Mostrando postagens com marcador Microcontos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Microcontos. Mostrar todas as postagens

domingo, 18 de dezembro de 2011

Ana Caroline

Ana Caroline não terminara o ensino fundamental. Problemas em casa a fizeram desistir da escola antes de saber o quão tudo aquilo poderia fazer diferença em seu futuro. Seus poucos amigos de escola se afastaram com o tempo e foram substituídos por umas meninas que moravam pelas ruas. Seus hábitos mudaram e, antes mesmo de ter seus 16 anos, Carol já estava fazendo pequenos serviços aqui e ali. Dera início a tudo isso para poder ajudar em casa, e o fazia sem amor, sem paixão, sem desejo. Levava o dinheiro para casa e o entregava para sua mãe, dizendo que trabalhava numa sorveteria a várias ruas de distância. De dia em dia sua rotina não se desfazia e a vontade não surgia. Entregava-se repleta de indolência a velhos que não lhe acendiam o ventre, que procuravam uma qualquer em qualquer esquina.

Certa vez encontrou um homem, pouco mais velho que ela. Era comum, assim como ela. Mas seus corpos deram sinais irrefutáveis de atração, numa sintonia próxima ao sobrenatural. Não houve mais espaço para seu trabalho desde a chegada de Pedro em sua vida. Mesmo que se vissem apenas para ficar sentados numa calçada qualquer, encarando-se, os encontros não eram cancelados e nem perdiam a frequência diária. Dia após dia seus corpos se entrelaçavam com sofreguidão em motéis baratos, os únicos que ele poderia dispor para a menina, e enrolavam-se nos lençóis carcomidos pelo descuido. Ambos estavam alheios a tais contratempos. Logo ela, que nunca conhecera o prazer de fato mesmo com os serviços que fazia, encontrara o maior dos desejos dentro de si. Suas entranhas se movimentavam com o toque de seu parceiro e se rendia facilmente ao seu domínio tirano, curvando-se ofegante aos desejos antes desconhecidos. Perdida no meio deste sonho erótico, não percebeu imediatamente como sua casa era demolida, caindo aos pedaços, seus pequenos irmãos com fome e sua mãe adoecida.

Chegou um dia em que o prazer permitiu-lhe, finalmente, ver o que acontecia ao seu redor. E então não poderia mais financiar estar longe de seu ofício. A humilhação cresceu em seu corpo numa febre, mas isto não poderia lhe impedir. Deu-se aos amantes da mesma forma que antes. Indefesa e frígida, resguardando ao seu amor o único presente que poderia lhe entregar sinceramente: seu desejo.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Fernanda facultativa


Tentava agradar de todas as maneiras, a pobre Fernanda. Nasceu em berço nobre, teve boa criação e nunca tirou uma nota ruim no colégio. Bons pais, bons tutores, boa aparência... Ótima aparência na verdade, porém preferia ocultá-la embaixo de óculos de tartaruga, camisas onde caberiam duas ou três dela dentro, e aparelhos dentários de ligas laranja. Ensino fundamental e médio, a mesma negação, a mesma auto afirmação. A crise da adolescência, da pré-juventude. O medo de crescer, de enfrentar o mundo. A falta de tudo ao redor, o bullying com nerds, a carência afetiva, o primeiro beijo que nunca chegava. Contrastando com isso, vinham as responsabilidades. O pai cobrando a melhor pontuação no vestibular, a mãe exigindo os melhores estágios antes mesmo da moça ingressar no bacharelado. A família cobrando o modelo perfeito de garota perfeita. O sucesso era obrigatório.

Eis que enfim o milagre aconteceu. O vestibular, a aprovação, a era universitária - finalmente - iniciava-se na vida da jovem, exatamente no mesmo ano que os óculos foram substituídos por um rayban pouco menor que a antiga armação, mas por alguma razão aquilo não era problema. Fernanda não entendia, mas agora todos usavam óculos parecidos com os dela. Seus cabelos lisos, sempre penteados com a ponta dos dedos apenas, agora eram tão comuns pelos corredores universitários quanto as camisas grandes e quadriculadas que, desde infante, roubara do armário de seu irmão mais velho. Não entendia a razão de suas calças de lycra que antes lhe eram razão de vergonha, hoje combinarem com essas camisas - deveriam combinar, já que todas as meninas da faculdade usavam. Foi em meio a essas descobertas que Fernanda conheceu Isadora. Motoqueira, tatuada, charmosa e a maior “pegadora” de todo o bloco de humanas. Foi na cama de Fernanda, em meio aos ursinhos de pelúcia e troféus de feiras de ciência, que Isadora arrancou os óculos grandes do rosto da moça, para não atrapalhar o entrelaçar das línguas, que acompanhava as carícias violentas das mãos da badgirl por dentro da camisa quadriculada, que logo seria atirada para o lado, seguida pelo soutien, e depois pelo jeans. Fernanda estava nua, livre, como nunca estivera antes. Isadora tateava seu corpo alvo, como quem busca um tesouro em algum deserto perdido. O fluxo perene da cachoeira quebrava na rebentação dos lençóis, dos toques, das línguas e dedos que corriam por toda parte, e entrelaçavam-se posteriormente onde deveriam. No ponto certo para que Fernanda apertasse o ombro de Isadora com toda força, fazendo o dragão tatuado no braço da motoqueira banhar-se em sangue e suor. Sangue. Dor. Prazer. A ofegante Fernanda agora compreendia a razão de ter se sentido diferente, excluída, descartada por toda sua vida. Aquela vida cheia de obrigações, e vazia de sentir, de estar, de tocar... Não poderia caber em um mundo de obrigações, pois agora, era facultativa.
 
Free Blogger Templates