Páginas retiradas do diário de Amélia Cavaleiro
Belém, dez de Setembro de mil oitocentos e oitenta e dois
O palacete no qual Anita residia com seu cônjuge era grandioso e elegante. Perfeitamente condizente com a natureza fina do casal. Senti-me intimidada diante de tanto luxo e ordem. Condenei-me como senhora do lar, intimamente. Anita recebeu-me trajando um belo modelito moderno, simples e sem os babados habituais dos vestidos de hoje em dia. Ainda pensava em minha manhã ao chegar ali. Fora uma manhã fantástica aquela! Eu havia descido para meu costumeiro passeio pelos jardins de nossa casa, preparando-me para o encontro de após com Anita e seu alfaiate. Marieta, minha aia mais estimada, acompanhava-me por entre os arbustos e pequenas árvores que se estendiam por todo o trajeto. Foi Marieta em si que me deu uma manhã magnífica, diga-se de passagem. Enquanto percorríamos o caminho habitual de meu passeio matutino, Marieta distraiu-se com um coelho branco que tentava esconder-se por entre a grama baixa que cercava as maiores árvores. Observei por consequência o animalzinho que possivelmente fugira da coelheira. Joaquim teria descarregado sua raiva no primeiro escravo que estivesse por perto, o que acabaria sobrando para a pobre Marieta. Ai dela! Eu não gostaria que saísse prejudicada, levando em consideração que sabia não possuir culpa pela fuga do coelho travesso. Ela passara a manhã inteira em minha companhia, e não teria como dar conta de tudo. Decidi que ajudaria Marieta. Agora a pobre aia me espiava pelo "rabo do olho" quase suplicante. Joaquim talvez amasse mais aqueles coelhos do que a mim. Não... Não devo mencionar isso nem de brincadeira. O caso era: precisava restituir o coelho para a coelheira, isso antes que Joaquim descobrisse que havia escapado para os jardins. Marieta também sabia disso e quando busquei seu olhar a fim de fazê-la compreender a gravidade da situação, ela retribuiu com cumplicidade. Passamos então as duas a caçar o coelho pelo jardim. O danado parecia ter sabão no pelo, de modo que sempre que quase o capturávamos, ele fugia pra mais distante ainda. Ríamos, as duas. Permiti que ela risse e se divertisse mediante a situação perigosa. Divertimo-nos juntas, eu e Marieta. A jovem aia é uma mulata bem formada, com cachos longos e negríssimos. A pele é demasiadamente mais alva do que a da maioria dos negros de nossa propriedade. Uma bela escrava. Devo vigiar para que Joaquim não se perca pelo meio do caminho. Capturamos o coelho no final das contas, e o devolvemos para a coelheira. Eu ainda ria de suas escapadas espertas. Fui alimentar-me e aprontar-me para a ida à casa de minha amiga.
De volta ao encontro com Anita. Após a recepção calorosa de minha anfitriã, seguimos para a sala onde o alfaiate nos aguardava, acompanhado pelas damas de companhia de Anita. A tarde seguiu-se agradável, entre diálogos envolvendo a Europa, a moda de lá e as novas tendências futuras. Trocamos algumas peças com ajuda das moças de Anita, demos uma pausa e após tomarmos um chá, retornamos ao alfaiate. O assunto fluía bem, e olhávamos nos olhos uma da outra o tempo todo. Eu sabia que a afinidade que sentia por ela era recíproca. Anita anunciou então que experimentaria a última peça. A mais bela que lhe fora exibida, feita sob medida por seu alfaiate para ela. Estranhei ela ter dispensado as moças, mas aguardei a conclusão de seu raciocínio. Anita despiu-se até as peças íntimas, e o ar ficou denso, pesado, difícil de aspirar. O alfaiate aguardava do lado de fora da sala, e os raios de sol começavam a abandonar o céu. Amélia... Ela começou dizendo. Será que tu poderias me ajudar com o espartilho? Senti certo frio na espinha, e levantei-me lentamente. Caminhei em silêncio absoluto até ela, e postei-me atrás de seu corpo despido, para só então responder: Claro. O espartilho cobriu seu busto, e passei a amarrá-lo delicadamente. Minha mão roçava na pele de sua costa, de propósito ou não. Eu não saberia dizer. Ela movia-se lentamente, e respirava forte quando isso acontecia, permitindo-me perceber o que se passava. Após organizar as fitas da peça, passei a prendê-las com força, para que ficassem firmes como deveriam ser. A cada novo nó, Anita arqueava a coluna e seus poros salientavam-se por sobre a pele alvíssima. Quando terminei de amarrar suas vestes, o que demorou bem mais do que deveria, o alfaiate já batia na porta perguntando se precisávamos de ajuda. Não poderia precisar o tempo que passamos ali. Posso alegar que vivemos um momento ímpar, e eu e Anita sabemos disso. Ela comprou o vestido.
Já era chegada a hora do jantar, então precisei despedir-me de Anita e do alfaiate, e apressar-me para que Joaquim não se aborrecesse. Dei meu endereço para o alfaiate, afim de que enviasse as minhas contas para Joaquim. O cocheiro guiou-me até nossa residência, e no caminho tive a impressão de ver novamente aquela carruagem que seguiu-nos na noite do Theatro. Desfiz-me da preocupação dessa vez. Agora, repasso infinitamente em meus pensamentos o dia de hoje. Boa noite.
1 comentários:
Ual! Adorei toda essa coisa de vestidos e espartilhos. Excitante.
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