domingo, 20 de maio de 2012
Ao público
sábado, 24 de março de 2012
Encontro das Águas
Certo dia meu pai conseguiu algumas entradas para um passeio bem diferente. Visitaríamos uma das últimas áreas da floresta amazônica que ainda estavam de pé, supostamente intactas. Quero dizer, muitas crianças passavam anos pedindo para seus pais que as levasse ali para passear, ver as florestas tão altas quanto os prédios chineses e, se tivessem alguma sorte, até algum animal vivo. E lá fomos nós, uma semana depois. Meu pai não estava realmente animado com aquilo, mas meu coração batia forte com a perspectiva de pisar naquelas terras ancestrais, onde ainda havia vida selvagem; e não apenas prédios titânicos e autômatos.
Toda essa minha ansiedade não provinha apenas de animação, mas sim do medo. Medo de que eu estivesse esperando demais daquele passeio. Aliás, passei anos me debruçando sobre livros velhos dos meus avós maternos, enquanto observava fotos de seres magníficos que não mais existiam. Onças de boca escancarada com seus dentes prontos para o bote, aves de penas mais coloridas que o carnaval, salamandras tão pequenas quanto a ponta de um dedo, peixes que nadavam uma distância gigantesca só para por seus ovos... Tudo acabado. E eu costumava chorar, deixar ali minhas lágrimas infantes, tão inocentes. Imaginava como toda aquela vida havia se perdido e o quão isso era injusto, e tudo causado pela soberba. Sim! Soberba! Uma espécie acreditando que não precisava mais das outras. Minha alma estava presa naquele martírio eterno, melancólica como se alguma parte dela tivesse sido arrancada e destroçada.
De qualquer forma, fomos ao passeio em um dia de chuva suave. Chegamos lá e havia algumas outras pessoas se reunindo num átrio pequeno. Meu pai falou com algumas, provavelmente clientes, enquanto fiquei sentado num canto. Após vários minutos o guia entrou na sala na qual esperávamos e começou a nos conduzir para a entrada da trilha. Fui andando devagar, bem atrás do grupo, para não ter que ouvir a ladainha dos outros e para poder ter uma experiência própria, pessoal.
O primeiro passo nas folhas úmidas daquela floresta foi mileumanoitesco. Senti um pulso elétrico partindo da terra e disparando por todo meu sistema nervoso, deixando-me arrepiado. Deslumbrado, agachei-me ali mesmo e toquei o chão com a ponta dos dedos. Senti a umidade em minha pele enquanto algo acontecia em meu coração. Um sorriso, impossível de esconder, surgiu em minha tez adolescente. Olhei de soslaio para o grupo à frente, verificando se estavam reparando em mim. Ao perceber que estavam ensimesmados, arranquei meus sapatos e meias, e deixei meu pé encostar-se às folhas e galhos caídos no chão da floresta. Tal qual uma criança levada, segui-os cuidadosamente para que não vissem minha transgressão.
Estava deslumbrado pelos pequenos detalhes da mata ainda intocada. Ouvia o canto de aves, que só tinha visto em filmes e em vídeos na internet, mas nunca ao vivo. Eram de uma suavidade divina, que poderiam trazer a qualquer pessoa um pouco de felicidade espontânea. Reparei numa esperança do mais vivo verde apoiada em uma folha e me lembrei de tudo o que havia lido sobre aqueles insetos em meus livros. Fui me aproximando lentamente, querendo saber se seus membros traseiros realmente eram alongados e preparados para o salto. Quando estava a apenas alguns centímetros, ela saltou repentinamente. A beleza daquilo me arrancou o fôlego, e meus olhos marejaram.
Procurei onde o pequenino havia pousado, dei mais uma olhada para o grupo, que agora ouvia uma longa explicação sobre o passado, e segui para dentro da mata. Fui chegando perto novamente, como sabia que felinos selvagens costumavam fazer quando estavam preparando um ataque surpresa, e tentei captura-lo, em vão. Mais uma vez ele fugira de mim e se embrenhara por entre as árvores. Comecei a seguir seus saltos, concentrado naquela alegria inocente que toda criança deveria ter tido, mas que fora arrancada da nova geração por seus arrogantes antepassados. Feliz, pulei de local em local, por vários minutos, sempre perseguindo meu pequeno amigo.
Comecei a ouvir o barulho de água correndo e neste instante perdi o inseto de vista. Observei que um pouco distante de mim passava um rio bem na beira da floresta, como se esta estivesse prestes a ser coberta pela água. O estranho: aparentemente havia alguém ali. Cheguei perto devagar, com medo de que a pessoa brigasse comigo por ter me desviado do grupo de turismo. Mas, qualquer coisa, diria que tinha me perdido - e o máximo que a pessoa poderia fazer seria reclamar por algum tempo.
- Com licença? Você trabalha aqui? – perguntei quando cheguei a uns dois metros da pessoa. Percebi que era uma mulher de longos cabelos negros que escorriam por sua pele morena. Ela estava virada para o rio, suas pernas mergulhadas na água que passava lentamente por aquele trecho.
Por um momento ela pareceu não ouvir o que eu tinha falado. Deslizava sua mão na superfície da água, e eu percebi que havia dezenas de minúsculos peixes ali, como se ela estivesse lhes alimentando. Após alguns segundos, nos quais eu fiquei em dúvida se saía dali enquanto tinha a chance ou se tentava lhe dirigir a palavra novamente, ela virou seu rosto delicadamente em minha direção. Tinha traços indígenas puros, seu nariz curto e arredondado levantado num aspecto altivo e olhos puxados. Embasbacado e com o coração a ponto de sair pela boca, sentei-me ao seu lado, deixando a água cobrir minhas canelas e molhar minha calça jeans; sua beleza era sobrenatural, sedutora, feérica.
- De certa forma, sim. Trabalho aqui, vivo e sou aqui. – respondeu, voltando-se novamente para a atividade de deslizar sua mão sobre a água.
Fiquei lhe observando por minutos sem nada falar, ainda tentando entender o que ela estava fazendo na beira do rio sem ninguém por perto. Depois destes minutos, percebi o quanto deveria ser estranho um babaca lhe olhando por minutos sem falar nada – além de assustador, é claro. Abri a boca, incerto do que falar para engatar uma conversa com a moça. Mas logo que decidi sobre o que falar, ela recomeçou:
- Trouxe-te aqui por um motivo, mortal. – falou, fixando seus olhos negros nos meus com intensidade, quase agressivos. – Há muito tempo eu estou e sou esse rio, essas águas. Vi flechas e balas, remos e motores, negros e brancos, vida e morte. Mas agora estou desaparecendo, junto com meus santuários, crenças e tudo o que represento.
Algumas lágrimas vertiam de meus olhos enquanto vertigens surgiam, deixando-me inerme diante aquele ser. Cada célula do meu corpo gritava de medo e dor, querendo paradoxalmente fugir e me agarrar àquela divindade, temer e adorar. Séculos se passaram em minha cabeça, como se eu estivesse ligado às lembranças dela. Vi índios pescando, botos nadando, frutos caindo e peixes nascendo - tudo ali, naquele rio que agora era o alvo do meu amor. Ela se aproximou e encostou seus lábios nos meus, e senti um vapor deslizando e entrando em meus poros e garganta. Senti sua energia milenar me preenchendo como um todo e finalmente me deixando completo, ciente do meu amor maior transcrito de cada proteína do meu corpo.
- Carregue parte da minha essência e divida-a entre os merecedores. Preciso descansar. Peço-te que me proteja enquanto isso. Não deixe esta última essência da vida morrer. – Apesar de seu porte orgulhoso, sabia que era uma súplica desesperada da respiração final da natureza.
Afastou-se de mim e entrou na água, fundindo-se a ela. Levantei em silêncio e voltei para o grupo. Mas agora todas as sensações eram únicas. Eu enxergava cada ligação daquela floresta e a possibilidade de cada mínimo ser viver ou padecer. Percebia em cada árvore seus inúmeros habitantes, andando rotineiramente naquele perigo maravilhoso que a vida oferece. Mais do que isso: sentia-me parte daquilo, e a dor por ter de me afastar por um tempo era absurda. Mesmo assim os encontrei novamente e sequer pareciam ter percebido meu sumiço. Segui com eles, como tinha de ser, mas agora com um objetivo.
Não permitirei que a vida se esgote.
quinta-feira, 1 de março de 2012
Santuário dos Prazeres
A noite possui uma beleza doce, inesgotável, por isso sempre fora muito mais agradável que os sufocantes dias que sua cidade já tão verticalizada lhe fornecia durante as incontáveis manhãs. Marcelo lembrava-se perfeitamente que desde criança possuía uma ligação intrínseca com a lua e seus mistérios, e por vezes sem conta seus hábitos noturnos lhe renderam pequenos problemas. Sua mãe quase morria de preocupação quando tinha que lhe botar da cama, dia após dias, para que ele fosse para aula. Seus poucos amigos dificilmente poderiam compartilhar suas ideias e brincadeiras, por sempre ter estado mais agitado após as 22:00. E, como todos sabem o quão crianças podem ser más, sofrera por causa da palidez fantasmagórica que sua pele apresentava e olheiras profundas que sempre marcaram sua tez tão diferente daquelas de outras crianças. Mas agora tudo isto se tornara lembranças, por vezes doloridas; mas apenas lembranças.
Desenvolvera-se num homem incomum, de poucos amigos, daqueles que dificilmente seriam agraciados como protagonista de um best-seller no qual o cara tão comum é impaciente e toma suas vontades à força. Ao contrário da vida pulsante dos guerreiros, Marcelo conservava desde criança uma passividade e frieza diante as várias situações de sua vida; mais por indolência que por falta de capacidade de tomar um controle de sua vida, como qualquer livro de ajuda poderia lhe direcionar a fazer. Por inúmeras vezes desejou ter a inconsequente força de vontade de um herói moderno, que chamaria milhões ao cinema para verem seus gritos e personificações de aparência louvável; tal qual o Perseu juvenil ou o potente Thor.
Costumava frequentar os sebos em sua cidade. Aquele que ficava perto da Praça da República era de sua preferência. Era um dos mais antigos da cidade e normalmente se encontravam novos livros. Passava horas sentado ali, solitário, quando havia alguma folga. E sempre que seus intervalos de trabalho permitiam, chegava cansado e sem fôlego. Jogava-se no canto mais distante do estabelecimento, murmurando uma breve saudação para a envelhecida dona ao passar por ela. Sentado ao chão, passava horas lendo algum pequeno livro em alemão ou italiano, e no final levava qualquer coisa para continuar a leitura em sua casa num preguiçoso modo de vida. Pensava que dificilmente qualquer coisa poderia lhe arrastar para longe de sua confortável cama e sofá; e para qualquer pessoa nova em sua vida, estabelecia rapidamente os limites. ‘Meu espaço. Seu espaço’.
Sua casa era bem pequena, mas abrigava todas suas necessidades. Como poderia ser deduzido diante a índole de Marcelo, pouco daquilo fora fruto de trabalho próprio. O apartamento havia sido comprado pelo pai e deixado. Os eletrodomésticos dados pela mãe, já em outro casamento, numa tentativa de desculpar-se silenciosamente pela distância. As poucas janelas estavam sempre fechadas, o ar carregado de um cheiro úmido de mofo e o chão obscurecido por uma camada asquerosa de poeira. Podiam ser observados livros jogados pelo chão do quarto ou desarrumados por cima de uma mesa perto da janela lacrada, além de roupas sujas e limpas misturadas numa bagunça adolescente.
Característica marcante dele era o gosto por ficar deitado em seu quarto olhando para o teto e paredes, mesmo que houvesse convites e compromissos estendidos a ele. Diante qualquer tipo de evento social, poderia até ficar animado por alguns dias, mas uma ou duas horas antes de se locomover para fora de sua vida enclausurada, o tédio o acometia. Preferia ficar ali, aprisionado com sua indolência, observando o tórrido andar das formigas perto de restos de comida ao chão ou as marcas na parede, que ocasionalmente formavam histórias tão ilusórias como daquelas surgidas por alguns tragos. Por vezes desistiu de sair com algumas garotas para apenas ficar ali ao som do relógio. E, por mais que permanecesse vazio das vontades, todas elas pareceram brotar com a chegada de Lúcia.
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Decidira ir a uma dessas livrarias de pessoas que têm dinheiro para comprar livros caros. Juntara pouco mais de cem reais para poder fazer uma pequena compra neste lugar (provavelmente daria para apenas dois livros, no máximo três), mas gostaria de comprá-los em bom estado e mantê-los dessa forma. Sentado ao chão da loja, como ocasionalmente uma ou outra pessoa pode ser encontrada, observava uma das várias estantes de Literatura Estrangeira, arrumadas por gênero, e dentro de gênero por ordem alfabética do sobrenome do autor. Estava mais do que interessado em levar a coleção de Henry Miller, com sua força tão masculina, ou até do demoníaco Rimbaud, que inspirara tantos dos seus autores preferidos. Aprisionado em suas fantasias, permanecia alheio às pessoas ao seu redor.
Após alguns minutos de abstração, percebeu que uma moça já estava há algum tempo por ali, parecendo indecisa sobre o que levar. Observou suas feições por algum tempo. Não era linda, tampouco feia. Possuía um corpo pequeno, tal quais as fadas d’As Brumas de Avalon. Conservava uma proporcionalidade bela, em cada porção. Suas roupas não eram vulgares, mas permitiam ver suas curvas e pele feéricas. Enquanto apreciava sua beleza, tão comum e natural, lembrava-se de manhãs ensolaradas num parque, dias que nunca foram seus na realidade. Quase podia sentir o sol tocando sua tez, uma vez tão indiferente a esses pequenos prazeres. Talvez ela emanasse essa felicidade terrena. Foi impelida a falar-lhe, ajuda-la, aproximar-se.
‘Com licença, você está procurando algo?’ – perguntou, com a voz trêmula por causa da falta de costume de interagir com outros humanos de modo espontâneo.
‘Ah! Sim, sim. Eu estava procurando algum tipo de paródia, sei lá...’ – respondeu Lúcia, transbordando vida, intensidade, sensações antes desconhecidas por Marcelo fora de seus livros.
Levado por tais sensações ainda não bem desenvolvidas, o rapaz lhe indicou alguns livros, entre eles a coleção infanto-juvenil do Douglas Adams. A conversa continuou, passando de literatura para cinema, e então para revistas em quadrinhos. Enquanto a conversa prosseguia, começaram a andar pela praça que ficava próxima à livraria. Observavam as pequenas flores, tão frágeis mesmo com suas cores vibrantes, além de borboletas e aves chegando e partindo com o leve bater de suas frágeis asas. Mesmo quando os assuntos do dia pareciam ter se esgotado, começaram a conversar sobre o céu sobre suas cabeças e a terra sob seus pés em qualquer dos bancos da praça. De fato, nenhum dos dois queria se distanciar naquele momento, mesmo que fosse apenas para ficarem ali parados, sem nada para fazer. E ali os dois ficaram observando as pessoas passarem, falando sobre roupas, sapatos, bancos, praças, sorvetes. Mais do que tudo, sobre a felicidade ao qual o mundo parecia submerso mesmo que para cada sorriso houvesse uma lágrima e para cada casamento houvesse um suicídio promovido pela exclusão e solidão. Marcelo, sobretudo, não gostaria de voltar para sua ignóbil privacidade.
Em algum momento seu encontro teve de terminar, para a infelicidade de ambos os jovens. Nenhum deles queria se afastar, mesmo assim o fizeram. No entanto, iriam se encontrar na casa de uma conhecida dela. Disse-lhe que sua amiga dava as melhores house parties, e que eles deveriam se encontrar lá na semana seguinte. Com esta promessa de um encontro recente, eles deixaram o espaço os manter afastados por alguns dias.
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Era uma manhã ensolarada, com pássaros de melodias divinas e aquele burburinho suave que ocorre no encontro do vento com as folhas, quando voltaram a se encontrar. Encontrou-a em frente à sua casa, ela mantinha em sua tez um sorriso encantador e forte, com aquele pequeno sinal um pouco acima de sua boca e cabelos curtos num desafio tácito ao comum. Sua vida e espontaneidade abateram-no imediatamente, levando-o a um estado inerme, de quase asfixia pelo contraste entre a luz e as trevas. A caminho do local da festa, a conversa andou calmamente e sem seguir os roteiros previamente estabelecidos pelos dois, numa óbvia conexão.
A casa era estonteante, não importando quantas vezes alguém a visse. Erguia-se imponente entre as duas pequenas construções que a cercavam, sua grandiosa porta da mais cara madeira abria-se depois de um longo caminho de pedras esculpidas cuidadosamente e de algumas vagas dum estacionamento cercado por grama de verde intenso, como tudo mais ali. Alguns carros já estavam posicionados displicentemente sobre o concreto quente, enquanto uma estátua de uma mulher desnuda com seus braços estendidos acima da cabeça, entrelaçados, permanecia bem no centro daquela porção aberta da propriedade. A mulher, imóvel sobre seu pedestal, seus seios fartos e curvas acentuadas, dispunha de um sorriso belo e convidativo, talhado cuidadosamente.
Dando um passo para dentro da casa, abria-se um mundo quase onírico, mesclando de modo tenaz o refinamento burguês com sensações divinas, como se ali fosse o templo de uma divindade moderna para burgueses com religião. Para qualquer pessoa com uma sensibilidade elevada, como Marcelo, percebia-se a fina linha entre os paralelos perdendo vitalidade, tornando-se ínfimas, permitindo que o que se acha que é imaginário se mescle com o que se acredita ser real. Um grandioso aquário repleto de peixes de cores vibrantes permanecia num dos cantos da Sala de Estar, esbanjando seus gobídeos e estrelas-do-mar na água salgada. Dois sofás de um vermelho intenso acomodavam cinco pessoas, que conversavam calmamente. Marcelo percebeu a peculiar leveza que pairava sobre eles, embriagados pela presença dos outros; assustou-se com uma mulher de nariz adunco e cabelos tingidos de branco que trajava uma fantasia de mulher-gato, mas ainda assim falava naturalmente, como se não fosse nada absurdo. Um homem vestido com smoking branco, de grande porte e pele negra, olhou para o casal de relance e deixou à mostra seus dentes brancos. Lúcia sorriu de volta, sintonizada com o ambiente, enquanto seu amigo ainda ia se adaptando às diferentes vibrações presentes naquela casa.
A cada passo naquele santuário de carne e espírito, os dois abandonavam vulgarmente seus prensas e moldes, deixando-se embeber no clima erótico de cada luz turva e cheiro forte. Passaram por um corredor imenso, com inúmeras portas fechadas à esquerda; uma única aberta ao fim, deixando à mostra uma larga cama de casal e um solo rapaz de aspecto intelectual jogado na cama, sua camisa verde de abotoar desprendidas de sua bermuda cáqui. O rapaz nem olhou na direção do casal, que parara na porta por um instante, interrogativos. Seguiram adiante, passando por uma belíssima cozinha branca e chegando aos jardins, sublimes. Um casal veio em nossa direção, belos como anjos de pele clara e sorrisos como o paraíso, revirando os sentimentos no corpo de qualquer mortal que os visse e quase os submetendo à vontade de se ajoelhar e lhes beijar os pés. Marcelo apertou a mão do serafim, sentindo o aperto majestoso trancafiá-lo, deixando-o sem oxigênio. Os dois passaram, seus cabelos adornados com flores de diferentes cores como aquele do quadro de Caravaggio, alegando ter que receber os outros convidados.
Atônito, Marcelo encarou Lúcia, recebendo em retorno apenas um riso descontraído de uma criança que descobre agora as flores azuis e vermelhas nos bem cuidados jardins de sua avó. Não se aguentou e riu também, liberando a tensão que guardava em seu coração e embarcando no clima suave e paradisíaco daquele local. Sentaram-se em uma cadeira de balanço que se misturava perfeitamente em meio às begônias e lírios, além das pequenas abelhas que sobrevoavam por ali. Viram outros casais pelo local. Um casal de meninos de aparência inocente e infantil dividiam cerejas debaixo de uma alta árvore por entre os raios solares que as folhas deixavam passar eventualmente, banhando-os com um clima sensual. Algumas outras pessoas corriam pelo imenso jardim, as garotas com vestidos claros e os homens com boinas, seus sorrisos sempre abertos, lindos, magníficos. Uma piscina artificial com o molde de um lago de águas negras abrigava dois casais que se banhavam despidos, esguichando água uns nos outros e nadando naturalmente naquela água fria com suas risadas alegres, contagiosas.
Recebeu algo para beber de alguma direção, um licor mais doce e inebriante que os vinhos de Baco, carregado por um cântaro de algum metal (talvez prata). Sequer teve tempo de achar aquilo estranho, pois o casal divino voltara, acompanhados por uma mulher negra de seios fartos, tão linda quanto eles, e um gato preto ao seu lado. Olhar para eles era tantalizante, mas lhe era impossível desviar o olhar. E quando conseguiu, percebeu que Lúcia ainda lhe observava com o mesmo sorriso, mas ao seu redor os fatos mudavam drasticamente. Os dois meninos, antes inocentes, entrelaçavam-se bestialmente, suas mãos lutando pelo domínio, tal qual guerreiros, e seus sexos rijos se esfregavam numa cadência hipnótica cada vez mais acelerada. Os casais que corriam pelo limitado campo agora estavam absortos numa brincadeira sensual, os dois rapazes sentados na grama com o olhar vidrado nas duas moças – agora desnudas – que se beijavam delicadamente, com a leveza de um beijo à flor. Suas mãos finas de dedos compridos, como aquelas desejadas por uma moça na cidade de Faldum, deslizavam pelo corpo da outra; sentindo toda a maciez inerente do alheio. Na piscina artificial os casais se beijavam, trocando eventualmente de parceiro com naturalidade, ensimesmados naquela embriaguez coletiva.
Nenhuma imagem, no entanto, chegava a ser tão fantástica quanto às feições de deleite da negra, cortejada pelos anjos daquele santuário, angélico e infernal. As bocas dos dois percorriam o corpo da mulher sem receios, procurando-lhe as fontes líquidas de seu prazer, trazendo-lhe à superfície um incêndio feérico que a todos absorveu imediatamente, desintegrando-os com sua paixão antes contida. Mãos passeavam fortes como feras, em busca das passagens estreitas para o prazer emanado do outro e absorvido completamente, irracionalmente.
Marcelo, ainda não completamente absorto, procurou alguma sanidade em sua companheira; mas Lúcia procurava sua explosão pessoal, adentrando pelo rio de seus prazeres sublimes. Atordoado pelo tantalizante e contínuo fluxo inesgotável de imagens e sons do ambiente, levantou-se. Sentia-se embriagado pelos gemidos e outros sons. O perfume do sexo arrebatou-lhe, arrancando o pouco de sanidade que lhe sobrara. Ergueu sua parceira, prendendo as pernas da fêmea em sua cintura e fincando-a o sexo como uma lança, selvagem. Conduzido por um ritmo frenético que só aquele templo de desejos poderia prover, trouxe-lhes prazer em diversas posições. Dominava-a pelos cabelos, puxando-os pela base, enquanto seu órgão rijo entrava e saía violentamente. O primeiro orgasmo do casal chegou durante um único momento, quando ela sentiu uma mordida em seu pescoço apertar-lhe a carne.
Repentinamente calmo depois do ápice de satisfazer seu sexo, abandonou Lúcia ali, curioso. Sequer ouviu os pedidos da menina para voltar para ela, que logo desvaneceram enquanto ela se juntava às duas outras moças que ainda se dividiam diante os rapazes. Olhou para trás e a viu abaixada diante duas garotas, divertindo-se ao tocar o sexo das ninfas com sua língua ávida. Aproximou-se do trio divino, que agora se estendia sobre o chão com seus gemidos oníricos, e mãos e olhos esfaimados pela carne. As duas mulheres endeusadas se prostravam sobre o homem, uma sobre seu órgão e a outra sobre sua boca. Reparou que os olhos das mulheres haviam adquirido um formado de fenda, como felinos, enquanto seus corpos se movimentavam lentamente sobre aquela figura sobrenatural. Passou pelo grupo, absorto por alguns segundos naquela imagem que ficaria por quase uma década na sua cabeça, e percebeu que o gato já não era gato. Agora uma pantera negra pairava atrás do grupo, olhando-os com displicência. Alguma lembrança ameaçou vir-lhe para completar o quadro, mas não chegou ao seu destino.
Inconsciente de que o tecido entre duas realidades havia sido destituído, permitindo a breve fusão entre dois paralelos, voltou para dentro da casa. Caminhou em direção da sala, aproveitado aquela nova sensação e mistura de sentidos que lhe eram tão estranhos. Cada lajota tinha agora uma coloração mágica e lhe atraía o olhar, como o de uma criança para quem tudo no mundo lhe é novidade. Passou diante do quarto onde vira o rapaz sozinho assim que entrara na casa, mas agora o quarto estava lotado. Vários homens e mulheres estavam dispersos pelo grande cômodo, mas todos eles pareciam ter uma pele inconsistente, inumana, com cores antes nunca vistas e feições que mais pareciam pertencer aos filmes de ficção. O rapaz estava ajoelhado diante uma mulher, acariciando lentamente seu clitóris, completamente absorvido naquela atividade que parecia tão simples. Marcelo passou pela porta, aproveitado cada imagem desfocada como de um sonho. Sentiu uma mão em seu pulso, e este único toque lhe transmitiu impulsos de dor e prazer que lhe acenderam imediatamente. Observou que um homem de quase 2 metros, tão estranho quanto aquela mulher ali deitada, puxava-o para um grupo; era feito de fragmentos de fantasia e sonhos, sua pele como marfim e seus lábios irreais, além daquele contato divino. Sentiu as criaturas humanoides tocando-lhe o corpo, passando-lhe levemente seus longos dedos, e a cada deslize sentia como se todo o mundo tivesse sido desconstruído e construído novamente. Beijou o homem que o puxara e sentiu sua pele pegando fogo ao toque dos lábios daquele ser. Cada gosto que lhe era aprazível surgiu ali. Afastou-se amedrontado e fugiu daquele quarto insano.
Arrastou-se pelo corredor iluminado majestosamente, apoiando-se sempre um dos braços na parede. Ouvia gritos de prazer, graves e agudos, em línguas peculiares. Chegou à sala, ainda assustado com tudo o que vira e ouvira, mas ainda querendo ter mais sensações daquela amalucada casa dos prazeres celestiais. Estático, observou a mulher-gato andar calmamente pelo local, rodeando os homens. Seu olhar famélico parecia ter entrado em guerra com o dos homens e os destruíra, deixando-os submissos e dóceis. Seu andar era de uma caçadora e seu cheiro de besta escorria pelos outros cômodos, intenso, almiscarado, envolvente. Com um único olhar dela seu coração acelerou e quase se deixou levar para sua armadilha, quando as mãos de Lúcia o alcançaram. Sentiu seu toque, frágil e humano, e sem pensar a empurrou na parede. Beijou-lhe com selvageria e fez-lhe apertar seu sexo por entre suas mucosas, fotografando com os olhos as feições extasiadas até que o ápice do incêndio que os consumira cessasse.
Sua noção de tempo já perdida por entre universos – ou até o tempo real já perdido -, dedicou-se a descobrir cada cômodo e pessoa. Deitou-se com os guerreiros dos jardins, percebendo a excitação natural que nasce em batalha, e com eles aprendeu a lutar pela dominação. Por várias vezes perdeu e foi destroçado pelas bocas, mãos e sexos dos jovens. Descobriu pela primeira vez a paixão sensual por outro homem, aproveitando a tenacidade de suas peles e o roçar dos pelos em sua boca, levando-o a orgasmos sem nem mesmo se tocar. ‘Pelos deuses! Que transe magnífico!’.
Lembra-se que certo dia se sentou numa sala estranha, ainda desconhecida, onde vários homens com roupas formais estavam em bancos. Era uma sala de strip-tease, típica de filmes norte-americanos. Sentou-se junto com eles, ao lado de um homem ruivo. Duas mulheres entraram logo em seguida, acompanhadas de uma música lenta. Seus movimentos eram hipnóticos e paralisavam o tempo. Dançaram lentamente em frente aos homens, tirando peça por peça de seus trajes. Quando deu por si, Marcelo se masturbava no mesmo ritmo que elas se moviam quais serpentes. Enquanto o odor das mulheres o atingia, percebeu que vários dos homens gozavam, misturando o masculino com o feminino num rito ancestral. Chegou ao seu próprio clímax nesse instante, na união indelével dos sexos.
Ficou no templo durante dias e noites que já não tinham diferença alguma entre si, enquanto experimentava cada ninfa e herói, cada criatura bisonha e observava cada prazer bizarro. Submeteu-se à vontade da mulher-gato, conheceu os orgasmos mais fortes com as fadas, que com cada toque lhe traziam êxtase infindo. E divertiu-se humanamente com os casais que corriam pelos jardins ou que se trancafiavam nos quartos por dias, buscando com afinco apenas os prazeres físicos dos outros. Deixou-se absorver todo o prazer que a vida poderia lhe dar, cedendo às tentações luxuriosas. Imaginando que eventualmente seus olhos e mente se apagariam, aproveitou cada pedaço de felicidade que aquele mundo lhe estendeu. Não tinha certeza do quanto sua vida iria durar e, portanto, não ficaria sujeito aos preconceitos burgueses sob os quais tinha sido criado.
Certo dia acordou com o sol queimando seu rosto. Levantou-se confuso, apoiando-se sobre suas mãos. Sem saber sequer seu nome, vagou pelas ruas com seu olhar vidrado, tentando recobrar a consciência que se escondia em sua cabeça. Alguns flashes vinham constantemente, sempre parecidos a sonhos loucos de noites conturbadas. Aprisionado pelo irreal, por muitos anos andou a procura do Santuário dos Prazeres. Pedia ensandecido para que os deuses daquele local o readmitissem, prometendo fidelidade eterna; mas nenhuma resposta lhe apareceu. Padeceu muitos anos depois, sem saber se o que vivera pertencia a alguma realidade ou se tinha sido tudo ilusão.
Mas tendo certeza de toda a felicidade que o Eros do lugar havia lhe trazido, qual diferença teria se era realidade ou ficção?
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
Notre Belle Èpoque pt. 8
Páginas retiradas do diário de Anita Simões
12 DE SETEMBRO DE 1882
Meu coração batia incessantemente desde o amanhecer, e me acordou com seus anseios absurdos antes mesmo do grande Apolo ultrapassar-nos com sua carruagem. Meu marido não dormia ao meu lado como de costume, e seu lado da cama permanecia frio como muitos de meus sentimentos por ele naquele dia. Deixei que meus pés tocassem o chão frio, silenciosos, e preparei um chá. Tomei-o enquanto observava o sol chegando à minha (nossa) propriedade, pensando no dia que viria. Antes que todos da casa acordassem, voltei aos meus aposentos e verifiquei falhas no vestido que usaria e em minha tez. E quando todos já despertavam, comecei a verificar os detalhes da casa, retirando qualquer resquício de rústico e desagradável aos olhos.
Uma hora antes do marcado com Amélia, solicitei que me ajudassem com minha vestimenta. O vestido que escolhi por usar é moderno e refinado, mas sem muitos adereços como essas moçoilas simplórias costumam usar. Esperei-lhe à porta, com o frenesi por sua chegada assomando-se a outros pequenos nervosismos. Meu coração pareceu parar assim que lhe vi chegando, e com toda a felicidade a recebi com abraços e cumprimentos repletos de cordialidade. Conversamos longamente durante a tarde, abordando temáticas como moda e vida na Europa. O tempo caminhava lentamente enquanto eu via suas feições darem forma às palavras, sua voz aveludadas acariciando minha alma, suave, suave. Sinto que tivemos uma conexão instantânea, feminina, como nunca antes tive. E certamente não quero que se acabe, não quero que meus olhos desviem para nenhum outro canto.
Experimentamos várias das peças do alfaiate, e tivemos apenas uma pequena pausa para o chá. E depois de tantas roupas, nossas costas já doendo de tanto esforço, parti para o magnífico vestido que Antoine trouxe para mim, tecido sob minhas medidas. Dispensei as minhas damas de companhia, nem sei bem o motivo disto – mas admito que premeditei a ideia de ficar só com Amélia ao menos por alguns poucos minutos. Despi-me, como uma adolescente inconsequente faria diante seu amado. Senti minha respiração ficando mais pesada nesse instante, e fixei meu olhar confuso na parede logo à minha frente.
- Amélia, tu poderias me ajudar com o espartilho? – acho que perguntei algo similar a isso. Senti a vibração que seus suaves passos faziam sobre o chão, e logo ela estava logo atrás de mim. Falou algo ininteligível para mim, deixando-me com os pelos eriçados. A partir daí tudo ficou confuso, diáfano. Percebia que eventualmente sua pele encostava à minha, mas nada mais se poderia discernir. Além desta sensação maravilhosa, tudo era fosco, e sua pele era minha perdição completa. Tempo, tempo. Apenas sei que ele passou por, repentinamente, perceber que Antoine batia à porta, preocupado conosco. Terminei de me arrumar rapidamente e lhe abri a porta, de sorriso aberto.
Nada mais depois disso foi importante. Amélia teve que voltar para seus próprios afazeres e eu fiquei com o vestido. Agora a dúvida surge. Real? Imaginação? Deus, ajuda-me a discernir esse emaranhado de sensações que me acometem.
sábado, 14 de janeiro de 2012
A Professora de Francês
Finalmente a sorte estava me acompanhando, ajudando em meus pequenos devaneios de uma jovem de classe média. Havia conseguido meu diploma há três anos – em Licenciatura em Letras (Língua Francesa) – e infelizmente ainda não tinha conseguido um trabalho na área, ao menos até duas semanas atrás. Passara bastante tempo estagiando em alguns locais como auxiliar e monitora, mas nunca com algum reconhecimento por aquilo que eu sabia, ainda que fosse pouco. Porém, um telefonema trouxera alguma felicidade. Uma Escola de Línguas havia gostado do meu currículo, que, apesar de conter pouca prática em sala de aula, apresentava alguns trabalhos de cunho científico sobre diferenças estilísticas na tradução de livros francófonos no Brasil. Os dias seguintes ao telefonema foram seguidos de pequenas reuniões felizes, como um jantar em casa para comemorar o novo trabalho e um encontro em uma pizzaria qualquer do subúrbio com meus amigos mais chegados, todos eles do antigo curso de graduação que juntos fizemos.
Alguns deles haviam permanecido em carreira acadêmica com mais afinco do que eu, tendo partido direto para o mestrado acadêmico. Outros já haviam arranjado emprego em alguma escola da cidade, tendo sido eu aquela que levou mais tempo para dar um rumo à própria vida. Por várias vezes me perguntava sobre a demora a acontecer algo de certo em minha vida. E tudo aconteceu a partir daquela admissão.
Na pizzaria eu conheci Leonardo. Um de meus amigos havia o levado para a nossa pequena comemoração. No começo se sentiu deslocado, como qualquer desconhecido num grupo que lhe é estranho. Mas aos poucos passou a se enturmar com todos os presentes, arriscando-se até a fazer uma ou duas piadas. Durante a noite descobrimos que ainda estava na graduação, mas se formaria em um ano. Ademais, o rapaz compartilhava alguns gostos musicais em comum comigo. Nossa conversa floresceu pelo mais delicado caminho. Deixei o lugar sorrindo, sentindo aquela tão suave dor da despedida que nos preenche o corpo com uma sensação mista de prazer pungente. Achava naquele instante que nunca voltaria a lhe ver.
Alguns dias se passaram sem que eu tivesse notícias dele e por isso aquele pequeno broto de felicidade quase caiu no esquecimento. Mas quando entrei no facebook vi seu convite. A pequena sensação que tive quando o conheci ressurgiu, dessa vez acompanhada de nervosismo. Nunca fui adepta de romances ao estilo Jane Austen, não que haja algum problema com algum de seus livros ou com os filmes baseados em suas obras (gosto da maioria, por sinal), mas jamais havia imaginado algo assim ocorrendo na realidade. Mas as noites que se seguiram ao seu convite foram encantadoras. Passávamos horas conversando no MSN durante os primeiros dias, às vezes com as webcans ligadas para podermos ver nossos sorrisos. Falávamos de tudo que nos era aprazível e começamos a assistir a uma série de comédia, sincronizados. Em um dos dias ele comentou sobre o meu sorriso de princesa e então lhe perguntei qual delas eu seria. Ele disse que nenhuma. Que eu era eu, sua princesa. Por um momento não acreditei que estava caindo naquela cantada. Não houve mais como adiar nosso encontro.
A leveza de nosso caminhar juntos me era impressionante. Ambos passamos bastante tempo com medo de iniciar, talvez com receio de esgotar tudo o que passaríamos. Mas já começava a sentir como se minha vida tivesse se iniciando. Nada pertencente ao domínio do passado importava mais, pois tudo começaria com ele. Caminhamos por uma praça por algum tempo, observando todos os pequenos e grandes animais que estavam por perto. O sol nos afetava com a leveza de um domingo pela manhã, junto com o melodioso canto das aves canoras que eventualmente voejavam dum galho para o outro. A paisagem só intensificava aquele romance quase infantil. Após vários minutos, finalmente nossas mãos atreveram a se tocar. Um singelo sorriso surgiu em nossos rostos, na mais delicada felicidade. O toque de sua mão era suave e sua pele acetinada. Apertei com mais força sua mão, esperando que nunca mais tivesse que me afastar. Repentinamente, Leonardo prostrou-se à minha frente e me abraçou. Mais alto que eu, encontrei-me diretamente com seu peito, podendo sentir assim seus batimentos cardíacos acelerados; além do forte cheiro de seu perfume e o calor através de sua camisa. Percebi que ele sentia meu perfume e era arrebatado por tal. Passamos vários minutos quietos, apenas aproveitando aquele momento singular, eterno, sublime. As pessoas continuavam andando pela praça, ultrapassando-nos, mas não nos afastávamos; nem queríamos. O primeiro dos beijos veio logo em seguida, desajeitado, acostumando-se lentamente à velocidade e intensidade que é propriedade do outro.
Sairmos juntos se tornou rotina. Tínhamos que nos ver todos os dias da semana, nem que fosse por apenas alguns minutos, apenas para nos abraçarmos. Não queria mais sair com meus amigos e familiares, pois preferia dedicar todo o meu tempo livre para ele, àquela relação que nascia de modo tão especial, tal qual uma flor em pleno inverno. Ele me ouvia atentamente, como uma criança obediente sendo guiada pelo adulto, e eu lhe falava sobre minha vida e tudo o que tinha vivido (ainda que não fosse muito). Ele, extremamente inexperiente e contido, não conseguiu dar os passos seguintes. Aos poucos comecei a sentir necessidade de ter uma relação mais carnal, ainda que nossa fragilidade juntos me apetecesse na maior parte do tempo. Como ele não me procurava, tive que procurar-lhe.
Num dos dias, deitados em uma cama de solteiro enquanto víamos algum filme de comédia romântica, minha mão pairava sobre seu peito. Ele ainda conservava a camisa, isto por ter vergonha de mostrar seu corpo até para mim. Na verdade, eu não entendia sua vergonha de si mesmo, pois era um dos homens mais bonitos que eu já vira. Seus cachinhos loiros combinavam perfeitamente com seus olhos claros e argutos, ainda mais combinados com óculos que lhe davam permanentemente um ar intelectual; seu nariz era delicado, diferente dos narizes da maioria dos meninos, assim como seus lábios. Gostava de observar seu rosto, muito, mas às vezes me pegava passeando pelo resto de seu corpo. Descia-lhe pelo pescoço, passando para seu tronco. Ele não costumava praticar exercícios, mas fizera natação em grande parte de sua adolescência, o que lhe dava largos ombros; e sua barriga mostrava naturalmente alguns músculos, algo com sua genética, eu suspeitava. Suas pernas eram grossas, como daqueles homens que caminham há anos, com pelos nem tão escassos nem tão abundantes. Apesar de gostar de tudo que havia nele, meu olhar eventualmente recaia entre suas pernas. Estava curiosa, admito.
Observava-o atentamente, concentrada em cada um de seus traços quase imperceptíveis. Passei a ver a penugem em seu rosto, delicada, além de alguns pequenos sinais perto de seu pescoço. Meus dedos escorriam lentamente por sua tez, sentindo com intensidade magnífica seus detalhes; e logo tomaram o caminho de seu pescoço e peito, dirigindo-se à concentração de todo meu desejo. A tensão surgiu entre nós. Percebi que ele já não olhava para a televisão, e sim para mim. Fiquei com receio de continuar em minha empreitada, mas ainda assim o fiz. Sem distanciar nossas peles por um único segundo, tomei em minha mão seu sexo rijo. As carícias foram delicadas, femininas, e mesmo no auge de sua intensidade mantiveram tal característica. Alguns minutos depois ouvi seu gemido abafado. Ofegantes, permaneci intocada.
O dia seguinte a este nosso encontro foi conturbado. O arroubo que me acometera no início de nossos dias desapareceu por várias e várias horas, perguntando-me o que tinha acontecido na tarde anterior. Ele não me tocara, e não parecia querer fazê-lo. Estava indignada, olhando-me no espelho a todo instante, imaginando censuras por alguma parte do meu corpo que não deveria estar como estava. Talvez não fosse vista como mulher e sim como mais velha, mais experiente, mãe. O dia teria me sido completamente desagradável se não fosse algumas releituras interessantes. Gostaria de lhe ver.
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Neste meio tempo, meu trabalho na Escola de Línguas iniciou. Já havia ido ao local umas duas vezes para assinar meu contrato e conhecer a sala de aula na qual eu lecionaria. Ainda assim, o primeiro dia em que fui ministrar uma aula foi singular e merece um pouco de atenção. Era um sábado daqueles bem comuns, com um sol forte e um trânsito mais ameno do que aqueles dos dias da semana. Estava um pouco sonolenta, já que passara a noite conversando com Leonardo por celular, trocando carinhos e contando sobre nosso dia. Estacionei bem em frente da escola e vi alguns alunos entrando no lugar. Havia um contingente bem grande de adolescentes e jovens um pouco mais novos que eu. Apesar de já ter tido a experiência, seria estranho começar a lecionar para pessoas quase da minha idade.
Entrei no estabelecimento com uma roupa meio descolada, e logo percebi meu erro. Vi alguns professores andando pelo Salão de Entrada com roupas extremamente formais, algo que eu não esperava. Vários alunos estavam sentados em alguns sofás ao fundo do Salão, conversando alegremente. O nervosismo aumentou. Fui até a recepção e pedi meu crachá de professora, o qual não havia sido pego anteriormente. Um homem, José Carneiro, professor de Espanhol, estava ao meu lado e me encarava com feições pouco receptivas. Senti certa aversão a ele desde aquele instante. Sua roupa formal contrastava com sua barba volumosa e seus cabelos desgrenhados e seu olhar selvagem. Apertei em minha mão o crachá entregue pela recepcionista, murmurei um “bom dia” inaudível e segui para a sala de aula. Preferi não olhar para trás.
A aula transcorreu normalmente. Gostei de todos os meus alunos e logo comecei a estabelecer algumas ligações com alguns deles através de nossos hobbies. Ao final da aula passei meu facebook e disse que eles poderiam me adicionar caso tivessem alguma dúvida ou quisessem dicas de leituras em francês. Um rapaz de uns 16 anos se aproximou de mim, com um sorriso maroto, perguntando sobre literatura francesa. Não me pareceu realmente interessado no assunto enquanto eu falava. Ao final do assunto, disse que precisava me apressar para ver meu namorado e me despedi. O menino possuía pele alva e com algumas sardas no rosto e certamente era atraente para as de sua idade. Lembrei-me de Notes on a Scandal (2006), e do diálogo entre Sheba Hart e seu aluno de quinze anos.
“You don’t know how beautiful you are, miss.”
Ao sair da escola, deparei-me novamente com o professor de espanhol que vira antes. Ele conversava com uma moça que eu reconhecia como uma das professoras de língua francesa. Enquanto andava em direção à porta, percebi que seu olhar me seguia. Durante aqueles segundos fui encarada tal qual um animal a ser caçado enquanto minha irritação palpitava. Indefesa. Inerme.
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Leonardo me esperava em sua casa. Cheguei alguns minutos depois da hora do almoço. Abriu a porta cantarolando alguma música que não reconheci. Sorriu e disse que o almoço já estava quase pronto. Ele não cozinhava muito bem, mas ainda assim tudo parecia muito bom quando cheguei à cozinha. Ajudei-o a terminar a sobremesa, sempre nos divertindo como enamorados de um filme romântico. A alegria fluía entre nós e tornava tudo ao nosso redor de uma beleza incomensurável. Almoçamos com o mesmo espírito de felicidade incontida e em instantes já estávamos no quarto, beijando-nos ternamente e conversando sobre quaisquer coisas. Lembrei-me do que acontecera na sala de aula mais cedo e lhe contei.
Sua reação foi inesperada. Pareceu retraído, acuado, provavelmente perdido em algum lugar em seu passado que lhe induzia a me desacreditar em parte; como se eu tivesse algum envolvimento maior do que o relatado. Abracei-o e lhe disse o quanto gostava dele, que ninguém poderia interferir nisso. Começamos a nos beijar e senti o gosto salgado de lágrimas, mas isto apenas ajudou a intensificar o nosso ato. Sentia sua boca, quente, em meu pescoço, arrancando-me suspiros. Suas mãos estavam mais violentas do que normalmente o eram, e arrancaram minha blusa com certo desespero. Eu lhe atacava com mais ânsia e já abria os botões de seu jeans. Envolvíamo-nos mais a cada instante, como nunca havia antes acontecido, e o ardente despertava em nossa vida. Tomei o controle por completo, deitando-o na cama e me levantando. Gostei do seu olhar, desesperado e confuso pelo meu afastar súbito. Sorri.
Manipular a situação despertara algo em mim. Tirei o resto de minha roupa, lentamente, observando seus pequenos movimentos contidos com todo o esforço. Passei as mãos em meu corpo enquanto me olhava no espelho, observando agora o quão voluptuoso ele era. Voltei para a cama, nosso calor se misturando numa sensação de êxtase contínua. Ávidos, beijamo-nos enquanto levava sua mão ao meu clitóris. Tocamo-nos por vários minutos, concentrados naquele prazer infinito. Aos poucos fomos experimentando novas ações e eu senti seu gosto em minha boca, e ele o meu. Nossos pudores iam abandonando o recinto e logo estávamos encaixados, num transe sublime e indecente. Horas se passaram e nossos corpos estavam exaustos e nossas mentes satisfeitas.
Desta forma, muitas de nossas noites perduraram. Mas, invariavelmente, eu era a pessoa que iniciava nossos rituais e os conduzia, como uma sacerdotisa pagã. Por noites desvendamos os mistérios dos prazeres do outro, em tentativas bem-sucedidas ou frustradas de oferecer e arrecadar mais e mais prazer carnal. Tentamos inúmeras posições, tempos, locais da casa; mas, em tudo isso, sempre esteve presente algo de uma natureza muito contida, que talvez emanasse de Leonardo. Neste período que revelamos aquela fome sexual em nós, nada mais no mundo me parecia real e poucas lembranças estão guardadas sobre o que aconteceu ao nosso redor, inclusive de todas as aulas que ministrei nesse período.
Após este período anuviado, tornei-me ciente de que a iniciativa que me pertencia tornava-se lentamente um empecilho para o meu prazer. Ele era um cavalheiro e jamais poderia me dominar por completo. Aos poucos essa sensação foi crescendo e me levando a ter que vagar no campo onírico para me satisfazer, sozinha. Evitei encontros com Leonardo e me afundei em ilusões eróticas nas quais tomava como personagem principal homens rústicos, os quais me seguravam pelo cabelo e rasgavam minha roupa à força bruta. Algumas vezes eu alcançava o êxtase com alguns aparelhos que comprei num sex shop e depois partia para encontrar o Leonardo, deitava-me em sua cama e era tomada da mesma maneira que já nos era quase cotidiana. O tédio me alcançara e eu gostaria de fugir, desesperadamente.
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Enquanto o tédio me consumia, continuei a trabalhar na escola de francês. Durante o período que permaneci encantada por aquilo que meu namorado me oferecia, nada mais via na escola ou fora dela. O meu pequeno galanteador havia desistido de sua empreitada, ou eu apenas não o percebia mais. Quando o cotidiano começou a me afetar mais fortemente, meus olhos voltaram a se abrir. Os pequenos encantos adolescentes voltaram a surgir diante mim, em especial o de um Adônis de uma de minhas turmas. De pele alva, porte grande, porém ainda de expressão jovial e sorriso galante; extremamente atraente. Falava comigo eventualmente, e seu sorriso adolescente me afetava de alguma forma incompreensível. Algumas vezes me peguei observando suas pernas e suas curvas masculinas, principalmente enquanto ele subia as escadas logo a minha frente. Gostaria de lhe cuidar, mas sabia que isto estava fora de questão. Além do mais, já tinha outra criança quando saía de lá.
Já se aproximava o final do semestre e os alunos já estavam preocupados com suas notas, portanto já começavam a entregar os trabalhos extraclasses com uma frequência maior do que durante o resto do semestre. Percebi isso quando encontrei sobre minha mesa um grande monte de trabalhos das poucas turmas nas quais lecionava. Pensei por um momento minhas opções enquanto apreciava a vermelhidão do final de tarde que invadia a ampla sala dos professores. Ou eu ficava sozinha ali para corrigir as numerosas atividades cheias de erros gramaticais, ou voltaria para meu desespero tácito sob os lençóis de Leonardo. Decidi por ficar lendo as atividades e ligar depois de alguns minutos para lhe avisar que teria que ficar trabalhando.
De uma tomada de fôlego, enquanto anoitecia, corrigi quase metade das atividades que estavam empilhadas. Sentindo minhas costas doerem e minhas pernas começaram a sentir o efeito de ficar parada por tempo demais, resolvi levantar e dar uma volta pelo ambiente que, a este momento, deveria estar inabitado. Deixei minhas pernas me guiarem pela penumbra que me envolvia, observando pequenos detalhes que nunca antes atentara. Algumas manchas nas paredes, teias de aranhas em cantos e quadros no Salão de Entrada. Enquanto fazia minha caminhada, ouvi um barulho vindo de uma das salas no andar superior. Um pequeno medo infantil surgiu e imaginei várias possibilidades sobre estar presa num filme de terror com o Jason ou com espíritos de prisioneiros presos naquelas terras por cem ou duzentos anos. Engoli em seco, mas ainda assim decidi subir para verificar de onde vinham os ruídos. Fiz minha derradeira caminhada numa lentidão absurda, admitindo todos os cuidados possíveis para não fazer qualquer barulho que denunciasse minha presença. Identifiquei de onde vinham os contínuos e frequentes barulhos, ainda não os associando com nada que conhecia; eram como um gemido abafado. Cheguei à porta correta e empurrei-a lentamente. Estagnada permaneci por uns 15 segundos com a cena que presenciava. José, aquele professor de espanhol, segurava com força uma miúda moça que trabalhava na secretaria durante o período da tarde. Forçava-a em direção da parede e ela reprimia gemidos enquanto era invadida com voracidade pelo professor de espanhol. Por um momento meu olhar se encontrou com o dele e percebi que ele sorria para mim. Afastei-me num choque de emoções.
Caminhei estonteada de volta à sala dos professores, descendo a escada apoiada no corrimão. O asco que matinha daquele homem agora se confundia com um desejo reprimido de ser aquela pequena loira de aspecto infantil, de ter meus cabelos puxados e de ser invadida com sua pujança masculina. Cheguei à sala dos professores ofegante e me amparei na parede. Lembrei-me do cheiro que a sala exalava e da visão dos suores e êxtase de seus ocupantes. O calor começou a me envolver e logo sobrepujou por completo o nojo que antes dominava. Meu coração, acelerado, expandia meu sangue para regiões que voltavam a adormecer em minhas relações sexuais com meu dócil namorado; vibrei quando deslizei minha mão, suavemente, por meus seios, causando-lhes um ardor conhecido. Tranquei a porta ao meu lado e deixei-me cair lentamente sobre o chão, empurrando minha mão para o meu sexo que clamava por algum toque que lhe sentisse úmido. Em espasmos repetidos contive aquele desejo por algum tempo, o suficiente para sair dali. Corri para minha casa e mergulhei naqueles desejos oceânicos, mistos de ódio e prazer.
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Os encontros com Leonardo se tornaram bem menos frequentes, e minha vontade de tê-los diminuía drasticamente. Por duas semanas evitei qualquer contato direto com o professor Carneiro, desviando de seus sorrisos mal intencionados e de seu constante motejo infantil. Em um dia, esfaimada por adentrar ainda mais neste irrefreável mar de prazer, decidi entrar no jogo. Trouxe a mim uma personalidade literária forte e ascética, a qual realmente não fazia parte de mim, tal qual June, dos diários eróticos do intricado jogo real e fictício de Anaïs Nin.
Num final de tarde de sábado, permaneci na escola quando todos já se retiravam para suas inocentes residências para se achar em seu constante modo de viver da mais pura comodidade. Ainda não vira José ali, mas sabia que logo ele entraria na sala para pegar seus livros e partir também. Andava de um lado para o outro, ansiosa. No reflexo de um dos vidros vi uma mulher diferente da habitual, tão distante daquela que entrara como uma menina recém-saída da universidade. Tal mulher era (ou estava) sofisticada, com suas curvas delineadas desenhando um atrativo incontestável para os machos da espécie. Sorri diante a imagem, orgulhosa. Esperei.
Percebi que alguém entrara na sala e logo me voltei à porta com um sorriso. Encarei-o, sem vacilar na coragem daquele personagem que interpretava. Ele se aproximou num impaciente vendaval de volúpia, irrefreável, e tomou-me em seus braços sem esperar resposta. Sua língua invadia minha boca e seu forte cheiro entorpecente me deixou zonza instantaneamente. Mal meu corpo respondia às suas carícias trovejantes, suas mãos já estavam apertando outros lugares, causando-me uma mistura de sensações físicas, todas confusas. Em poucos instantes eu estava jogada sobre a mesa dos professores e ele me cobria num sôfrego desejo animalesco. No desespero que me atingiu, arranhava suas costas e me forçava de encontro ao seu corpo. E desta forma conheci o mais vibrante encontro das potentes águas dos rios com o mar, agitado e corrente, infringindo-me um grito sobre-humano de êxtase por anos contido. Desfaleci sobre a mesa, nossos desejos findados por um breve instante.
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
Notre Belle Èpoque pt. 6
03 DE SETEMBRO DE 1882
domingo, 18 de dezembro de 2011
Ana Caroline
Ana Caroline não terminara o ensino fundamental. Problemas em casa a fizeram desistir da escola antes de saber o quão tudo aquilo poderia fazer diferença em seu futuro. Seus poucos amigos de escola se afastaram com o tempo e foram substituídos por umas meninas que moravam pelas ruas. Seus hábitos mudaram e, antes mesmo de ter seus 16 anos, Carol já estava fazendo pequenos serviços aqui e ali. Dera início a tudo isso para poder ajudar em casa, e o fazia sem amor, sem paixão, sem desejo. Levava o dinheiro para casa e o entregava para sua mãe, dizendo que trabalhava numa sorveteria a várias ruas de distância. De dia em dia sua rotina não se desfazia e a vontade não surgia. Entregava-se repleta de indolência a velhos que não lhe acendiam o ventre, que procuravam uma qualquer em qualquer esquina.
Certa vez encontrou um homem, pouco mais velho que ela. Era comum, assim como ela. Mas seus corpos deram sinais irrefutáveis de atração, numa sintonia próxima ao sobrenatural. Não houve mais espaço para seu trabalho desde a chegada de Pedro em sua vida. Mesmo que se vissem apenas para ficar sentados numa calçada qualquer, encarando-se, os encontros não eram cancelados e nem perdiam a frequência diária. Dia após dia seus corpos se entrelaçavam com sofreguidão em motéis baratos, os únicos que ele poderia dispor para a menina, e enrolavam-se nos lençóis carcomidos pelo descuido. Ambos estavam alheios a tais contratempos. Logo ela, que nunca conhecera o prazer de fato mesmo com os serviços que fazia, encontrara o maior dos desejos dentro de si. Suas entranhas se movimentavam com o toque de seu parceiro e se rendia facilmente ao seu domínio tirano, curvando-se ofegante aos desejos antes desconhecidos. Perdida no meio deste sonho erótico, não percebeu imediatamente como sua casa era demolida, caindo aos pedaços, seus pequenos irmãos com fome e sua mãe adoecida.
Chegou um dia em que o prazer permitiu-lhe, finalmente, ver o que acontecia ao seu redor. E então não poderia mais financiar estar longe de seu ofício. A humilhação cresceu em seu corpo numa febre, mas isto não poderia lhe impedir. Deu-se aos amantes da mesma forma que antes. Indefesa e frígida, resguardando ao seu amor o único presente que poderia lhe entregar sinceramente: seu desejo.
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
Pique-esconde
Permanecia sentado empertigado durante as aulas de qualquer um dos professores, como um típico sabe-tudo. Ainda não estava plenamente acostumado com a constante troca de professores num único dia da semana, de matemática para ciências e logo depois para redação, por exemplo. Havia ingressado no oitavo ano há pouco tempo. O aumento na expectativa dos professores e a pouca conexão entre o mestre e seus alunos eram sentimentos generalizados. Quero dizer, o oitavo ano é uma fase de transição; fase esta que começamos a nos tornar cada vez menos crianças e mais adolescentes. Com isso, novas brincadeiras pipocam aqui e ali, num misto do infantil e do adolescente. As meninas se agrupam em bandos, passando a viver de risinhos e olhares. Os meninos elegem líderes entre si em constantes disputas pouco óbvias de força e dominação, baseados em contar vantagens e em aparência. Eu permanecia alheio a tudo isso, e mantinha minha pose superior, pétreo.
Minha pouca idade influenciava esse meu posicionamento quanto ao que acontecia ao meu redor. Veja bem, eu era um único ano mais novo que meus companheiros, mas isso parecia fazer toda a diferença no desenvolvimento dos meus comportamentos. Enquanto eles brincavam de se empurrar e se dar socos, meu olhar se voltava para os brinquedos antigos, agora esquecidos por todos eles. No início ainda tentei voltar para a infância, onde tudo era mais simples, mais puro. Porém as risadas por causa de meu comportamento infantilizado fizeram com que eu me voltasse à realidade e avançar lentamente, avançar para onde a maioria caminhava em uníssono. Naquela época, eu não quis andar naquela direção.
Conservava ainda demasiado orgulho por ser o mais novo da turma, usualmente tratado com diminutivos, que geralmente só intensificavam mais minha imagem de criança. Para mim, aquele orgulho era plausível e necessário. Era o que me fazia sobreviver por ser tão discrepante daqueles ao meu redor. Observava-os de cima, como se eles fossem comuns e isso os fizesse inferiores. Eu, ao contrário, era perspicaz e inteligente, além de ser geralmente o foco de atenção de todos os professores e adultos. Este pensamento me mantinha preso num sentimento de segurança, num mundo iluminado acima das expectativas do grupo em que eu estava obrigatoriamente inserido fisicamente. Aquele mundo era longe de qualquer reprovação dos adultos, que eu insistia em afirmar que consistia de mais alta importância, e dissociado do mundo dos outros. Os outros eram cheios de pecados e dignos da mais pura reprovação, afinal, eu sabia de tudo o que faziam quando estavam longe dos olhares mais experientes. Achava-me similar à uma ave, que tem a permissão de acesso a dois mundos completamente diferentes, porém não pertence por inteiro a nenhum deles; afinal, nem eu nem uma ave poderíamos sobreviver sem transitar livremente por estes espaços paralelos.
Naquele momento eu observava Camila a certa distância. Havia nela algo de divino, algo que a diferenciava das outras garotas. Seus longos cabelos lisos e louros não eram avolumados como era comum na minha sala de aula. Seus cabelos combinavam perfeitamente com suas feições, eram finos e esguios. Eu a considerava tal qual uma princesa. Refinada. Aristocrática. Intocável. Ainda não havia percebido alguns traços de meus desejos, e ainda confundia demais minha apreciação poética com meu lado instintivo masculino. Para lhe falar a verdade, ainda o negava quase que completamente. O único indício de que eu havia um sexo era a minha vontade escondida no mais recôndito pedaço da minha alma: ser igual. Às vezes eu demorava a dormir de noite, quando admitia a dualidade disso. Querer ser diferente e querer ser igual. Estes dois animais brigavam incessantemente no meu ser, dilacerando-se/me através da noite, arrancando-me lágrimas e gemidos. Ainda não conhecia o amor nem a auto aceitação. Ainda não os conheço completamente.
Passei vários dias ‘apaixonado’ por Camila. Ou seja, observando a leveza de seu andar e sua feminilidade exacerbada. Pensava que um dia poderia leva-la para passear pelos jardins públicos e, de repente, segurar suas pequenas mãos entre as minhas. Neste momento olhava para as minhas próprias mãos e ficava frustrado ao perceber que elas eram pequenas, menores do que as de outros meninos, o que lhes dava uma aparência feminina. E a frustração se intensificava quando eu me pegava fazendo comparações entre o tamanho dos outros rapazes e o meu próprio. Olhava-me no espelho e via um raparigo magrelo, de feições refinadas e olhar frio; sempre via aquele rapaz pequeno e frágil. Então eu começava a reparar em rapazes da minha sala. O Diego tinha um ar de malandro, o qual deixava todas as garotas meio assanhadas por ele, e carregava sempre um sorriso de desdém extremamente atrativo. E então me irritava por estar prestando atenção nele, e voltava meu pensamento para a minha própria imagem.
Uma vez eu estava em uma roda de garotos, o que ainda não me era completamente estranho. Eles conversavam de modo desleixado, lentamente, deixando uma atmosfera densa. Às vezes, enquanto conversava com eles, me imaginava em um filme de traficantes de drogas. Todos os homens sentados ao redor de uma mesa, um cigarro pendendo da boca de alguns deles e uma mesa cheia de cartas e copos de whisky. Mas aquela sensação não era simples de entender. Conservava um pouco de perigo, como se eu tivesse sido carregado para o mundo das trevas extremamente atrativo para a criança Sinclair; além de sensualidade. É. É essa a palavra: sensualidade.
- Então, é normal quando tu ficas mais velho esses pelos começarem a aparecer mesmo. Né, cara? – perguntou, olhando para outro menino que estava na roda.
O outro assentiu, mas naquele instante percebi que era por pura aceitação incondicional dos fatos apontados pelo Diego. É como se ele fosse o líder do bando, o macho alfa. Todos os outros meninos o seguiriam para qualquer lugar e sequer perceberiam essa tendência. E, por mais que tudo aquilo fosse magnético para mim, meu consciente não queria estar ali. O meu lado sofisticado queria estar longe. Meu lado mundano, no entanto, queria ser o líder daquele bando ou subjugado por aquele que fosse mais forte.
Aquelas sensações começavam a borbulhar dentro da minha alma. Uma mistura de atração pelo delicado e diáfano cheiro de Camila e pela pujança natural de Diego. Tudo aquilo chegou a confundir toda a minha organização e comecei a me perguntar se todos eles passavam por tamanha dificuldade também. Mas todos eles pareciam tão cheios de si, tão conforme o que seus instintos os mandavam fazer. Não parecia para mim que poderia haver qualquer confusão dentro deles.
Alguns dias depois que me apercebi em tal situação, um dos professores pediu que fizéssemos um trabalho em dupla. Jamais faria um trabalho com o Diego; já que ele não parecia expor qualquer habilidade para tais atividades. Revistei a sala para verificar se haveria alguém para estar numa dupla comigo, desejando silenciosamente que Camila ainda não tivesse caído nas garras de suas amigas fofoqueiras. Era de mais extrema ingenuidade pensar que, mesmo que ela ainda estivesse livre, ela faria aquela atividade extraclasse comigo. Para o bem de meu ego todas as meninas da sala já tinham se ocupado entre si. Caio, um dos seguidores de Diego, aproximou-se de mim sozinho. Olhei-o meio surpreso com aquilo, pois ele jamais deixava a companhia dos outros meninos a não ser na hora de ir embora da escola. Ele era um rapaz um pouco menor que Diego, mas conservava o mesmo estilo de aparência e imposição que o outro; ainda que fosse, em minha opinião, mais esperto. Perguntou-me sobre o que eu estava jogando, e eu respondi que começara a jogar Resident Evil 4 num Playstation 2 que meu pai recentemente me dera; mas estava mais interessado em cortar a baboseira e saber o que ele queria comigo. Não era nada comum ele ir falar comigo, mesmo na companhia dos outros, e aquilo me parecia muito incomum. Após algumas linhas de conversa sobre games, Caio me convidou para fazer o trabalho com ele. Iríamos nos reunir em sua casa naquele mesmo dia, às três horas da tarde. Deu-me seu endereço anotado e disse que iria me esperar no horário marcado.
Parti inquieto para casa ao fim da aula. Não sabia o que imaginar com aquela mudança repentina no comportamento de Caio. Imaginei diversas vezes que ele estava planejando alguma coisa, mas não conseguia precisar o quê.
Avisei para minha mãe que iria para a casa de um amigo da escola naquele horário e saí de casa um pouco antes do horário marcado. Sua casa não era muito distante da minha e ficava bem perto de nossa escola, sendo que minha mãe me deixou ir sozinho para lá por causa disso. Cheguei a frente à sua casa. Ela era bonita e com um ar aristocrático. O muro da entrada era coberto por trepadeiras e culminavam em uma série de espinhos metálicos na parte superior da estrutura. Um pequeno telhado cobria a parede de concreto que separava o exterior da garagem. Apertei na campainha, curioso para ver a casa por dentro. Em poucos minutos uma senhora me atendeu. Não, não uma senhora. Era uma mulher extremamente bonita, com traços fortes e um tanto quanto masculinizados, de cabelos negros e olhar impositivo. Vestia-se como advogada. Deixou-me entrar e me avisou que o Caio me esperava na sala para fazer o trabalho.
Entrei na casa sentindo-me acanhado. Observava a estrutura da casa com certa curiosidade, mas já não conseguia me atentar completamente a ela. Avistei meu colega de classe sentado no sofá, jogando videogame. Sentei-me ao seu lado e logo recebi um controle pra jogar um pouco com ele. Paramos de jogar depois de uma meia hora e fomos logo fazer nossa atividade. A tarde foi bastante agradável. Ficamos conversando por horas sobre alguns jogos e personagens, e depois ele me acompanhou até em casa com a desculpa de ir até uma pequena loja para comprar refrigerante. A partir deste dia começamos a nos dar bem e ele se tornou o meu primeiro amigo de verdade. Ao menos eu o considerava assim.
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Após algumas semanas comecei a perceber uma movimentação estranha pela sala. O Caio sentava agora logo atrás de mim, tendo se mudado para ali apenas alguns dias depois de fazermos aquele antigo trabalho. Passara todo esse tempo absorto em sua companha, envolvido pelo seu sorriso e conversa mansa sobre nossos gostos em comum. Raramente olhava agora na direção da menina por quem um dia eu alimentara uma pequena paixão platônica, tampouco na direção de Diego, quem eu tanto admirara semanas antes. Mal percebera que este último agora estava mais arredio com algumas pessoas da sala, inclusive comigo.
Numa terça-feira, logo no começo da aula, eu já estava ansioso pela chegada do Caio. Passara de uma fase bastante difícil na noite anterior e queria dividir tudo com ele. Fiquei observando a porta da sala, vendo todo mundo da sala entrar um após o outro, até a chegada da professora de matemática. Franzi o cenho, curioso e preocupado. Fiquei imaginando motivos para ele não ter ido à aula, mas nada de plausível me vinha à cabeça. Na chegada do segundo período, quando os retardatários poderiam entrar na sala, a mesma ansiedade surgiu em mim; mas ninguém além de uma das amigas de Camila entrou na sala. Iria à sua casa logo depois da escola para verificar se ele estava bem. Em pouco tempo o intervalo chegou e eu decidi ficar na sala. Conservava o hábito de andar por ela quando estava vazia para poder pensar nos livros que lia e imaginar diferentes finais ou ações dos personagens. Nem percebi quando Diego entrou na sala e ficou me observando de modo sorrateiro.
Quando olhei na direção da porta me surpreendi com sua presença. Ele me observava com o típico sorriso maroto. Fazia algum tempo que eu não parava para lhe observar. Ele estava bem vestido como sempre e seu cabelo arrumado num perfil coincidentemente desleixado. Um dândi. Murmurei um ‘oi’ um tanto encabulado, achando que ele havia entrado apenas para pegar algum dinheiro para seu lanche ou algo do gênero. No entanto, Diego foi se aproximando de mim como um caçador; e eu recuando para a parede, assustado com o que ele poderia fazer comigo. Encostou-me à parede, seus braços postados de cada um dos meus lados, impedindo que eu me movimentasse com fluidez.
- Queria saber por que às vezes você é assim meio metido... – falou, olhando-me diretamente aos olhos.
Uma confusão de sentimentos começava a me devastar. O primeiro deles foi medo por estar sozinho numa sala escura, encurralado por um cara maior do que eu. O segundo foi vergonha por estar sendo enfrentando tão diretamente e não ter força física nem mental para rechaçar aquele ataque como um dos personagens de meus jogos e livros. O terceiro: excitação. Ainda não sabia discernir o que era aquilo, aquele aumento no número de batimentos cardíacos e aquele nervosismo exacerbado. Fiquei confuso com seu perfume invadindo-me os poros e me deixando encantado. Senti uma pressão conhecida na minha região pélvica, mas preferi ignorar aquela sensação. Mandei ele me deixar em paz, mas ele continuou ali à minha frente, sorrindo obsedante.
O alarme que sinalizava o término do intervalo entre aulas soou. Diego se afastou de mim, ainda olhando diretamente nos meus olhos. Acendeu a luz da sala e me deixou ali, estático e extático.
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Dias se passaram e não conseguia esquecer o que acontecera naquele intervalo de apenas quinze minutos. Seu perfume ainda estava tão real para mim quanto naquele instante. O nervosismo ainda crescia forte e pungente dentro de mim só de pensar naquela cena. Parecia-me uma cena de um filme. Passei várias noites pensando e pensando. Em uma noite cheguei à única conclusão que não machucaria meu ego: ele gostava de me perturbar. Era o mais simples e eu deveria dormir com isso. Todas aquelas minhas outras sensações deveriam ser esquecidas e eu jamais poderia pensar nele de outra forma. Tive um sono inquieto. Sonhei que estava num passeio com meus pais, e quando olhei para o lado eles não eram mais os mesmos. Agora andava de mãos dadas com Camila e Diego. Os dois se aproximavam de mim e começavam a me tocar indecentemente, descendo suas mãos até minhas pernas de criança. Acordei exaltado, aquela cena ainda em minha cabeça e os efeitos visíveis no meu sexo.
Precisava contar do que acontecera com o Diego para alguém para ter alguma certeza de que aquilo nada significava. Meu único amigo era o Caio, mas não sabia se deveria contar para ele este tipo de coisa. Por fim, resolvi que deveria lhe contar de uma maneira que deixasse evidente minha irritação com o acontecido, para então ver sua reação. Falei com ele na escola sobre ir à sua casa durante de tarde para conversarmos. Ele bateu de ombros e disse que pediria para a mãe comprar uma pizza no supermercado para lancharmos. Saí nervoso da escola pela conversa que viria. Almocei apressadamente e fui jogar Naruto para esperar o tempo passar.
Cheguei a sua casa um pouco depois das 14 horas. Passamos direto para o seu quarto e eu murmurei um rápido bom dia para sua mãe, que estava conversando com alguém ao celular. Nos trancamos em seu quarto, como de hábito, mas sem nenhum motivo em especial. Agora eu já estava acostumado com seu quarto. Um beliche ficava em um dos cantos, sendo que a cama de baixo era lotada de CDs e quadrinhos de super-heróis. Subimos para a cama de cima com alguns dos quadrinhos logo depois de ele colocar Aerosmith para tocar em seu laptop. Mostrou-me algumas das novas aventuras dos Vingadores, até que eu reuni coragem para entrar no assunto que eu realmente queria abordar.
Contei-lhe com detalhes sobre como o Diego me abordara dias antes, e de como eu tinha ficado irritado com aquilo. A tensão subiu em mim e comecei a respirar mais rapidamente, esperando que ele respondesse alguma coisa. Caio ficou parado por mais de dois minutos, parecendo entretido com alguma coisa em sua revista. Eu fiquei lhe observando, nervoso. Ele levantou a cabeça lentamente, como o slow motion dos filmes do Zack Snyder, e me encarou. A tensão entre nós cresceu conscientemente e se tornou palpável. Ele se aproximou e me deu o primeiro beijo na boca, deixando-me completamente sem reações. Não sabia o que fazer a partir dali e não correspondi da forma que ele esperava, tanto que ele se afastou. Desculpou-se e pediu para que eu fosse embora. Guiado por ele eu voltei para minha casa.
Aquele beijo despertou um fogo dentro de mim. Cada célula minha clamava por uma segunda experiência, e então por uma terceira e por uma quarta; assim infindavelmente. Passei o dia pensando em como seria se tivesse correspondido como já tinha visto nos filmes e novelas. De noite, deitado em minha cama, aquele fogo voltou a se expandir em mim. Cada parte do meu corpo se sentia extasiado com a lembrança do primeiro beijo, sobrepujando completamente o delicado em Camila e o charme de Diego. Pela primeira vez eu descobri o prazer de me tocar. Sentia cada parte do meu corpo explodindo como mil fogos de artifício a cada toque das minhas mãos; e logo percebi o quanto o meu sexo necessitava ser tocado também. Minha mão esquerda descobria cada local sensível do meu corpo, e minha mão direita se movia lentamente envolvendo meu pênis. Aquele prazer culminou em pouco mais de um par de minutos num jato de prazer e êxtase. Por um momento me desesperei com aquilo que me estava acontecendo, com a mente nublada e querendo saber o que estava sentindo. Logo aquilo passou, deixando ainda alguns arrepios frenéticos após o ponto máximo.
Dormi num misto de culpa e felicidade pela minha autodescoberta.
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Não sei bem o que mudou em mim desde aquela noite. Comecei a me sentir um homem, não mais uma criança ingênua. Comecei a invadir o espaço de Diego, como se a desafiá-lo; mas ele não voltou a me atacar tão diretamente como daquela vez, ainda que eu desejasse que acontecesse novamente. Caio parou de falar comigo, ainda que eu tentasse constantemente que ele correspondesse ao meu afeto. Camila foi esquecida por todo aquele período. Pensar nela não me dava aquele prazer recém-descoberto, então se tornou pouco importante para mim. Acabei por ir deixando de lado a birra de Caio comigo, já que um pequeno problema em casa me aparecera.
Estávamos morando os últimos anos em uma casa relativamente pequena, e meus pais queriam uma casa maior. Haviam encontrado uma um pouco distante da escola, com piscina e uma grande área ao redor da casa onde eu poderia brincar e correr. Uma noite meu pai chegou com a grande novidade de que tinha fechado um bom negócio pela casa e que agora teríamos uma piscina e eu poderia finalmente ter meu cachorro. De onde ele tirou a ideia de que eu queria um cachorro eu não sei, mas a piscina me pareceu interessante. Em poucos dias me acostumei com a ideia de me mudar. A única coisa próxima dali que me prendia era o Caio, mas a mãe dele poderia levar ele para me visitar assim que ele resolvesse voltar a falar comigo.
Em pouco menos de um mês já estávamos na casa nova. Passei os primeiros dias me divertindo sozinho na piscina durante quase toda à tarde, pensando em reinos distantes e imaginando outras coisas fantásticas. De noite eu estudava, jogava e lia; e um pouco antes de dormir me rendia aos meus prazeres animalescos. Agora já estava acostumado a me tocar, e descobrira um canal na minha televisão que auxiliava minha imaginação. Ainda que fosse bom, não era o suficiente.
Alguns dias depois eu saí para comprar refrigerante, e na volta eu observei um rapaz meio magricela em frente de uma casa quase em frente à minha. Seus cabelos eram bem negros e em formato de cuia, seu rosto arredondado, quase feminino, e seus traços orientais. Ele tomava banho com uma mangueira que saía de sua casa e eventualmente jogava água num carro. Quando passei ele desviou o jato de água em minha direção, sorrindo feliz. Não chegou a me acertar. Eu sorri de volta, desconcertado, mas receptivo ao óbvio convite. Corri para casa, deixei o refrigerante em cima da mesa da cozinha e voltei para brincar com o menino que ainda nem sabia o nome. Passamos toda aquela tarde quente brincando, uma parte em frente de sua casa e logo depois na minha piscina. Isso se tornou um hábito.
Nos dias seguintes começamos a jogar todo o tipo de jogo de videogame, até que descobrimos um jogo que nos deixava animados em demasia: o bom e velho Mortal Kombat. Jogávamos em meu computador com dois controles de cabo USB, e depois brincávamos de luta na água. Nossas lutas eram sempre entre Shao Tsung (eu) e Kung Lao (ele). Ficávamos nos empurrando, dando socos e chutes, espirrando água no outro e... nos segurando firmemente um de encontro ao corpo do outro. A princípio eu não percebi qualquer conotação sexual naquilo, mas em uma de nossas brigas para salvar o mundo ou dominá-lo eu senti seu sexo rijo encostando-se a mim. O meu ganhou virilidade na mesma hora, e continuamos nossa intensa briga na água.
Dias se passaram e nossas brincadeiras continuavam daquela mesma forma. Ninguém parecia querer tomar o próximo passo. Um dia corríamos ao redor da casa, ainda entre seus muros. Brincávamos de pique-esconde, e logo o encontrei atrás da porta da Lavanderia, bem ao fundo da casa. Cheguei sorrindo e fui avançando para ele. Não sei que ímpeto me deu, mas lhe beijei com todo o vigor que me foi possível. Começamos a esfregar nossos sexos, o que nos arrancava gemidos de prazer, enquanto nossas línguas se envolviam num frenesi encantador. Pique-esconde se tornou uma brincadeira constante em nossa vida, e eu sempre o encontrava atrás de cortinas, debaixo de camas ou em algum lugar desabitado da casa.
Algumas semanas depois Caio voltou a falar comigo, como se nada tivesse acontecido em primeiro lugar. Sentou-se na minha frente, como nos velhos tempos. Perguntou-me se estava jogando alguma coisa interessante e como era a minha nova casa. Perguntei-lhe de volta:
- Gostas de Pique-Esconde?