domingo, 20 de maio de 2012

Ao público

     Algumas cidades, tal qual o Rio de Janeiro, simplesmente exalam sensualidade. Cada menina andando pelas ruas abastadas de pessoas, cada surfista de pele dourada pelo sol correndo pela praia e cada trabalhador exaltado ainda que extremamente bem arrumado; há de ter apenas raras exceções dentre os indivíduos que compartilham desta aura quase que mágica que a capital carioca dispensa aos seus moradores. Pouco também pode ser explicado do motivo para existir a sexualidade tão à superfície da pele, abrangendo todo o local com seus odores imperceptíveis. Talvez tenha algo relacionado ao sol, às praias de água gelada ou simplesmente ao modo de vida o qual seus residentes tão bem se apropriaram, com vitalidade juvenil.
            O fato é: não importa por onde você ande, percebe-se o quanto a cidade é erótica mesmo em seu dia-a-dia. E alguns forasteiros, tão desacostumados ao clima abafado de sensualidade, deslumbram-se com muita frequência em suas descobertas, as quais vão desde em passeios de dois quarteirões até o supermercado mais próximo ou longas viagens de ônibus que são necessárias se você quer chegar da lapa na praia da Barra. Leonardo, ainda extremamente curioso com a inquietude que sentia desde que chegara ali uma única semana antes, passeava absorto em Ipanema ou entre os bares de Copacabana todo final de tarde. Sob uma profunda hipnose, observava cada pessoa que passava por ali, ignorando idade ou sexo.
            Ainda não compreendia com exatidão cartesiana aquilo que revolvia seu interior e pressionava seu ventre de quinze em quinze minutos. Vindo de uma cidade pequenina, de interior, ao norte do estado amapaense, pouco estava acostumado com esse clima tão profano. Não que fosse um rapaz muito dado às proibições da alma ou às regras geralmente impostas pelo senso comum. Aliás, achava-se até aquele momento possuidor nato de uma mente aberta a experiências que a vida poderia lhe proporcionar. Mesmo assim, aquela atmosfera pesada lhe era bisonha, como se saída diretamente das descrições da Paris do século XX na literatura erótica – tão pouco valorizada. Lembrava-se, inclusive, de uma situação com uma moça, religiosa de berço, na qual passara longa hora travando uma discussão sobre a não corrupção de sua imagem ao ser associado a este tipo de literatura.
            Agora, numa cidade extremamente maior do que a sua própria, na qual a percepção geral é mais abrangente que os próprios limites da cidade, sentia-se mais liberto, mas ainda desacostumado à nova liberalidade. Imaginou, por vezes, se esconder seus preconceitos não seria apenas um truque adverso da mentalidade urbana. Mas, com os dias se passando sem que observasse grandes complicações em seus caminhos diários, acabou por se conformar com sua situação atual – na verdade, acreditar mais do que confirmar, pois nenhum pesar tinha em ter se estabelecido ali (com a exceção, talvez, da separação do seu irmão mais velho).
            Morando perto da estação de Uruguaiana e tendo conseguido um emprego como garçom num restaurante próximo à Copacabana, costumava ir ao trabalho de metrô. Gostava de ter um espaço maior para si, o que usualmente acontecia já que o metrô normalmente estava vazio no horário que saía para trabalhar. Porém, em certa segunda-feira, decidiu sair mais cedo para entregar seu currículo em um hospital. Formado em enfermagem, com especialização em obstetrícia, Leonardo ainda não conseguira um emprego em sua área de serviço no Rio de Janeiro; mas atribuía isto ao pouco tempo que passara ali até o instante. Aceitara, por isso, o emprego menos interessante para ele, mas de igual valia para qualquer ser humano de bom coração, no restaurante próximo à praia.
            Tendo acordado uma hora e meia mais cedo do que o compromisso que marcara para a entrega de seu currículo e se arrumando com a velocidade diária, o tempo não era um fator importante naquele dia. Decidiu por tomar o ônibus até o local que poderia ser seu novo trabalho em breve. Encaminhou-se lentamente à parada, presenteando-se com a simplicidade de observar as pessoas que andavam apressadas aos seus próprios trabalhos. Reparou, por vezes, no porte atlético de homens e mulheres que por ele passavam.
            Esperou por poucos minutos sua condução chegar e foi um dos primeiros a entrar nela, dentre uma multidão não muito amistosa. Sentou-se ao fundo, no assento imediatamente ao lado do corredor. Observou os outros passageiros subindo e passando pela catraca, automáticos, enchendo o longo veículo gradualmente. O número de pessoas que entrava no ônibus, a cada parada, era maior que o número que descia. Logo o número de passageiros chegou num estopim, inviabilizando qualquer locomoção.
            Reparou, neste instante, um homem prostrado bem a sua frente, o qual estava trajado com vestes da aeronáutica. Suas roupas modelavam perfeitamente seu corpo forte e cheio de vigor. Leonardo, neste mesmo instante, sentiu a pressão em seu ventre voltar a lhe acometer, surgindo tão silenciosamente quanto desaparecia. Seu olhar, curioso, começou a deslizar pelo corpo jovial à sua mercê. Observava cada detalhe de sua tez endurecida para depois descer e se deparar com os músculos preenchendo o tecido – e imaginou o quanto seria bom poder tocar naquele tecido. Depois de longa observação, desceu para observar as pernas e a zona púbica do desconhecido, que preenchia a calça com bastante volume.
            O calor passou a tomar conta de seu corpo, inflamando-o dos pés à cabeça com igual fervor. A vontade de encostar-se à roupa acetinada era gigantesca, mas conservando ainda muito pudor, permaneceu afastado do rapaz. A excitação afastou qualquer outro pensamento, por todo o caminho, aumentando drasticamente quando curvas forçavam o militar a se aproximar do rosto de Leonardo. Esforçava-se grandemente para esconder sua respiração pesada, e percebeu seu sexo rijo sob a calça. Com receio de que alguém reparasse, pôs sua mochila sobre seu colo. Mas a pressão do objeto apenas aumentou ainda mais o que sentia. Hipnotizado, esfregava eventualmente sua mochila contra si para arrancar algum prazer, o que era intensificado a cada curva ou quando alguma pessoa passava e empurrava o objeto de seu prazer em sua direção.
            Eventualmente, o outro homem desceu, deixando-o ali sentado. Ainda assim o desejo não passou, chegando a se desesperá-lo pela intensidade. Desceu numa parada próxima do hospital onde entregaria seu currículo, após apenas cinco minutos. Andou em passos apressados, quase correndo, reparando em cada homem que passava por ele. Chegou ao hospital ofegante e nem sequer parou na secretaria, entrando direto no banheiro e se trancou num boxe. Havia visto alguns homens ali, mas não prestou atenção em nenhum. Sentou-se num dos vasos e abriu seu zíper com pressa. Afastou sua cueca vermelha – a qual gostava bastante – e tirou seu pênis para fora. Masturbou-se com violência, enquanto soltava fracos gemidos e imaginava a situação pela qual passara, com o homem ali à sua frente, prestes a se entregar a ele. Seus pensamentos fluíam de forma confusa, misturados com imagens de antigos relacionamentos, mas sempre voltavam à explosão de desejo que sentira poucos minutos antes. Em pouco tempo, mais ou menos dois minutos, Leonardo gozou, lançando seu líquido para mais longe do que se lembrava de ter feito alguma vez na vida – sujando a parede do lugar onde se metera. Cansado, apoiou-se na parede que estava imediatamente ao seu lado por algum tempo, recuperando lentamente o fôlego para poder seguir com sua rotina enfadonha.
            Na noite que seguiu o evento, Leonardo dormiu com certo incômodo a lhe ruir os pensamentos. Pensava, cheio de moralidade, em como aquilo fora errado e poderia ser extremamente mal visto caso alguém soubesse. Depois de muito pensar, adormeceu com dificuldade naquela mistura antitética de morais e prazeres. Atormentado por sonhos absurdos, onde fazia sexo com algum de seus ex-namorados ou mulheres estranhas em meio a ruas apinhadas de pessoas, conhecidas ou desconhecidas. Acordou atordoado, sem se lembrar do sonho, mas ainda sofrendo os efeitos em seu corpo.
            Três semanas se passaram sem que voltasse a sentir algo com tanta força. Sua rotina o absorveu inteiramente e em pouco tempo já não se lembrava com tanta vivacidade do que ocorrera. No meio desta semana recebeu uma chamada com boas novidades. Havia sido aceito no hospital e começaria a trabalhar em algumas semanas, portanto precisava comprar alguns equipamentos pessoais para o trabalho (não necessariamente precisava ter itens pessoais, mas o preferia a utilizar os oferecidos pela instituição). Decidiu ir ao shopping no dia seguinte à ligação.
            Logo após de um dos seus últimos dias de trabalho no restaurante, dirigiu-se ao shopping. Encaminhou-se calmamente, tomando água e imaginando como seriam seus próximos meses de árduo dia-a-dia como enfermeiro num hospital grande na área de urgência e emergência. Chegou na loja onde tinha jaleco e estetoscópio, demorando apenas alguns minutos para fazer suas compras, distraído e sem se importar exacerbadamente com suas escolhas.
            Saiu da loja e percebeu que precisava ir ao banheiro. Com seus lentos passos chegou ao banheiro. Ensimesmado, deixou seus pertences em cima de uma das pias e se dirigiu ao mictório ao lado de um homem. Abriu sua braguilha e se preparou para urinar, no mesmo instante em que outro chegava ali e ocupava o mictório do seu outro lado. Olhou para ele, inicialmente apenas para identificar quem estava perto dele, mas ficou embasbacado com a visão. Fitou-o longamente, a ponto de nem perceber que o mictório ao seu lado vagara. Era um homem alto, de ombros largos que preenchiam exageradamente a camisa, a qual descia para encontrar uma calça social que deixava o formato de suas nádegas e pernas. O mais chamativo, no entanto, era seu rosto divino. Seu cabelo era cortado baixo, mas se encontrava com sua barba cheia, e ambos eram ruivos como àqueles dos nórdicos e formavam um conjunto de masculinidade cheia de pujança – ainda mais quando somados com seus traços duros e queixo quadrado. Seus olhos azuis e boca bem desenhada juntavam-se ao conjunto integralmente, com perfeita sintonia.
            O outro lhe encarou. Na perspectiva do loiro de ares galeses, Leonardo não seria uma de suas primeiras escolhas num bar ou boate. Mas, em dias como aquele, nos quais passava o dia todo trabalhando, qualquer pequena diversão que pudesse ter significava um alívio. Os cabelos negros e desgrenhados de Leonardo lhe davam feições joviais, e seu rosto era de traços fortes, mas não rudes – combinando assim com as esferas negras como a noite que preenchiam seus olhos, levemente puxados, exóticos. Um rasgão em suas convenções irrompeu, ocasionado pela adrenalina. Sorriu.
            Leonardo ficou, por apenas dois segundos, envergonhado pelo sorriso do outro. Mas logo seus batimentos cardíacos aceleraram e começou a pensar em inúmeras possibilidades de diversão com o ruivo. Imaginava-o sem camisa, deixando seus pelos e músculos abdominais à mostra – e queria passar a mão pelo corpo dele, enquanto lhe beijava e se esfregava em sua barba. Sentiu seu sexo ganhando vitalidade, e logo estava enrijecido em sua mão. Abaixou seus olhos e percebeu que o outro já se tocava lentamente enquanto olhava em sua direção. Inflamou-se rapidamente e acelerou os movimentos da mão, encarando a masturbação frenética do outro cara. Ser observado daquela forma, tornando-se um objeto de desejo, era extremamente excitante – e nunca experimentara algo do tipo. Outro cara chegou e ficou ao seu lado, cercando-o – não era tão bonito quanto o primeiro, mas seu ar indie de barba mal feita e piercings era um adendo interessante. E então estavam os três em seus movimentos apressados, desesperados. O enfermeiro olhava para os dois lados, em dúvida sobre qual dos desejos lhe era mais atraente – mas nem precisou escolher de fato, pois logo gozou no mictório, soltando um gemido abafado. Afastou-se apressadamente, sem olhar a continuação da cena pornográfica.
            Ciente e acostumado com o erotismo que surgira em sua vida, começou a aproveitar mais alguns pequenos fatos cotidianos. Qualquer caminhar era interessante por estar entre pessoas tão cheias de vida; e andar de ônibus se tornou a maior das felicidades, pois tinha oportunidade de se aproximar das pessoas para sentir seus cheiros e calor, além de perceber suas formas – às vezes permanecia de pé, encostando-se às pessoas que se tornavam o alvo. Era como uma extensão do seu próprio eu – toda aquela sexualidade que exalava por seu caminho -, e tornava todos seus dias intensos, pesados.
            Certa vez, ao voltar do trabalho no hospital, avistou um rapaz de beleza não convencional. Possuía um rosto estranho, de cabelo e barba desgrenhados e despojados. Uma transversal e um alargador se juntavam em sua orelha esquerda. Seus olhos grandes não tinham vida, ainda que fossem quase infantis e superficiais. O corpo também não era nada de mais, porém Leonardo sentiu que poderia lhe envolver em seus braços de tão pequeno que era. Talvez pudesse lhe ter confundido com um cantor de pop/rock sem fama ou dinheiro.
            Deixou que o tumulto do veículo na hora do rush o levasse até o pequeno artista, o que não demorou muito. Em pouco mais que dois minutos, encostava-se ao outro. Sentiu seu cheiro evanescente, mas ainda assim forte como de um homem, entorpecente. Sua excitação começou a crescer enquanto se encostava ao raparigo e Leonardo, inconsciente do que fazia, pressionou seu sexo contra as nádegas do rapaz. Michel, que sentira um homem quase lhe envolvendo por trás, voltou-se para trás por um momento para ver quem era o babaca. Mas quando viu a imagem do outro a lhe desejar tanto, sua paixão foi acesa. Deixou-se ser envolvido, e às vezes se mexia para dar mais prazer ao desconhecido – e seu próprio sexo parecia quase explodir.
            Suplicou para ser levado para outro lugar, baixinho. Leonardo o levou para o seu próprio apartamento – que era tão desarrumado como de qualquer outro rapaz que more sozinho. Entorpecidos por seus beijos e toques, jogaram-se num ritual lento e repleto de sensualidade, onde seus lábios e mãos eram os protagonistas. Mas, enquanto livrava-se de suas roupas, o enfermeiro percebeu que seu sexo já não reagia tão bem quanto na frente das outras pessoas. Tentaram insistentemente fazer com que o sexo funcionasse, mas nada parecia ajudar. Leonardo, cheio de frustração e humilhação, mandou que o outro saísse dali, no auge de sua revolta.
            Sozinho em seu apartamento, aproximou-se da sacada, tentando se acalmar diante sua falha. Viu que o outro saía agora do prédio e andava pelas ruas escuras, indefeso entre a multidão que ainda vagava por ali. Lembrou-se de seu corpo nu, de como ele se esfregava dentro do ônibus, e seu sexo voltou a endurecer. Ainda mais, veio-lhe à mente o cheiro de vários homens que encontrara por entre suas viagens, e todos os odores se misturaram num movimento extático. Pegando seu próprio sexo, sentindo todos os cheiros, toques e calores, masturbou-se à inconsciência animal, transbordando violência e paixão – sua moral esquecida num canto como seus deuses -, e gozou ali mesmo por entre a grade, atirando seu prazer em vários jatos abundantes para os transeuntes, ao público.

1 comentários:

Thiago "James" Leite Cruz disse...

Olhaaaa... eu fui o primeiro a ler esse conto.
Palavras bem escolhidas e sinestésicas.
Ainda aguardando a continuação dos contos sobre a Belle Epoque ;)

 
Free Blogger Templates