quarta-feira, 4 de abril de 2012

Hortelã e Alecrim

Senti-me completamente insano em beijar as sandálias dela. Eram sandálias simples de borracha na cor preta, pequenas para acompanhar o tamanho dos pés, ligeiramente desbotadas pelo tempo longo de uso, mas o mais importante: eram as sandálias dela, e eram também as únicas coisas que lhe pertenciam que haviam restado em meu lar.
Era interessante retornar àquela casa para só então sofrer novamente por amor. A casa que pertencera à minha infância e adolescência, onde sonhei e desisti de sonhos, onde recebi pessoas que jamais vira na vida durante as festinhas particulares que embalaram minha juventude, e especialmente onde iniciei e reatei a maior parte de meus romances, marcantes ou não. Era exatamente ali que eu escondia minhas memórias, boas ou não. E agora, após tantos anos vivendo em outros locais, as circunstâncias fizeram o apartamento no centro perder a qualidade de habitação e lá estava eu de volta à casa.
Passamos um longo período juntos, reformando o quarto e arrumando as coisas no lugar – esta parte em especial cabia mais a ela do que a mim, levando em conta que nunca fui lá o melhor dos decoradores – e realmente acreditando, sonhando em uníssono, que a partir daquele período nós dois seríamos bem mais felizes, iríamos esquecer os infortúnios pelos quais vínhamos passando e daríamos um novo parágrafo inicial às nossas vidas, ao romance e a todo o resto. A casa ainda precisava terminantemente de muitos ajustes, mas me habituara a viver em um cenário decadente – que julguei sempre ser quase poético – e mesmo assim não tardaríamos a colocar tudo em ordem, ou pelo menos aquele era o meu plano inicial.. Agora, agora... Agora seremos felizes. Mas não fomos.
O estado de letargia que acometeu-nos nos meses seguintes foi tamanho, que nem me dei conta do tempo que já havíamos perdido no ano que mal entrara. Me sentia um completo inútil, dedicando-me apenas aos meus escritos, enquanto ela se ocupava com os serviços simples de designer no computador ou os trabalhos acadêmicos que começavam a se amontoar em sua mente e em seu HD externo. Comecei a imaginar como reagir diante deste marasmo que tomou-nos de chofre. Trocávamos a noite pelo dia, e eu sabia o quanto isso não ia bem, mas mesmo assim por alguma razão me sentia impotente diante da responsabilidade de encontrar alguma solução. Tentei reunir ânimo por diversas vezes para levantar no horário, organizar as coisas, compreender que, embora eu quisesse, jamais poderia viver apenas de escrita, pois isto de fato é uma regalia para quem já tem algum capital ou para quem pelo menos possui um tanto mais de talento do que eu. Mas não consegui reunir forças de lugar algum, e ela se sentia cada dia mais oprimida na atmosfera âmbar que nos engolia como um dragão de papel em meio ao carnaval chinês, colorindo as ruas e deixando um rastro-vácuo atrás de si em meio à multidão. Nós éramos o rastro-vácuo do mundo.
Sentia-me por vezes motivado em momentos que ela se queixava de não encontrar mais sentido na própria existência. Eu sabia que ela possuía talentos que eu jamais poderia sonhar em me aproximar sequer, e a via desperdiçando-os com amenidades e proezas que a maioria aprecia apenas como decoração. Sempre repeti exaustivamente que ela recolhesse todas as qualidades que possuía e saísse por aí as expondo ao mundo. É claro que havia o medo de perde-la - aliás, este medo era o mesmo que se alojara em mim desde que ela foi minha pela primeira vez – mas o que mais eu poderia fazer? Um dragão não deve ser aprisionado entre grades. A ele deve ser permitido todo o céu para voar, cidadelas inteiras para tostarem ao calor de seu fogaréu, uma mitologia inteira para ter as páginas e pergaminhos adornados com sua presença... Um dragão deve ser livre e, por isso, a deixava livre na esperança de que um dia retornasse ao simplório e diminuto lar que cultivara com esmero para ela, dentro de meu peito amante e eterno admirador. Então, quando ela começava a lamentar-se em busca de um sentido para a vida, eu sentia aquela animosidade e adrenalina, sentia que deveria de fato resolver as pendências que negligenciamos ao longo do tempo perdido e que, se não podia me comparar a ela em termos de talento, que pelo menos estivesse aqui como suporte, para que quando ela chegasse até o topo do que a vida lhe permite – ou seja, quando chegasse ao ponto mais alto do céu em seu voo noturno – eu pudesse ao menos ser um pequeno motivo para que ela retornasse para a Terra com intenção de dar uma boa olhada no que deixara para trás. Era assim que eu a via, voando por entre as nuvens e brilhando com a intensidade de mil sóis. Mas não, aquele não era o momento para dizer tais palavras. Talvez eu tenha esperado demais, e perdido o ponto exato de minhas intenções.
Como era de esperar, em curto prazo de tempo, cá estava eu com meus planos adiados, tentando equilibrar ora aqui, ora ali, quando ela decidiu voar por si só, sem precisar mais sequer de meu suporte para tal – e logo pude constatar que havia a perdido de vez, já que esta fora de fato a minha única função, e eu tinha plena consciência disso. Ela parecia prometer demorar pra voltar, e se voltasse, talvez viesse apenas recolher o pouco que deixara pra trás. Na dúvida, escondi sua sandália e preservei-a no local mais seguro que pude encontrar, como um troféu ou talismã. Como a única memória física, palpável, do que um dia foi meu mundo inteiro. Não desejo compaixão, é importante ressaltar. Desejo apenas o conforto de acreditar que pelo menos alguma parte de meu plano fracassado valeu a pena, já que sei que agora ela será realmente feliz e realizada, longe de meu marasmo infindável.
Porém me peguei pensando, logo que minha vida se fez vazia, no que poderia ser feito então. Eu jamais conseguiria fazê-la acreditar que estava realmente disposto a tentar colocar as coisas no lugar agora, que o medo de perdê-la se tornou sólido quando ela atravessou a porta da frente naquela tarde de chuva e que agora, agora sim estava pronto para o nosso recomeço, para retomar nossos planos de onde paramos, e para lhe dar o suporte que soneguei quase inconscientemente. Agora era tarde demais... Ela não estava mais aqui para pelo menos considerar a possibilidade de creditar minhas palavras – sinceras, agora eu tinha certeza – e me permitir ser a pista de pouso de seus voos ilimitados e belos. Agora restávamos apenas eu e a pilha de cinzas na qual se transformara meu coração, após receber a última graça do dragão: uma perene baforada de fogo gelado, que queima sem deixar marcas visíveis, mas que abre feridas incapazes de cicatrizar até reduzir tudo ao redor ao pó.
Lá estava eu novamente na casa, o recanto de minhas desilusões, mas ela nunca antes me parecera tão escura, tão vazia, tão... morta. Era como eu desejava estar também, mas me faltava a coragem necessária para partir em definitivo. Começava eu mesmo a desejar o que ela tanto me alegara pretender fazer, em seus momentos de sofreguidão e desespero por ver as coisas ao redor não fluírem, mudarem, tomarem um rumo diferente. Deus! Eu poderia ter desviado o caminho! Eu poderia ter lutado mais! Poderia tê-la aprendido, tê-la compreendido, tê-la ajudado. Mas jamais, jamais poderia tê-la prendido a mim. Não se amarra um dragão a uma estaca com corrente, mas... Eu poderia ter sido poste, torre, muralha... poderia ter sido mais forte, mais seguro... Poderia ter sido tudo. Não fui. Não bastei, nunca poderia ter bastado... pois a pessoa forte que eu apresentava ser quando precisava sustenta-la retirava forças justamente de todo o amor que sentia por ela, e por todo o desejo incontrolável de fazê-la feliz. Agora que as forças se foram, não havia mais como ser muralha ou fortaleza. Só poderia ser toco cortado ao meio, perdido na grama alta, nada mais.
Decidi que acabaria de uma vez com isso, e eu mesmo agora daria meu jeito de alçar voo em direção ao mais alto dos céus, na vã tentativa de acompanha-la. Seria o suficiente para vê-la por uma última vez, já que ela se fazia completamente inacessível e fora de meu alcance. Decidi que não seria mais neste plano que eu lhe daria suporte, uma vez que falhei na tentativa de retribuir toda a felicidade que ela me proporcionara, e em uma tarde exatamente idêntica à que ela se foi, também me fui, parti sem volta, para o mundo dos dragões.


Referência ao texto "Os dragões não conhecem o paraíso", de Caio Fernando Abreu.
 
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