quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O carro do sol



“Como devo te cantar, tu que por tudo que és mereces o louvor?”
-hino homérico ao deus Apolo

Aconteceu há mais ou menos um ano.


Eu estava completamente cansado naquele dia. Cansado do trânsito absurdo que enfrentara minutos antes, mas que me prenderam na rua por pelo menos uma hora a mais do que eu gostaria. Amaldiçoava os carros excessivos, as pessoas metidas a espertas que ultrapassavam pelo acostamento e buzinavam mesmo sabendo que nada poderia ser feito para o trânsito andar. Amaldiçoava o mundo, por andar cada dia pior. Amaldiçoava a mim mesmo, por ainda tentar me enquadrar em certos padrões.


Os carros permaneciam ferozes, metros abaixo de mim. Eu tirava a camisa social com vivacidade assustadora para quem, além do trânsito, enfrentara uma jornada exaustiva de trabalho ao longo do dia que se esvaia do relógio. A cortina balançava suavemente com a brisa chuvosa que ia entrando pela janela da sala, e considerei melhor mantê-la fechada, mas foi ao me aproximar da mesma que vislumbrei pela primeira vez o que dali pra frente me manteria realmente preso a uma espécie de universo paralelo criado por mim mesmo e meus devaneios.


Os últimos raios de sol faziam o céu parecer rubro e acolhedor, e ela se despia displicentemente na sala do flat que ocupava. Os cabelos negros casavam perfeitamente com as voluptuosas formas femininas e a pele bronzeada pelo mais saudável dos sóis. Aquela divindade em forma de mulher não me notava, observando-a da janela da frente. Meu corpo inteiro estava dormente e inerte, enquanto ela, agora, caminhava trajando apenas a calcinha de renda branca pela sala. Senti algo enrijecer dentro de minhas calças, e culpei-me ligeiramente por isso, afinal, eu não era mais nenhum adolescente para ficar excitado apenas por vislumbrar uma mulher desnuda, mas aquela definitivamente não era qualquer mulher. A diva esculpida em ébano flutuou sobre o carpete até um home theater posicionado à esquerda da sala, e possivelmente ligou o aparelho, levando em consideração que minutos depois ela dançava com magnitude, no que pra mim parecia um filme mudo de prazer e luxúria. Sem notar ao certo o que estava fazendo, desci o zíper da calça e rendi-me à lascívia daquela cena, sem conseguir tirar os olhos de minha inspiração.


Fui dormir tarde naquela noite, após a masturbação para a moça do prédio vizinho, pensando em um milhão de coisas ao mesmo tempo. Quem seria ela? Desde quando vivia ali, se eu antes nunca sequer havia notado que havia vida do outro lado do muro?


Estranhei o fato de não desejar de fato conhece-la. Era como se apenas aquilo me bastasse: Vê-la. Era como se, através de minhas próprias mãos, eu pudesse explorar seu corpo delgado de pitonisa, desvendando os mistérios do meu próprio.


Passei a buscá-la diariamente. Apreciei seu caminhar lento pela manhã, quando preparava-se para trabalhar, contemplei-a alimentar-se próxima à varanda, no cair da tarde. Assisti suas inúmeras ligações telefônicas, e aquele jeito peculiar que ela tinha de enrolar uma mecha do cabelo entre os dedos enquanto o fazia. Em aproximadamente uma semana eu e a diva de Apolo possuíamos um relacionamento unilateral. Ela apenas existia para mim, em um universo glorioso que cultivei com esmero. Eu, óbvio, não existia no universo dela, tão diáfana que era minha existência. Ela era a rainha do reino de um homem só.


Vivemos bem, eu e a janela, nesta semana já mencionada, e foi ao final dela que me deparei com a maior das surpresas.


Cheguei em casa mais cedo naquele dia, ansioso, pervertido. Queria vê-la urgentemente. Necessitava daquele momento escondido entre minhas cortinas, nu, manipulando minha própria genitália ao bel prazer de minha musa. Acontece que, naquele final de tarde, tudo mudaria.

Havia algo de felino em suas feições, ou talvez parecesse um vilão dos anos noventa. Seus músculos peitorais estavam exibindo a mais perfeita das definições, enquanto as grandes gotas de suor escorriam abundantemente por eles. Os cabelos escuros e lisos uniam-se à pele facial, e ele franzia o cenho em um misto de prazer e agressividade. Naquele momento, parado ali, eu tinha absolutamente todos os motivos do mundo para invejá-lo. Apoiada no encosto do sofá com as duas mãos, de costas pra ele, seios fartos sacodindo com força ao movimento de seus quadris, encontrando-se e desencontrando-se com os quadris do vilão felino, estava ela. Minha deusa mediterrânea movia seus lábios com suavidade e prazer, e tornava a cena contraditoriamente atraente. A contradição residia justamente no fato de que, enquanto ele parecia viril, sagaz, quase violento, ela reagia com leveza e calmaria, como se estivesse inebriada, entorpecida, delirante. Enquanto ele avançava por suas extremidades com feroz destreza, ela reagia em slow motion. As cenas distintas, no entanto, eram uma só. Estavam os dois ali, completando o mesmo cenário de luxúria e perversão, colados pelos sexos.


Enraiveci-me por um breve momento, afinal, esperava encontrá-la como sempre sozinha, fazendo alguma coisa à toa. Nunca havia visto aquele homem, nem outro homem sequer, naquele apartamento com ela, e já vinha me acostumando com a ideia de que ela era uma espécie de canal de televisão no qual eu poderia sintonizar quando me sentisse só. Aquele novo personagem em nossa trama, porém, mudava o curso do que eu vinha vivendo, mas seria ele de todo um ator ruim? Concentrei-me na maneira que ele movia-se atrás dela, revezando segurá-la pela nuca, cintura e ancas. Eventualmente parecia extasiado, e em dados momentos ligeiramente jocoso. A maneira que os músculos definidos dele revelavam-se a cada novo movimento bruto me atraia tanto quanto o sacolejar dos quadris e seios da mulher à sua frente.

Dormi tarde naquela noite, já entrando pela madrugada. Pensava no que vira mais cedo, pensava no quão me sentia mal por ter admirado aquele cara em vez de invejá-lo... Pensava na mulher à sua frente (que mais tarde esteve abaixo e acima dele também), e em quão ela era sortuda por tê-lo. Pensava no quão sortudo ele era por tê-la. Fiquei nos dois. Os dois tinham sorte. Os dois tinham alguém para abraçar antes de dormir, e ao mesmo tempo tinham alguém para permitir-lhes um prazer desmedido, desinibido, livre. Liberdade... A liberdade que sempre invejei dos outros. Não o “ser livre” no literal, como almejam os presidiários ou os animais em cativeiro. Liberdade, quando me refiro, trata de questões mais profundas, mais íntimas, mais individuais.


Sempre vivi às margens do correto, à beira do errado, e no centro de tudo. O que dizer? Família comum, carro popular, emprego modesto em um jornal de grande porte, algumas namoradas medíocres, sem grandes realizações profissionais, sem nenhum artigo ou matéria realmente notáveis... Comum. Um verdadeiro oposto do Harry Haller, de Herman Hesse. Agora, inusitadamente, em meio a todo marasmo cotidiano, deparo-me com este templo de Apolo do outro lado da janela, estampando a beleza, a perfeição, a harmonia... Levando consigo os últimos raios de sol quando as cortinas fecham.


Os dias que se seguiram foram pra mim de profundo desgosto. Notei que talvez eles fossem de fato um casal, e que no período em que conheci a pitonisa, Apolo encontrasse-se ausente em viagem, ou em constantes reuniões de negócio, e que agora talvez ele estivesse efetivamente de volta, levando em conta que cheguei a revê-lo uma ou duas vezes a caminhar pela sala de manhã, enquanto abotoava minha camisa social para trabalhar. Ele nas duas vezes estava de cueca, e questionei-me se não trabalharia nunca. Na segunda vez que o vi, porém, senti-me desconfortável e ligeiramente formigante dentro das calças. Ignorei este fato, naquele momento, e parti para minhas obrigações. Os dias foram desgostosos, no entanto, por conta da ausência deles. Não os vi desde a sexta feira, até acabar o final de semana. Saí para um barzinho ou outro (com um conhecido ou outro), e sempre que voltava pra casa, corria pra janela, desejando-os, buscando-os... Sempre me deparava com o mesmo vazio. A mesma escuridão. As mesmas cortinas fechadas, que para mim eram os portais do paraíso virando-me as costas, invalidando-me a ultrapassagem.


Segunda cheguei em casa, liguei o som, cantarolei um falsete acompanhando Divano do Era, tomei uma ducha e saí para procurar algo comestível na geladeira. Por alguma razão (provavelmente por conta do trabalho exaustivo de horas mais cedo, ou do trânsito exaustivo de todos os dias) naquele momento eu os havia esquecido. Estava movendo-me no piloto automático. Meu corpo estava movendo-se sozinho, empenhado em suprir minhas necessidades de chuveiro, alimento, repouso, e talvez depois eu fosse pensar na luxúria. A preguiça e a gula que viessem primeiro. O que houve foi que, ao passar de volta da cozinha para o quarto, uma luz emanando da janela da sala (que encontrava-se imersa no breu) me chamou atenção. Meu coração disparou, energizando meu sangue, e avivando todos os músculos, inclusive os que enrijecem. Caminhei até a janela, sedento de vê-los. Naquele momento já não importava qual dos dois, ou os dois juntos. Desejava vê-los, e suprir a quase abstinência a qual fui submetido durante o eterno final de semana. Abri a cortina em apenas uma fresta, mas mesmo assim fui menos discreto do que gostaria. Não me prejudiquei com isso. Como se Apolo houvesse ouvido minhas preces, lá estavam eles. Não como eu gostaria, em pleno coito, mas estavam ali. Haviam voltado para mim. Havia, porém, mais um personagem em meu canal predileto. Apolo sorria, exibindo aquela fileira perfeita de dentes entre a rala barba que agora cobria a outrora nudez de seu rosto. Aquilo lhe concedia traços ainda mais selvagens do que anteriormente. A pitonisa mexia com o palito metálico na panela fumegante de foundie sobre a mesinha de centro, e o terceiro personagem, o homem loiro, de peito largo e sorriso fácil, servia-se de uma dose de uísque. Aprumei o binóculo (cujo comprei apenas para observa-los e no qual gastei uma fortuna) na mão direita e passei a tentar compreender a nova cena a mim oferecida. Apolo e sua pitonisa estariam recebendo um visitante? Aparentava ser isso mesmo. Sentei-me em uma das poltronas da sala, e esqueci completamente que estava cansado.


A reunião permaneceu comum até certo ponto, e eu começava a cogitar levantar-me e ir para meu quarto, retornando mais tarde para ver se algo acontecia, quando de fato aconteceu. O convidado ergueu o vinho que estava sobre a mesa, e disse algo que eu não podia ouvir olhando em direção ao Apolo. A pitonisa ria, movendo seus lábios volumosos como sempre em slow motion. Apolo riu francamente, e fez sinal para que aquele Dionísio sentisse-se a vontade. O homem loiro ergueu-se de sua poltrona, e como se fosse a coisa mais normal do mundo, despiu o tronco da pitonisa com certa urgência. Ri-me de estar surpreso com aquilo. Eu deveria estar grato. Dionísio agora espalhava vinho por todo o colo da musa, e posteriormente o limpava com lábios e língua. Não sei exatamente dizer como aconteceu, mas em seguida ela era invadida por todos os lados, em um ritual digno do deus do vinho.


Deitei-me extasiado, esgotado, nulo. Aquela havia sido a melhor festa por mim já compartilhada em toda minha existência. Não havia palavras Terrestres para expressar o que senti naquela noite... Ou pelo menos até então não consegui encontrar nenhuma.


Pensei por muito tempo antes de dormir naquela noite, e no dia seguinte, no trabalho. Às vezes, quando recordava-me com intensidade demais, precisava correr para o banheiro, para não permitir que meus colegas de trabalho me vissem passando vergonha. Seria vergonhoso ser flagrado naquele estado em plena redação, mas intimamente eu me vangloriava. Quem poderia ter sorte melhor que a minha, que possuía uma relação tripla, e às vezes ainda recebia um convidado tão bem vindo? Eu era um abençoado. Um filho querido do Olimpo. Ria-me em silêncio.


Os meses que se seguiram foram comuns para mim e para eles. Nunca os vi brigando. Desejava aquela relação como desejava o ar e nunca perdia o interesse no cotidiano do casal. Certa vez, em um dos coitos mais agressivos que presenciei entre eles, enquanto eu me tocava no escuro, tive a impressão de ver Apolo olhando em direção a minha janela. Parei de súbito. Teria ele me visto? Nunca soube, mas se via, ele gostava de ver. O vilão sorria, biltre, satisfeito. Parecia querer compartilhar aquele momento de prazer comigo. Ele a cobria com mais voracidade depois de me notar observando. Perguntei-me, naquele episódio, a razão de ter me sentido estranho por ele ter me visto. O fato dele não ter parado, nem ficado aborrecido, de certa forma me inquietou. Não sei dizer exatamente qual reação eu esperava que ele tivesse, mas senti-me invadido, inibido, acuado... Por outro lado, aquilo me levava a crer que eu, se quisesse, talvez poderia ter sinalizado para ele de algum jeito, e posteriormente ele poderia me procurar, poderíamos nos conhecer, eu poderia ser convidado algum dia para alguma das reuniões... Não! Aquilo não me era permitido. Eu era um convidado mundano, impuro. Nunca seria digno de ascender ao Olimpo da janela da frente.


Neste período, não consegui namorar, nem sair, nem sequer uma noite de sexo sem compromisso com mulher nenhuma. Não que oportunidades me faltassem, mas eu sempre acabava perdendo o interesse em cima da hora. Era como se faltasse alguma outra coisa... Era como se faltasse divindade. Até um dia, meses depois, em uma noite de sábado, enquanto eu esperava eles chegarem, notei mais uma vez um novo personagem desconhecido e novo em minha novela. Uma mulher alva, dona de longos cachos aloirados, entrou sozinha no flat. Serviu-se de vinho na sala, e despiu-se quase até alcançar a total nudez, preservando apenas a peça íntima inferior. Sorri extasiado, imaginando a minha sorte naquele dia. Posteriormente, A pitonisa adentrou seu templo sagrado, e ao vislumbrar aquela Afrodite, seminua, sentada no trono de Apolo, despiu-se também, e partiu para junto dela oferecendo sacrifícios de beijos quentes e mãos que passeavam por toda parte do corpo. Eu já participava secretamente do ritual, quando Apolo chegou, e prontamente uniu-se àqueles corpos, criando um dégradé de cores, formas e tamanhos. Eu sentia o toque de todas aquelas mãos. Recebia beijos que não eram meus, carícias íntimas que nunca senti de fato, mas que naquele momento eram mais reais e palpáveis do que qualquer outro toque por mim sentido em toda minha parca existência. Afrodite me inspirava, me chamava. Me dizia: “venha, meu filho. Desfrute de meus dotes, tome para si o meu poder.


Aceitei o convite de Afrodite, e quando ela retirou-se do templo, desci apressado, e fingi um encontro casual na rua (é claro que eu nunca poderia ter dito a ela o que andava fazendo horas antes). Saímos, bebemos juntos, dormimos juntos, seu nome era Milena, e ela acabara de perder toda a divindade. Era uma mulher comum. Era Afrodite apenas quando invadia o templo de Apolo e sua pitonisa.


Comecei a questionar se não estava enlouquecendo. Aquilo era demais para mim. Nada mais tinha graça, se não fosse observado através da janela. Entendi então que não estava louco, e sim abençoado. Aquele era um portal, uma passagem para a melhor das dimensões. Através do portal (e apenas através dele) as pessoas ascendiam à divindade eterna. Eu precisava ascender também, mas era impuro, mundano, simplório... Indigno, e era apenas isso.


Vivo com isso há algum tempo, e no início desta semana, logo pela manhã, descobri que havia sido desafortunado pelos deuses do Olimpo. Havia um caminhão no térreo. Apolo partiria para sempre com sua pitonisa, abandonando o templo, e mudando-se para outras paragens. Sofri eles me deixarem. Chorei amargamente durante todo o resto do dia, e nem consegui comparecer ao jornal. Acaso eles não me amavam? Acaso havia eu feito algo de errado para ser deixado para trás?


Hoje acordei mais disposto, no início do final de semana, e resolvi sentar na sala, e escrever um pouco dessa nossa história de deuses e orgias. Digitei todo o texto, entre tragadas longas, e grandes canecas de café. Ao terminar a primeira parte do texto, porém, avistei caixas de papelão ocupando todo o espaço que outrora pertencera à Apolo, e senti-me curioso. Levantei-me, caminhei até a janela, e saboreei os raios doces do sol que o carro de Apolo, até então, levara consigo.


Havia uma mulher na sala. Ruiva, esguia, belíssima. Possuía traços delicados, e ao mesmo tempo fortes, marcantes. Ela dava ordens, com pulso firme, para que os homens da companhia de mudança não danificassem seus pertences. Aparentemente, eu não fui desafortunado pelo Olimpo, afinal. Eles ainda estão me abençoando, e olhando por mim. Apolo apenas pediu para que lhe substituíssem naquele local sagrado, então, que seja assim. Seja bem vinda... Artemis.

5 comentários:

Ge disse...

eu tava ansiosa pra saber o resto desse conto, e por algum motivo, parte dele me lembra conversas antigas...

G.

Vanessa disse...

Caio Fernando Abreu ficaria orgulhoso deste conto.

disse...

Envolvente!

Anônimo disse...

AGUARDANDO P/ SABER COMO SERÁ A CONTINUAÇÃO.....

andrea moura

A Metamorfose disse...

Também lembro de conversas antigas no bate-papo do facebook onde foi mencionada uma certa vizinha do prédio ao lado...
Janela indiscreta rsrs

 
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