BELÉM, 11 DE AGOSTO DE 1882.
Minhas luvas estavam pousadas sobre a mesa de centro daquele grande Salão de Estar, tão delicadas quanto minhas mãos. Deslizava minhas visões e comentários pelo local, atentando para os pequenos objetos dispostos naquela casa. Tudo ali era belo, do mais bom gosto. Ainda que diferente de minha própria casa, o espírito ali cativo me despertava interesse, como os velhos romances que lia durante as horas de sono de Carlos. Essa similaridade entre o meu bem estar e o daquela casa era obra de outra dama da alta sociedade, como eu. Amélia. Observava-a sentada logo ao meu lado, num grande mobiliário construído de mogno e com estofado branco. Sorri levemente envergonhada por ter me perdido em meus próprios pensamentos, o que frequentemente ocorria.
Nossos consortes haviam marcado uma pequena reunião para discutir sobre assuntos masculinos, os quais, felizmente, não necessitavam de minha atenção. Disse-lhe que poderia lhe acompanhar, mas que Paul Verlaine e seus Poèmes saturniens iriam comigo, impedindo assim que momentos enfadonhos permanecessem em minha presença. Ainda que seus poemas me agradassem em demasia, não necessitei abrir o manuscrito europeu. Fascinara-me inegavelmente. Não apenas seu gosto arquitetônico sublime ou sofisticado gosto musical; sua presença era impetuosa e sobrepujava a minha sem piedade. Sentia-me sufocada ali, ao seu lado, mesmo que falássemos apenas de futilidades. Eu era uma menina perto dela, ainda não despertara para a vida; e ela uma mulher.
Conversamos longamente. Mas, em dado instante, algo lhe chamara a atenção em outro canto da casa. Desesperei-me com aquela cena, pois exigia toda sua atenção para mim, somente para mim. Hesitei por alguns segundos. Pensei-lhe em tocar as mãos, suplicando-lhe seu olhar e palavras; mas não, isto seria de uma ousadia exacerbada. Enquanto imaginava várias outras maneiras fantásticas de dar continuidade à conversa, Amélia voltou-se para mim. Falamos apaixonadamente de vários outros assuntos, como pequenos festejos em nosso meio social e algumas atrações que haveriam de ocorrer no recém-fundado Theatro da Paz. Infelizmente, eu passara os últimos anos em Paris e, por isso, ainda não tinha tido a oportunidade de visitar a obra neoclássica e suas peças. Ela me respondeu com toda a paixão que dedicava ao arquitetônico, explicando-me bastante sobre o estilo da construção e tudo que ali ocorria. Convidou-me para lhe acompanhar a uma ópera no local. A conversa não se alongou por muito mais tempo, visto que os homens haviam terminado seus negócios. Agradeci-lhe por toda a hospitalidade que nos havia reservado, elogiei uma última vez seu bom gosto para decoração e lhe disse que em breve nos encontraríamos.
Poucos minutos atrás eu informei a Carlos sobre o convite que Amélia nos estendeu, e provavelmente ele não se importará em aceita-lo juntamente comigo. Já estou a imaginar como será tão magnífica noite. Estou ressentida com meu amado esposo, pois este está me exigindo seus direitos conjugais.
Post construído com auxílio da co-autora Sacha Tavares.
14 comentários:
Parece o início de alguma coisa muito boa.
Adorei a idéia! Ja imagino quantas descobertas estranhas essa mulher fará rs. Fiquei curiosa, vou acompanhar ^^
Primeiramente, eu gostaria de dizer que te odeio.
Odeio por que tu moras longe e - embora uma ameaça virtual faça-se necessária de vez em quando - não é tão eficiente quanto uma arma calibre 38 apontada pra tua cabeça.
Odeio por que geralmente escreves histórias fantásticas que me poderiam servir de inspiração, mas que tu só compartilha comigo depois que meio mundo já sabe o final.
Odeio por que esse comentário foi colocado aqui por vias coercitivas, então fica parecendo que eu não iria comentar se não tivesses me obrigado, o que não era verdade. Ou era. Foda-se.
Enfim: odeio por que a história está muito boa e tivemos MUITO pouco dela aqui na primeira parte. Custava nada colocar só mais duas passagens do diário, né? D:
Segundamente gostaria de dizer que... Era só isso mesmo.
Que narrativa belissima, nos prende e nos sugere mistérios. Muito interessante! Aguardo novas postagens.
Adorei os primeiros momentos. Ansioso para as novas postagens! :)
o legal de escrever é quando isso acontece...(o leitor consegue visualizar a cena, os personagens.... é como se pudéssemos com os olhos fechados pegar os diários e junto com ela, folhear cada página, revivendo cada reação, cada pensamento...
sabes que adoro poesia, contos, histórias, romances... enfim!!
Notre Belle Èpoque é mais um conto-romance que espero ler mais e mais....
Andréa Moura
Chocado que saibas escrever bem. Feliz por ter lido.
Maneiro, aguardo o resto da história :]
bellissimo o trabalho de vcs adorei.
E aguardo postagens
sucesso
by:bruna guedes
Aguardando o resto =P
Que feliz surpresa tive ontem quando o Bruno me presenteou com algumas de suas histórias. Elas viciam, sabia? Parabéns!
Muito ansiosa pela continuação *.*
Pois bem, vou começar elogiando: a forma de escrita apresentada em ambas as partes do texto condiz com o que o autor deseja, ou seja, guiar o leitor para ambos os tempos da história. No entanto, faz-se necessário algumas leves correções no que diz respeito aos pronomes que foram ocultados em alguns momentos. Coisa besta mesmo. De resto ficou adorável, espero que vocês de fato deem continuidade ao projeto.
O que admiro nos textos e contos do Bruno é a capacidade que ele tem de traduzir os movimentos do coração do personagem a ponto de nos fazer sentir e entender o sentimento ali vivido. Sai da letra abstrata para um turbilhão de toques, cheiros, sons, gostos... Enfim parabéns, aos dois, por dividirem seus dons literários com agente.
Muito, muito bom, esperando ansiosamente pela próxima parte do diário... está magnífico. Parabéns Bruno.
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