sábado, 14 de janeiro de 2012

A Professora de Francês

Finalmente a sorte estava me acompanhando, ajudando em meus pequenos devaneios de uma jovem de classe média. Havia conseguido meu diploma há três anos – em Licenciatura em Letras (Língua Francesa) – e infelizmente ainda não tinha conseguido um trabalho na área, ao menos até duas semanas atrás. Passara bastante tempo estagiando em alguns locais como auxiliar e monitora, mas nunca com algum reconhecimento por aquilo que eu sabia, ainda que fosse pouco. Porém, um telefonema trouxera alguma felicidade. Uma Escola de Línguas havia gostado do meu currículo, que, apesar de conter pouca prática em sala de aula, apresentava alguns trabalhos de cunho científico sobre diferenças estilísticas na tradução de livros francófonos no Brasil. Os dias seguintes ao telefonema foram seguidos de pequenas reuniões felizes, como um jantar em casa para comemorar o novo trabalho e um encontro em uma pizzaria qualquer do subúrbio com meus amigos mais chegados, todos eles do antigo curso de graduação que juntos fizemos.

Alguns deles haviam permanecido em carreira acadêmica com mais afinco do que eu, tendo partido direto para o mestrado acadêmico. Outros já haviam arranjado emprego em alguma escola da cidade, tendo sido eu aquela que levou mais tempo para dar um rumo à própria vida. Por várias vezes me perguntava sobre a demora a acontecer algo de certo em minha vida. E tudo aconteceu a partir daquela admissão.

Na pizzaria eu conheci Leonardo. Um de meus amigos havia o levado para a nossa pequena comemoração. No começo se sentiu deslocado, como qualquer desconhecido num grupo que lhe é estranho. Mas aos poucos passou a se enturmar com todos os presentes, arriscando-se até a fazer uma ou duas piadas. Durante a noite descobrimos que ainda estava na graduação, mas se formaria em um ano. Ademais, o rapaz compartilhava alguns gostos musicais em comum comigo. Nossa conversa floresceu pelo mais delicado caminho. Deixei o lugar sorrindo, sentindo aquela tão suave dor da despedida que nos preenche o corpo com uma sensação mista de prazer pungente. Achava naquele instante que nunca voltaria a lhe ver.

Alguns dias se passaram sem que eu tivesse notícias dele e por isso aquele pequeno broto de felicidade quase caiu no esquecimento. Mas quando entrei no facebook vi seu convite. A pequena sensação que tive quando o conheci ressurgiu, dessa vez acompanhada de nervosismo. Nunca fui adepta de romances ao estilo Jane Austen, não que haja algum problema com algum de seus livros ou com os filmes baseados em suas obras (gosto da maioria, por sinal), mas jamais havia imaginado algo assim ocorrendo na realidade. Mas as noites que se seguiram ao seu convite foram encantadoras. Passávamos horas conversando no MSN durante os primeiros dias, às vezes com as webcans ligadas para podermos ver nossos sorrisos. Falávamos de tudo que nos era aprazível e começamos a assistir a uma série de comédia, sincronizados. Em um dos dias ele comentou sobre o meu sorriso de princesa e então lhe perguntei qual delas eu seria. Ele disse que nenhuma. Que eu era eu, sua princesa. Por um momento não acreditei que estava caindo naquela cantada. Não houve mais como adiar nosso encontro.

A leveza de nosso caminhar juntos me era impressionante. Ambos passamos bastante tempo com medo de iniciar, talvez com receio de esgotar tudo o que passaríamos. Mas já começava a sentir como se minha vida tivesse se iniciando. Nada pertencente ao domínio do passado importava mais, pois tudo começaria com ele. Caminhamos por uma praça por algum tempo, observando todos os pequenos e grandes animais que estavam por perto. O sol nos afetava com a leveza de um domingo pela manhã, junto com o melodioso canto das aves canoras que eventualmente voejavam dum galho para o outro. A paisagem só intensificava aquele romance quase infantil. Após vários minutos, finalmente nossas mãos atreveram a se tocar. Um singelo sorriso surgiu em nossos rostos, na mais delicada felicidade. O toque de sua mão era suave e sua pele acetinada. Apertei com mais força sua mão, esperando que nunca mais tivesse que me afastar. Repentinamente, Leonardo prostrou-se à minha frente e me abraçou. Mais alto que eu, encontrei-me diretamente com seu peito, podendo sentir assim seus batimentos cardíacos acelerados; além do forte cheiro de seu perfume e o calor através de sua camisa. Percebi que ele sentia meu perfume e era arrebatado por tal. Passamos vários minutos quietos, apenas aproveitando aquele momento singular, eterno, sublime. As pessoas continuavam andando pela praça, ultrapassando-nos, mas não nos afastávamos; nem queríamos. O primeiro dos beijos veio logo em seguida, desajeitado, acostumando-se lentamente à velocidade e intensidade que é propriedade do outro.

Sairmos juntos se tornou rotina. Tínhamos que nos ver todos os dias da semana, nem que fosse por apenas alguns minutos, apenas para nos abraçarmos. Não queria mais sair com meus amigos e familiares, pois preferia dedicar todo o meu tempo livre para ele, àquela relação que nascia de modo tão especial, tal qual uma flor em pleno inverno. Ele me ouvia atentamente, como uma criança obediente sendo guiada pelo adulto, e eu lhe falava sobre minha vida e tudo o que tinha vivido (ainda que não fosse muito). Ele, extremamente inexperiente e contido, não conseguiu dar os passos seguintes. Aos poucos comecei a sentir necessidade de ter uma relação mais carnal, ainda que nossa fragilidade juntos me apetecesse na maior parte do tempo. Como ele não me procurava, tive que procurar-lhe.

Num dos dias, deitados em uma cama de solteiro enquanto víamos algum filme de comédia romântica, minha mão pairava sobre seu peito. Ele ainda conservava a camisa, isto por ter vergonha de mostrar seu corpo até para mim. Na verdade, eu não entendia sua vergonha de si mesmo, pois era um dos homens mais bonitos que eu já vira. Seus cachinhos loiros combinavam perfeitamente com seus olhos claros e argutos, ainda mais combinados com óculos que lhe davam permanentemente um ar intelectual; seu nariz era delicado, diferente dos narizes da maioria dos meninos, assim como seus lábios. Gostava de observar seu rosto, muito, mas às vezes me pegava passeando pelo resto de seu corpo. Descia-lhe pelo pescoço, passando para seu tronco. Ele não costumava praticar exercícios, mas fizera natação em grande parte de sua adolescência, o que lhe dava largos ombros; e sua barriga mostrava naturalmente alguns músculos, algo com sua genética, eu suspeitava. Suas pernas eram grossas, como daqueles homens que caminham há anos, com pelos nem tão escassos nem tão abundantes. Apesar de gostar de tudo que havia nele, meu olhar eventualmente recaia entre suas pernas. Estava curiosa, admito.

Observava-o atentamente, concentrada em cada um de seus traços quase imperceptíveis. Passei a ver a penugem em seu rosto, delicada, além de alguns pequenos sinais perto de seu pescoço. Meus dedos escorriam lentamente por sua tez, sentindo com intensidade magnífica seus detalhes; e logo tomaram o caminho de seu pescoço e peito, dirigindo-se à concentração de todo meu desejo. A tensão surgiu entre nós. Percebi que ele já não olhava para a televisão, e sim para mim. Fiquei com receio de continuar em minha empreitada, mas ainda assim o fiz. Sem distanciar nossas peles por um único segundo, tomei em minha mão seu sexo rijo. As carícias foram delicadas, femininas, e mesmo no auge de sua intensidade mantiveram tal característica. Alguns minutos depois ouvi seu gemido abafado. Ofegantes, permaneci intocada.

O dia seguinte a este nosso encontro foi conturbado. O arroubo que me acometera no início de nossos dias desapareceu por várias e várias horas, perguntando-me o que tinha acontecido na tarde anterior. Ele não me tocara, e não parecia querer fazê-lo. Estava indignada, olhando-me no espelho a todo instante, imaginando censuras por alguma parte do meu corpo que não deveria estar como estava. Talvez não fosse vista como mulher e sim como mais velha, mais experiente, mãe. O dia teria me sido completamente desagradável se não fosse algumas releituras interessantes. Gostaria de lhe ver.

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Neste meio tempo, meu trabalho na Escola de Línguas iniciou. Já havia ido ao local umas duas vezes para assinar meu contrato e conhecer a sala de aula na qual eu lecionaria. Ainda assim, o primeiro dia em que fui ministrar uma aula foi singular e merece um pouco de atenção. Era um sábado daqueles bem comuns, com um sol forte e um trânsito mais ameno do que aqueles dos dias da semana. Estava um pouco sonolenta, já que passara a noite conversando com Leonardo por celular, trocando carinhos e contando sobre nosso dia. Estacionei bem em frente da escola e vi alguns alunos entrando no lugar. Havia um contingente bem grande de adolescentes e jovens um pouco mais novos que eu. Apesar de já ter tido a experiência, seria estranho começar a lecionar para pessoas quase da minha idade.

Entrei no estabelecimento com uma roupa meio descolada, e logo percebi meu erro. Vi alguns professores andando pelo Salão de Entrada com roupas extremamente formais, algo que eu não esperava. Vários alunos estavam sentados em alguns sofás ao fundo do Salão, conversando alegremente. O nervosismo aumentou. Fui até a recepção e pedi meu crachá de professora, o qual não havia sido pego anteriormente. Um homem, José Carneiro, professor de Espanhol, estava ao meu lado e me encarava com feições pouco receptivas. Senti certa aversão a ele desde aquele instante. Sua roupa formal contrastava com sua barba volumosa e seus cabelos desgrenhados e seu olhar selvagem. Apertei em minha mão o crachá entregue pela recepcionista, murmurei um “bom dia” inaudível e segui para a sala de aula. Preferi não olhar para trás.

A aula transcorreu normalmente. Gostei de todos os meus alunos e logo comecei a estabelecer algumas ligações com alguns deles através de nossos hobbies. Ao final da aula passei meu facebook e disse que eles poderiam me adicionar caso tivessem alguma dúvida ou quisessem dicas de leituras em francês. Um rapaz de uns 16 anos se aproximou de mim, com um sorriso maroto, perguntando sobre literatura francesa. Não me pareceu realmente interessado no assunto enquanto eu falava. Ao final do assunto, disse que precisava me apressar para ver meu namorado e me despedi. O menino possuía pele alva e com algumas sardas no rosto e certamente era atraente para as de sua idade. Lembrei-me de Notes on a Scandal (2006), e do diálogo entre Sheba Hart e seu aluno de quinze anos.

“You don’t know how beautiful you are, miss.”

Ao sair da escola, deparei-me novamente com o professor de espanhol que vira antes. Ele conversava com uma moça que eu reconhecia como uma das professoras de língua francesa. Enquanto andava em direção à porta, percebi que seu olhar me seguia. Durante aqueles segundos fui encarada tal qual um animal a ser caçado enquanto minha irritação palpitava. Indefesa. Inerme.

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Leonardo me esperava em sua casa. Cheguei alguns minutos depois da hora do almoço. Abriu a porta cantarolando alguma música que não reconheci. Sorriu e disse que o almoço já estava quase pronto. Ele não cozinhava muito bem, mas ainda assim tudo parecia muito bom quando cheguei à cozinha. Ajudei-o a terminar a sobremesa, sempre nos divertindo como enamorados de um filme romântico. A alegria fluía entre nós e tornava tudo ao nosso redor de uma beleza incomensurável. Almoçamos com o mesmo espírito de felicidade incontida e em instantes já estávamos no quarto, beijando-nos ternamente e conversando sobre quaisquer coisas. Lembrei-me do que acontecera na sala de aula mais cedo e lhe contei.

Sua reação foi inesperada. Pareceu retraído, acuado, provavelmente perdido em algum lugar em seu passado que lhe induzia a me desacreditar em parte; como se eu tivesse algum envolvimento maior do que o relatado. Abracei-o e lhe disse o quanto gostava dele, que ninguém poderia interferir nisso. Começamos a nos beijar e senti o gosto salgado de lágrimas, mas isto apenas ajudou a intensificar o nosso ato. Sentia sua boca, quente, em meu pescoço, arrancando-me suspiros. Suas mãos estavam mais violentas do que normalmente o eram, e arrancaram minha blusa com certo desespero. Eu lhe atacava com mais ânsia e já abria os botões de seu jeans. Envolvíamo-nos mais a cada instante, como nunca havia antes acontecido, e o ardente despertava em nossa vida. Tomei o controle por completo, deitando-o na cama e me levantando. Gostei do seu olhar, desesperado e confuso pelo meu afastar súbito. Sorri.

Manipular a situação despertara algo em mim. Tirei o resto de minha roupa, lentamente, observando seus pequenos movimentos contidos com todo o esforço. Passei as mãos em meu corpo enquanto me olhava no espelho, observando agora o quão voluptuoso ele era. Voltei para a cama, nosso calor se misturando numa sensação de êxtase contínua. Ávidos, beijamo-nos enquanto levava sua mão ao meu clitóris. Tocamo-nos por vários minutos, concentrados naquele prazer infinito. Aos poucos fomos experimentando novas ações e eu senti seu gosto em minha boca, e ele o meu. Nossos pudores iam abandonando o recinto e logo estávamos encaixados, num transe sublime e indecente. Horas se passaram e nossos corpos estavam exaustos e nossas mentes satisfeitas.

Desta forma, muitas de nossas noites perduraram. Mas, invariavelmente, eu era a pessoa que iniciava nossos rituais e os conduzia, como uma sacerdotisa pagã. Por noites desvendamos os mistérios dos prazeres do outro, em tentativas bem-sucedidas ou frustradas de oferecer e arrecadar mais e mais prazer carnal. Tentamos inúmeras posições, tempos, locais da casa; mas, em tudo isso, sempre esteve presente algo de uma natureza muito contida, que talvez emanasse de Leonardo. Neste período que revelamos aquela fome sexual em nós, nada mais no mundo me parecia real e poucas lembranças estão guardadas sobre o que aconteceu ao nosso redor, inclusive de todas as aulas que ministrei nesse período.

Após este período anuviado, tornei-me ciente de que a iniciativa que me pertencia tornava-se lentamente um empecilho para o meu prazer. Ele era um cavalheiro e jamais poderia me dominar por completo. Aos poucos essa sensação foi crescendo e me levando a ter que vagar no campo onírico para me satisfazer, sozinha. Evitei encontros com Leonardo e me afundei em ilusões eróticas nas quais tomava como personagem principal homens rústicos, os quais me seguravam pelo cabelo e rasgavam minha roupa à força bruta. Algumas vezes eu alcançava o êxtase com alguns aparelhos que comprei num sex shop e depois partia para encontrar o Leonardo, deitava-me em sua cama e era tomada da mesma maneira que já nos era quase cotidiana. O tédio me alcançara e eu gostaria de fugir, desesperadamente.

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Enquanto o tédio me consumia, continuei a trabalhar na escola de francês. Durante o período que permaneci encantada por aquilo que meu namorado me oferecia, nada mais via na escola ou fora dela. O meu pequeno galanteador havia desistido de sua empreitada, ou eu apenas não o percebia mais. Quando o cotidiano começou a me afetar mais fortemente, meus olhos voltaram a se abrir. Os pequenos encantos adolescentes voltaram a surgir diante mim, em especial o de um Adônis de uma de minhas turmas. De pele alva, porte grande, porém ainda de expressão jovial e sorriso galante; extremamente atraente. Falava comigo eventualmente, e seu sorriso adolescente me afetava de alguma forma incompreensível. Algumas vezes me peguei observando suas pernas e suas curvas masculinas, principalmente enquanto ele subia as escadas logo a minha frente. Gostaria de lhe cuidar, mas sabia que isto estava fora de questão. Além do mais, já tinha outra criança quando saía de lá.

Já se aproximava o final do semestre e os alunos já estavam preocupados com suas notas, portanto já começavam a entregar os trabalhos extraclasses com uma frequência maior do que durante o resto do semestre. Percebi isso quando encontrei sobre minha mesa um grande monte de trabalhos das poucas turmas nas quais lecionava. Pensei por um momento minhas opções enquanto apreciava a vermelhidão do final de tarde que invadia a ampla sala dos professores. Ou eu ficava sozinha ali para corrigir as numerosas atividades cheias de erros gramaticais, ou voltaria para meu desespero tácito sob os lençóis de Leonardo. Decidi por ficar lendo as atividades e ligar depois de alguns minutos para lhe avisar que teria que ficar trabalhando.

De uma tomada de fôlego, enquanto anoitecia, corrigi quase metade das atividades que estavam empilhadas. Sentindo minhas costas doerem e minhas pernas começaram a sentir o efeito de ficar parada por tempo demais, resolvi levantar e dar uma volta pelo ambiente que, a este momento, deveria estar inabitado. Deixei minhas pernas me guiarem pela penumbra que me envolvia, observando pequenos detalhes que nunca antes atentara. Algumas manchas nas paredes, teias de aranhas em cantos e quadros no Salão de Entrada. Enquanto fazia minha caminhada, ouvi um barulho vindo de uma das salas no andar superior. Um pequeno medo infantil surgiu e imaginei várias possibilidades sobre estar presa num filme de terror com o Jason ou com espíritos de prisioneiros presos naquelas terras por cem ou duzentos anos. Engoli em seco, mas ainda assim decidi subir para verificar de onde vinham os ruídos. Fiz minha derradeira caminhada numa lentidão absurda, admitindo todos os cuidados possíveis para não fazer qualquer barulho que denunciasse minha presença. Identifiquei de onde vinham os contínuos e frequentes barulhos, ainda não os associando com nada que conhecia; eram como um gemido abafado. Cheguei à porta correta e empurrei-a lentamente. Estagnada permaneci por uns 15 segundos com a cena que presenciava. José, aquele professor de espanhol, segurava com força uma miúda moça que trabalhava na secretaria durante o período da tarde. Forçava-a em direção da parede e ela reprimia gemidos enquanto era invadida com voracidade pelo professor de espanhol. Por um momento meu olhar se encontrou com o dele e percebi que ele sorria para mim. Afastei-me num choque de emoções.

Caminhei estonteada de volta à sala dos professores, descendo a escada apoiada no corrimão. O asco que matinha daquele homem agora se confundia com um desejo reprimido de ser aquela pequena loira de aspecto infantil, de ter meus cabelos puxados e de ser invadida com sua pujança masculina. Cheguei à sala dos professores ofegante e me amparei na parede. Lembrei-me do cheiro que a sala exalava e da visão dos suores e êxtase de seus ocupantes. O calor começou a me envolver e logo sobrepujou por completo o nojo que antes dominava. Meu coração, acelerado, expandia meu sangue para regiões que voltavam a adormecer em minhas relações sexuais com meu dócil namorado; vibrei quando deslizei minha mão, suavemente, por meus seios, causando-lhes um ardor conhecido. Tranquei a porta ao meu lado e deixei-me cair lentamente sobre o chão, empurrando minha mão para o meu sexo que clamava por algum toque que lhe sentisse úmido. Em espasmos repetidos contive aquele desejo por algum tempo, o suficiente para sair dali. Corri para minha casa e mergulhei naqueles desejos oceânicos, mistos de ódio e prazer.

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Os encontros com Leonardo se tornaram bem menos frequentes, e minha vontade de tê-los diminuía drasticamente. Por duas semanas evitei qualquer contato direto com o professor Carneiro, desviando de seus sorrisos mal intencionados e de seu constante motejo infantil. Em um dia, esfaimada por adentrar ainda mais neste irrefreável mar de prazer, decidi entrar no jogo. Trouxe a mim uma personalidade literária forte e ascética, a qual realmente não fazia parte de mim, tal qual June, dos diários eróticos do intricado jogo real e fictício de Anaïs Nin.

Num final de tarde de sábado, permaneci na escola quando todos já se retiravam para suas inocentes residências para se achar em seu constante modo de viver da mais pura comodidade. Ainda não vira José ali, mas sabia que logo ele entraria na sala para pegar seus livros e partir também. Andava de um lado para o outro, ansiosa. No reflexo de um dos vidros vi uma mulher diferente da habitual, tão distante daquela que entrara como uma menina recém-saída da universidade. Tal mulher era (ou estava) sofisticada, com suas curvas delineadas desenhando um atrativo incontestável para os machos da espécie. Sorri diante a imagem, orgulhosa. Esperei.

Percebi que alguém entrara na sala e logo me voltei à porta com um sorriso. Encarei-o, sem vacilar na coragem daquele personagem que interpretava. Ele se aproximou num impaciente vendaval de volúpia, irrefreável, e tomou-me em seus braços sem esperar resposta. Sua língua invadia minha boca e seu forte cheiro entorpecente me deixou zonza instantaneamente. Mal meu corpo respondia às suas carícias trovejantes, suas mãos já estavam apertando outros lugares, causando-me uma mistura de sensações físicas, todas confusas. Em poucos instantes eu estava jogada sobre a mesa dos professores e ele me cobria num sôfrego desejo animalesco. No desespero que me atingiu, arranhava suas costas e me forçava de encontro ao seu corpo. E desta forma conheci o mais vibrante encontro das potentes águas dos rios com o mar, agitado e corrente, infringindo-me um grito sobre-humano de êxtase por anos contido. Desfaleci sobre a mesa, nossos desejos findados por um breve instante.

2 comentários:

Luna disse...

Amei @.@
Delicado, com suaves toques surreais, típicos da mente de um professor de literatura. Apaixonante!
O final com gostinho e quero mais...Eu sei que contos tem finais no clímax, mas não gosto muito disso... Deve ser por isso que prefiro romances a contos
hausahsuahusha

psycho dude ☢ disse...

Nossa Bruno, otimo conto *-* super wild ahduadhadu divo

 
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