terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Notre Belle Èpoque pt. 6

Páginas retiradas do diário de Anita Simões

03 DE SETEMBRO DE 1882

Reli diversas vezes os escritos diretamente no mais fino papel abaixo. Imagino mãos femininas, mas firmes, escrevendo temerariamente. Não como eu quando escrevo, que paro uma ou duas vezes, penso um eufemismo, escolho dizer um quarto fato, e então transformo meu pensamento em palavras. É moça similar a mim, mas em tudo diferente, peculiar, chamativa, forte. Não me admiro ou espanto por nossas cartas serem tão distintas. Está quase amanhecendo e eu não gostaria de largar este pedaço da consciência de Amélia, pois ela afasta grande parte da insegurança que dentro de mim vive, de meus temores infantis e da tenebrosidade que a escuridão me trás. Anexo sua carta cuidadosamente aqui. Voltarei para ler quantas vezes forem necessárias para que minha vontade de sua companhia seja minimamente saciada. Mas sei que esta noite terminarei no vazio de sua ausência, de sua inexistência.

Belém, 02 de Setembro de 1882

Caríssima amiga,

Como poderia eu, nas torpes e vãs palavras que nossa língua oferece, expressar-lhe toda minha gratidão pelo convite estendido por vossa senhoria à minha pessoa? Temo, porém, que para lhe justificar a razão de toda minha alegria, deva informar-lhe meus reais motivos: desde casada com Joaquim, não possuo amiga sequer que me acompanhe em atividades femininas, como provar nobres tecidos ou comentar a respeito de outrem. É lisonjeante, então, que vossa senhoria querida tenha visto em mim a possibilidade de uma amizade pura e livre de toda maledicência que circunda atualmente nosso meio social.
Asseguro-lhe de que Joaquim não tardará em permitir-me a visita à vossa propriedade, que confesso estar ansiosa por vislumbrar, tendo em vista que julgo ser de extremo bom gosto, levando em consideração seus bons modos e costumes.
Confesso-lhe secretamente, porém, que estive desejosa por escrever-lhe antes de receber seu manuscrito, porém temia perturbar sua alegria conjugal ao tomar-lhe o tempo. Todavia, tendo em vista que na atual circunstância tu própria és quem convidas, não tardo em aceitar, e prometo-te levar um bom vinho de nossa adega para degustação.

Até breve,
tua amiga
Amélia Cavaleiro

Obs.: Peço-te perdão se abuso de tua intimidade por, ao final da carta, tratar-te por “tu”.




Post escrito com a ajuda de Saah Tavares.

1 comentários:

Anônimo disse...

Sabia!

 
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