Anita enviou-me correspondência, e estou segura de que desta vez a iniciativa partiu da própria. Receio-me incapaz, porém, de expressar em sentimentos o conteúdo do escrito, quando o mesmo como um todo faz-se eloquente e palpável (tal qual as doces palavras que minha amiga sempre ofereceu-me). Quase pude ouvir sua voz aveludada e monocórdia enquanto degustava cada palavra desenhada no papel fino selado com esmero. Anexo então, nestas folhas de diário, a razão de toda minha alegria:
Querida Sra. Cavaleiro (ou Amélia, caso me seja permitido),
Agora que o princípio dos negócios de nossos amados findou, partindo para uma nova etapa da relação entre ambos, aumenta monumentalmente a improbabilidade de uma reunião próxima entre nossas famílias. Ainda que nossos encontros tenham sido breves, e poucos deles tenham ocorrido, sinto falta de sua presença me cercando, de seu espírito intenso a incitar a rebeldia e a vida que há dentro de mim. Gostaria que não me considerasse uma louca por querer lhe oferecer uma tarde da minha mais cara hospitalidade. Saiba que espero, partindo de todos os recantos mais obscuros do meu ser, que atendas a meu pedido, que pode lhe parecer um pouco estranho. Meu alfaiate virá à cidade na próxima semana e passará todo um dia comigo, ajeitando-me vestidos e costuras adequadas. Estendo-lhe o convite de vestir-se comigo dos mais belos vestidos que Paris pode oferecer através das hábeis mãos de Monsieur LeBlanc.
Infelizmente, meu marido estará ausente neste dia. Sinto que passará todas as próximas semanas se distanciando ocasionalmente. Sendo assim, o seu senhor provavelmente acharia nossas atividades enfadonhas, principalmente por não ter nenhum empregado do sexo masculino para lhe fazer companhia adequada. Faço votos de que nem você nem seu senhor ir-se-ão melindrar por tal premissa.
O encontro deverá ocorrer em minha casa na próxima quarta-feira, que será o sexto dia do mês de Setembro. Certamente será uma bela manhã. Caso você chegue antes do alfaiate em minha residência, podemos fazer um calmo passeio pelo jardim para observar as flores e ouvir o canto das aves sonoras. É estranho pensar em como este ano, que se iniciou tão enfadonho, agora me parece fantástico apenas pela chegada de uma pessoa especial em minha vida; mais uma, quero dizer.
Com toda a ternura de vossa amiga,
Anita
Post escrito com a ajuda de Bruno Eleres.
1 comentários:
ela vai ela vai ela vai. Safada!
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