terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Notre Belle Èpoque pt. 6

Páginas retiradas do diário de Anita Simões

03 DE SETEMBRO DE 1882

Reli diversas vezes os escritos diretamente no mais fino papel abaixo. Imagino mãos femininas, mas firmes, escrevendo temerariamente. Não como eu quando escrevo, que paro uma ou duas vezes, penso um eufemismo, escolho dizer um quarto fato, e então transformo meu pensamento em palavras. É moça similar a mim, mas em tudo diferente, peculiar, chamativa, forte. Não me admiro ou espanto por nossas cartas serem tão distintas. Está quase amanhecendo e eu não gostaria de largar este pedaço da consciência de Amélia, pois ela afasta grande parte da insegurança que dentro de mim vive, de meus temores infantis e da tenebrosidade que a escuridão me trás. Anexo sua carta cuidadosamente aqui. Voltarei para ler quantas vezes forem necessárias para que minha vontade de sua companhia seja minimamente saciada. Mas sei que esta noite terminarei no vazio de sua ausência, de sua inexistência.

Belém, 02 de Setembro de 1882

Caríssima amiga,

Como poderia eu, nas torpes e vãs palavras que nossa língua oferece, expressar-lhe toda minha gratidão pelo convite estendido por vossa senhoria à minha pessoa? Temo, porém, que para lhe justificar a razão de toda minha alegria, deva informar-lhe meus reais motivos: desde casada com Joaquim, não possuo amiga sequer que me acompanhe em atividades femininas, como provar nobres tecidos ou comentar a respeito de outrem. É lisonjeante, então, que vossa senhoria querida tenha visto em mim a possibilidade de uma amizade pura e livre de toda maledicência que circunda atualmente nosso meio social.
Asseguro-lhe de que Joaquim não tardará em permitir-me a visita à vossa propriedade, que confesso estar ansiosa por vislumbrar, tendo em vista que julgo ser de extremo bom gosto, levando em consideração seus bons modos e costumes.
Confesso-lhe secretamente, porém, que estive desejosa por escrever-lhe antes de receber seu manuscrito, porém temia perturbar sua alegria conjugal ao tomar-lhe o tempo. Todavia, tendo em vista que na atual circunstância tu própria és quem convidas, não tardo em aceitar, e prometo-te levar um bom vinho de nossa adega para degustação.

Até breve,
tua amiga
Amélia Cavaleiro

Obs.: Peço-te perdão se abuso de tua intimidade por, ao final da carta, tratar-te por “tu”.




Post escrito com a ajuda de Saah Tavares.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Notre Belle Èpoque pt. 5

Páginas retiradas do diário de Amélia Cavaleiro

Belém, trinta de agosto de mil oitocentos e oitenta e dois

Mal posso caber em mim diante da hecatombe causada pela mais recente chegada de um mensageiro à nossa propriedade. Recebi-o hoje pela manhã, após meu ritual sagrado de regar os jasmins recém-plantados (à meu pedido).

Anita enviou-me correspondência, e estou segura de que desta vez a iniciativa partiu da própria. Receio-me incapaz, porém, de expressar em sentimentos o conteúdo do escrito, quando o mesmo como um todo faz-se eloquente e palpável (tal qual as doces palavras que minha amiga sempre ofereceu-me). Quase pude ouvir sua voz aveludada e monocórdia enquanto degustava cada palavra desenhada no papel fino selado com esmero. Anexo então, nestas folhas de diário, a razão de toda minha alegria:


Belém, 30 de Agosto de 1882

Querida Sra. Cavaleiro (ou Amélia, caso me seja permitido),

Agora que o princípio dos negócios de nossos amados findou, partindo para uma nova etapa da relação entre ambos, aumenta monumentalmente a improbabilidade de uma reunião próxima entre nossas famílias. Ainda que nossos encontros tenham sido breves, e poucos deles tenham ocorrido, sinto falta de sua presença me cercando, de seu espírito intenso a incitar a rebeldia e a vida que há dentro de mim. Gostaria que não me considerasse uma louca por querer lhe oferecer uma tarde da minha mais cara hospitalidade. Saiba que espero, partindo de todos os recantos mais obscuros do meu ser, que atendas a meu pedido, que pode lhe parecer um pouco estranho. Meu alfaiate virá à cidade na próxima semana e passará todo um dia comigo, ajeitando-me vestidos e costuras adequadas. Estendo-lhe o convite de vestir-se comigo dos mais belos vestidos que Paris pode oferecer através das hábeis mãos de Monsieur LeBlanc.

Infelizmente, meu marido estará ausente neste dia. Sinto que passará todas as próximas semanas se distanciando ocasionalmente. Sendo assim, o seu senhor provavelmente acharia nossas atividades enfadonhas, principalmente por não ter nenhum empregado do sexo masculino para lhe fazer companhia adequada. Faço votos de que nem você nem seu senhor ir-se-ão melindrar por tal premissa.

O encontro deverá ocorrer em minha casa na próxima quarta-feira, que será o sexto dia do mês de Setembro. Certamente será uma bela manhã. Caso você chegue antes do alfaiate em minha residência, podemos fazer um calmo passeio pelo jardim para observar as flores e ouvir o canto das aves sonoras. É estranho pensar em como este ano, que se iniciou tão enfadonho, agora me parece fantástico apenas pela chegada de uma pessoa especial em minha vida; mais uma, quero dizer.

Com toda a ternura de vossa amiga,

Anita



Post escrito com a ajuda de Bruno Eleres.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O carro do sol



“Como devo te cantar, tu que por tudo que és mereces o louvor?”
-hino homérico ao deus Apolo

Aconteceu há mais ou menos um ano.


Eu estava completamente cansado naquele dia. Cansado do trânsito absurdo que enfrentara minutos antes, mas que me prenderam na rua por pelo menos uma hora a mais do que eu gostaria. Amaldiçoava os carros excessivos, as pessoas metidas a espertas que ultrapassavam pelo acostamento e buzinavam mesmo sabendo que nada poderia ser feito para o trânsito andar. Amaldiçoava o mundo, por andar cada dia pior. Amaldiçoava a mim mesmo, por ainda tentar me enquadrar em certos padrões.


Os carros permaneciam ferozes, metros abaixo de mim. Eu tirava a camisa social com vivacidade assustadora para quem, além do trânsito, enfrentara uma jornada exaustiva de trabalho ao longo do dia que se esvaia do relógio. A cortina balançava suavemente com a brisa chuvosa que ia entrando pela janela da sala, e considerei melhor mantê-la fechada, mas foi ao me aproximar da mesma que vislumbrei pela primeira vez o que dali pra frente me manteria realmente preso a uma espécie de universo paralelo criado por mim mesmo e meus devaneios.


Os últimos raios de sol faziam o céu parecer rubro e acolhedor, e ela se despia displicentemente na sala do flat que ocupava. Os cabelos negros casavam perfeitamente com as voluptuosas formas femininas e a pele bronzeada pelo mais saudável dos sóis. Aquela divindade em forma de mulher não me notava, observando-a da janela da frente. Meu corpo inteiro estava dormente e inerte, enquanto ela, agora, caminhava trajando apenas a calcinha de renda branca pela sala. Senti algo enrijecer dentro de minhas calças, e culpei-me ligeiramente por isso, afinal, eu não era mais nenhum adolescente para ficar excitado apenas por vislumbrar uma mulher desnuda, mas aquela definitivamente não era qualquer mulher. A diva esculpida em ébano flutuou sobre o carpete até um home theater posicionado à esquerda da sala, e possivelmente ligou o aparelho, levando em consideração que minutos depois ela dançava com magnitude, no que pra mim parecia um filme mudo de prazer e luxúria. Sem notar ao certo o que estava fazendo, desci o zíper da calça e rendi-me à lascívia daquela cena, sem conseguir tirar os olhos de minha inspiração.


Fui dormir tarde naquela noite, após a masturbação para a moça do prédio vizinho, pensando em um milhão de coisas ao mesmo tempo. Quem seria ela? Desde quando vivia ali, se eu antes nunca sequer havia notado que havia vida do outro lado do muro?


Estranhei o fato de não desejar de fato conhece-la. Era como se apenas aquilo me bastasse: Vê-la. Era como se, através de minhas próprias mãos, eu pudesse explorar seu corpo delgado de pitonisa, desvendando os mistérios do meu próprio.


Passei a buscá-la diariamente. Apreciei seu caminhar lento pela manhã, quando preparava-se para trabalhar, contemplei-a alimentar-se próxima à varanda, no cair da tarde. Assisti suas inúmeras ligações telefônicas, e aquele jeito peculiar que ela tinha de enrolar uma mecha do cabelo entre os dedos enquanto o fazia. Em aproximadamente uma semana eu e a diva de Apolo possuíamos um relacionamento unilateral. Ela apenas existia para mim, em um universo glorioso que cultivei com esmero. Eu, óbvio, não existia no universo dela, tão diáfana que era minha existência. Ela era a rainha do reino de um homem só.


Vivemos bem, eu e a janela, nesta semana já mencionada, e foi ao final dela que me deparei com a maior das surpresas.


Cheguei em casa mais cedo naquele dia, ansioso, pervertido. Queria vê-la urgentemente. Necessitava daquele momento escondido entre minhas cortinas, nu, manipulando minha própria genitália ao bel prazer de minha musa. Acontece que, naquele final de tarde, tudo mudaria.

Havia algo de felino em suas feições, ou talvez parecesse um vilão dos anos noventa. Seus músculos peitorais estavam exibindo a mais perfeita das definições, enquanto as grandes gotas de suor escorriam abundantemente por eles. Os cabelos escuros e lisos uniam-se à pele facial, e ele franzia o cenho em um misto de prazer e agressividade. Naquele momento, parado ali, eu tinha absolutamente todos os motivos do mundo para invejá-lo. Apoiada no encosto do sofá com as duas mãos, de costas pra ele, seios fartos sacodindo com força ao movimento de seus quadris, encontrando-se e desencontrando-se com os quadris do vilão felino, estava ela. Minha deusa mediterrânea movia seus lábios com suavidade e prazer, e tornava a cena contraditoriamente atraente. A contradição residia justamente no fato de que, enquanto ele parecia viril, sagaz, quase violento, ela reagia com leveza e calmaria, como se estivesse inebriada, entorpecida, delirante. Enquanto ele avançava por suas extremidades com feroz destreza, ela reagia em slow motion. As cenas distintas, no entanto, eram uma só. Estavam os dois ali, completando o mesmo cenário de luxúria e perversão, colados pelos sexos.


Enraiveci-me por um breve momento, afinal, esperava encontrá-la como sempre sozinha, fazendo alguma coisa à toa. Nunca havia visto aquele homem, nem outro homem sequer, naquele apartamento com ela, e já vinha me acostumando com a ideia de que ela era uma espécie de canal de televisão no qual eu poderia sintonizar quando me sentisse só. Aquele novo personagem em nossa trama, porém, mudava o curso do que eu vinha vivendo, mas seria ele de todo um ator ruim? Concentrei-me na maneira que ele movia-se atrás dela, revezando segurá-la pela nuca, cintura e ancas. Eventualmente parecia extasiado, e em dados momentos ligeiramente jocoso. A maneira que os músculos definidos dele revelavam-se a cada novo movimento bruto me atraia tanto quanto o sacolejar dos quadris e seios da mulher à sua frente.

Dormi tarde naquela noite, já entrando pela madrugada. Pensava no que vira mais cedo, pensava no quão me sentia mal por ter admirado aquele cara em vez de invejá-lo... Pensava na mulher à sua frente (que mais tarde esteve abaixo e acima dele também), e em quão ela era sortuda por tê-lo. Pensava no quão sortudo ele era por tê-la. Fiquei nos dois. Os dois tinham sorte. Os dois tinham alguém para abraçar antes de dormir, e ao mesmo tempo tinham alguém para permitir-lhes um prazer desmedido, desinibido, livre. Liberdade... A liberdade que sempre invejei dos outros. Não o “ser livre” no literal, como almejam os presidiários ou os animais em cativeiro. Liberdade, quando me refiro, trata de questões mais profundas, mais íntimas, mais individuais.


Sempre vivi às margens do correto, à beira do errado, e no centro de tudo. O que dizer? Família comum, carro popular, emprego modesto em um jornal de grande porte, algumas namoradas medíocres, sem grandes realizações profissionais, sem nenhum artigo ou matéria realmente notáveis... Comum. Um verdadeiro oposto do Harry Haller, de Herman Hesse. Agora, inusitadamente, em meio a todo marasmo cotidiano, deparo-me com este templo de Apolo do outro lado da janela, estampando a beleza, a perfeição, a harmonia... Levando consigo os últimos raios de sol quando as cortinas fecham.


Os dias que se seguiram foram pra mim de profundo desgosto. Notei que talvez eles fossem de fato um casal, e que no período em que conheci a pitonisa, Apolo encontrasse-se ausente em viagem, ou em constantes reuniões de negócio, e que agora talvez ele estivesse efetivamente de volta, levando em conta que cheguei a revê-lo uma ou duas vezes a caminhar pela sala de manhã, enquanto abotoava minha camisa social para trabalhar. Ele nas duas vezes estava de cueca, e questionei-me se não trabalharia nunca. Na segunda vez que o vi, porém, senti-me desconfortável e ligeiramente formigante dentro das calças. Ignorei este fato, naquele momento, e parti para minhas obrigações. Os dias foram desgostosos, no entanto, por conta da ausência deles. Não os vi desde a sexta feira, até acabar o final de semana. Saí para um barzinho ou outro (com um conhecido ou outro), e sempre que voltava pra casa, corria pra janela, desejando-os, buscando-os... Sempre me deparava com o mesmo vazio. A mesma escuridão. As mesmas cortinas fechadas, que para mim eram os portais do paraíso virando-me as costas, invalidando-me a ultrapassagem.


Segunda cheguei em casa, liguei o som, cantarolei um falsete acompanhando Divano do Era, tomei uma ducha e saí para procurar algo comestível na geladeira. Por alguma razão (provavelmente por conta do trabalho exaustivo de horas mais cedo, ou do trânsito exaustivo de todos os dias) naquele momento eu os havia esquecido. Estava movendo-me no piloto automático. Meu corpo estava movendo-se sozinho, empenhado em suprir minhas necessidades de chuveiro, alimento, repouso, e talvez depois eu fosse pensar na luxúria. A preguiça e a gula que viessem primeiro. O que houve foi que, ao passar de volta da cozinha para o quarto, uma luz emanando da janela da sala (que encontrava-se imersa no breu) me chamou atenção. Meu coração disparou, energizando meu sangue, e avivando todos os músculos, inclusive os que enrijecem. Caminhei até a janela, sedento de vê-los. Naquele momento já não importava qual dos dois, ou os dois juntos. Desejava vê-los, e suprir a quase abstinência a qual fui submetido durante o eterno final de semana. Abri a cortina em apenas uma fresta, mas mesmo assim fui menos discreto do que gostaria. Não me prejudiquei com isso. Como se Apolo houvesse ouvido minhas preces, lá estavam eles. Não como eu gostaria, em pleno coito, mas estavam ali. Haviam voltado para mim. Havia, porém, mais um personagem em meu canal predileto. Apolo sorria, exibindo aquela fileira perfeita de dentes entre a rala barba que agora cobria a outrora nudez de seu rosto. Aquilo lhe concedia traços ainda mais selvagens do que anteriormente. A pitonisa mexia com o palito metálico na panela fumegante de foundie sobre a mesinha de centro, e o terceiro personagem, o homem loiro, de peito largo e sorriso fácil, servia-se de uma dose de uísque. Aprumei o binóculo (cujo comprei apenas para observa-los e no qual gastei uma fortuna) na mão direita e passei a tentar compreender a nova cena a mim oferecida. Apolo e sua pitonisa estariam recebendo um visitante? Aparentava ser isso mesmo. Sentei-me em uma das poltronas da sala, e esqueci completamente que estava cansado.


A reunião permaneceu comum até certo ponto, e eu começava a cogitar levantar-me e ir para meu quarto, retornando mais tarde para ver se algo acontecia, quando de fato aconteceu. O convidado ergueu o vinho que estava sobre a mesa, e disse algo que eu não podia ouvir olhando em direção ao Apolo. A pitonisa ria, movendo seus lábios volumosos como sempre em slow motion. Apolo riu francamente, e fez sinal para que aquele Dionísio sentisse-se a vontade. O homem loiro ergueu-se de sua poltrona, e como se fosse a coisa mais normal do mundo, despiu o tronco da pitonisa com certa urgência. Ri-me de estar surpreso com aquilo. Eu deveria estar grato. Dionísio agora espalhava vinho por todo o colo da musa, e posteriormente o limpava com lábios e língua. Não sei exatamente dizer como aconteceu, mas em seguida ela era invadida por todos os lados, em um ritual digno do deus do vinho.


Deitei-me extasiado, esgotado, nulo. Aquela havia sido a melhor festa por mim já compartilhada em toda minha existência. Não havia palavras Terrestres para expressar o que senti naquela noite... Ou pelo menos até então não consegui encontrar nenhuma.


Pensei por muito tempo antes de dormir naquela noite, e no dia seguinte, no trabalho. Às vezes, quando recordava-me com intensidade demais, precisava correr para o banheiro, para não permitir que meus colegas de trabalho me vissem passando vergonha. Seria vergonhoso ser flagrado naquele estado em plena redação, mas intimamente eu me vangloriava. Quem poderia ter sorte melhor que a minha, que possuía uma relação tripla, e às vezes ainda recebia um convidado tão bem vindo? Eu era um abençoado. Um filho querido do Olimpo. Ria-me em silêncio.


Os meses que se seguiram foram comuns para mim e para eles. Nunca os vi brigando. Desejava aquela relação como desejava o ar e nunca perdia o interesse no cotidiano do casal. Certa vez, em um dos coitos mais agressivos que presenciei entre eles, enquanto eu me tocava no escuro, tive a impressão de ver Apolo olhando em direção a minha janela. Parei de súbito. Teria ele me visto? Nunca soube, mas se via, ele gostava de ver. O vilão sorria, biltre, satisfeito. Parecia querer compartilhar aquele momento de prazer comigo. Ele a cobria com mais voracidade depois de me notar observando. Perguntei-me, naquele episódio, a razão de ter me sentido estranho por ele ter me visto. O fato dele não ter parado, nem ficado aborrecido, de certa forma me inquietou. Não sei dizer exatamente qual reação eu esperava que ele tivesse, mas senti-me invadido, inibido, acuado... Por outro lado, aquilo me levava a crer que eu, se quisesse, talvez poderia ter sinalizado para ele de algum jeito, e posteriormente ele poderia me procurar, poderíamos nos conhecer, eu poderia ser convidado algum dia para alguma das reuniões... Não! Aquilo não me era permitido. Eu era um convidado mundano, impuro. Nunca seria digno de ascender ao Olimpo da janela da frente.


Neste período, não consegui namorar, nem sair, nem sequer uma noite de sexo sem compromisso com mulher nenhuma. Não que oportunidades me faltassem, mas eu sempre acabava perdendo o interesse em cima da hora. Era como se faltasse alguma outra coisa... Era como se faltasse divindade. Até um dia, meses depois, em uma noite de sábado, enquanto eu esperava eles chegarem, notei mais uma vez um novo personagem desconhecido e novo em minha novela. Uma mulher alva, dona de longos cachos aloirados, entrou sozinha no flat. Serviu-se de vinho na sala, e despiu-se quase até alcançar a total nudez, preservando apenas a peça íntima inferior. Sorri extasiado, imaginando a minha sorte naquele dia. Posteriormente, A pitonisa adentrou seu templo sagrado, e ao vislumbrar aquela Afrodite, seminua, sentada no trono de Apolo, despiu-se também, e partiu para junto dela oferecendo sacrifícios de beijos quentes e mãos que passeavam por toda parte do corpo. Eu já participava secretamente do ritual, quando Apolo chegou, e prontamente uniu-se àqueles corpos, criando um dégradé de cores, formas e tamanhos. Eu sentia o toque de todas aquelas mãos. Recebia beijos que não eram meus, carícias íntimas que nunca senti de fato, mas que naquele momento eram mais reais e palpáveis do que qualquer outro toque por mim sentido em toda minha parca existência. Afrodite me inspirava, me chamava. Me dizia: “venha, meu filho. Desfrute de meus dotes, tome para si o meu poder.


Aceitei o convite de Afrodite, e quando ela retirou-se do templo, desci apressado, e fingi um encontro casual na rua (é claro que eu nunca poderia ter dito a ela o que andava fazendo horas antes). Saímos, bebemos juntos, dormimos juntos, seu nome era Milena, e ela acabara de perder toda a divindade. Era uma mulher comum. Era Afrodite apenas quando invadia o templo de Apolo e sua pitonisa.


Comecei a questionar se não estava enlouquecendo. Aquilo era demais para mim. Nada mais tinha graça, se não fosse observado através da janela. Entendi então que não estava louco, e sim abençoado. Aquele era um portal, uma passagem para a melhor das dimensões. Através do portal (e apenas através dele) as pessoas ascendiam à divindade eterna. Eu precisava ascender também, mas era impuro, mundano, simplório... Indigno, e era apenas isso.


Vivo com isso há algum tempo, e no início desta semana, logo pela manhã, descobri que havia sido desafortunado pelos deuses do Olimpo. Havia um caminhão no térreo. Apolo partiria para sempre com sua pitonisa, abandonando o templo, e mudando-se para outras paragens. Sofri eles me deixarem. Chorei amargamente durante todo o resto do dia, e nem consegui comparecer ao jornal. Acaso eles não me amavam? Acaso havia eu feito algo de errado para ser deixado para trás?


Hoje acordei mais disposto, no início do final de semana, e resolvi sentar na sala, e escrever um pouco dessa nossa história de deuses e orgias. Digitei todo o texto, entre tragadas longas, e grandes canecas de café. Ao terminar a primeira parte do texto, porém, avistei caixas de papelão ocupando todo o espaço que outrora pertencera à Apolo, e senti-me curioso. Levantei-me, caminhei até a janela, e saboreei os raios doces do sol que o carro de Apolo, até então, levara consigo.


Havia uma mulher na sala. Ruiva, esguia, belíssima. Possuía traços delicados, e ao mesmo tempo fortes, marcantes. Ela dava ordens, com pulso firme, para que os homens da companhia de mudança não danificassem seus pertences. Aparentemente, eu não fui desafortunado pelo Olimpo, afinal. Eles ainda estão me abençoando, e olhando por mim. Apolo apenas pediu para que lhe substituíssem naquele local sagrado, então, que seja assim. Seja bem vinda... Artemis.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Ana Caroline

Ana Caroline não terminara o ensino fundamental. Problemas em casa a fizeram desistir da escola antes de saber o quão tudo aquilo poderia fazer diferença em seu futuro. Seus poucos amigos de escola se afastaram com o tempo e foram substituídos por umas meninas que moravam pelas ruas. Seus hábitos mudaram e, antes mesmo de ter seus 16 anos, Carol já estava fazendo pequenos serviços aqui e ali. Dera início a tudo isso para poder ajudar em casa, e o fazia sem amor, sem paixão, sem desejo. Levava o dinheiro para casa e o entregava para sua mãe, dizendo que trabalhava numa sorveteria a várias ruas de distância. De dia em dia sua rotina não se desfazia e a vontade não surgia. Entregava-se repleta de indolência a velhos que não lhe acendiam o ventre, que procuravam uma qualquer em qualquer esquina.

Certa vez encontrou um homem, pouco mais velho que ela. Era comum, assim como ela. Mas seus corpos deram sinais irrefutáveis de atração, numa sintonia próxima ao sobrenatural. Não houve mais espaço para seu trabalho desde a chegada de Pedro em sua vida. Mesmo que se vissem apenas para ficar sentados numa calçada qualquer, encarando-se, os encontros não eram cancelados e nem perdiam a frequência diária. Dia após dia seus corpos se entrelaçavam com sofreguidão em motéis baratos, os únicos que ele poderia dispor para a menina, e enrolavam-se nos lençóis carcomidos pelo descuido. Ambos estavam alheios a tais contratempos. Logo ela, que nunca conhecera o prazer de fato mesmo com os serviços que fazia, encontrara o maior dos desejos dentro de si. Suas entranhas se movimentavam com o toque de seu parceiro e se rendia facilmente ao seu domínio tirano, curvando-se ofegante aos desejos antes desconhecidos. Perdida no meio deste sonho erótico, não percebeu imediatamente como sua casa era demolida, caindo aos pedaços, seus pequenos irmãos com fome e sua mãe adoecida.

Chegou um dia em que o prazer permitiu-lhe, finalmente, ver o que acontecia ao seu redor. E então não poderia mais financiar estar longe de seu ofício. A humilhação cresceu em seu corpo numa febre, mas isto não poderia lhe impedir. Deu-se aos amantes da mesma forma que antes. Indefesa e frígida, resguardando ao seu amor o único presente que poderia lhe entregar sinceramente: seu desejo.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Fernanda facultativa


Tentava agradar de todas as maneiras, a pobre Fernanda. Nasceu em berço nobre, teve boa criação e nunca tirou uma nota ruim no colégio. Bons pais, bons tutores, boa aparência... Ótima aparência na verdade, porém preferia ocultá-la embaixo de óculos de tartaruga, camisas onde caberiam duas ou três dela dentro, e aparelhos dentários de ligas laranja. Ensino fundamental e médio, a mesma negação, a mesma auto afirmação. A crise da adolescência, da pré-juventude. O medo de crescer, de enfrentar o mundo. A falta de tudo ao redor, o bullying com nerds, a carência afetiva, o primeiro beijo que nunca chegava. Contrastando com isso, vinham as responsabilidades. O pai cobrando a melhor pontuação no vestibular, a mãe exigindo os melhores estágios antes mesmo da moça ingressar no bacharelado. A família cobrando o modelo perfeito de garota perfeita. O sucesso era obrigatório.

Eis que enfim o milagre aconteceu. O vestibular, a aprovação, a era universitária - finalmente - iniciava-se na vida da jovem, exatamente no mesmo ano que os óculos foram substituídos por um rayban pouco menor que a antiga armação, mas por alguma razão aquilo não era problema. Fernanda não entendia, mas agora todos usavam óculos parecidos com os dela. Seus cabelos lisos, sempre penteados com a ponta dos dedos apenas, agora eram tão comuns pelos corredores universitários quanto as camisas grandes e quadriculadas que, desde infante, roubara do armário de seu irmão mais velho. Não entendia a razão de suas calças de lycra que antes lhe eram razão de vergonha, hoje combinarem com essas camisas - deveriam combinar, já que todas as meninas da faculdade usavam. Foi em meio a essas descobertas que Fernanda conheceu Isadora. Motoqueira, tatuada, charmosa e a maior “pegadora” de todo o bloco de humanas. Foi na cama de Fernanda, em meio aos ursinhos de pelúcia e troféus de feiras de ciência, que Isadora arrancou os óculos grandes do rosto da moça, para não atrapalhar o entrelaçar das línguas, que acompanhava as carícias violentas das mãos da badgirl por dentro da camisa quadriculada, que logo seria atirada para o lado, seguida pelo soutien, e depois pelo jeans. Fernanda estava nua, livre, como nunca estivera antes. Isadora tateava seu corpo alvo, como quem busca um tesouro em algum deserto perdido. O fluxo perene da cachoeira quebrava na rebentação dos lençóis, dos toques, das línguas e dedos que corriam por toda parte, e entrelaçavam-se posteriormente onde deveriam. No ponto certo para que Fernanda apertasse o ombro de Isadora com toda força, fazendo o dragão tatuado no braço da motoqueira banhar-se em sangue e suor. Sangue. Dor. Prazer. A ofegante Fernanda agora compreendia a razão de ter se sentido diferente, excluída, descartada por toda sua vida. Aquela vida cheia de obrigações, e vazia de sentir, de estar, de tocar... Não poderia caber em um mundo de obrigações, pois agora, era facultativa.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Pique-esconde

Permanecia sentado empertigado durante as aulas de qualquer um dos professores, como um típico sabe-tudo. Ainda não estava plenamente acostumado com a constante troca de professores num único dia da semana, de matemática para ciências e logo depois para redação, por exemplo. Havia ingressado no oitavo ano há pouco tempo. O aumento na expectativa dos professores e a pouca conexão entre o mestre e seus alunos eram sentimentos generalizados. Quero dizer, o oitavo ano é uma fase de transição; fase esta que começamos a nos tornar cada vez menos crianças e mais adolescentes. Com isso, novas brincadeiras pipocam aqui e ali, num misto do infantil e do adolescente. As meninas se agrupam em bandos, passando a viver de risinhos e olhares. Os meninos elegem líderes entre si em constantes disputas pouco óbvias de força e dominação, baseados em contar vantagens e em aparência. Eu permanecia alheio a tudo isso, e mantinha minha pose superior, pétreo.

Minha pouca idade influenciava esse meu posicionamento quanto ao que acontecia ao meu redor. Veja bem, eu era um único ano mais novo que meus companheiros, mas isso parecia fazer toda a diferença no desenvolvimento dos meus comportamentos. Enquanto eles brincavam de se empurrar e se dar socos, meu olhar se voltava para os brinquedos antigos, agora esquecidos por todos eles. No início ainda tentei voltar para a infância, onde tudo era mais simples, mais puro. Porém as risadas por causa de meu comportamento infantilizado fizeram com que eu me voltasse à realidade e avançar lentamente, avançar para onde a maioria caminhava em uníssono. Naquela época, eu não quis andar naquela direção.

Conservava ainda demasiado orgulho por ser o mais novo da turma, usualmente tratado com diminutivos, que geralmente só intensificavam mais minha imagem de criança. Para mim, aquele orgulho era plausível e necessário. Era o que me fazia sobreviver por ser tão discrepante daqueles ao meu redor. Observava-os de cima, como se eles fossem comuns e isso os fizesse inferiores. Eu, ao contrário, era perspicaz e inteligente, além de ser geralmente o foco de atenção de todos os professores e adultos. Este pensamento me mantinha preso num sentimento de segurança, num mundo iluminado acima das expectativas do grupo em que eu estava obrigatoriamente inserido fisicamente. Aquele mundo era longe de qualquer reprovação dos adultos, que eu insistia em afirmar que consistia de mais alta importância, e dissociado do mundo dos outros. Os outros eram cheios de pecados e dignos da mais pura reprovação, afinal, eu sabia de tudo o que faziam quando estavam longe dos olhares mais experientes. Achava-me similar à uma ave, que tem a permissão de acesso a dois mundos completamente diferentes, porém não pertence por inteiro a nenhum deles; afinal, nem eu nem uma ave poderíamos sobreviver sem transitar livremente por estes espaços paralelos.

Naquele momento eu observava Camila a certa distância. Havia nela algo de divino, algo que a diferenciava das outras garotas. Seus longos cabelos lisos e louros não eram avolumados como era comum na minha sala de aula. Seus cabelos combinavam perfeitamente com suas feições, eram finos e esguios. Eu a considerava tal qual uma princesa. Refinada. Aristocrática. Intocável. Ainda não havia percebido alguns traços de meus desejos, e ainda confundia demais minha apreciação poética com meu lado instintivo masculino. Para lhe falar a verdade, ainda o negava quase que completamente. O único indício de que eu havia um sexo era a minha vontade escondida no mais recôndito pedaço da minha alma: ser igual. Às vezes eu demorava a dormir de noite, quando admitia a dualidade disso. Querer ser diferente e querer ser igual. Estes dois animais brigavam incessantemente no meu ser, dilacerando-se/me através da noite, arrancando-me lágrimas e gemidos. Ainda não conhecia o amor nem a auto aceitação. Ainda não os conheço completamente.

Passei vários dias ‘apaixonado’ por Camila. Ou seja, observando a leveza de seu andar e sua feminilidade exacerbada. Pensava que um dia poderia leva-la para passear pelos jardins públicos e, de repente, segurar suas pequenas mãos entre as minhas. Neste momento olhava para as minhas próprias mãos e ficava frustrado ao perceber que elas eram pequenas, menores do que as de outros meninos, o que lhes dava uma aparência feminina. E a frustração se intensificava quando eu me pegava fazendo comparações entre o tamanho dos outros rapazes e o meu próprio. Olhava-me no espelho e via um raparigo magrelo, de feições refinadas e olhar frio; sempre via aquele rapaz pequeno e frágil. Então eu começava a reparar em rapazes da minha sala. O Diego tinha um ar de malandro, o qual deixava todas as garotas meio assanhadas por ele, e carregava sempre um sorriso de desdém extremamente atrativo. E então me irritava por estar prestando atenção nele, e voltava meu pensamento para a minha própria imagem.

Uma vez eu estava em uma roda de garotos, o que ainda não me era completamente estranho. Eles conversavam de modo desleixado, lentamente, deixando uma atmosfera densa. Às vezes, enquanto conversava com eles, me imaginava em um filme de traficantes de drogas. Todos os homens sentados ao redor de uma mesa, um cigarro pendendo da boca de alguns deles e uma mesa cheia de cartas e copos de whisky. Mas aquela sensação não era simples de entender. Conservava um pouco de perigo, como se eu tivesse sido carregado para o mundo das trevas extremamente atrativo para a criança Sinclair; além de sensualidade. É. É essa a palavra: sensualidade.

- Então, é normal quando tu ficas mais velho esses pelos começarem a aparecer mesmo. Né, cara? – perguntou, olhando para outro menino que estava na roda.

O outro assentiu, mas naquele instante percebi que era por pura aceitação incondicional dos fatos apontados pelo Diego. É como se ele fosse o líder do bando, o macho alfa. Todos os outros meninos o seguiriam para qualquer lugar e sequer perceberiam essa tendência. E, por mais que tudo aquilo fosse magnético para mim, meu consciente não queria estar ali. O meu lado sofisticado queria estar longe. Meu lado mundano, no entanto, queria ser o líder daquele bando ou subjugado por aquele que fosse mais forte.

Aquelas sensações começavam a borbulhar dentro da minha alma. Uma mistura de atração pelo delicado e diáfano cheiro de Camila e pela pujança natural de Diego. Tudo aquilo chegou a confundir toda a minha organização e comecei a me perguntar se todos eles passavam por tamanha dificuldade também. Mas todos eles pareciam tão cheios de si, tão conforme o que seus instintos os mandavam fazer. Não parecia para mim que poderia haver qualquer confusão dentro deles.

Alguns dias depois que me apercebi em tal situação, um dos professores pediu que fizéssemos um trabalho em dupla. Jamais faria um trabalho com o Diego; já que ele não parecia expor qualquer habilidade para tais atividades. Revistei a sala para verificar se haveria alguém para estar numa dupla comigo, desejando silenciosamente que Camila ainda não tivesse caído nas garras de suas amigas fofoqueiras. Era de mais extrema ingenuidade pensar que, mesmo que ela ainda estivesse livre, ela faria aquela atividade extraclasse comigo. Para o bem de meu ego todas as meninas da sala já tinham se ocupado entre si. Caio, um dos seguidores de Diego, aproximou-se de mim sozinho. Olhei-o meio surpreso com aquilo, pois ele jamais deixava a companhia dos outros meninos a não ser na hora de ir embora da escola. Ele era um rapaz um pouco menor que Diego, mas conservava o mesmo estilo de aparência e imposição que o outro; ainda que fosse, em minha opinião, mais esperto. Perguntou-me sobre o que eu estava jogando, e eu respondi que começara a jogar Resident Evil 4 num Playstation 2 que meu pai recentemente me dera; mas estava mais interessado em cortar a baboseira e saber o que ele queria comigo. Não era nada comum ele ir falar comigo, mesmo na companhia dos outros, e aquilo me parecia muito incomum. Após algumas linhas de conversa sobre games, Caio me convidou para fazer o trabalho com ele. Iríamos nos reunir em sua casa naquele mesmo dia, às três horas da tarde. Deu-me seu endereço anotado e disse que iria me esperar no horário marcado.

Parti inquieto para casa ao fim da aula. Não sabia o que imaginar com aquela mudança repentina no comportamento de Caio. Imaginei diversas vezes que ele estava planejando alguma coisa, mas não conseguia precisar o quê.

Avisei para minha mãe que iria para a casa de um amigo da escola naquele horário e saí de casa um pouco antes do horário marcado. Sua casa não era muito distante da minha e ficava bem perto de nossa escola, sendo que minha mãe me deixou ir sozinho para lá por causa disso. Cheguei a frente à sua casa. Ela era bonita e com um ar aristocrático. O muro da entrada era coberto por trepadeiras e culminavam em uma série de espinhos metálicos na parte superior da estrutura. Um pequeno telhado cobria a parede de concreto que separava o exterior da garagem. Apertei na campainha, curioso para ver a casa por dentro. Em poucos minutos uma senhora me atendeu. Não, não uma senhora. Era uma mulher extremamente bonita, com traços fortes e um tanto quanto masculinizados, de cabelos negros e olhar impositivo. Vestia-se como advogada. Deixou-me entrar e me avisou que o Caio me esperava na sala para fazer o trabalho.

Entrei na casa sentindo-me acanhado. Observava a estrutura da casa com certa curiosidade, mas já não conseguia me atentar completamente a ela. Avistei meu colega de classe sentado no sofá, jogando videogame. Sentei-me ao seu lado e logo recebi um controle pra jogar um pouco com ele. Paramos de jogar depois de uma meia hora e fomos logo fazer nossa atividade. A tarde foi bastante agradável. Ficamos conversando por horas sobre alguns jogos e personagens, e depois ele me acompanhou até em casa com a desculpa de ir até uma pequena loja para comprar refrigerante. A partir deste dia começamos a nos dar bem e ele se tornou o meu primeiro amigo de verdade. Ao menos eu o considerava assim.

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Após algumas semanas comecei a perceber uma movimentação estranha pela sala. O Caio sentava agora logo atrás de mim, tendo se mudado para ali apenas alguns dias depois de fazermos aquele antigo trabalho. Passara todo esse tempo absorto em sua companha, envolvido pelo seu sorriso e conversa mansa sobre nossos gostos em comum. Raramente olhava agora na direção da menina por quem um dia eu alimentara uma pequena paixão platônica, tampouco na direção de Diego, quem eu tanto admirara semanas antes. Mal percebera que este último agora estava mais arredio com algumas pessoas da sala, inclusive comigo.

Numa terça-feira, logo no começo da aula, eu já estava ansioso pela chegada do Caio. Passara de uma fase bastante difícil na noite anterior e queria dividir tudo com ele. Fiquei observando a porta da sala, vendo todo mundo da sala entrar um após o outro, até a chegada da professora de matemática. Franzi o cenho, curioso e preocupado. Fiquei imaginando motivos para ele não ter ido à aula, mas nada de plausível me vinha à cabeça. Na chegada do segundo período, quando os retardatários poderiam entrar na sala, a mesma ansiedade surgiu em mim; mas ninguém além de uma das amigas de Camila entrou na sala. Iria à sua casa logo depois da escola para verificar se ele estava bem. Em pouco tempo o intervalo chegou e eu decidi ficar na sala. Conservava o hábito de andar por ela quando estava vazia para poder pensar nos livros que lia e imaginar diferentes finais ou ações dos personagens. Nem percebi quando Diego entrou na sala e ficou me observando de modo sorrateiro.

Quando olhei na direção da porta me surpreendi com sua presença. Ele me observava com o típico sorriso maroto. Fazia algum tempo que eu não parava para lhe observar. Ele estava bem vestido como sempre e seu cabelo arrumado num perfil coincidentemente desleixado. Um dândi. Murmurei um ‘oi’ um tanto encabulado, achando que ele havia entrado apenas para pegar algum dinheiro para seu lanche ou algo do gênero. No entanto, Diego foi se aproximando de mim como um caçador; e eu recuando para a parede, assustado com o que ele poderia fazer comigo. Encostou-me à parede, seus braços postados de cada um dos meus lados, impedindo que eu me movimentasse com fluidez.

- Queria saber por que às vezes você é assim meio metido... – falou, olhando-me diretamente aos olhos.

Uma confusão de sentimentos começava a me devastar. O primeiro deles foi medo por estar sozinho numa sala escura, encurralado por um cara maior do que eu. O segundo foi vergonha por estar sendo enfrentando tão diretamente e não ter força física nem mental para rechaçar aquele ataque como um dos personagens de meus jogos e livros. O terceiro: excitação. Ainda não sabia discernir o que era aquilo, aquele aumento no número de batimentos cardíacos e aquele nervosismo exacerbado. Fiquei confuso com seu perfume invadindo-me os poros e me deixando encantado. Senti uma pressão conhecida na minha região pélvica, mas preferi ignorar aquela sensação. Mandei ele me deixar em paz, mas ele continuou ali à minha frente, sorrindo obsedante.

O alarme que sinalizava o término do intervalo entre aulas soou. Diego se afastou de mim, ainda olhando diretamente nos meus olhos. Acendeu a luz da sala e me deixou ali, estático e extático.

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Dias se passaram e não conseguia esquecer o que acontecera naquele intervalo de apenas quinze minutos. Seu perfume ainda estava tão real para mim quanto naquele instante. O nervosismo ainda crescia forte e pungente dentro de mim só de pensar naquela cena. Parecia-me uma cena de um filme. Passei várias noites pensando e pensando. Em uma noite cheguei à única conclusão que não machucaria meu ego: ele gostava de me perturbar. Era o mais simples e eu deveria dormir com isso. Todas aquelas minhas outras sensações deveriam ser esquecidas e eu jamais poderia pensar nele de outra forma. Tive um sono inquieto. Sonhei que estava num passeio com meus pais, e quando olhei para o lado eles não eram mais os mesmos. Agora andava de mãos dadas com Camila e Diego. Os dois se aproximavam de mim e começavam a me tocar indecentemente, descendo suas mãos até minhas pernas de criança. Acordei exaltado, aquela cena ainda em minha cabeça e os efeitos visíveis no meu sexo.

Precisava contar do que acontecera com o Diego para alguém para ter alguma certeza de que aquilo nada significava. Meu único amigo era o Caio, mas não sabia se deveria contar para ele este tipo de coisa. Por fim, resolvi que deveria lhe contar de uma maneira que deixasse evidente minha irritação com o acontecido, para então ver sua reação. Falei com ele na escola sobre ir à sua casa durante de tarde para conversarmos. Ele bateu de ombros e disse que pediria para a mãe comprar uma pizza no supermercado para lancharmos. Saí nervoso da escola pela conversa que viria. Almocei apressadamente e fui jogar Naruto para esperar o tempo passar.

Cheguei a sua casa um pouco depois das 14 horas. Passamos direto para o seu quarto e eu murmurei um rápido bom dia para sua mãe, que estava conversando com alguém ao celular. Nos trancamos em seu quarto, como de hábito, mas sem nenhum motivo em especial. Agora eu já estava acostumado com seu quarto. Um beliche ficava em um dos cantos, sendo que a cama de baixo era lotada de CDs e quadrinhos de super-heróis. Subimos para a cama de cima com alguns dos quadrinhos logo depois de ele colocar Aerosmith para tocar em seu laptop. Mostrou-me algumas das novas aventuras dos Vingadores, até que eu reuni coragem para entrar no assunto que eu realmente queria abordar.

Contei-lhe com detalhes sobre como o Diego me abordara dias antes, e de como eu tinha ficado irritado com aquilo. A tensão subiu em mim e comecei a respirar mais rapidamente, esperando que ele respondesse alguma coisa. Caio ficou parado por mais de dois minutos, parecendo entretido com alguma coisa em sua revista. Eu fiquei lhe observando, nervoso. Ele levantou a cabeça lentamente, como o slow motion dos filmes do Zack Snyder, e me encarou. A tensão entre nós cresceu conscientemente e se tornou palpável. Ele se aproximou e me deu o primeiro beijo na boca, deixando-me completamente sem reações. Não sabia o que fazer a partir dali e não correspondi da forma que ele esperava, tanto que ele se afastou. Desculpou-se e pediu para que eu fosse embora. Guiado por ele eu voltei para minha casa.

Aquele beijo despertou um fogo dentro de mim. Cada célula minha clamava por uma segunda experiência, e então por uma terceira e por uma quarta; assim infindavelmente. Passei o dia pensando em como seria se tivesse correspondido como já tinha visto nos filmes e novelas. De noite, deitado em minha cama, aquele fogo voltou a se expandir em mim. Cada parte do meu corpo se sentia extasiado com a lembrança do primeiro beijo, sobrepujando completamente o delicado em Camila e o charme de Diego. Pela primeira vez eu descobri o prazer de me tocar. Sentia cada parte do meu corpo explodindo como mil fogos de artifício a cada toque das minhas mãos; e logo percebi o quanto o meu sexo necessitava ser tocado também. Minha mão esquerda descobria cada local sensível do meu corpo, e minha mão direita se movia lentamente envolvendo meu pênis. Aquele prazer culminou em pouco mais de um par de minutos num jato de prazer e êxtase. Por um momento me desesperei com aquilo que me estava acontecendo, com a mente nublada e querendo saber o que estava sentindo. Logo aquilo passou, deixando ainda alguns arrepios frenéticos após o ponto máximo.

Dormi num misto de culpa e felicidade pela minha autodescoberta.

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Não sei bem o que mudou em mim desde aquela noite. Comecei a me sentir um homem, não mais uma criança ingênua. Comecei a invadir o espaço de Diego, como se a desafiá-lo; mas ele não voltou a me atacar tão diretamente como daquela vez, ainda que eu desejasse que acontecesse novamente. Caio parou de falar comigo, ainda que eu tentasse constantemente que ele correspondesse ao meu afeto. Camila foi esquecida por todo aquele período. Pensar nela não me dava aquele prazer recém-descoberto, então se tornou pouco importante para mim. Acabei por ir deixando de lado a birra de Caio comigo, já que um pequeno problema em casa me aparecera.

Estávamos morando os últimos anos em uma casa relativamente pequena, e meus pais queriam uma casa maior. Haviam encontrado uma um pouco distante da escola, com piscina e uma grande área ao redor da casa onde eu poderia brincar e correr. Uma noite meu pai chegou com a grande novidade de que tinha fechado um bom negócio pela casa e que agora teríamos uma piscina e eu poderia finalmente ter meu cachorro. De onde ele tirou a ideia de que eu queria um cachorro eu não sei, mas a piscina me pareceu interessante. Em poucos dias me acostumei com a ideia de me mudar. A única coisa próxima dali que me prendia era o Caio, mas a mãe dele poderia levar ele para me visitar assim que ele resolvesse voltar a falar comigo.

Em pouco menos de um mês já estávamos na casa nova. Passei os primeiros dias me divertindo sozinho na piscina durante quase toda à tarde, pensando em reinos distantes e imaginando outras coisas fantásticas. De noite eu estudava, jogava e lia; e um pouco antes de dormir me rendia aos meus prazeres animalescos. Agora já estava acostumado a me tocar, e descobrira um canal na minha televisão que auxiliava minha imaginação. Ainda que fosse bom, não era o suficiente.

Alguns dias depois eu saí para comprar refrigerante, e na volta eu observei um rapaz meio magricela em frente de uma casa quase em frente à minha. Seus cabelos eram bem negros e em formato de cuia, seu rosto arredondado, quase feminino, e seus traços orientais. Ele tomava banho com uma mangueira que saía de sua casa e eventualmente jogava água num carro. Quando passei ele desviou o jato de água em minha direção, sorrindo feliz. Não chegou a me acertar. Eu sorri de volta, desconcertado, mas receptivo ao óbvio convite. Corri para casa, deixei o refrigerante em cima da mesa da cozinha e voltei para brincar com o menino que ainda nem sabia o nome. Passamos toda aquela tarde quente brincando, uma parte em frente de sua casa e logo depois na minha piscina. Isso se tornou um hábito.

Nos dias seguintes começamos a jogar todo o tipo de jogo de videogame, até que descobrimos um jogo que nos deixava animados em demasia: o bom e velho Mortal Kombat. Jogávamos em meu computador com dois controles de cabo USB, e depois brincávamos de luta na água. Nossas lutas eram sempre entre Shao Tsung (eu) e Kung Lao (ele). Ficávamos nos empurrando, dando socos e chutes, espirrando água no outro e... nos segurando firmemente um de encontro ao corpo do outro. A princípio eu não percebi qualquer conotação sexual naquilo, mas em uma de nossas brigas para salvar o mundo ou dominá-lo eu senti seu sexo rijo encostando-se a mim. O meu ganhou virilidade na mesma hora, e continuamos nossa intensa briga na água.

Dias se passaram e nossas brincadeiras continuavam daquela mesma forma. Ninguém parecia querer tomar o próximo passo. Um dia corríamos ao redor da casa, ainda entre seus muros. Brincávamos de pique-esconde, e logo o encontrei atrás da porta da Lavanderia, bem ao fundo da casa. Cheguei sorrindo e fui avançando para ele. Não sei que ímpeto me deu, mas lhe beijei com todo o vigor que me foi possível. Começamos a esfregar nossos sexos, o que nos arrancava gemidos de prazer, enquanto nossas línguas se envolviam num frenesi encantador. Pique-esconde se tornou uma brincadeira constante em nossa vida, e eu sempre o encontrava atrás de cortinas, debaixo de camas ou em algum lugar desabitado da casa.

Algumas semanas depois Caio voltou a falar comigo, como se nada tivesse acontecido em primeiro lugar. Sentou-se na minha frente, como nos velhos tempos. Perguntou-me se estava jogando alguma coisa interessante e como era a minha nova casa. Perguntei-lhe de volta:

- Gostas de Pique-Esconde?

domingo, 11 de dezembro de 2011

Notre Belle Èpoque pt. 4

Páginas retiradas dos diários de Amélia Cavaleiro

Belém, dezenove de agosto de mil oitocentos e oitenta e dois.

Acabo de recostar-me esbaforida à parede de meus aposentos. Após respirar com tanta voracidade que minhas palpitações pareciam quase visíveis em meu colo alvo, corri para a penteadeira, e destranquei a gaveta onde escondo meu diário, na carência desesperada de relatar meu infortúnio. Hoje era chegada a noite pela qual eu tanto ansiava, em meio a meus devaneios. Notoriamente não se assucedeu como esperado por mim, levando em conta o estado que me encontro, descrito linhas acima, porém a mudança na ordem dos fatos ocorridos não indica necessariamente que a noite foi ruim. Muito pelo contrário! A noite foi encantadora, maravilhosa... quase não encontro adjetivos para descrever os tão sublimes momentos por mim vividos horas mais cedo. O caso é que não posso de fato afirmar que a noite, como um todo, foi assim magnífica. Corri perigo, senti medo. Estas sensações afloraram-me no início da noite, e retornaram no final dela... Nem sei dizer se já se foram de vez.
Fui ao Theatro, como outrora combinara com Anita. Esperava encontrá-la como eu mesma me encontrava, a sós. Não aconteceu. Carlos estava ali, no auge de sua elegância de bancário, parado ao lado de sua elegantíssima esposa. Anita. Minha doce e bela Anita. Sempre conservando seus bons modos, seu fino porte, sua cálida delicadeza. Surpreendi-me inicialmente. Tivera tanto trabalho para conseguir sair naquela noite sem que Joaquim me acompanhasse! Mais trabalho ainda para que ele me permitisse sair sem ele. Agora, lá estava ela, e Carlos, lado a lado. Eu, sozinha, correndo o risco de ser mal vista. Mal interpretada. Talvez tomada por adúltera ou solteirona, levando em consideração que estava desacompanhada. Preferi afastar esses pensamentos, a visão de Anita me inebriara o bastante para que eu esquecesse temporariamente o constrangimento do momento. Carlos perguntou-me por Joaquim, e informei a ele o motivo, inventado anteriormente por mim, para que meu cônjuge não estivesse presente para apreciar a ópera conosco. Levei em conta que não poderia ser diferente, e parti rapidamente para o camarote na companhia do casal, esperando ser reconhecida por poucos amigos da família, e a ausência de Joaquim passar despercebida. Por certos momentos, lamentei não tê-lo levado, mas sinceramente não faria diferença. Ele não entenderia absolutamente nada sobre a ópera de qualquer jeito, apesar do Carlos Gomes sempre jantar em nossa residência com a família, e de Joaquim anunciar de maneira enfadonha a cada novo encontro o quão maravilhosa estava a Salvador Rosa, sua nova ópera (a bendita ópera a qual eu, Anita e Carlos Simões vislumbramos hoje), eu e Joaquim sabemos muito bem que ele sempre dorme quando vamos ao Theatro, e que por vezes é preciso que eu o balance com força para que pare de roncar tão alto.
O ponto forte da noite, no entanto, foi o momento em que Carlos nos deixou a sós para pitar um cigarro do lado de fora do teatro. Eu e Anita finalmente encontramo-nos a sós. Sorri para ela, enquanto a ópera acontecia, e ela retribuiu de forma serena. Comentei sobre a amizade de Joaquim com o autor da obra, e ela parecia confortável, até o instante sublime em que a ópera tornou-se mais intensa, mais forte, mais envolvente. Anita, frágil como é, sobressaltou-se, e não sei se por susto ou emoção, tocou-me o braço com as pontas dos dedos, apertando-os levemente em torno de minha pele. Senti aquele toque único, latente, aveludado como tudo em Anita, e então foi meu coração que sobressaltou-se. Ela disfarçou o constrangimento após o ato, e recolheu sua mão ao próprio colo.
A noite seguiu-se calma, sem maiores impressões. Carlos ofereceu levar-me até em casa, mas minha carruagem aguardava-me ali, e mesmo assim nossa propriedade não ficava tão distante. Agradeci, e retornei para casa agradecida pelo novo encontro com Anita, ansiando um novo e breve.
O caminho de volta, no entanto, trouxe-me uma preocupação. Notei uma carruagem estranha seguindo a minha, com as cortinas fechadas e cavalos negros, de crinas muito bem escovadas. Ao passo que meu cocheiro acelerava, sob minhas ordens, a carruagem repetia nossos atos, sem hesitar. Perguntei ao cocheiro se aquilo significaria algo para ele, e ele disse para não me preocupar.
Joaquim está subindo as escadas. Preciso cumprir com minhas obrigações. Vou pensar em Anita.

Notre Belle Èpoque pt. 3

Aviso: Infelizmente tivemos um atraso para postar este final de semana. No caso, este meu post deveria ter sido ontem (10/12/2011), no entanto não pude postar. Hoje, portanto, haverá um post meu e da Sacha Tavares.


Páginas retiradas dos diários de Anita Simões.

19 DE AGOSTO DE 1882

Ah! Que noite maravilhosa! Poderia passar a eternidade buscando palavras dos mais variados poetas medievais e românticos, mas jamais encontraria algumas que parecessem corretas para descrever o que hoje ocorreu. Já tive o prazer de apreciar os bucólicos quadros de Salvator Rosa (tenho especial apreço pela obra intitulada “L’ombre de Samuel apparaissant à Saüt chez la pythonisse d’Endor”, o qual pude admirar em minha estadia em Paris). Admiro de longa data sua obra, encontrando uma parte de mim há anos perdida, a porção pouco ortodoxa e extravagante, despedaçada ao longo de um casamento tradicional. Minha rebeldia de moça, outrora tão aparente, pouco se revela nos dias de hoje, tomando como recôndito meus diários e escritos; os quais tenho o prazer de me entregar enquanto meu doce marido ingressa no terreno onírico. Suas insolentes sátiras também me são aprazíveis e adoraria ter em mãos páginas suas que tanto traçam sobre o natural e os defeitos humanos, diferenciando-se assim dos autores de sua época, mas apenas tive o prazer de tê-las em uma biblioteca na França.

Fui convidada para ir a uma ópera por Amélia há uma semana, e mais cedo concretizamos o convite em uma maravilhosa descoberta de minha parte. De mesmo nome do pintor e poeta que antes comentei, mas de cerne completamente diferente deste, foi a ópera a qual assistimos. Encantou-me por suas melodias cotidianas e extremamente naturais em uma vida na cidade. Mas não foi apenas a sublime arte de Antônio Carlos Gomes a esse estado de felicidade ideal. A companhia foi perfeitamente agradável.

Creio, no entanto, que houve alguma espécie de obstáculo em sua residência, já que Joaquim não a acompanhava. Faço silenciosos votos de que não tenha sido nenhuma espécie de problema com sua saúde, tampouco problemas tão singulares aos casais. Disse-nos que ele estava indisposto por causa do trabalho, mas nem sempre a verdade deve ser dita publicamente, principalmente para pessoas recém-conhecidas. Nesta sociedade, cabe-nos perfeitamente o papel de enfeitarmos nossa realidade com todos os acessórios que a Europa puder nos oferecer, tornando-se assim aceitável à vista dos desocupados. Percebi um pouco de desconforto, inicialmente, partindo tanto de Amélia quanto de Carlos. Tinha conhecimento que ele esperava companhia masculina para se conservar ocupado, pois pouco lhe interessava aquele gênero de eventos que eu tanto apreciava. Fazia-me as vontades, e este era um dos motivos de ser tão querido. Quanto à pobre Amélia, deve ter ficado dividida entre a pequena vergonha de faltar um compromisso social marcado antecipadamente e o de ser vista sozinha, como uma dessas mulheres que valorizam os prazeres mundanos, ou ainda pior, solteira.

A música de Carlos Gomes era imortalizada em meu pensamento e transcendíamos num êxtase infindo. Apesar de todas nossas peculiaridades, eu e Amélia aparentávamos estar no mesmo ritmo naquele instante, em uma sintonia divina. Percebi que em um dos instantes meu marido se retirou de nosso camarote, provavelmente para fumar um charuto em algum local da titânica construção, e fiquei só ao lado de minha mais nova conhecida. Comentou algo sobre uma amizade próxima com o compositor daquela peça que certamente será um marco milenar na história da música, mas, em dado instante, os violinos adquiriram uma intensidade tantalizante e senti todo o meu corpo estremecer diante os acordes. Uma pressão partia do meu interior em direção ao ambiente num súbito prazer pungente. Não pude conter minha mão, que se agarrou ao braço de Amélia, envolvendo-o em parte. Quando meu coração voltou a se acalmar e meus pensamentos já eram donos de si, percebi minha falta de educação que permanecera sobre sua pele. Enrubesci imediatamente num calmo, mas complexo, encontro e posterior desencontro de prazer pela proximidade e vergonha pela fissão de nosso decoro feminino.

Permaneci inquieta durante a continuação do evento e um pouco mais quando Carlos avisou para Amélia que poderia levar-lhe em casa, mas esta negou sabiamente a oferta (afinal, sua carruagem já a esperava em frente ao Theatro). A noite trouxe a benção do olvido devido a doces conversas que tive com meu consorte. Mas aquela inquietação surge silenciosa, atravessando minhas portas e me alcançando, impassível à minha dor. Temo não ser levada a todos os sonhos que normalmente a noite me concede.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Codinome, Margarida

MAIO, 19

Eu a vi pela primeira vez quando estava chegando à biblioteca da Universidade. Não tinha ido lá para procurar algum livro sobre Álgebra Linear ou algum Handbook de mais de mil páginas sobre bases do desenho cartográfico; ainda que necessitasse desses livros de forma mais que urgente. Fui ali apenas para devolver um livro do Faulkner, que estava há vários meses comigo. Já tinha lido-o algumas vezes e poderia ter devolvido bem antes; mas a preguiça e a dormência que permaneciam continuamente comigo nunca me deixavam fazer qualquer coisa além do habitual (que era ir à faculdade, fazer os trabalhos de última hora e estudar vinte e quatro horas antes das provas). Mas o importante aqui não é minha rotina ou minha falta de afazeres. O que deve ser aqui relatado é o meu encontro com aquele ser mais que sublime.

Como ia dizendo várias linhas atrás, antes de me interromper e engendrar por caminhos pouco interessantes, eu estava chegando à biblioteca. Fui parado pelo Gabriel alguns segundos, que me avisou rapidamente sobre uma prova que haveria no dia seguinte de Cálculo II. Pouca importância eu atribuí a esse fato, pois ela ia passando por ele. Seus longos cabelos de coloração acastanhada desciam por cima de seu vestido verde-claro. Estava cercada por dois garotos que andavam alguns centímetros atrás dela, como a segui-la, como se estivessem a lhe bajular. Mas ela não percebia nada disso. Como poderia? Afinal, seus olhos carregavam toda a inocência de uma criança, e jamais poderia entender os vis gestos daqueles galanteadores baratos. Ela andava com dois amigos... Não com dois seres semelhantes a vampiros como a realidade postulava. Eles desesperadamente tentando roubar sua luz, sua bondade e seus fluídos. Odiei aqueles rapazes no mesmo segundo, e poderia ter arrancado sangue de seus narizes e bocas; e tudo isso apenas para proteger a luz que aquela moça emanava.

Não consegui fazer mais nada naquele resto de dia. Cheguei catatônico em casa e sequer a internet me interessou. Quero dizer, sequer pornografia me interessou, pois bem que tentei. Pois ela não saía da minha cabeça. Aquele olhar de felicidade genuína havia me hipnotizado tacitamente, e não parecia haver qualquer tipo de sinal da falência e enfraquecimento da dita hipnose. Estou indo dormir quase ao amanhecer, e acho que não irei à Universidade amanhã. Cansado. Hipnotizado. Submisso.

MAIO, 28

Consegui sair de casa hoje, ainda pela manhã. Passei bastante tempo lutando contra a minha vontade de correr à biblioteca e esperá-la na frente da porta, pegá-la pelo braço e lhe dar um beijo de cinema. Só de pensar em tal beijo eu já começo a sentir aquele formigamento em minha região pélvica. Não tenho me masturbado nos últimos dias, pois ela continua aparecendo em meu pensamento; e eu jamais poderia violar sua imagem. Parece que em todos os devaneios que tenho com ela, todos transformam a pureza do seu olhar em terror e dor. Isso tem acabado comigo. Mas hoje eu saí de casa. E não fui atrás dela. Hoje fui mais forte que meus impulsos. Hoje a razão venceu, momentaneamente, o instinto.

Confesso que peguei o caminho mais longo, que passa pela biblioteca, de forma intencional. Não a vi por ali, mas nem procurei tanto quanto gostaria de procurar. Fui para a minha aula, mas passei o tempo todo imaginando, divagando. Aquele olhar combinaria com que curso? Talvez ela fizesse algo que lhe desse alguma profundidade de espírito. Talvez ela fosse do Centro de Artes. Provavelmente estava se graduando em Música ou Cinema, e, enquanto eu tinha os mais obscuros pensamentos sobre ela, ela tocava as mais lindas notas em um piano clássico ou escrevia sobre os romances antigos e se apaixonava ao ver o utópico Sr. Darcy. Apaixonada pelo utópico, como ela poderia desejar algo do mundano, tão próximo de mim?

JUNHO, 08

Não a vejo já faz uns vinte dias. Sua imagem não se tornou nem um pouco mais fraca na minha imaginação. Já fantasiei tantas vezes sobre como seria sua voz ao me dizer um “bom dia, querido!”, bem ao meu lado. E este único pedaço de imaginação me causa tremores e arrepios insanos, como se conjuntos de espíritos passassem pelo meu corpo, arrancando e destruindo toda minha energia e autonomia. Mais vezes ainda eu fantasiei sobre suas curvas e sobre o molde de sua calcinha em seu corpo e em como seus seios nus permaneceriam firmes por causa de sua pouca idade. Confesso ter imaginado várias vezes a coloração rosácea ao redor de seus mamilos e suas mãos passeando pelo seu próprio corpo, deslizando suas unhas coloridas de vermelho intenso por seu umbigo e chegando perto de seus pelos pubianos; nunca as minhas mãos! Nunca!

Ainda é de manhã. Acordei há apenas vinte minutos, e tais minutos foram completamente preenchidos pelo formato de seu rosto, pela doce alegria que ele poderia me causar só por estar no mesmo local que eu. Preciso encontrá-la hoje. Esta vontade urge em mim e aniquila qualquer outro sentimento ou necessidade animalesca minha. Ontem minha mãe me lembrou de que eu deveria comer algo; e eu sequer notara que faziam 24 horas que eu não me alimentava de nada além de meus longos devaneios. Não sei quando voltarei a escrever, pois tenho perdido as forças com a ausência daquela energia sobre-humana que presenciei. Decidi que vou encontrá-la, nem que eu tenha que andar por todo o campus universitário, e ficar em frente a todos os cursos até ao anoitecer, dia após dia. Ah! Se ela soubesse que eu andaria por toda essa cidade apenas para ter o prazer de vê-la. Tenho que descobrir mais sobre ela. Nem preciso saber seu nome, onde ela vive ou que curso ela faz. Todas essas informações são despojadas e indignas de sua pureza e sua intensidade. Preciso saber se ela olha para o céu toda a noite, buscando os astros e desejando paixões. Necessito saber se ela lacrimeja quando vê crianças que deveriam estar brincando num sinal vermelho a implorar por esmolas para os condutores. Quero saber se ela sorri logo ao acordar, movida pela branda energia da felicidade cotidiana e se repara nas únicas flores que nossas árvores produzem, com suas cores tão chamativas. Enfim, só assim ficarei satisfeito, só assim terei alguma paz.

JUNHO, 12

Ainda não a encontrei. Começo a pensar que estava num estado mental bastante grave e que sua passagem foi pura imaginação, fantasia. Não seria a primeira vez que eu haveria de me perder em minha cabeça. Ocorreram algumas vezes de eu estar tão concentrado em um livro ou num jogo que começava a imaginar coisas enquanto andava ou esperava o ônibus. Estou esperançoso que não tenha sido minha cabeça a me pregar peças, que ela exista de fato, e tão próxima de mim. O que farei quando a vir? Será que eu teria coragem de falar alguma coisa?

JUNHO, 19

Que dia mais feliz esse. Não consigo respirar direito, não consigo sequer pensar linearmente. Veja bem! Eu a procurei por dias e dias. Passei muitos deles andando por aquela Universidade, esperando em frente aos blocos de aulas e aos institutos. Já estava perdendo as esperanças em vê-la novamente. Sinto como se uma corrente intensa de água passasse por dentro de mim e levasse toda a tristeza para bem longe. Ouço música saindo de minhas paredes e as cores mais acentuadas ao meu redor, numa torrente mileumanoitesca de sons e cores, arrebatando minha infelicidade e jogando-lhe para o inferno de onde veio.

Fiquei esperando, hoje, em frente ao Instituto de Ciências Exatas, um dos últimos locais que pensaria em procurá-la. Havia pressuposto que a inocência dela jamais seria atrelada com a frieza que se espera normalmente dos estudantes da área de exatas. Procurei exaustivamente onde havia aulas de Sociologia, Filosofia, Artes Cênicas, Músicas; mas em nenhum desses locais eu a encontrei. Já exausto, resolvi procurar neste instituto. Sentei-me em um dos bancos que existem em frente ao local e perto de anoitecer a vi passando. Carregava consigo um pesado livro, daquele tipo de livro acadêmico que carrega todas as informações básicas sobre um assunto. Parecia pesar em seus braços, e minha vontade imediata foi de levantar dali e carregar seu peso; andar ao seu lado, calado, apreciando sua beleza inacreditável e seu olhar que carregaria para longe até a maldade e loucura dos mais famigerados sociopatas dos livros de terror.

Fiquei ali sentado enquanto ela passava, observando a tonalidade de sua pele e a maneira suave com a qual andava. Tudo nela era de se admirar. Senti-me como um ser humano melhor após tê-la visto, como se as loucuras que havia pensado nada mais significassem. Mas eu não poderia tê-la. Isso estragaria tudo. Meu sexo enrijeceu no momento, desejando entrar em sua carne e sofrer a pressão das paredes de seu corpo. Mas jamais poderia tomar a pureza daquela mulher. Contentei-me em voltar para casa. Acho que vou atrás de alguma puta amanhã, tentar me satisfazer com o puramente carnal e mundano.

JUNHO, 22

Faz dois dias que tenho ido a um puteiro próximo de casa. Demorei em encontrar uma moça que satisfizesse minha necessidade de tomar em meus braços alguém similar à mulher por quem eu estava apaixonado com tanta intensidade. Ontem encontrei uma. Logo que eu entrei no estabelecimento eu me dirigi ao bar, tentando parecer acostumado com este tipo de situação. O homem do outro lado do balcão tinha uma aparência asquerosa, com sua carne e pelos à mostra como se fosse uma visão magnífica. Sua camisa suada pendia por seu ombro direito, e um Derby permanecia pendurado no canto de sua boca. Ficava um pouco incomodado com o cheiro de cigarro, mas num lugar daqueles jamais poderia reclamar disso. Pedi o cardápio, e o cara sorriu num tom extremamente cínico, irritando-me profundamente. Perguntou o que eu queria num tom de zombaria descarado, o que era perfeitamente congruente com aquele local fétido.

- O quê o patrão deseja?

Pedi uma dose de qualquer coisa. Recebi uma dose de 51. Observei as mulheres entrando e saindo de um estreito corredor bem ao fundo do estabelecimento, sempre seguidas de homens de variados tamanhos, idades, cores. A maior parte delas não era sequer atraente. Depois de muita observação eu encontrei uma de aparência bem similar à mulher que eu realmente gostaria de estar. Era, de fato, a única mulher atraente dali; percebia pela maneira como todos os homens a objetificavam com o olhar. Seu andar era atraente, imponente. Era perceptível que tinha se tornado mulher cedo e já carregava muita experiência, apesar de sua pouca idade; seu olhar denunciava tudo isso. Avancei em sua direção com confiança e logo estávamos a caminho de um dos quartos.

A porta mal havia fechado atrás de nós e ela já estava tirando sua roupa. Observei seu corpo atônito, tentando fantasiar. Mas imaginar a cena que eu realmente gostaria me era impossível. A cada vez que eu olhava para aquela mulher eu percebia seu olhar era vazio, sem vontade, sem desejos. Precisei usar um creme barato que tinha em uma das gavetas, pois ela não estava molhada o suficiente para a penetração; o que deixava claro sua vontade de não estar ali comigo. Foi uma completa perda de tempo. Apesar de eu ter alcançado um êxtase físico, passei bem longe de ter alcançado um êxtase espiritual, que esperava alcançar de fato.

Voltei para casa, desgastado, decepcionado e sem dinheiro no bolso. Vou descobrir o nome dela amanhã e de jeito nenhum adiarei essa vontade.

JUNHO, 23

Descobri o seu nome da forma mais absurda possível. Em meus próprios pensamentos ele surgiu tão claro e vívido, e foi imediatamente atribuído a ela: Margarida. Um nome adequado à sua pureza de espírito, aquela pela qual eu era tão apegado. Única. Alheia a toda a devassidão ao seu redor; subvertendo-se aos princípios devassos que a cingiam com tanta pujança. Era isso o que ela era, uma subversiva, uma espiã. Passeava por aquelas esquinas aprisionadas pelo pecado e jamais era contagiada.

Esbarrei com ela esta noite, fazendo-a derrubar um livro. Peguei seu livro do chão e o devolvi, me apresentando logo em seguida. Ela agradeceu, dispondo do sorriso mais maravilhoso que pode existir. Aquele único momento encheu minha alma e meu corpo da mais completa felicidade. Senti todos meus crimes e fraquezas sendo desculpados. Mas não pude aproveitar de sua companhia por muito tempo. Isto se deu por dois motivos: o primeiro, o rapaz que a acompanhava me olhava de maneira estranha, agressiva; o segundo foi que tive uma ereção com o mero roçar de minha pele com a dela. Margarida continuou a andar com seu acompanhante pelo corredor, e minha curiosidade sobre a relação dos dois surgiu incontrolavelmente.

Andei na mesma direção que eles, como se já estivesse indo por aquele caminho antes de encontrá-los. Eles não perceberam que eu os seguia, já que estavam entretidos com a própria conversa. O que poderia haver de especial naquele rapaz que fazia com que ela não olhasse para nenhum outro lugar? A raiva começava a crescer em mim, mesmo que não houvesse nada confirmado sobre a relação deles. Talvez fossem namorados, ou talvez estivessem ficando; ou simplesmente fazendo sexo. Não conseguia suportar qualquer tipo de distorção da pureza de Margarida, não poderia! E a cena que vi quando ela subia para o ônibus, dando um beijo na boca do rapaz... A felicidade que eu experimentara alguns dias antes deu lugar ao inexplicável ódio que agora me consome. Afinal, ela não é pura ou casta; ela deve ser uma dessas mulheres quaisquer, que teve a sorte de nascer com uma aparência enganadora sobre sua personalidade. E aquele cafajeste não deve nem ser digno de tocá-la, de possuí-la; deve estar tão sujo de hipocrisia, de traição, de desejos pervertidos... Preciso dos meus remédios, ou alguma loucura hei de cometer.

JUNHO, 30

Não queria ter feito isso! Não queria! Não queria!

Eu a vi hoje cedo, saindo de sua aula no Instituto de Ciências Exatas, sozinha. Aquele tolo não deveria tê-la abandonado, não por estes dias. Minha consulta ia ser apenas semana que vem e eu estava sem meus remédios. Que loucura me acometeu. Não sei o que farei agora. Talvez venham atrás de mim pelo que fiz, ou talvez ela não tenha coragem de contar para ninguém. Agora ela sabe que sou um louco, um pervertido. Agora minha vida não pode mais seguir, não aqui! Não perto dela! Preciso fugir.

O que aconteceu foi que a oportunidade perfeita apareceu para as minhas fantasias absurdas. Ela seguia para o banheiro, sozinha e desprotegida, e a escuridão dos corredores nos encobria. Tarde da noite não há mais ninguém por estes blocos de aula e o segurança ronda uma área grande demais para estar sempre no lugar preciso. Não consegui segurar o selvagem em mim, e a encurralei no banheiro. Ela tentou lutar, arrancou-me um pouco de sangue à base de agadanhadas em seu desespero, mas a calei utilizando alguma força bruta. Em poucos segundos nossos sexos se encontravam, e com alguma dificuldade consegui inserir o meu sexo dentro dela; que aparentemente já desistira de lutar contra mim por puro cansaço. Foi rápido, doentio. Completamente diferente do que eu sonhava que iria acontecer com ela. Corri de lá, deixando-a jogada no chão, sangrando e chorando silenciosamente por causa de minha invasão. Agora estou afogueado, desesperado, aterrorizado.

Talvez eles venham. Talvez não.

 
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