Belém, dezenove de agosto de mil oitocentos e oitenta e dois.
Acabo de recostar-me esbaforida à parede de meus aposentos. Após respirar com tanta voracidade que minhas palpitações pareciam quase visíveis em meu colo alvo, corri para a penteadeira, e destranquei a gaveta onde escondo meu diário, na carência desesperada de relatar meu infortúnio. Hoje era chegada a noite pela qual eu tanto ansiava, em meio a meus devaneios. Notoriamente não se assucedeu como esperado por mim, levando em conta o estado que me encontro, descrito linhas acima, porém a mudança na ordem dos fatos ocorridos não indica necessariamente que a noite foi ruim. Muito pelo contrário! A noite foi encantadora, maravilhosa... quase não encontro adjetivos para descrever os tão sublimes momentos por mim vividos horas mais cedo. O caso é que não posso de fato afirmar que a noite, como um todo, foi assim magnífica. Corri perigo, senti medo. Estas sensações afloraram-me no início da noite, e retornaram no final dela... Nem sei dizer se já se foram de vez.
Fui ao Theatro, como outrora combinara com Anita. Esperava encontrá-la como eu mesma me encontrava, a sós. Não aconteceu. Carlos estava ali, no auge de sua elegância de bancário, parado ao lado de sua elegantíssima esposa. Anita. Minha doce e bela Anita. Sempre conservando seus bons modos, seu fino porte, sua cálida delicadeza. Surpreendi-me inicialmente. Tivera tanto trabalho para conseguir sair naquela noite sem que Joaquim me acompanhasse! Mais trabalho ainda para que ele me permitisse sair sem ele. Agora, lá estava ela, e Carlos, lado a lado. Eu, sozinha, correndo o risco de ser mal vista. Mal interpretada. Talvez tomada por adúltera ou solteirona, levando em consideração que estava desacompanhada. Preferi afastar esses pensamentos, a visão de Anita me inebriara o bastante para que eu esquecesse temporariamente o constrangimento do momento. Carlos perguntou-me por Joaquim, e informei a ele o motivo, inventado anteriormente por mim, para que meu cônjuge não estivesse presente para apreciar a ópera conosco. Levei em conta que não poderia ser diferente, e parti rapidamente para o camarote na companhia do casal, esperando ser reconhecida por poucos amigos da família, e a ausência de Joaquim passar despercebida. Por certos momentos, lamentei não tê-lo levado, mas sinceramente não faria diferença. Ele não entenderia absolutamente nada sobre a ópera de qualquer jeito, apesar do Carlos Gomes sempre jantar em nossa residência com a família, e de Joaquim anunciar de maneira enfadonha a cada novo encontro o quão maravilhosa estava a Salvador Rosa, sua nova ópera (a bendita ópera a qual eu, Anita e Carlos Simões vislumbramos hoje), eu e Joaquim sabemos muito bem que ele sempre dorme quando vamos ao Theatro, e que por vezes é preciso que eu o balance com força para que pare de roncar tão alto.
O ponto forte da noite, no entanto, foi o momento em que Carlos nos deixou a sós para pitar um cigarro do lado de fora do teatro. Eu e Anita finalmente encontramo-nos a sós. Sorri para ela, enquanto a ópera acontecia, e ela retribuiu de forma serena. Comentei sobre a amizade de Joaquim com o autor da obra, e ela parecia confortável, até o instante sublime em que a ópera tornou-se mais intensa, mais forte, mais envolvente. Anita, frágil como é, sobressaltou-se, e não sei se por susto ou emoção, tocou-me o braço com as pontas dos dedos, apertando-os levemente em torno de minha pele. Senti aquele toque único, latente, aveludado como tudo em Anita, e então foi meu coração que sobressaltou-se. Ela disfarçou o constrangimento após o ato, e recolheu sua mão ao próprio colo.
A noite seguiu-se calma, sem maiores impressões. Carlos ofereceu levar-me até em casa, mas minha carruagem aguardava-me ali, e mesmo assim nossa propriedade não ficava tão distante. Agradeci, e retornei para casa agradecida pelo novo encontro com Anita, ansiando um novo e breve.
O caminho de volta, no entanto, trouxe-me uma preocupação. Notei uma carruagem estranha seguindo a minha, com as cortinas fechadas e cavalos negros, de crinas muito bem escovadas. Ao passo que meu cocheiro acelerava, sob minhas ordens, a carruagem repetia nossos atos, sem hesitar. Perguntei ao cocheiro se aquilo significaria algo para ele, e ele disse para não me preocupar.
Joaquim está subindo as escadas. Preciso cumprir com minhas obrigações. Vou pensar em Anita.
5 comentários:
Amélia está ficando audaciosa. Tenho medo do que ela vai aprontar.
Karla D.
Até eu to me apaixonando pela anita do jeito q a Amélia fala dela.
Rafael Lima
fiquei encantada e curiosa com o post...
também vou pensar na Anita, quero saber mais sobre a mesma.
Nossa, o que foi esse final? Milhões de suspeitas que tinha em mente se confirmando aos poucos kkkkkkkkkk
Acho que Anita é roubada na certa.
Mas esse marido da Amélia ein, ta cansando até a mim. rs
Ótimo post! Fico cada dia mais curiosa pra saber o que vai acontecer em seguida, esperando por mais *___*
Apaixonante é a Amélia que é impetuosa... Adorei, vou voltar sempre.
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