Aviso: Infelizmente tivemos um atraso para postar este final de semana. No caso, este meu post deveria ter sido ontem (10/12/2011), no entanto não pude postar. Hoje, portanto, haverá um post meu e da Sacha Tavares.
Páginas retiradas dos diários de Anita Simões.
19 DE AGOSTO DE 1882
Ah! Que noite maravilhosa! Poderia passar a eternidade buscando palavras dos mais variados poetas medievais e românticos, mas jamais encontraria algumas que parecessem corretas para descrever o que hoje ocorreu. Já tive o prazer de apreciar os bucólicos quadros de Salvator Rosa (tenho especial apreço pela obra intitulada “L’ombre de Samuel apparaissant à Saüt chez la pythonisse d’Endor”, o qual pude admirar em minha estadia em Paris). Admiro de longa data sua obra, encontrando uma parte de mim há anos perdida, a porção pouco ortodoxa e extravagante, despedaçada ao longo de um casamento tradicional. Minha rebeldia de moça, outrora tão aparente, pouco se revela nos dias de hoje, tomando como recôndito meus diários e escritos; os quais tenho o prazer de me entregar enquanto meu doce marido ingressa no terreno onírico. Suas insolentes sátiras também me são aprazíveis e adoraria ter em mãos páginas suas que tanto traçam sobre o natural e os defeitos humanos, diferenciando-se assim dos autores de sua época, mas apenas tive o prazer de tê-las em uma biblioteca na França.
Fui convidada para ir a uma ópera por Amélia há uma semana, e mais cedo concretizamos o convite em uma maravilhosa descoberta de minha parte. De mesmo nome do pintor e poeta que antes comentei, mas de cerne completamente diferente deste, foi a ópera a qual assistimos. Encantou-me por suas melodias cotidianas e extremamente naturais em uma vida na cidade. Mas não foi apenas a sublime arte de Antônio Carlos Gomes a esse estado de felicidade ideal. A companhia foi perfeitamente agradável.
Creio, no entanto, que houve alguma espécie de obstáculo em sua residência, já que Joaquim não a acompanhava. Faço silenciosos votos de que não tenha sido nenhuma espécie de problema com sua saúde, tampouco problemas tão singulares aos casais. Disse-nos que ele estava indisposto por causa do trabalho, mas nem sempre a verdade deve ser dita publicamente, principalmente para pessoas recém-conhecidas. Nesta sociedade, cabe-nos perfeitamente o papel de enfeitarmos nossa realidade com todos os acessórios que a Europa puder nos oferecer, tornando-se assim aceitável à vista dos desocupados. Percebi um pouco de desconforto, inicialmente, partindo tanto de Amélia quanto de Carlos. Tinha conhecimento que ele esperava companhia masculina para se conservar ocupado, pois pouco lhe interessava aquele gênero de eventos que eu tanto apreciava. Fazia-me as vontades, e este era um dos motivos de ser tão querido. Quanto à pobre Amélia, deve ter ficado dividida entre a pequena vergonha de faltar um compromisso social marcado antecipadamente e o de ser vista sozinha, como uma dessas mulheres que valorizam os prazeres mundanos, ou ainda pior, solteira.
A música de Carlos Gomes era imortalizada em meu pensamento e transcendíamos num êxtase infindo. Apesar de todas nossas peculiaridades, eu e Amélia aparentávamos estar no mesmo ritmo naquele instante, em uma sintonia divina. Percebi que em um dos instantes meu marido se retirou de nosso camarote, provavelmente para fumar um charuto em algum local da titânica construção, e fiquei só ao lado de minha mais nova conhecida. Comentou algo sobre uma amizade próxima com o compositor daquela peça que certamente será um marco milenar na história da música, mas, em dado instante, os violinos adquiriram uma intensidade tantalizante e senti todo o meu corpo estremecer diante os acordes. Uma pressão partia do meu interior em direção ao ambiente num súbito prazer pungente. Não pude conter minha mão, que se agarrou ao braço de Amélia, envolvendo-o em parte. Quando meu coração voltou a se acalmar e meus pensamentos já eram donos de si, percebi minha falta de educação que permanecera sobre sua pele. Enrubesci imediatamente num calmo, mas complexo, encontro e posterior desencontro de prazer pela proximidade e vergonha pela fissão de nosso decoro feminino.
Permaneci inquieta durante a continuação do evento e um pouco mais quando Carlos avisou para Amélia que poderia levar-lhe em casa, mas esta negou sabiamente a oferta (afinal, sua carruagem já a esperava em frente ao Theatro). A noite trouxe a benção do olvido devido a doces conversas que tive com meu consorte. Mas aquela inquietação surge silenciosa, atravessando minhas portas e me alcançando, impassível à minha dor. Temo não ser levada a todos os sonhos que normalmente a noite me concede.
2 comentários:
Ai, posta o resto, posta o resto..
"Nesta sociedade, cabe-nos perfeitamente o papel de enfeitarmos nossa realidade com todos os acessórios que a Europa puder nos oferecer, tornando-se assim aceitável à vista dos desocupados."
Ininterruptamente.
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