Algumas cidades, tal qual o Rio de Janeiro, simplesmente exalam sensualidade. Cada menina andando pelas ruas abastadas de pessoas, cada surfista de pele dourada pelo sol correndo pela praia e cada trabalhador exaltado ainda que extremamente bem arrumado; há de ter apenas raras exceções dentre os indivíduos que compartilham desta aura quase que mágica que a capital carioca dispensa aos seus moradores. Pouco também pode ser explicado do motivo para existir a sexualidade tão à superfície da pele, abrangendo todo o local com seus odores imperceptíveis. Talvez tenha algo relacionado ao sol, às praias de água gelada ou simplesmente ao modo de vida o qual seus residentes tão bem se apropriaram, com vitalidade juvenil.
O fato é: não importa por onde você ande, percebe-se o
quanto a cidade é erótica mesmo em seu dia-a-dia. E alguns forasteiros, tão
desacostumados ao clima abafado de sensualidade, deslumbram-se com muita
frequência em suas descobertas, as quais vão desde em passeios de dois
quarteirões até o supermercado mais próximo ou longas viagens de ônibus que são
necessárias se você quer chegar da lapa na praia da Barra. Leonardo, ainda
extremamente curioso com a inquietude que sentia desde que chegara ali uma
única semana antes, passeava absorto em Ipanema ou entre os bares de Copacabana
todo final de tarde. Sob uma profunda hipnose, observava cada pessoa que
passava por ali, ignorando idade ou sexo.
Ainda não compreendia com exatidão cartesiana aquilo que
revolvia seu interior e pressionava seu ventre de quinze em quinze minutos.
Vindo de uma cidade pequenina, de interior, ao norte do estado amapaense, pouco
estava acostumado com esse clima tão profano. Não que fosse um rapaz muito dado
às proibições da alma ou às regras geralmente impostas pelo senso comum. Aliás,
achava-se até aquele momento possuidor nato de uma mente aberta a experiências
que a vida poderia lhe proporcionar. Mesmo assim, aquela atmosfera pesada lhe
era bisonha, como se saída diretamente das descrições da Paris do século XX na
literatura erótica – tão pouco valorizada. Lembrava-se, inclusive, de uma
situação com uma moça, religiosa de berço, na qual passara longa hora travando
uma discussão sobre a não corrupção de sua imagem ao ser associado a este tipo
de literatura.
Agora, numa cidade extremamente maior do que a sua
própria, na qual a percepção geral é mais abrangente que os próprios limites da
cidade, sentia-se mais liberto, mas ainda desacostumado à nova liberalidade.
Imaginou, por vezes, se esconder seus preconceitos não seria apenas um truque
adverso da mentalidade urbana. Mas, com os dias se passando sem que observasse
grandes complicações em seus caminhos diários, acabou por se conformar com sua
situação atual – na verdade, acreditar mais do que confirmar, pois nenhum pesar
tinha em ter se estabelecido ali (com a exceção, talvez, da separação do seu
irmão mais velho).
Morando perto da estação de Uruguaiana e tendo conseguido
um emprego como garçom num restaurante próximo à Copacabana, costumava ir ao
trabalho de metrô. Gostava de ter um espaço maior para si, o que usualmente
acontecia já que o metrô normalmente estava vazio no horário que saía para
trabalhar. Porém, em certa segunda-feira, decidiu sair mais cedo para entregar
seu currículo em um hospital. Formado em enfermagem, com especialização em
obstetrícia, Leonardo ainda não conseguira um emprego em sua área de serviço no
Rio de Janeiro; mas atribuía isto ao pouco tempo que passara ali até o
instante. Aceitara, por isso, o emprego menos interessante para ele, mas de
igual valia para qualquer ser humano de bom coração, no restaurante próximo à
praia.
Tendo acordado uma hora e meia mais cedo do que o
compromisso que marcara para a entrega de seu currículo e se arrumando com a
velocidade diária, o tempo não era um fator importante naquele dia. Decidiu por
tomar o ônibus até o local que poderia ser seu novo trabalho em breve.
Encaminhou-se lentamente à parada, presenteando-se com a simplicidade de
observar as pessoas que andavam apressadas aos seus próprios trabalhos.
Reparou, por vezes, no porte atlético de homens e mulheres que por ele
passavam.
Esperou por poucos minutos sua condução chegar e foi um
dos primeiros a entrar nela, dentre uma multidão não muito amistosa. Sentou-se
ao fundo, no assento imediatamente ao lado do corredor. Observou os outros
passageiros subindo e passando pela catraca, automáticos, enchendo o longo
veículo gradualmente. O número de pessoas que entrava no ônibus, a cada parada,
era maior que o número que descia. Logo o número de passageiros chegou num
estopim, inviabilizando qualquer locomoção.
Reparou, neste instante, um homem prostrado bem a sua
frente, o qual estava trajado com vestes da aeronáutica. Suas roupas modelavam
perfeitamente seu corpo forte e cheio de vigor. Leonardo, neste mesmo instante,
sentiu a pressão em seu ventre voltar a lhe acometer, surgindo tão
silenciosamente quanto desaparecia. Seu olhar, curioso, começou a deslizar pelo
corpo jovial à sua mercê. Observava cada detalhe de sua tez endurecida para depois
descer e se deparar com os músculos preenchendo o tecido – e imaginou o quanto
seria bom poder tocar naquele tecido. Depois de longa observação, desceu para
observar as pernas e a zona púbica do desconhecido, que preenchia a calça com
bastante volume.
O calor passou a tomar conta de seu corpo, inflamando-o
dos pés à cabeça com igual fervor. A vontade de encostar-se à roupa acetinada
era gigantesca, mas conservando ainda muito pudor, permaneceu afastado do
rapaz. A excitação afastou qualquer outro pensamento, por todo o caminho, aumentando
drasticamente quando curvas forçavam o militar a se aproximar do rosto de Leonardo.
Esforçava-se grandemente para esconder sua respiração pesada, e percebeu seu
sexo rijo sob a calça. Com receio de que alguém reparasse, pôs sua mochila
sobre seu colo. Mas a pressão do objeto apenas aumentou ainda mais o que
sentia. Hipnotizado, esfregava eventualmente sua mochila contra si para
arrancar algum prazer, o que era intensificado a cada curva ou quando alguma
pessoa passava e empurrava o objeto de seu prazer em sua direção.
Eventualmente, o outro homem desceu, deixando-o ali
sentado. Ainda assim o desejo não passou, chegando a se desesperá-lo pela
intensidade. Desceu numa parada próxima do hospital onde entregaria seu currículo,
após apenas cinco minutos. Andou em passos apressados, quase correndo,
reparando em cada homem que passava por ele. Chegou ao hospital ofegante e nem
sequer parou na secretaria, entrando direto no banheiro e se trancou num boxe. Havia
visto alguns homens ali, mas não prestou atenção em nenhum. Sentou-se num dos
vasos e abriu seu zíper com pressa. Afastou sua cueca vermelha – a qual gostava
bastante – e tirou seu pênis para fora. Masturbou-se com violência, enquanto
soltava fracos gemidos e imaginava a situação pela qual passara, com o homem
ali à sua frente, prestes a se entregar a ele. Seus pensamentos fluíam de forma
confusa, misturados com imagens de antigos relacionamentos, mas sempre voltavam
à explosão de desejo que sentira poucos minutos antes. Em pouco tempo, mais ou
menos dois minutos, Leonardo gozou, lançando seu líquido para mais longe do que
se lembrava de ter feito alguma vez na vida – sujando a parede do lugar onde se
metera. Cansado, apoiou-se na parede que estava imediatamente ao seu lado por
algum tempo, recuperando lentamente o fôlego para poder seguir com sua rotina
enfadonha.
Na noite que seguiu o evento, Leonardo dormiu com certo
incômodo a lhe ruir os pensamentos. Pensava, cheio de moralidade, em como
aquilo fora errado e poderia ser extremamente mal visto caso alguém soubesse.
Depois de muito pensar, adormeceu com dificuldade naquela mistura antitética de
morais e prazeres. Atormentado por sonhos absurdos, onde fazia sexo com algum
de seus ex-namorados ou mulheres estranhas em meio a ruas apinhadas de pessoas,
conhecidas ou desconhecidas. Acordou atordoado, sem se lembrar do sonho, mas
ainda sofrendo os efeitos em seu corpo.
Três semanas se passaram sem que voltasse a sentir algo
com tanta força. Sua rotina o absorveu inteiramente e em pouco tempo já não se
lembrava com tanta vivacidade do que ocorrera. No meio desta semana recebeu uma
chamada com boas novidades. Havia sido aceito no hospital e começaria a
trabalhar em algumas semanas, portanto precisava comprar alguns equipamentos
pessoais para o trabalho (não necessariamente precisava ter itens pessoais, mas
o preferia a utilizar os oferecidos pela instituição). Decidiu ir ao shopping
no dia seguinte à ligação.
Logo após de um dos seus últimos dias de trabalho no
restaurante, dirigiu-se ao shopping. Encaminhou-se calmamente, tomando água e
imaginando como seriam seus próximos meses de árduo dia-a-dia como enfermeiro
num hospital grande na área de urgência e emergência. Chegou na loja onde tinha
jaleco e estetoscópio, demorando apenas alguns minutos para fazer suas compras,
distraído e sem se importar exacerbadamente com suas escolhas.
Saiu da loja e percebeu que precisava ir ao banheiro. Com
seus lentos passos chegou ao banheiro. Ensimesmado, deixou seus pertences em
cima de uma das pias e se dirigiu ao mictório ao lado de um homem. Abriu sua
braguilha e se preparou para urinar, no mesmo instante em que outro chegava ali
e ocupava o mictório do seu outro lado. Olhou para ele, inicialmente apenas
para identificar quem estava perto dele, mas ficou embasbacado com a visão.
Fitou-o longamente, a ponto de nem perceber que o mictório ao seu lado vagara.
Era um homem alto, de ombros largos que preenchiam exageradamente a camisa, a
qual descia para encontrar uma calça social que deixava o formato de suas
nádegas e pernas. O mais chamativo, no entanto, era seu rosto divino. Seu
cabelo era cortado baixo, mas se encontrava com sua barba cheia, e ambos eram
ruivos como àqueles dos nórdicos e formavam um conjunto de masculinidade cheia
de pujança – ainda mais quando somados com seus traços duros e queixo quadrado.
Seus olhos azuis e boca bem desenhada juntavam-se ao conjunto integralmente, com
perfeita sintonia.
O outro lhe encarou. Na perspectiva do loiro de ares
galeses, Leonardo não seria uma de suas primeiras escolhas num bar ou boate.
Mas, em dias como aquele, nos quais passava o dia todo trabalhando, qualquer
pequena diversão que pudesse ter significava um alívio. Os cabelos negros e
desgrenhados de Leonardo lhe davam feições joviais, e seu rosto era de traços
fortes, mas não rudes – combinando assim com as esferas negras como a noite que
preenchiam seus olhos, levemente puxados, exóticos. Um rasgão em suas
convenções irrompeu, ocasionado pela adrenalina. Sorriu.
Leonardo ficou, por apenas dois segundos, envergonhado
pelo sorriso do outro. Mas logo seus batimentos cardíacos aceleraram e começou
a pensar em inúmeras possibilidades de diversão com o ruivo. Imaginava-o sem
camisa, deixando seus pelos e músculos abdominais à mostra – e queria passar a
mão pelo corpo dele, enquanto lhe beijava e se esfregava em sua barba. Sentiu
seu sexo ganhando vitalidade, e logo estava enrijecido em sua mão. Abaixou seus
olhos e percebeu que o outro já se tocava lentamente enquanto olhava em sua
direção. Inflamou-se rapidamente e acelerou os movimentos da mão, encarando a
masturbação frenética do outro cara. Ser observado daquela forma, tornando-se
um objeto de desejo, era extremamente excitante – e nunca experimentara algo do
tipo. Outro cara chegou e ficou ao seu lado, cercando-o – não era tão bonito
quanto o primeiro, mas seu ar indie
de barba mal feita e piercings era um
adendo interessante. E então estavam os três em seus movimentos apressados,
desesperados. O enfermeiro olhava para os dois lados, em dúvida sobre qual dos desejos
lhe era mais atraente – mas nem precisou escolher de fato, pois logo gozou no
mictório, soltando um gemido abafado. Afastou-se apressadamente, sem olhar a
continuação da cena pornográfica.
Ciente e acostumado com o erotismo que surgira em sua
vida, começou a aproveitar mais alguns pequenos fatos cotidianos. Qualquer
caminhar era interessante por estar entre pessoas tão cheias de vida; e andar
de ônibus se tornou a maior das felicidades, pois tinha oportunidade de se
aproximar das pessoas para sentir seus cheiros e calor, além de perceber suas
formas – às vezes permanecia de pé, encostando-se às pessoas que se tornavam o
alvo. Era como uma extensão do seu próprio eu – toda aquela sexualidade que
exalava por seu caminho -, e tornava todos seus dias intensos, pesados.
Certa vez, ao voltar do trabalho no hospital, avistou um
rapaz de beleza não convencional. Possuía um rosto estranho, de cabelo e barba
desgrenhados e despojados. Uma transversal e um alargador se juntavam em sua
orelha esquerda. Seus olhos grandes não tinham vida, ainda que fossem quase
infantis e superficiais. O corpo também não era nada de mais, porém Leonardo
sentiu que poderia lhe envolver em seus braços de tão pequeno que era. Talvez
pudesse lhe ter confundido com um cantor de pop/rock sem fama ou dinheiro.
Deixou que o tumulto do veículo na hora do rush o levasse
até o pequeno artista, o que não demorou muito. Em pouco mais que dois minutos,
encostava-se ao outro. Sentiu seu cheiro evanescente, mas ainda assim forte
como de um homem, entorpecente. Sua excitação começou a crescer enquanto se
encostava ao raparigo e Leonardo, inconsciente do que fazia, pressionou seu sexo
contra as nádegas do rapaz. Michel, que sentira um homem quase lhe envolvendo
por trás, voltou-se para trás por um momento para ver quem era o babaca. Mas
quando viu a imagem do outro a lhe desejar tanto, sua paixão foi acesa.
Deixou-se ser envolvido, e às vezes se mexia para dar mais prazer ao
desconhecido – e seu próprio sexo parecia quase explodir.
Suplicou para ser levado para outro lugar, baixinho.
Leonardo o levou para o seu próprio apartamento – que era tão desarrumado como
de qualquer outro rapaz que more sozinho. Entorpecidos por seus beijos e
toques, jogaram-se num ritual lento e repleto de sensualidade, onde seus lábios
e mãos eram os protagonistas. Mas, enquanto livrava-se de suas roupas, o
enfermeiro percebeu que seu sexo já não reagia tão bem quanto na frente das
outras pessoas. Tentaram insistentemente fazer com que o sexo funcionasse, mas
nada parecia ajudar. Leonardo, cheio de frustração e humilhação, mandou que o
outro saísse dali, no auge de sua revolta.
Sozinho em seu apartamento,
aproximou-se da sacada, tentando se acalmar diante sua falha. Viu que o outro
saía agora do prédio e andava pelas ruas escuras, indefeso entre a multidão que
ainda vagava por ali. Lembrou-se de seu corpo nu, de como ele se esfregava
dentro do ônibus, e seu sexo voltou a endurecer. Ainda mais, veio-lhe à mente o
cheiro de vários homens que encontrara por entre suas viagens, e todos os
odores se misturaram num movimento extático. Pegando seu próprio sexo, sentindo
todos os cheiros, toques e calores, masturbou-se à inconsciência animal,
transbordando violência e paixão – sua moral esquecida num canto como seus
deuses -, e gozou ali mesmo por entre a grade, atirando seu prazer em vários
jatos abundantes para os transeuntes, ao público.
1 comentários:
Olhaaaa... eu fui o primeiro a ler esse conto.
Palavras bem escolhidas e sinestésicas.
Ainda aguardando a continuação dos contos sobre a Belle Epoque ;)
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