sábado, 17 de dezembro de 2011

Fernanda facultativa


Tentava agradar de todas as maneiras, a pobre Fernanda. Nasceu em berço nobre, teve boa criação e nunca tirou uma nota ruim no colégio. Bons pais, bons tutores, boa aparência... Ótima aparência na verdade, porém preferia ocultá-la embaixo de óculos de tartaruga, camisas onde caberiam duas ou três dela dentro, e aparelhos dentários de ligas laranja. Ensino fundamental e médio, a mesma negação, a mesma auto afirmação. A crise da adolescência, da pré-juventude. O medo de crescer, de enfrentar o mundo. A falta de tudo ao redor, o bullying com nerds, a carência afetiva, o primeiro beijo que nunca chegava. Contrastando com isso, vinham as responsabilidades. O pai cobrando a melhor pontuação no vestibular, a mãe exigindo os melhores estágios antes mesmo da moça ingressar no bacharelado. A família cobrando o modelo perfeito de garota perfeita. O sucesso era obrigatório.

Eis que enfim o milagre aconteceu. O vestibular, a aprovação, a era universitária - finalmente - iniciava-se na vida da jovem, exatamente no mesmo ano que os óculos foram substituídos por um rayban pouco menor que a antiga armação, mas por alguma razão aquilo não era problema. Fernanda não entendia, mas agora todos usavam óculos parecidos com os dela. Seus cabelos lisos, sempre penteados com a ponta dos dedos apenas, agora eram tão comuns pelos corredores universitários quanto as camisas grandes e quadriculadas que, desde infante, roubara do armário de seu irmão mais velho. Não entendia a razão de suas calças de lycra que antes lhe eram razão de vergonha, hoje combinarem com essas camisas - deveriam combinar, já que todas as meninas da faculdade usavam. Foi em meio a essas descobertas que Fernanda conheceu Isadora. Motoqueira, tatuada, charmosa e a maior “pegadora” de todo o bloco de humanas. Foi na cama de Fernanda, em meio aos ursinhos de pelúcia e troféus de feiras de ciência, que Isadora arrancou os óculos grandes do rosto da moça, para não atrapalhar o entrelaçar das línguas, que acompanhava as carícias violentas das mãos da badgirl por dentro da camisa quadriculada, que logo seria atirada para o lado, seguida pelo soutien, e depois pelo jeans. Fernanda estava nua, livre, como nunca estivera antes. Isadora tateava seu corpo alvo, como quem busca um tesouro em algum deserto perdido. O fluxo perene da cachoeira quebrava na rebentação dos lençóis, dos toques, das línguas e dedos que corriam por toda parte, e entrelaçavam-se posteriormente onde deveriam. No ponto certo para que Fernanda apertasse o ombro de Isadora com toda força, fazendo o dragão tatuado no braço da motoqueira banhar-se em sangue e suor. Sangue. Dor. Prazer. A ofegante Fernanda agora compreendia a razão de ter se sentido diferente, excluída, descartada por toda sua vida. Aquela vida cheia de obrigações, e vazia de sentir, de estar, de tocar... Não poderia caber em um mundo de obrigações, pois agora, era facultativa.

3 comentários:

Fernanda Leão disse...

minha xará... bem diferente de mim! hehe :)

Unknown disse...

Adorei o fato desse micro-conto ter mostrado o quanto as coisas antes estranhas e feias são consideradas cool hoje em dia. uahsuhashu engraçado isso.

Muito bom também a sonoridade do título, achei bem inteligente.

Parabéns, o blog melhora a cada dia o/

Anônimo disse...

Espero ser uma opção da Fernanda um dia. Dorei!
Henrique

 
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