quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Codinome, Margarida

MAIO, 19

Eu a vi pela primeira vez quando estava chegando à biblioteca da Universidade. Não tinha ido lá para procurar algum livro sobre Álgebra Linear ou algum Handbook de mais de mil páginas sobre bases do desenho cartográfico; ainda que necessitasse desses livros de forma mais que urgente. Fui ali apenas para devolver um livro do Faulkner, que estava há vários meses comigo. Já tinha lido-o algumas vezes e poderia ter devolvido bem antes; mas a preguiça e a dormência que permaneciam continuamente comigo nunca me deixavam fazer qualquer coisa além do habitual (que era ir à faculdade, fazer os trabalhos de última hora e estudar vinte e quatro horas antes das provas). Mas o importante aqui não é minha rotina ou minha falta de afazeres. O que deve ser aqui relatado é o meu encontro com aquele ser mais que sublime.

Como ia dizendo várias linhas atrás, antes de me interromper e engendrar por caminhos pouco interessantes, eu estava chegando à biblioteca. Fui parado pelo Gabriel alguns segundos, que me avisou rapidamente sobre uma prova que haveria no dia seguinte de Cálculo II. Pouca importância eu atribuí a esse fato, pois ela ia passando por ele. Seus longos cabelos de coloração acastanhada desciam por cima de seu vestido verde-claro. Estava cercada por dois garotos que andavam alguns centímetros atrás dela, como a segui-la, como se estivessem a lhe bajular. Mas ela não percebia nada disso. Como poderia? Afinal, seus olhos carregavam toda a inocência de uma criança, e jamais poderia entender os vis gestos daqueles galanteadores baratos. Ela andava com dois amigos... Não com dois seres semelhantes a vampiros como a realidade postulava. Eles desesperadamente tentando roubar sua luz, sua bondade e seus fluídos. Odiei aqueles rapazes no mesmo segundo, e poderia ter arrancado sangue de seus narizes e bocas; e tudo isso apenas para proteger a luz que aquela moça emanava.

Não consegui fazer mais nada naquele resto de dia. Cheguei catatônico em casa e sequer a internet me interessou. Quero dizer, sequer pornografia me interessou, pois bem que tentei. Pois ela não saía da minha cabeça. Aquele olhar de felicidade genuína havia me hipnotizado tacitamente, e não parecia haver qualquer tipo de sinal da falência e enfraquecimento da dita hipnose. Estou indo dormir quase ao amanhecer, e acho que não irei à Universidade amanhã. Cansado. Hipnotizado. Submisso.

MAIO, 28

Consegui sair de casa hoje, ainda pela manhã. Passei bastante tempo lutando contra a minha vontade de correr à biblioteca e esperá-la na frente da porta, pegá-la pelo braço e lhe dar um beijo de cinema. Só de pensar em tal beijo eu já começo a sentir aquele formigamento em minha região pélvica. Não tenho me masturbado nos últimos dias, pois ela continua aparecendo em meu pensamento; e eu jamais poderia violar sua imagem. Parece que em todos os devaneios que tenho com ela, todos transformam a pureza do seu olhar em terror e dor. Isso tem acabado comigo. Mas hoje eu saí de casa. E não fui atrás dela. Hoje fui mais forte que meus impulsos. Hoje a razão venceu, momentaneamente, o instinto.

Confesso que peguei o caminho mais longo, que passa pela biblioteca, de forma intencional. Não a vi por ali, mas nem procurei tanto quanto gostaria de procurar. Fui para a minha aula, mas passei o tempo todo imaginando, divagando. Aquele olhar combinaria com que curso? Talvez ela fizesse algo que lhe desse alguma profundidade de espírito. Talvez ela fosse do Centro de Artes. Provavelmente estava se graduando em Música ou Cinema, e, enquanto eu tinha os mais obscuros pensamentos sobre ela, ela tocava as mais lindas notas em um piano clássico ou escrevia sobre os romances antigos e se apaixonava ao ver o utópico Sr. Darcy. Apaixonada pelo utópico, como ela poderia desejar algo do mundano, tão próximo de mim?

JUNHO, 08

Não a vejo já faz uns vinte dias. Sua imagem não se tornou nem um pouco mais fraca na minha imaginação. Já fantasiei tantas vezes sobre como seria sua voz ao me dizer um “bom dia, querido!”, bem ao meu lado. E este único pedaço de imaginação me causa tremores e arrepios insanos, como se conjuntos de espíritos passassem pelo meu corpo, arrancando e destruindo toda minha energia e autonomia. Mais vezes ainda eu fantasiei sobre suas curvas e sobre o molde de sua calcinha em seu corpo e em como seus seios nus permaneceriam firmes por causa de sua pouca idade. Confesso ter imaginado várias vezes a coloração rosácea ao redor de seus mamilos e suas mãos passeando pelo seu próprio corpo, deslizando suas unhas coloridas de vermelho intenso por seu umbigo e chegando perto de seus pelos pubianos; nunca as minhas mãos! Nunca!

Ainda é de manhã. Acordei há apenas vinte minutos, e tais minutos foram completamente preenchidos pelo formato de seu rosto, pela doce alegria que ele poderia me causar só por estar no mesmo local que eu. Preciso encontrá-la hoje. Esta vontade urge em mim e aniquila qualquer outro sentimento ou necessidade animalesca minha. Ontem minha mãe me lembrou de que eu deveria comer algo; e eu sequer notara que faziam 24 horas que eu não me alimentava de nada além de meus longos devaneios. Não sei quando voltarei a escrever, pois tenho perdido as forças com a ausência daquela energia sobre-humana que presenciei. Decidi que vou encontrá-la, nem que eu tenha que andar por todo o campus universitário, e ficar em frente a todos os cursos até ao anoitecer, dia após dia. Ah! Se ela soubesse que eu andaria por toda essa cidade apenas para ter o prazer de vê-la. Tenho que descobrir mais sobre ela. Nem preciso saber seu nome, onde ela vive ou que curso ela faz. Todas essas informações são despojadas e indignas de sua pureza e sua intensidade. Preciso saber se ela olha para o céu toda a noite, buscando os astros e desejando paixões. Necessito saber se ela lacrimeja quando vê crianças que deveriam estar brincando num sinal vermelho a implorar por esmolas para os condutores. Quero saber se ela sorri logo ao acordar, movida pela branda energia da felicidade cotidiana e se repara nas únicas flores que nossas árvores produzem, com suas cores tão chamativas. Enfim, só assim ficarei satisfeito, só assim terei alguma paz.

JUNHO, 12

Ainda não a encontrei. Começo a pensar que estava num estado mental bastante grave e que sua passagem foi pura imaginação, fantasia. Não seria a primeira vez que eu haveria de me perder em minha cabeça. Ocorreram algumas vezes de eu estar tão concentrado em um livro ou num jogo que começava a imaginar coisas enquanto andava ou esperava o ônibus. Estou esperançoso que não tenha sido minha cabeça a me pregar peças, que ela exista de fato, e tão próxima de mim. O que farei quando a vir? Será que eu teria coragem de falar alguma coisa?

JUNHO, 19

Que dia mais feliz esse. Não consigo respirar direito, não consigo sequer pensar linearmente. Veja bem! Eu a procurei por dias e dias. Passei muitos deles andando por aquela Universidade, esperando em frente aos blocos de aulas e aos institutos. Já estava perdendo as esperanças em vê-la novamente. Sinto como se uma corrente intensa de água passasse por dentro de mim e levasse toda a tristeza para bem longe. Ouço música saindo de minhas paredes e as cores mais acentuadas ao meu redor, numa torrente mileumanoitesca de sons e cores, arrebatando minha infelicidade e jogando-lhe para o inferno de onde veio.

Fiquei esperando, hoje, em frente ao Instituto de Ciências Exatas, um dos últimos locais que pensaria em procurá-la. Havia pressuposto que a inocência dela jamais seria atrelada com a frieza que se espera normalmente dos estudantes da área de exatas. Procurei exaustivamente onde havia aulas de Sociologia, Filosofia, Artes Cênicas, Músicas; mas em nenhum desses locais eu a encontrei. Já exausto, resolvi procurar neste instituto. Sentei-me em um dos bancos que existem em frente ao local e perto de anoitecer a vi passando. Carregava consigo um pesado livro, daquele tipo de livro acadêmico que carrega todas as informações básicas sobre um assunto. Parecia pesar em seus braços, e minha vontade imediata foi de levantar dali e carregar seu peso; andar ao seu lado, calado, apreciando sua beleza inacreditável e seu olhar que carregaria para longe até a maldade e loucura dos mais famigerados sociopatas dos livros de terror.

Fiquei ali sentado enquanto ela passava, observando a tonalidade de sua pele e a maneira suave com a qual andava. Tudo nela era de se admirar. Senti-me como um ser humano melhor após tê-la visto, como se as loucuras que havia pensado nada mais significassem. Mas eu não poderia tê-la. Isso estragaria tudo. Meu sexo enrijeceu no momento, desejando entrar em sua carne e sofrer a pressão das paredes de seu corpo. Mas jamais poderia tomar a pureza daquela mulher. Contentei-me em voltar para casa. Acho que vou atrás de alguma puta amanhã, tentar me satisfazer com o puramente carnal e mundano.

JUNHO, 22

Faz dois dias que tenho ido a um puteiro próximo de casa. Demorei em encontrar uma moça que satisfizesse minha necessidade de tomar em meus braços alguém similar à mulher por quem eu estava apaixonado com tanta intensidade. Ontem encontrei uma. Logo que eu entrei no estabelecimento eu me dirigi ao bar, tentando parecer acostumado com este tipo de situação. O homem do outro lado do balcão tinha uma aparência asquerosa, com sua carne e pelos à mostra como se fosse uma visão magnífica. Sua camisa suada pendia por seu ombro direito, e um Derby permanecia pendurado no canto de sua boca. Ficava um pouco incomodado com o cheiro de cigarro, mas num lugar daqueles jamais poderia reclamar disso. Pedi o cardápio, e o cara sorriu num tom extremamente cínico, irritando-me profundamente. Perguntou o que eu queria num tom de zombaria descarado, o que era perfeitamente congruente com aquele local fétido.

- O quê o patrão deseja?

Pedi uma dose de qualquer coisa. Recebi uma dose de 51. Observei as mulheres entrando e saindo de um estreito corredor bem ao fundo do estabelecimento, sempre seguidas de homens de variados tamanhos, idades, cores. A maior parte delas não era sequer atraente. Depois de muita observação eu encontrei uma de aparência bem similar à mulher que eu realmente gostaria de estar. Era, de fato, a única mulher atraente dali; percebia pela maneira como todos os homens a objetificavam com o olhar. Seu andar era atraente, imponente. Era perceptível que tinha se tornado mulher cedo e já carregava muita experiência, apesar de sua pouca idade; seu olhar denunciava tudo isso. Avancei em sua direção com confiança e logo estávamos a caminho de um dos quartos.

A porta mal havia fechado atrás de nós e ela já estava tirando sua roupa. Observei seu corpo atônito, tentando fantasiar. Mas imaginar a cena que eu realmente gostaria me era impossível. A cada vez que eu olhava para aquela mulher eu percebia seu olhar era vazio, sem vontade, sem desejos. Precisei usar um creme barato que tinha em uma das gavetas, pois ela não estava molhada o suficiente para a penetração; o que deixava claro sua vontade de não estar ali comigo. Foi uma completa perda de tempo. Apesar de eu ter alcançado um êxtase físico, passei bem longe de ter alcançado um êxtase espiritual, que esperava alcançar de fato.

Voltei para casa, desgastado, decepcionado e sem dinheiro no bolso. Vou descobrir o nome dela amanhã e de jeito nenhum adiarei essa vontade.

JUNHO, 23

Descobri o seu nome da forma mais absurda possível. Em meus próprios pensamentos ele surgiu tão claro e vívido, e foi imediatamente atribuído a ela: Margarida. Um nome adequado à sua pureza de espírito, aquela pela qual eu era tão apegado. Única. Alheia a toda a devassidão ao seu redor; subvertendo-se aos princípios devassos que a cingiam com tanta pujança. Era isso o que ela era, uma subversiva, uma espiã. Passeava por aquelas esquinas aprisionadas pelo pecado e jamais era contagiada.

Esbarrei com ela esta noite, fazendo-a derrubar um livro. Peguei seu livro do chão e o devolvi, me apresentando logo em seguida. Ela agradeceu, dispondo do sorriso mais maravilhoso que pode existir. Aquele único momento encheu minha alma e meu corpo da mais completa felicidade. Senti todos meus crimes e fraquezas sendo desculpados. Mas não pude aproveitar de sua companhia por muito tempo. Isto se deu por dois motivos: o primeiro, o rapaz que a acompanhava me olhava de maneira estranha, agressiva; o segundo foi que tive uma ereção com o mero roçar de minha pele com a dela. Margarida continuou a andar com seu acompanhante pelo corredor, e minha curiosidade sobre a relação dos dois surgiu incontrolavelmente.

Andei na mesma direção que eles, como se já estivesse indo por aquele caminho antes de encontrá-los. Eles não perceberam que eu os seguia, já que estavam entretidos com a própria conversa. O que poderia haver de especial naquele rapaz que fazia com que ela não olhasse para nenhum outro lugar? A raiva começava a crescer em mim, mesmo que não houvesse nada confirmado sobre a relação deles. Talvez fossem namorados, ou talvez estivessem ficando; ou simplesmente fazendo sexo. Não conseguia suportar qualquer tipo de distorção da pureza de Margarida, não poderia! E a cena que vi quando ela subia para o ônibus, dando um beijo na boca do rapaz... A felicidade que eu experimentara alguns dias antes deu lugar ao inexplicável ódio que agora me consome. Afinal, ela não é pura ou casta; ela deve ser uma dessas mulheres quaisquer, que teve a sorte de nascer com uma aparência enganadora sobre sua personalidade. E aquele cafajeste não deve nem ser digno de tocá-la, de possuí-la; deve estar tão sujo de hipocrisia, de traição, de desejos pervertidos... Preciso dos meus remédios, ou alguma loucura hei de cometer.

JUNHO, 30

Não queria ter feito isso! Não queria! Não queria!

Eu a vi hoje cedo, saindo de sua aula no Instituto de Ciências Exatas, sozinha. Aquele tolo não deveria tê-la abandonado, não por estes dias. Minha consulta ia ser apenas semana que vem e eu estava sem meus remédios. Que loucura me acometeu. Não sei o que farei agora. Talvez venham atrás de mim pelo que fiz, ou talvez ela não tenha coragem de contar para ninguém. Agora ela sabe que sou um louco, um pervertido. Agora minha vida não pode mais seguir, não aqui! Não perto dela! Preciso fugir.

O que aconteceu foi que a oportunidade perfeita apareceu para as minhas fantasias absurdas. Ela seguia para o banheiro, sozinha e desprotegida, e a escuridão dos corredores nos encobria. Tarde da noite não há mais ninguém por estes blocos de aula e o segurança ronda uma área grande demais para estar sempre no lugar preciso. Não consegui segurar o selvagem em mim, e a encurralei no banheiro. Ela tentou lutar, arrancou-me um pouco de sangue à base de agadanhadas em seu desespero, mas a calei utilizando alguma força bruta. Em poucos segundos nossos sexos se encontravam, e com alguma dificuldade consegui inserir o meu sexo dentro dela; que aparentemente já desistira de lutar contra mim por puro cansaço. Foi rápido, doentio. Completamente diferente do que eu sonhava que iria acontecer com ela. Corri de lá, deixando-a jogada no chão, sangrando e chorando silenciosamente por causa de minha invasão. Agora estou afogueado, desesperado, aterrorizado.

Talvez eles venham. Talvez não.

sábado, 26 de novembro de 2011

Notre Belle Èpoque pt. 2

Primeiro registro dos diários de Amélia

Belém, doze de agosto de mil oitocentos e oitenta e dois.

Percorri pela manhã todo o jardim da propriedade por nós recém adquirida. Joaquim disse-me que após o Natal mandaria encomendar-me uma fonte, ornada das mais belas e caras lajotas portuguesas, ou talvez esculpida em rococó ou eclético, que estão em ascensão e muito me agradam. Acontece que, nesta fatídica manhã, sentada ali, no banco de pedra feito sob medida para o meu jardim, flagrei-me por não conseguir mais apreciar a beleza das flores. As rosas pareciam-me tão menos rubras, e as tulipas recém plantadas pareciam-me apenas pequenas e patéticas peças de louça esmigalhada junto às areias do tempo. Não via mais as margaridas balançarem-se alegremente ao sabor do vento que as embalava. Via apenas, irremediavelmente, os olhos de Anita, de azul tão profundo que tornava os lírios foscos. A visita daquela dama à minha casa na véspera do dia de hoje perseguiu-me por entre os ladrilhos do jardim, inundando meus pensamentos com idéias que não parecem ser minhas. Lembro-me do perfume doce que ela exalava. Lembrei-me dos lírios, enquanto conversávamos sobre receitas, e rememorei o toque de suas mãos delicadas quando ela recebia de minhas próprias mãos a xícara de chá por mim oferecida, e esta lembrança, a das mãos sedosas de Anita, acometeu-me justamente quando dedilhei os benditos lírios azuis.
Voltei para a casa, ainda nostálgica, lacônica de mim.
Flagro-me recordando de cada momento, cada segundo significativo ou trivial que circulou por minha sala. A sala que fiz questão de decorar com tanto esmero e pessoalmente. A sala que tanto agradou Anita. Devo estar revivendo os dias de catequese, quando observava por longas horas a maneira como Carlota movimentava os lábios e cabelos com suavidade. Naquela época tudo pareceu-me tão difuso, tão fugaz. Eu conhecia aquele sentimento, por já tê-lo vivido anteriormente, porém cria piamente que após contrair matrimônio com Joaquim, que me cortejara desde meus treze anos, jamais tornaria a me sentir deste modo diante de outra moça. Agora, cá estou eu entre lençóis, recordando o quão afortunada fui por Joaquim e Carlos, o esposo de Anita, terem carecido daquela reunião no horário do chá, e por terem os dois trancafiado-se no escritório de Joaquim durante horas, que para mim, desde a primeira visão de Anita, portando aquele vestido alvo, que denotava pureza e suavidade, pareceram segundos velozes. Talvez pequenas frações de tempo, que escorriam-me entre os dedos sem que eu pudesse agarrá-los à mim. Ela carregava um pesado livro de capa escura, sobre o qual, sinceramente, sequer procurei saber, mas quando mencionamos o Neo-clássico belíssimo sob o qual o Theatro da paz fora construído, Anita alegou-me com aquele comportamento doce e benevolente que ainda não o conhecia senão por menções. Ri-me do fato de que talvez Paris a tenha privado de conhecer uma das mais belas mostras arquitetônicas do século, porém, intimamente glorificava aquela magnífica revelação. Ora, se Anita ainda não vislumbrara espetáculo algum no Theatro, aquilo significaria que, como esposa do mais novo sócio do marido dela, não fazia mais do que minha obrigação em acompanhá-la pessoalmente à ópera que viria à apresentar-se na semana seguinte. Cá estou, ansiando por um novo encontro, que soa-me quase perigoso por não ter comunicado à Joaquim.

Notre Belle Èpoque pt. 1

Meu nome é Flávia Fortunato, acadêmica de literatura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS). Hoje estou particularmente chocada com algo que encontrei no sótão de meu pai, enquanto buscava desesperadamente algum material que me ajudasse com o maldito TCC. Encontrei em um baú de madeira velho como o mundo alguns manuscritos umedecidos e em sépia, que custei a acreditar que ainda estivessem legíveis. Os diários de minhas tataravós estavam ali. Meu pai bem havia me dito que existiam em algum lugar, e que ele próprio nunca os havia lido. Uma herança de família inútil, por assim dizer. Demorei um bocado de tempo pra identificar onde começava tudo aquilo, ou onde havia sido feito o primeiro relato. Amélia e Anita, eram os nomes delas. Aparentemente o primeiro dos registros foi feito por Anita, 11 de Agosto de 1882. O caso é que, ao ler apenas a primeira página do que ela escreveu, percebi que, se a história seguiu-se como começa, definitivamente tenho um material e tanto em mãos. Vou manter aqui um pequeno diário de bordo, enquanto tento digitalizar toda essa parafernália e ver no que dá. Espero que alguém no mundo compartilhe do meu choque, já que eu sou egoísta e não gosto de me apavorar sozinha.

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BELÉM, 11 DE AGOSTO DE 1882.

Minhas luvas estavam pousadas sobre a mesa de centro daquele grande Salão de Estar, tão delicadas quanto minhas mãos. Deslizava minhas visões e comentários pelo local, atentando para os pequenos objetos dispostos naquela casa. Tudo ali era belo, do mais bom gosto. Ainda que diferente de minha própria casa, o espírito ali cativo me despertava interesse, como os velhos romances que lia durante as horas de sono de Carlos. Essa similaridade entre o meu bem estar e o daquela casa era obra de outra dama da alta sociedade, como eu. Amélia. Observava-a sentada logo ao meu lado, num grande mobiliário construído de mogno e com estofado branco. Sorri levemente envergonhada por ter me perdido em meus próprios pensamentos, o que frequentemente ocorria.

Nossos consortes haviam marcado uma pequena reunião para discutir sobre assuntos masculinos, os quais, felizmente, não necessitavam de minha atenção. Disse-lhe que poderia lhe acompanhar, mas que Paul Verlaine e seus Poèmes saturniens iriam comigo, impedindo assim que momentos enfadonhos permanecessem em minha presença. Ainda que seus poemas me agradassem em demasia, não necessitei abrir o manuscrito europeu. Fascinara-me inegavelmente. Não apenas seu gosto arquitetônico sublime ou sofisticado gosto musical; sua presença era impetuosa e sobrepujava a minha sem piedade. Sentia-me sufocada ali, ao seu lado, mesmo que falássemos apenas de futilidades. Eu era uma menina perto dela, ainda não despertara para a vida; e ela uma mulher.

Conversamos longamente. Mas, em dado instante, algo lhe chamara a atenção em outro canto da casa. Desesperei-me com aquela cena, pois exigia toda sua atenção para mim, somente para mim. Hesitei por alguns segundos. Pensei-lhe em tocar as mãos, suplicando-lhe seu olhar e palavras; mas não, isto seria de uma ousadia exacerbada. Enquanto imaginava várias outras maneiras fantásticas de dar continuidade à conversa, Amélia voltou-se para mim. Falamos apaixonadamente de vários outros assuntos, como pequenos festejos em nosso meio social e algumas atrações que haveriam de ocorrer no recém-fundado Theatro da Paz. Infelizmente, eu passara os últimos anos em Paris e, por isso, ainda não tinha tido a oportunidade de visitar a obra neoclássica e suas peças. Ela me respondeu com toda a paixão que dedicava ao arquitetônico, explicando-me bastante sobre o estilo da construção e tudo que ali ocorria. Convidou-me para lhe acompanhar a uma ópera no local. A conversa não se alongou por muito mais tempo, visto que os homens haviam terminado seus negócios. Agradeci-lhe por toda a hospitalidade que nos havia reservado, elogiei uma última vez seu bom gosto para decoração e lhe disse que em breve nos encontraríamos.

Poucos minutos atrás eu informei a Carlos sobre o convite que Amélia nos estendeu, e provavelmente ele não se importará em aceita-lo juntamente comigo. Já estou a imaginar como será tão magnífica noite. Estou ressentida com meu amado esposo, pois este está me exigindo seus direitos conjugais.


Post construído com auxílio da co-autora Sacha Tavares.

 
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