sábado, 26 de novembro de 2011

Notre Belle Èpoque pt. 2

Primeiro registro dos diários de Amélia

Belém, doze de agosto de mil oitocentos e oitenta e dois.

Percorri pela manhã todo o jardim da propriedade por nós recém adquirida. Joaquim disse-me que após o Natal mandaria encomendar-me uma fonte, ornada das mais belas e caras lajotas portuguesas, ou talvez esculpida em rococó ou eclético, que estão em ascensão e muito me agradam. Acontece que, nesta fatídica manhã, sentada ali, no banco de pedra feito sob medida para o meu jardim, flagrei-me por não conseguir mais apreciar a beleza das flores. As rosas pareciam-me tão menos rubras, e as tulipas recém plantadas pareciam-me apenas pequenas e patéticas peças de louça esmigalhada junto às areias do tempo. Não via mais as margaridas balançarem-se alegremente ao sabor do vento que as embalava. Via apenas, irremediavelmente, os olhos de Anita, de azul tão profundo que tornava os lírios foscos. A visita daquela dama à minha casa na véspera do dia de hoje perseguiu-me por entre os ladrilhos do jardim, inundando meus pensamentos com idéias que não parecem ser minhas. Lembro-me do perfume doce que ela exalava. Lembrei-me dos lírios, enquanto conversávamos sobre receitas, e rememorei o toque de suas mãos delicadas quando ela recebia de minhas próprias mãos a xícara de chá por mim oferecida, e esta lembrança, a das mãos sedosas de Anita, acometeu-me justamente quando dedilhei os benditos lírios azuis.
Voltei para a casa, ainda nostálgica, lacônica de mim.
Flagro-me recordando de cada momento, cada segundo significativo ou trivial que circulou por minha sala. A sala que fiz questão de decorar com tanto esmero e pessoalmente. A sala que tanto agradou Anita. Devo estar revivendo os dias de catequese, quando observava por longas horas a maneira como Carlota movimentava os lábios e cabelos com suavidade. Naquela época tudo pareceu-me tão difuso, tão fugaz. Eu conhecia aquele sentimento, por já tê-lo vivido anteriormente, porém cria piamente que após contrair matrimônio com Joaquim, que me cortejara desde meus treze anos, jamais tornaria a me sentir deste modo diante de outra moça. Agora, cá estou eu entre lençóis, recordando o quão afortunada fui por Joaquim e Carlos, o esposo de Anita, terem carecido daquela reunião no horário do chá, e por terem os dois trancafiado-se no escritório de Joaquim durante horas, que para mim, desde a primeira visão de Anita, portando aquele vestido alvo, que denotava pureza e suavidade, pareceram segundos velozes. Talvez pequenas frações de tempo, que escorriam-me entre os dedos sem que eu pudesse agarrá-los à mim. Ela carregava um pesado livro de capa escura, sobre o qual, sinceramente, sequer procurei saber, mas quando mencionamos o Neo-clássico belíssimo sob o qual o Theatro da paz fora construído, Anita alegou-me com aquele comportamento doce e benevolente que ainda não o conhecia senão por menções. Ri-me do fato de que talvez Paris a tenha privado de conhecer uma das mais belas mostras arquitetônicas do século, porém, intimamente glorificava aquela magnífica revelação. Ora, se Anita ainda não vislumbrara espetáculo algum no Theatro, aquilo significaria que, como esposa do mais novo sócio do marido dela, não fazia mais do que minha obrigação em acompanhá-la pessoalmente à ópera que viria à apresentar-se na semana seguinte. Cá estou, ansiando por um novo encontro, que soa-me quase perigoso por não ter comunicado à Joaquim.

4 comentários:

Anônimo disse...

Como sempre uma grande inspiração para mim, mon amie.

Anônimo disse...

A linguagem detalhada do ambiente ficou tão sublime... Tão perfeita, que agente consegue ver os tons das imagens envelhecidas nas lembranças. Uma narração poética de delicadezas muito sutis.
Ficou lindo. Parabéns.

Cachola Literária disse...

Olá.Essa é minha primeira visita ao blog.Vi seu link em outro blog e resolvi vir conhecê-lo.Adorei seu blog e já estou lhe seguindo.Seu blog é muito bem organizado e suas postagens muito bem elaboradas.Belíssimo texto!
Te convido a conhecer meu blog e segui-lo também.Aguardo sua visitinha!
Bjs!
Zilda Mara
http://www.cacholaliteraria.blogspot.com

Lilyka disse...

Gostei muito! Aguardando a continuação dos Diários de Amélia! Excelente texto, parabéns! (olha aí, minissérie de época da Globo xDD)

 
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