negros e brancos, vida e morte. Mas agora estou desaparecendo, junto com meus santuários, crenças e tudo o que represento.

Algumas lágrimas vertiam de meus olhos enquanto vertigens surgiam, deixando-me inerme diante aquele ser. Cada célula do meu corpo gritava de medo e dor, querendo paradoxalmente fugir e me agarrar àquela divindade, temer e adorar. Séculos se passaram em minha cabeça, como se eu estivesse ligado às lembranças dela. Vi índios pescando, botos nadando, frutos caindo e peixes nascendo - tudo ali, naquele rio que agora era o alvo do meu amor. Ela se aproximou e encostou seus lábios nos meus, e senti um vapor deslizando e entrando em meus poros e garganta. Senti sua energia milenar me preenchendo como um todo e finalmente me deixando completo, ciente do meu amor maior transcrito de cada proteína do meu corpo.

- Carregue parte da minha essência e divida-a entre os merecedores. Preciso descansar. Peço-te que me proteja enquanto isso. Não deixe esta última essência da vida morrer. – Apesar de seu porte orgulhoso, sabia que era uma súplica desesperada da respiração final da natureza.

Afastou-se de mim e entrou na água, fundindo-se a ela. Levantei em silêncio e voltei para o grupo. Mas agora todas as sensações eram únicas. Eu enxergava cada ligação daquela floresta e a possibilidade de cada mínimo ser viver ou padecer. Percebia em cada árvore seus inúmeros habitantes, andando rotineiramente naquele perigo maravilhoso que a vida oferece. Mais do que isso: sentia-me parte daquilo, e a dor por ter de me afastar por um tempo era absurda. Mesmo assim os encontrei novamente e sequer pareciam ter percebido meu sumiço. Segui com eles, como tinha de ser, mas agora com um objetivo.

Não permitirei que a vida se esgote.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Santuário dos Prazeres

A noite possui uma beleza doce, inesgotável, por isso sempre fora muito mais agradável que os sufocantes dias que sua cidade já tão verticalizada lhe fornecia durante as incontáveis manhãs. Marcelo lembrava-se perfeitamente que desde criança possuía uma ligação intrínseca com a lua e seus mistérios, e por vezes sem conta seus hábitos noturnos lhe renderam pequenos problemas. Sua mãe quase morria de preocupação quando tinha que lhe botar da cama, dia após dias, para que ele fosse para aula. Seus poucos amigos dificilmente poderiam compartilhar suas ideias e brincadeiras, por sempre ter estado mais agitado após as 22:00. E, como todos sabem o quão crianças podem ser más, sofrera por causa da palidez fantasmagórica que sua pele apresentava e olheiras profundas que sempre marcaram sua tez tão diferente daquelas de outras crianças. Mas agora tudo isto se tornara lembranças, por vezes doloridas; mas apenas lembranças.

Desenvolvera-se num homem incomum, de poucos amigos, daqueles que dificilmente seriam agraciados como protagonista de um best-seller no qual o cara tão comum é impaciente e toma suas vontades à força. Ao contrário da vida pulsante dos guerreiros, Marcelo conservava desde criança uma passividade e frieza diante as várias situações de sua vida; mais por indolência que por falta de capacidade de tomar um controle de sua vida, como qualquer livro de ajuda poderia lhe direcionar a fazer. Por inúmeras vezes desejou ter a inconsequente força de vontade de um herói moderno, que chamaria milhões ao cinema para verem seus gritos e personificações de aparência louvável; tal qual o Perseu juvenil ou o potente Thor.

Costumava frequentar os sebos em sua cidade. Aquele que ficava perto da Praça da República era de sua preferência. Era um dos mais antigos da cidade e normalmente se encontravam novos livros. Passava horas sentado ali, solitário, quando havia alguma folga. E sempre que seus intervalos de trabalho permitiam, chegava cansado e sem fôlego. Jogava-se no canto mais distante do estabelecimento, murmurando uma breve saudação para a envelhecida dona ao passar por ela. Sentado ao chão, passava horas lendo algum pequeno livro em alemão ou italiano, e no final levava qualquer coisa para continuar a leitura em sua casa num preguiçoso modo de vida. Pensava que dificilmente qualquer coisa poderia lhe arrastar para longe de sua confortável cama e sofá; e para qualquer pessoa nova em sua vida, estabelecia rapidamente os limites. ‘Meu espaço. Seu espaço’.

Sua casa era bem pequena, mas abrigava todas suas necessidades. Como poderia ser deduzido diante a índole de Marcelo, pouco daquilo fora fruto de trabalho próprio. O apartamento havia sido comprado pelo pai e deixado. Os eletrodomésticos dados pela mãe, já em outro casamento, numa tentativa de desculpar-se silenciosamente pela distância. As poucas janelas estavam sempre fechadas, o ar carregado de um cheiro úmido de mofo e o chão obscurecido por uma camada asquerosa de poeira. Podiam ser observados livros jogados pelo chão do quarto ou desarrumados por cima de uma mesa perto da janela lacrada, além de roupas sujas e limpas misturadas numa bagunça adolescente.

Característica marcante dele era o gosto por ficar deitado em seu quarto olhando para o teto e paredes, mesmo que houvesse convites e compromissos estendidos a ele. Diante qualquer tipo de evento social, poderia até ficar animado por alguns dias, mas uma ou duas horas antes de se locomover para fora de sua vida enclausurada, o tédio o acometia. Preferia ficar ali, aprisionado com sua indolência, observando o tórrido andar das formigas perto de restos de comida ao chão ou as marcas na parede, que ocasionalmente formavam histórias tão ilusórias como daquelas surgidas por alguns tragos. Por vezes desistiu de sair com algumas garotas para apenas ficar ali ao som do relógio. E, por mais que permanecesse vazio das vontades, todas elas pareceram brotar com a chegada de Lúcia.

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Decidira ir a uma dessas livrarias de pessoas que têm dinheiro para comprar livros caros. Juntara pouco mais de cem reais para poder fazer uma pequena compra neste lugar (provavelmente daria para apenas dois livros, no máximo três), mas gostaria de comprá-los em bom estado e mantê-los dessa forma. Sentado ao chão da loja, como ocasionalmente uma ou outra pessoa pode ser encontrada, observava uma das várias estantes de Literatura Estrangeira, arrumadas por gênero, e dentro de gênero por ordem alfabética do sobrenome do autor. Estava mais do que interessado em levar a coleção de Henry Miller, com sua força tão masculina, ou até do demoníaco Rimbaud, que inspirara tantos dos seus autores preferidos. Aprisionado em suas fantasias, permanecia alheio às pessoas ao seu redor.

Após alguns minutos de abstração, percebeu que uma moça já estava há algum tempo por ali, parecendo indecisa sobre o que levar. Observou suas feições por algum tempo. Não era linda, tampouco feia. Possuía um corpo pequeno, tal quais as fadas d’As Brumas de Avalon. Conservava uma proporcionalidade bela, em cada porção. Suas roupas não eram vulgares, mas permitiam ver suas curvas e pele feéricas. Enquanto apreciava sua beleza, tão comum e natural, lembrava-se de manhãs ensolaradas num parque, dias que nunca foram seus na realidade. Quase podia sentir o sol tocando sua tez, uma vez tão indiferente a esses pequenos prazeres. Talvez ela emanasse essa felicidade terrena. Foi impelida a falar-lhe, ajuda-la, aproximar-se.

‘Com licença, você está procurando algo?’ – perguntou, com a voz trêmula por causa da falta de costume de interagir com outros humanos de modo espontâneo.

‘Ah! Sim, sim. Eu estava procurando algum tipo de paródia, sei lá...’ – respondeu Lúcia, transbordando vida, intensidade, sensações antes desconhecidas por Marcelo fora de seus livros.

Levado por tais sensações ainda não bem desenvolvidas, o rapaz lhe indicou alguns livros, entre eles a coleção infanto-juvenil do Douglas Adams. A conversa continuou, passando de literatura para cinema, e então para revistas em quadrinhos. Enquanto a conversa prosseguia, começaram a andar pela praça que ficava próxima à livraria. Observavam as pequenas flores, tão frágeis mesmo com suas cores vibrantes, além de borboletas e aves chegando e partindo com o leve bater de suas frágeis asas. Mesmo quando os assuntos do dia pareciam ter se esgotado, começaram a conversar sobre o céu sobre suas cabeças e a terra sob seus pés em qualquer dos bancos da praça. De fato, nenhum dos dois queria se distanciar naquele momento, mesmo que fosse apenas para ficarem ali parados, sem nada para fazer. E ali os dois ficaram observando as pessoas passarem, falando sobre roupas, sapatos, bancos, praças, sorvetes. Mais do que tudo, sobre a felicidade ao qual o mundo parecia submerso mesmo que para cada sorriso houvesse uma lágrima e para cada casamento houvesse um suicídio promovido pela exclusão e solidão. Marcelo, sobretudo, não gostaria de voltar para sua ignóbil privacidade.

Em algum momento seu encontro teve de terminar, para a infelicidade de ambos os jovens. Nenhum deles queria se afastar, mesmo assim o fizeram. No entanto, iriam se encontrar na casa de uma conhecida dela. Disse-lhe que sua amiga dava as melhores house parties, e que eles deveriam se encontrar lá na semana seguinte. Com esta promessa de um encontro recente, eles deixaram o espaço os manter afastados por alguns dias.

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Era uma manhã ensolarada, com pássaros de melodias divinas e aquele burburinho suave que ocorre no encontro do vento com as folhas, quando voltaram a se encontrar. Encontrou-a em frente à sua casa, ela mantinha em sua tez um sorriso encantador e forte, com aquele pequeno sinal um pouco acima de sua boca e cabelos curtos num desafio tácito ao comum. Sua vida e espontaneidade abateram-no imediatamente, levando-o a um estado inerme, de quase asfixia pelo contraste entre a luz e as trevas. A caminho do local da festa, a conversa andou calmamente e sem seguir os roteiros previamente estabelecidos pelos dois, numa óbvia conexão.

A casa era estonteante, não importando quantas vezes alguém a visse. Erguia-se imponente entre as duas pequenas construções que a cercavam, sua grandiosa porta da mais cara madeira abria-se depois de um longo caminho de pedras esculpidas cuidadosamente e de algumas vagas dum estacionamento cercado por grama de verde intenso, como tudo mais ali. Alguns carros já estavam posicionados displicentemente sobre o concreto quente, enquanto uma estátua de uma mulher desnuda com seus braços estendidos acima da cabeça, entrelaçados, permanecia bem no centro daquela porção aberta da propriedade. A mulher, imóvel sobre seu pedestal, seus seios fartos e curvas acentuadas, dispunha de um sorriso belo e convidativo, talhado cuidadosamente.

Dando um passo para dentro da casa, abria-se um mundo quase onírico, mesclando de modo tenaz o refinamento burguês com sensações divinas, como se ali fosse o templo de uma divindade moderna para burgueses com religião. Para qualquer pessoa com uma sensibilidade elevada, como Marcelo, percebia-se a fina linha entre os paralelos perdendo vitalidade, tornando-se ínfimas, permitindo que o que se acha que é imaginário se mescle com o que se acredita ser real. Um grandioso aquário repleto de peixes de cores vibrantes permanecia num dos cantos da Sala de Estar, esbanjando seus gobídeos e estrelas-do-mar na água salgada. Dois sofás de um vermelho intenso acomodavam cinco pessoas, que conversavam calmamente. Marcelo percebeu a peculiar leveza que pairava sobre eles, embriagados pela presença dos outros; assustou-se com uma mulher de nariz adunco e cabelos tingidos de branco que trajava uma fantasia de mulher-gato, mas ainda assim falava naturalmente, como se não fosse nada absurdo. Um homem vestido com smoking branco, de grande porte e pele negra, olhou para o casal de relance e deixou à mostra seus dentes brancos. Lúcia sorriu de volta, sintonizada com o ambiente, enquanto seu amigo ainda ia se adaptando às diferentes vibrações presentes naquela casa.

A cada passo naquele santuário de carne e espírito, os dois abandonavam vulgarmente seus prensas e moldes, deixando-se embeber no clima erótico de cada luz turva e cheiro forte. Passaram por um corredor imenso, com inúmeras portas fechadas à esquerda; uma única aberta ao fim, deixando à mostra uma larga cama de casal e um solo rapaz de aspecto intelectual jogado na cama, sua camisa verde de abotoar desprendidas de sua bermuda cáqui. O rapaz nem olhou na direção do casal, que parara na porta por um instante, interrogativos. Seguiram adiante, passando por uma belíssima cozinha branca e chegando aos jardins, sublimes. Um casal veio em nossa direção, belos como anjos de pele clara e sorrisos como o paraíso, revirando os sentimentos no corpo de qualquer mortal que os visse e quase os submetendo à vontade de se ajoelhar e lhes beijar os pés. Marcelo apertou a mão do serafim, sentindo o aperto majestoso trancafiá-lo, deixando-o sem oxigênio. Os dois passaram, seus cabelos adornados com flores de diferentes cores como aquele do quadro de Caravaggio, alegando ter que receber os outros convidados.

Atônito, Marcelo encarou Lúcia, recebendo em retorno apenas um riso descontraído de uma criança que descobre agora as flores azuis e vermelhas nos bem cuidados jardins de sua avó. Não se aguentou e riu também, liberando a tensão que guardava em seu coração e embarcando no clima suave e paradisíaco daquele local. Sentaram-se em uma cadeira de balanço que se misturava perfeitamente em meio às begônias e lírios, além das pequenas abelhas que sobrevoavam por ali. Viram outros casais pelo local. Um casal de meninos de aparência inocente e infantil dividiam cerejas debaixo de uma alta árvore por entre os raios solares que as folhas deixavam passar eventualmente, banhando-os com um clima sensual. Algumas outras pessoas corriam pelo imenso jardim, as garotas com vestidos claros e os homens com boinas, seus sorrisos sempre abertos, lindos, magníficos. Uma piscina artificial com o molde de um lago de águas negras abrigava dois casais que se banhavam despidos, esguichando água uns nos outros e nadando naturalmente naquela água fria com suas risadas alegres, contagiosas.

Recebeu algo para beber de alguma direção, um licor mais doce e inebriante que os vinhos de Baco, carregado por um cântaro de algum metal (talvez prata). Sequer teve tempo de achar aquilo estranho, pois o casal divino voltara, acompanhados por uma mulher negra de seios fartos, tão linda quanto eles, e um gato preto ao seu lado. Olhar para eles era tantalizante, mas lhe era impossível desviar o olhar. E quando conseguiu, percebeu que Lúcia ainda lhe observava com o mesmo sorriso, mas ao seu redor os fatos mudavam drasticamente. Os dois meninos, antes inocentes, entrelaçavam-se bestialmente, suas mãos lutando pelo domínio, tal qual guerreiros, e seus sexos rijos se esfregavam numa cadência hipnótica cada vez mais acelerada. Os casais que corriam pelo limitado campo agora estavam absortos numa brincadeira sensual, os dois rapazes sentados na grama com o olhar vidrado nas duas moças – agora desnudas – que se beijavam delicadamente, com a leveza de um beijo à flor. Suas mãos finas de dedos compridos, como aquelas desejadas por uma moça na cidade de Faldum, deslizavam pelo corpo da outra; sentindo toda a maciez inerente do alheio. Na piscina artificial os casais se beijavam, trocando eventualmente de parceiro com naturalidade, ensimesmados naquela embriaguez coletiva.

Nenhuma imagem, no entanto, chegava a ser tão fantástica quanto às feições de deleite da negra, cortejada pelos anjos daquele santuário, angélico e infernal. As bocas dos dois percorriam o corpo da mulher sem receios, procurando-lhe as fontes líquidas de seu prazer, trazendo-lhe à superfície um incêndio feérico que a todos absorveu imediatamente, desintegrando-os com sua paixão antes contida. Mãos passeavam fortes como feras, em busca das passagens estreitas para o prazer emanado do outro e absorvido completamente, irracionalmente.

Marcelo, ainda não completamente absorto, procurou alguma sanidade em sua companheira; mas Lúcia procurava sua explosão pessoal, adentrando pelo rio de seus prazeres sublimes. Atordoado pelo tantalizante e contínuo fluxo inesgotável de imagens e sons do ambiente, levantou-se. Sentia-se embriagado pelos gemidos e outros sons. O perfume do sexo arrebatou-lhe, arrancando o pouco de sanidade que lhe sobrara. Ergueu sua parceira, prendendo as pernas da fêmea em sua cintura e fincando-a o sexo como uma lança, selvagem. Conduzido por um ritmo frenético que só aquele templo de desejos poderia prover, trouxe-lhes prazer em diversas posições. Dominava-a pelos cabelos, puxando-os pela base, enquanto seu órgão rijo entrava e saía violentamente. O primeiro orgasmo do casal chegou durante um único momento, quando ela sentiu uma mordida em seu pescoço apertar-lhe a carne.

Repentinamente calmo depois do ápice de satisfazer seu sexo, abandonou Lúcia ali, curioso. Sequer ouviu os pedidos da menina para voltar para ela, que logo desvaneceram enquanto ela se juntava às duas outras moças que ainda se dividiam diante os rapazes. Olhou para trás e a viu abaixada diante duas garotas, divertindo-se ao tocar o sexo das ninfas com sua língua ávida. Aproximou-se do trio divino, que agora se estendia sobre o chão com seus gemidos oníricos, e mãos e olhos esfaimados pela carne. As duas mulheres endeusadas se prostravam sobre o homem, uma sobre seu órgão e a outra sobre sua boca. Reparou que os olhos das mulheres haviam adquirido um formado de fenda, como felinos, enquanto seus corpos se movimentavam lentamente sobre aquela figura sobrenatural. Passou pelo grupo, absorto por alguns segundos naquela imagem que ficaria por quase uma década na sua cabeça, e percebeu que o gato já não era gato. Agora uma pantera negra pairava atrás do grupo, olhando-os com displicência. Alguma lembrança ameaçou vir-lhe para completar o quadro, mas não chegou ao seu destino.

Inconsciente de que o tecido entre duas realidades havia sido destituído, permitindo a breve fusão entre dois paralelos, voltou para dentro da casa. Caminhou em direção da sala, aproveitado aquela nova sensação e mistura de sentidos que lhe eram tão estranhos. Cada lajota tinha agora uma coloração mágica e lhe atraía o olhar, como o de uma criança para quem tudo no mundo lhe é novidade. Passou diante do quarto onde vira o rapaz sozinho assim que entrara na casa, mas agora o quarto estava lotado. Vários homens e mulheres estavam dispersos pelo grande cômodo, mas todos eles pareciam ter uma pele inconsistente, inumana, com cores antes nunca vistas e feições que mais pareciam pertencer aos filmes de ficção. O rapaz estava ajoelhado diante uma mulher, acariciando lentamente seu clitóris, completamente absorvido naquela atividade que parecia tão simples. Marcelo passou pela porta, aproveitado cada imagem desfocada como de um sonho. Sentiu uma mão em seu pulso, e este único toque lhe transmitiu impulsos de dor e prazer que lhe acenderam imediatamente. Observou que um homem de quase 2 metros, tão estranho quanto aquela mulher ali deitada, puxava-o para um grupo; era feito de fragmentos de fantasia e sonhos, sua pele como marfim e seus lábios irreais, além daquele contato divino. Sentiu as criaturas humanoides tocando-lhe o corpo, passando-lhe levemente seus longos dedos, e a cada deslize sentia como se todo o mundo tivesse sido desconstruído e construído novamente. Beijou o homem que o puxara e sentiu sua pele pegando fogo ao toque dos lábios daquele ser. Cada gosto que lhe era aprazível surgiu ali. Afastou-se amedrontado e fugiu daquele quarto insano.

Arrastou-se pelo corredor iluminado majestosamente, apoiando-se sempre um dos braços na parede. Ouvia gritos de prazer, graves e agudos, em línguas peculiares. Chegou à sala, ainda assustado com tudo o que vira e ouvira, mas ainda querendo ter mais sensações daquela amalucada casa dos prazeres celestiais. Estático, observou a mulher-gato andar calmamente pelo local, rodeando os homens. Seu olhar famélico parecia ter entrado em guerra com o dos homens e os destruíra, deixando-os submissos e dóceis. Seu andar era de uma caçadora e seu cheiro de besta escorria pelos outros cômodos, intenso, almiscarado, envolvente. Com um único olhar dela seu coração acelerou e quase se deixou levar para sua armadilha, quando as mãos de Lúcia o alcançaram. Sentiu seu toque, frágil e humano, e sem pensar a empurrou na parede. Beijou-lhe com selvageria e fez-lhe apertar seu sexo por entre suas mucosas, fotografando com os olhos as feições extasiadas até que o ápice do incêndio que os consumira cessasse.

Sua noção de tempo já perdida por entre universos – ou até o tempo real já perdido -, dedicou-se a descobrir cada cômodo e pessoa. Deitou-se com os guerreiros dos jardins, percebendo a excitação natural que nasce em batalha, e com eles aprendeu a lutar pela dominação. Por várias vezes perdeu e foi destroçado pelas bocas, mãos e sexos dos jovens. Descobriu pela primeira vez a paixão sensual por outro homem, aproveitando a tenacidade de suas peles e o roçar dos pelos em sua boca, levando-o a orgasmos sem nem mesmo se tocar. ‘Pelos deuses! Que transe magnífico!’.

Lembra-se que certo dia se sentou numa sala estranha, ainda desconhecida, onde vários homens com roupas formais estavam em bancos. Era uma sala de strip-tease, típica de filmes norte-americanos. Sentou-se junto com eles, ao lado de um homem ruivo. Duas mulheres entraram logo em seguida, acompanhadas de uma música lenta. Seus movimentos eram hipnóticos e paralisavam o tempo. Dançaram lentamente em frente aos homens, tirando peça por peça de seus trajes. Quando deu por si, Marcelo se masturbava no mesmo ritmo que elas se moviam quais serpentes. Enquanto o odor das mulheres o atingia, percebeu que vários dos homens gozavam, misturando o masculino com o feminino num rito ancestral. Chegou ao seu próprio clímax nesse instante, na união indelével dos sexos.

Ficou no templo durante dias e noites que já não tinham diferença alguma entre si, enquanto experimentava cada ninfa e herói, cada criatura bisonha e observava cada prazer bizarro. Submeteu-se à vontade da mulher-gato, conheceu os orgasmos mais fortes com as fadas, que com cada toque lhe traziam êxtase infindo. E divertiu-se humanamente com os casais que corriam pelos jardins ou que se trancafiavam nos quartos por dias, buscando com afinco apenas os prazeres físicos dos outros. Deixou-se absorver todo o prazer que a vida poderia lhe dar, cedendo às tentações luxuriosas. Imaginando que eventualmente seus olhos e mente se apagariam, aproveitou cada pedaço de felicidade que aquele mundo lhe estendeu. Não tinha certeza do quanto sua vida iria durar e, portanto, não ficaria sujeito aos preconceitos burgueses sob os quais tinha sido criado.

Certo dia acordou com o sol queimando seu rosto. Levantou-se confuso, apoiando-se sobre suas mãos. Sem saber sequer seu nome, vagou pelas ruas com seu olhar vidrado, tentando recobrar a consciência que se escondia em sua cabeça. Alguns flashes vinham constantemente, sempre parecidos a sonhos loucos de noites conturbadas. Aprisionado pelo irreal, por muitos anos andou a procura do Santuário dos Prazeres. Pedia ensandecido para que os deuses daquele local o readmitissem, prometendo fidelidade eterna; mas nenhuma resposta lhe apareceu. Padeceu muitos anos depois, sem saber se o que vivera pertencia a alguma realidade ou se tinha sido tudo ilusão.

Mas tendo certeza de toda a felicidade que o Eros do lugar havia lhe trazido, qual diferença teria se era realidade ou ficção?

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Moldura Estelar

PARIS, FRANÇA. EM UM FUTURO PRÓXIMO

5:15pm

Cidade morta, pássaros feios sobre os fios elétricos, ainda pingando da chuva rala que caiu ao final da tarde. Hoje é o vigésimo sexto dia desde a grande infecção, e a guerra já vem acontecendo há mais ou menos uma semana. Esta ainda pode ser minha última noite, ou talvez eu possa durar mais alguns dias. Quando eu era adolescente (lá pelos meus quinze anos), costumava ter pesadelos com zumbis que corriam atrás de mim, sempre pelo mesmo corredor da mesma casa que desconheço acordada, e nestes pesadelos eu sempre morria por não conseguir destrancar uma pesada porta de madeira que dava acesso ao quintal. Cresci buscando o oculto, o sobrenatural, o hediondo. Adorava tudo o que sangrasse na televisão e literatura, e devorava todos os filmes do Romero, Tarantino, e mais uma grande porção de produções independentes. Estes, e os meus pesadelos juvenis, eram minha ideia de zumbi até então. Mortos levantam, caminham pateticamente com as mãos estendidas para frente buscando os cérebros o tempo todo, pessoas sendo devoradas, e depois sendo transformadas...calamidade, pandemônio, morte. Cidade vazia, carros abertos e abandonados, sangue, trapos e lixo pra todo lado. Bem... Sinceramente, o que estou vendo aqui não é muito diferente disso. O que é diferente (muito diferente) é que tudo que aprendi ao longo de minha juventude sobre como sobreviver a um ataque zumbi agora, honestamente, não adiantou de nada. Obrigada pela tentativa, senhor Romero, mas zumbi não é assim. Zumbi (se é que podemos chamar assim) não perde a consciência quando é transformado, tornando-se assim muito mais difícil se esconder deles. Zumbis, quando transformados, recebem força, agilidade e sentidos absurdos, tornando-se ainda mais difícil combate-los. A única coisa que é de fato completamente igual aos filmes é essa necessidade mal educadíssima que eles tem de devorar seres humanos como eu. É claro que a pior parte não poderia ser diferente. Será que o Tarantino já morreu à essa altura? Espero que sim.

Já posso ver os primeiros sinais de escuridão no céu. As manchas violetas na abóbada celeste. O céu de Paris. Uma das coisas que eu mais gostava de fazer antes disso tudo acontecer era contemplar as estrelas, sentada na varanda de meu apartamento. Não qualquer céu nem qualquer estrela, mas o céu e as estrelas de Paris. Acontece que, observando agora a chegada do que antes tanto me agradara e fizera feliz, lamento estar assistindo ao meu espetáculo favorito enquanto o temo, escondida neste quarto mofado de prostíbulo (onde consegui abrigar-me durante o dia) e espreitando pelas frestas da janela. A noite está chegando. Por algum motivo esses zumbis não andam de dia (na verdade eu desconfio do motivo. O sol acelera a decomposição de seus corpos mortos. Lá pela primeira semana ouvi pesquisadores dizerem que em países tropicais eles estavam encontrando mais dificuldade para se proliferarem, levando em conta que o frio da Europa colaboraria em demasia para a preservação de seus cadáveres). Preciso sair daqui, me esconder antes que eles despertem. Eles e os outros.

Certo, começo a lembrar dos outros. Quando minha irmã mais velha era ainda bem pequena, surgiu uma modinha teen sobre uma saga de vampiros e lobisomens que se amam e bobagens adolescentes em geral. Minha irmã cresceu e tardiamente começou a apreciar a modinha besta, quando já nem fazia mais sucesso. Eu era fã dos clássicos, como Entrevista com o Vampiro e Nosferatu(1922). Novamente criei em minhas expectativas ideias errôneas sobre a espécie. Vampiro não brilha no sol, vampiro não foge de crucifixo, nem de água corrente. Vampiro não tem orelhas pontudas, nem precisa necessariamente dormir em caixões. Eles não parecem ser vampiros se não quiserem parecer, não morrem tomando banho de água benta, não possuem intolerância a alho nem tem nenhum problema em entrar em igrejas. Aliás, eles nem tem problemas em entrar em lugar nenhum. Além de força, destreza e habilidades psíquicas, os vampiros não precisam ser convidados para entrar. Eles simplesmente entram. Maria me falou sobre eles, aquela pesquisadora latina que fugia comigo na primeira semana. Ela morreu tem alguns dias, e talvez agora já seja zumbi também. Tal como as lendas, os vampiros também se alimentam de sangue humano (porque a pior parte tem que ser sempre igual ao mito), o que, naturalmente, os torna predadores assim como os zumbis. A diferença reside no fato de que para os zumbis o prato tem que estar completo, com direito a vísceras à milanesa, cérebro ao molho madeira e petisco de dedos e línguas. Os vampiros já são mais gentis. Algo como:

- Prato completo, senhor? – perguntou o humano.

- Não, só o sangue. Obrigado, sim? – respondeu o vampiro.

Lamento por estar tendo estes pensamentos irônicos agora. Eu achava que era uma boa escritora, ia publicar meu livro novo em alguns meses, tudo finalmente começava a dar certo, e agora isso. Será que os vampiros leem livros? Os zumbis definitivamente não. Apesar de manterem uma parca consciência, são no mínimo predadores mais vorazes.

5:44pm

Saí do prostibulo com a mochila nas costas, já esvaziada de todo peso desnecessário (vinte e seis dias te ensinam muita coisa em certas circunstancias). Apertei o cabo do 38. Com força, afinal, tiro na cabeça mata qualquer coisa, e nisso todos os mitos tem razão. Lembro-me de quando pensei que não poderia ficar pior. Isso é uma maldição. Se você pensa que não pode piorar, piora. Eu acordei um dia na cama de alguém com quem havia dormido, e aparentemente a família inteira já era zumbi. Assim, do nada. Fugi, não sei como isso começou, as pessoas foram morrendo, eu fui fugindo (não sei como também, com esse meu porte magricela de nerd e a estatura baixa que sempre me sacaneou, eu sobrevivi tanto tempo), e pensei aquela coisa, aquela maldição: pior do que está não fica. Foi aí que os clãs de vampiros (que pelo que a Maria me disse já existiam há séculos, vivendo entre nós, tentando não levantar suspeitas) resolveram unificarem-se e ao mesmo tempo dividirem-se. Aparentemente alguns deles passaram a enfrentar os zumbis, evitando assim que suas fontes de alimento, os humanos, não fossem exterminados de vez (já que os vampiros não podem se alimentar dos zumbis, e vice-versa) e outros passaram a, além de combater os zumbis, devorar o sangue de todo e qualquer humano ou animal que aparecer pela frente, para manterem-se fortes em campo de batalha. Temos vivido (ou morrido) desta maneira desde então. Os poucos humanos que restaram agora se escondem a noite, quando todos despertam, e descansam de dia. Aprendi que à noite preciso manter-me em movimento, ficar parada só concentraria meu cheiro de viva em um ponto fixo, tornando assim mais fácil minha localização. Já tem dois dias que não vejo nenhum humano, e começo a pensar que não existe mais ninguém além de mim.

Continuo esgueirando-me por trás dos carros, postes e árvores que encontro. A rua está completamente deserta, iluminada apenas pelos últimos raios de sol. Pretendo chegar ao centro, aos bairros mais nobres. Por alguma razão a periferia é ótima para se esconder de dia, mas também é a pior área para se permanecer a noite, levando em conta que devido o grande número de humanos, outrora aglomerada pelos bares e cortiços, a grande infecção prevaleceu nestas áreas e muitos ainda estão por aqui. No centro ainda há energia elétrica (não sei quem a mantem funcionando, acho que são os vampiros, já que nem todos eles enxergam no escuro), e pretendo chegar lá antes de escurecer de vez.

6:20pm

Estou correndo agora. Difícil se esgueirar em campo aberto, e em casos como este é melhor correr mesmo. Avistei um prédio comercial onde há energia elétrica, e onde eu talvez possa arranjar comida, ou problemas. Pior do que está não fica. Droga... Eu fiz de novo.

Começo a questionar a realidade em tudo isso. Poderia ter sido uma ótima estória se eu tivesse pensado em escrevê-la. Inventa-la teria sido tão melhor que vivê-la! Será que ao final de tudo isso o mundo poderia voltar ao normal, e os seres humanos poderiam então reconstruir o planeta e a sociedade? Se isso acontecer, e eu sobreviver, juro que deixarei um manuscrito contando toda essa história, e darei um jeito de ter pelo menos um filho, pra quando houver editoras novamente, ele ou ela publicarem meus relatos, em meu nome.

Ganhei os degraus do edifício. Os raios de sol já sumiram completamente do céu. Não vejo ninguém, humano, zumbi ou vampiro. O silencio é tamanho que quase posso ouvir meu pulmão esforçando-se para receber o ar cortante e gélido do início da noite. O caso é que o que é silencio para mim pode perfeitamente parecer uma sirene de viatura aos tímpanos sensíveis dos vampiros, e o ar gelado e seco para mim pode ser um excelente condutor de aromas às narinas treinadas dos zumbis.

A porta grande do prédio, que parece feita de um blindado bastante resistente, está agora pela metade. O outro lado foi atingido por um veículo desgovernado e eu não quero nem imaginar onde foi parar o motorista. Posso ouvir uma musiquinha tocando em algum lugar distante agora, já que ultrapassei a porta e estou onde funcionou a recepção um dia. Tenho a impressão de que já estive neste local antes, mas não consigo recordar-me da ocasião em si. Minha preocupação no momento é de fato a música, que a cada novo movimento que faço em direção às escadas parece tocar mais alto. Não sei se devo me afastar de seu local de origem ou se talvez fosse melhor ir até lá e desliga-la, levando em conta que assim como chamou minha atenção, poderia chamar a dos outros.

Comecei a subir as escadas com cautela. Pode ser perigoso estar sozinha neste espacinho claustrofóbico, mas ainda assim é preferível ir por aqui do que pelos elevadores.

Já posso ver o corredor do segundo andar, e o prédio só tem quatro. As salas parecem escritórios, ora lojas de galeria. Algumas salas possuem nomes na porta, indicando talvez consultórios ou escritórios jurídicos e imobiliários. No final do corredor posso ver algo que muito me agrada: aquelas máquinas de chocolates, biscoitos, chips e refrigerantes. Estou com fome, e seria adorável, depois de tudo o que passei, comer uma boa barra de chocolate com avelã afinal. Não tem nenhum humano se escondendo aqui, do contrário talvez a máquina não estivesse mais abastecida. A música que escuto é agora uma latente realidade, e não mais um zumbido distante. Ela vem da última sala do corredor, justo a sala que fica ao lado de meus chocolates. Ótimo, tudo o que eu quero está na mesma direção.

Engatilhei a arma, e estou caminhando de costas rentes à parede como os filmes me ensinaram... Não. Nada de filmes. Com eles aprendi tudo errado. Encontrei coragem, virei de frente para a porta. A música é blackbird dos Beatles. Girei a maçaneta e abri.

O zumbi está quase em cima de mim agora. Errei o tiro. Nem vou comer meu chocolate.

8:10pm

Estou encarando as costas da mulher que me salvou. Há mais ou menos uma hora atrás, acordei sentindo um sabor doce muito conhecido ao meu paladar, e descobri que, além de ter conseguido atirar com a própria arma no zumbi que me atacou, ela me tirou do prédio, me trouxe para uma mansão com muros altos e cerca elétrica na qual ela parece se sentir bastante à vontade e ainda me conseguiu o chocolate que tanto queria. Aparentemente (ou pelo que entendi do que ela me disse) eu desmaiei com o impacto do corpo do zumbi contra o meu, mas ele não chegou a me morder.

Ela está me conseguindo roupas limpas agora, revirando o armário em busca de peças que não pareçam lençóis em meu corpo pequeno quando vesti-las. Estou sentando vagarosamente na cama e retirando a toalha molhada da testa. Sempre considerei isso de compressa pura bobagem, mas ela jura que funciona.

Seu nome é Bianca, e ela tem um carregado sotaque italiano. Preocupa-me, a Bianca. Nunca vi uma mulher tão bela em toda minha existência. Olha que já conheci basicamente todo tipo de mulher na vida, mas ela é diferente. Além do corpo esguio e voluptuoso, ela ainda possui esses inebriantes olhos verdes, muito vivos, e os cabelos como cortinas de seda, impecavelmente passadas, em tons castanhos que por alguma razão me lembram cadeias de montanhas.

Bianca se move com leveza e suavidade, como se, antes de tudo isso acontecer, fosse dona dos mais decentes modos e comportamentos. Como uma dama da alta sociedade parisiense, mas é neste ponto que começo a estranha-la. Ora, se ela fosse de fato uma socialite, o que justificaria ela ter, sozinha, se livrado do zumbi? Definitivamente ela não é um zumbi. Definitivamente este corpo esculpido em marfim não está em decomposição, mas... Torno agora a ouvir a voz de Maria em minha consciência (que está por se perder-se de vez, levando em consideração que eu poderia esquecer todo o mundo acabando lá fora apenas para apreciar Bianca mover-se pelo quarto). Os vampiros não precisam andar por aí expondo as presas, ou pálidos como albinos, se assim não desejarem. A beleza de Bianca parece-me de fato sobrenatural, e sua voz macia, aveludada, monocórdia, definitivamente possui alguma nota hipnótica (ou será que hipnotiza somente a mim?).

Ela voltou-se para mim sorrindo, aqueles dentes de diamante, e ofereceu-me um jeans e um moletom preto com capuz. Devolvi o sorriso à ela, e recebi as peças de vestimenta...acontece que o toque leve de sua mão, que acidentalmente roçou na minha ao entregar-me as roupas despertou algo dentro de mim. Senti meu corpo inteiro formigar dentro do roupão de banho que agora cobria minha nudez. Bianca sorri mais, parece compreender exatamente o que fazer.

Ela me observa jogar as peças de roupa displicentemente para o lado, e agarra-la com as duas mãos pela gola da camisa social preta que usa. Ela me beija, e sua língua é quente, macia, segura de si. Viro-me por cima dela, fazendo seu corpo rolar pela cama, e começo a desabotoar sua camisa, seu jeans, arrancá-los. Tenho pressa, tenho urgência de toca-la, de senti-la. Ela abre meu roupão de banho e finalmente nossos corpos nus se encontram. Já me sinto tão excitada que não pareço poder esperar mais nenhum segundo para entregar-me a ela.

Bianca oferece-me gemidos comportados, suaves, baixos, que por serem tão discretos tornam-se ainda mais estimulantes. Mordisco seu pescoço, depois desenho seus mamilos com a ponta de minha língua e dedilho o interior de suas coxas, ela roça as unhas longas de leve por minhas costas, mas quando passo a ponta do dedo com leveza em seu local mais íntimo, ela crava as unhas com força, fazendo-me contorcer de prazer e breve dormência. Transcendo-a ao estado orgástico, e ela sem ao menos repousar por alguns segundos tem sua vez de fazer-me girar pela cama para baixo de seu corpo, mais forte e pesado que o meu. É uma mulher agressiva e envolvente. Ela desenha agora uma trilha com a ponta da própria língua, que parte de meus lábios superiores, segue pelo pescoço, seios, barriga, pelve e finalmente encontra Vênus. Sinto que vou morrer, mas é de fato apenas a sensação. É como se ela houvesse recebido um curso milenar de atividades orais. Questiono-me novamente sua humanidade, mas por segundos apenas, frações de segundos, já que ela recomeçou e não consigo pensar nem sentir mais nada além de prazer.

Ao final do ato, ela volta para perto de meu rosto, a fim de beijar-me os lábios. Não quero parar, não posso. Preciso dela mais uma vez, duas, mil. Bianca ri novamente, e quase tenho certeza de que ela anda lendo meus pensamentos.

Sua próxima atitude me assusta. Ela volta os lábios com agilidade para o meu pescoço, e crava as presas afiadas como adagas em minha jugular. De certo modo eu sempre soube, eu acho, mas o que sinto agora não é a vida esvaindo-se de mim, e sim o maior prazer do mundo. O que nunca pensei ser capaz de sentir, de existir... Minha boca sente agora o sabor do paraíso. É paraíso a palavra. O intocável, o sagrado, o puro. O puro néctar divino que ela engole e derrama em finos fios líquidos de ouro rubro, esquentando meu colo. Mil mãos macias tateiam meu corpo ao mesmo tempo. Penugens suaves acariciam minhas veias. Sinto-me fora de controle, e os espasmos doces que me acometem são uma ritmada dança de coito somada ao sabor de iguarias transportadas dos caminhos da Índia. É como ter a melhor noite, com o melhor dos amores, o melhor dos sabores, os mais caros perfumes, os mais finos fumos, o melhor dos vinhos, a melhor das eras, o poder do mundo inteiro... Vou morrer! Vou morrer! Vou...

Ela retirou as presas, lambeu a ferida feita por elas para o ferimento sarar, e me aconchegou em seus braços. Eu tremo. Ela sorri.

-Por que não me matou? – pergunto

-Porque nunca foi esta a minha intenção.

-Então o que você fez me mordendo? O que foi isso que senti?

-É este o efeito de nosso “beijo” nos mortais. Fiz aquilo apenas para te satisfazer, meu bem. Não pretendo fazer-te de alimento. A não ser é claro, que sejas alimento de minha luxúria.

Esforço-me até pra sorrir, alojada em seus braços castos. Ela diz algo sobre preparar-me uma refeição. Não encontro resposta. Ainda estou no paraíso.

4:23am

Bianca preparou-me uma macarronada deliciosa mais cedo. Nada comparado à mordida de mais cedo, óbvio. Explicou que ela não é o tipo de vampiro que se alimenta de qualquer humano que encontrar. Disse que vai cuidar de mim, e que quando tudo isso acabar ela pretende me manter com ela. Lembrou-me que seria uma tremenda burrice (claro que ela, fina como é, não utilizou-se destes termos) da parte dela se não se preocupasse em preservar minha espécie, sendo os humanos sua fonte de alimentação única e primordial. Ela pretende, segundo ela própria me disse, encontrar seus companheiros espalhados em campo de batalha, reunir um exército para combater os zumbis e os outros vampiros que pelo que entendi são os “do mal”, e reverter a situação atual. Perguntei a ela se isso é de fato possível, e ela disse que sim. Mostrou-me o quanto é forte, levantando com apenas uma mão uma pesada estante de madeira sem esforço. Mostrou-me como ela pode transformar o corpo todo em sombras, e alega poder dar ordens impossíveis de desobedecer apenas com o poder da mente, mas estes são dos dons dela. Os outros, pelo que ela me disse, são diferentes, já que existem inúmeras espécies diferentes de vampiro. Existem até vampiros que podem reanimar corpos mortos, mas estes – os reanimados por poderes de vampiro – são tipos diferentes de zumbi e não precisam devorar pessoas.

Quanto mais antigo o vampiro é, mais poderoso ele se torna. Bianca nasceu em meados de mil e seiscentos, e é uma forte general desta batalha. É de suma importância aos seus companheiros e a mim que ela sobreviva se quisermos que essa guerra chegue ao fim. Recentemente ela separou-se de seu grupo. Ela menciona uma tal Melissa e um cara chamado Lex. Diz que trabalham pra ela, e jura que estão por aí ainda. Segundo ela, se eles morressem (novamente, porque vampiro já é morto e isso me assusta um pouco – porque lembro que transei com um cadáver) ela ficaria sabendo.

Bianca disse também que quer que eu seja dela, e que se tudo ficar bem quer me transformar. Não sei se quero isso, mas na atual conjuntura já nem sei mais de nada e o que vier é lucro. Eu daria tudo, e desistiria de tudo pra ficar ao lado dela.

Repassados os fatos mentalmente, dormirei. Ao anoitecer, a guerra recomeça.

5:20pm

Bianca me desperta e ainda não me situei direito do mundo ao meu redor. Sento sonolenta na cama e ela está me dizendo para fazer minha higiene, pois vamos sair da casa. Questiono-me a razão, já que ali me parece seguro e ela afirma que nenhum local fechado pode ser seguro nestas circunstancias. Obedeço-a sem questionar mais. Sou dela agora.

7:37pm

O mundo continua devastado, deserto e tenebroso. Partimos da casa há algumas horas e agora ela me mantém por perto enquanto procura pelos aliados. Mesmo com todo o cenário de horror e destruição que nos cerca, um fato me chama atenção. As estrelas de Paris, hoje, estão brilhando belas como antes. Sorriem para mim com sublime magnitude, e iluminam o caminho que me leva até Bianca, mesmo que eu a perca de vista por alguns minutos.

Pergunto a ela se não é interessante que caminhemos até a companhia elétrica pra verificar quem está por lá fazendo a manutenção da energia. Bianca está rindo de mim, e diz que sabe muito bem quem está lá, que é um vampiro de uma espécie nobre, e que ele já faz muito se arriscando pelos outros, levando em conta que ele não tem grandes habilidades físicas, apenas psíquicas. Penso no quanto os vampiros se assemelham aos humanos quando se trata de egoísmo. Ela ri. “Já fomos humanos um dia, meu amor, mas com o tempo isso piora”.

Ótimo. Não posso mais nem pensar em paz. Ela está rindo de novo.

11:17pm

Incrível como tudo isso está acontecendo, essa guerra entre espécies, deriva de uma espécie apenas, que deriva de outra, e por aí adiante. Estamos correndo. Encontramos o Lex há mais ou menos uma hora, quando três zumbis estavam nos atacando. Ele pulou de trás da boleia de um caminhão que estava parado no acostamento. Bianca está satisfeita em vê-lo, eu não. Não gosto do jeito que ele olha pra ela.

Estamos correndo, como eu ia dizendo, pra encontrar a Melissa. Bianca está brigando entre sussurros com o Lex. Aparentemente ela está aborrecida por ele ter deixado a moça sozinha. Bianca se preocupa com a ela. Não sei se gosto dela também.

Alcançamos um parque arborizado e escuro. Lex disse à Bianca que deixou a Melissa aqui. O local parece-me perigoso, mas Bianca disse pra não me preocupar. Certeza que vamos encontrar o que não deve.

1:54am

Melissa já estava ferida quando a encontramos. Havia marcas de garras por seus braços e barriga. Aparentemente o coração do vampiro é seu estômago, então os outros vampiros devem ter tentado mata-la. Por sorte as habilidades mentais de Melissa funcionam com os outros vampiros. Bianca a deixou escondida dentro de um posto da guarda municipal e eu fiquei junto com as armas (a que eu já tinha e a que a Bianca me deu). Sinto medo novamente. Melissa está tentando se curar com o poder de seu corpo encantado. Ela é gentil e doce, e já não a desgosto mais, pois entendi que Bianca a ama como pupila, mas do Lex tenho certa raiva. Ofereci uns dois goles de sangue à Melissa, para ajudar na recuperação, mas ela alega que Bianca a proibiu de alimentar-se de mim. Estou espiando pelo vitral peliculado, meu coração está a mil por hora. Bianca e Lex estão lutando arduamente contra outros dois vampiros, e acabou de chegar um zumbi. Lex tem garras no lugar das mãos agora. Imagino que tenham sido garras como estas que feriram Melissa, mas não as dele. Bianca luta com tentáculos, como os de polvo, só que os tentáculos são feitos de sombra, e mesmo assim infligem danos aos inimigos. O vampiro que enfrenta Lex é negro, e eventualmente cospe sangue de aparência enegrecida e viscosa, na esperança de acertar o corpo do amigo de Bianca. As cusparadas que não acertam fazem pequenos furos esfumaçantes no caminho de pedra do parque, como ácido. O negro porta uma espada árabe, e também tenta golpear Lex com a arma. Lex defende-se com as garras, ou esquiva-se com assombrosa velocidade, que meus olhos mal acompanham. Lex está levando a melhor.

A mulher que enfrenta Bianca é ainda mais rápida, mas não possui garra alguma. Suas mãos atacam com duas espadas samurais longas, e uma delas já acertou Bianca no ventre. A mulher está machucada no momento, mas no momento as duas mulheres interromperam o duelo para dar cabo dos zumbis. Pergunto à melissa se não seria mais fácil deste modo, ou seja: que as facções rivais de vampiros primeiro se unissem para exterminar os zumbis e depois guerreassem entre si. Melissa me responde (e por alguma assustadora razão eu a ouço mesmo que ela nem tenha aberto a boca) que de fato essa possiblidade foi cogitada, mas que esses vampiros rivais não quiseram saber de acordo desde o início. E se os vampiros como Bianca, Lex e Melissa se limitassem a eliminar zumbis, acabariam por serem eles eliminados precocemente.

Volto a olhar pra fora. Bianca já está lutando novamente com a mulher e Lex está desarmando o homem.

2:36am

Meu cérebro parece ter congelado por alguns minutos. Parecia correr tudo bem e Bianca e Lex iam levando a melhor. Lex já havia vencido o vampiro negro e Bianca estava esmagando a mulher já desarmada entre os seus tentáculos. Melissa já estava levantando-se da cadeira onde repousava. Eu estava tranquila.

Vi quando a mulher entre os tentáculos, tal como havia ocorrido com o homem, dissolveu-se em cinzas, restando apenas sua arcada dentária, roupas e espadas no chão. O que não vi foi de onde saíram todos aqueles zumbis, uma enorme onda pulando de trás das árvores correndo em minha direção. Melissa disse-me rapidamente que seus poderes não funcionavam nas mentes dos zumbis. Pensei em não chamar Bianca (já que eles vinham pelo lado oposto que ela estava na guarita onde eu me escondia), e eram muitos para ela e Lex combaterem. Mas ela é dotada de uma percepção absurda, e notou o que acontecia. Prontamente ordenou a Lex que cuidasse de proteger a mim e Melissa, quando ela própria daria combate aos zumbis. Lex questionou-a, enquanto obedecia. Retirando nós duas de dentro da guarita e colocando-nos para trás de si.

Bianca evocou pelo menos uma dúzia daqueles tentáculos, e todo ambiente escureceu. Meu coração estava no escuro. Minha alma, minha essência... E de repente vi que nada mais importava para mim, apenas que Bianca saísse ilesa daquele combate, e sabia que Lex e Melissa compartilhavam silenciosamente de meu sentimento.

Quando finalmente a nuvem de sombra dissipou-se, não havia mais nenhum corpo em pé. Nem zumbi, nem Bianca. Eu que já temia o pior mesmo antes de vê-lo, corri em direção ao caos, mesmo com Lex tentando deter-me.

Encontrei Bianca agonizante entre as dezenas de zumbis que eliminara. Senti uma pontada aguda no meio do peito, e o ar tornou-se ainda mais gélido e cortante. Ajoelhei-me ao seu lado e ela parece lutar para manter a consciência. Eu tremo e ela também. Ambas tremem por motivos ora distintos ora idênticos. Eu temo ela perca a vida, ela teme perde-la, e sente-se perdendo-a. Os espasmos aumentaram, e apoiei a cabeça dela em meu colo. Não restará muito tempo até que o corpo dela se dissolva em cinzas como dos outros, e agora, entre lágrimas, pareço saber exatamente o que saber.

Acabo de beijar Bianca pela última vez. Seus lábios estão frios. Mal a sinto presente nesse corpo que seguro em meus braços. Procuro algo importante na mochila, e encontro o canivete suíço, a primeira arma que consegui quando a infecção começou. Corto meu pulso, e quase não dói. Sinto o sangue escapar veloz pelo corte, e rapidamente o encaixo na boca de Bianca. Lex tenta impedir-me, alegando que Bianca me iria querer viva, mas Melissa o detém, e explica que essa decisão é minha agora. Gosto da Melissa, e espero que ela fique bem.

Bianca desperta, e não mais parece minha nobre e gentil amante. Seus olhos estão enegrecidos, e sua tez está bestialmente franzida, principalmente no cenho. Eu compreendo isso. Maria me disse que em todo vampiro existe um predador, que eles lutam para aprisionar o tempo todo. Não posso culpar Bianca por isso, e além do mais, era mesmo esta a minha intenção. Ela agarrou meu braço com violência e agora está sugando o sangue com voracidade. Sinto dor, dói muito. Não é mais prazeroso como foi da primeira vez. Parece que todos meus órgãos querem sair pelo minúsculo corte em meu pulso. Ouço Melissa gemer de desconforto ao prever o que acontecerá. Agora parece que me jogaram água gelada, desde a nuca até a base da coluna. Vejo luzes distantes, piscando em ziguezague. Tenho dificuldade de mover-me. Sinto-me pesada, dormente, inerte. Bianca abandona meu pulso ao mesmo tempo em que minha visão me abandona. Tudo escureceu de vez pra mim. Posso ouvir as vozes ao fundo. Parece que Bianca recobrou a consciência. Não sei quanto tempo já se passou desde que me cortei em seu favor. Posso ouvi-la chorando, me pedindo desculpas. Posso senti-la tomando-me em seus braços, e sinto-me feliz, pois não poderia desejar outro lugar pra estar. Quero dizer-lhe que não sofra, que tudo vai ficar bem, mas a voz, tal como os outros sentidos, já me abandonou. Ainda assim eu sei que ela pode ler meu último pensamento, então me esforço para abrir os olhos, e contemplo mais uma vez o seu rosto, emoldurado pelo céu de Paris, pontilhado de estrelas.

“Continue, querida. Continue por nós. Adeus”

 
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