Belém, doze de agosto de mil oitocentos e oitenta e dois.
sábado, 26 de novembro de 2011
Notre Belle Èpoque pt. 2
Belém, doze de agosto de mil oitocentos e oitenta e dois.
Notre Belle Èpoque pt. 1
BELÉM, 11 DE AGOSTO DE 1882.
Minhas luvas estavam pousadas sobre a mesa de centro daquele grande Salão de Estar, tão delicadas quanto minhas mãos. Deslizava minhas visões e comentários pelo local, atentando para os pequenos objetos dispostos naquela casa. Tudo ali era belo, do mais bom gosto. Ainda que diferente de minha própria casa, o espírito ali cativo me despertava interesse, como os velhos romances que lia durante as horas de sono de Carlos. Essa similaridade entre o meu bem estar e o daquela casa era obra de outra dama da alta sociedade, como eu. Amélia. Observava-a sentada logo ao meu lado, num grande mobiliário construído de mogno e com estofado branco. Sorri levemente envergonhada por ter me perdido em meus próprios pensamentos, o que frequentemente ocorria.
Nossos consortes haviam marcado uma pequena reunião para discutir sobre assuntos masculinos, os quais, felizmente, não necessitavam de minha atenção. Disse-lhe que poderia lhe acompanhar, mas que Paul Verlaine e seus Poèmes saturniens iriam comigo, impedindo assim que momentos enfadonhos permanecessem em minha presença. Ainda que seus poemas me agradassem em demasia, não necessitei abrir o manuscrito europeu. Fascinara-me inegavelmente. Não apenas seu gosto arquitetônico sublime ou sofisticado gosto musical; sua presença era impetuosa e sobrepujava a minha sem piedade. Sentia-me sufocada ali, ao seu lado, mesmo que falássemos apenas de futilidades. Eu era uma menina perto dela, ainda não despertara para a vida; e ela uma mulher.
Conversamos longamente. Mas, em dado instante, algo lhe chamara a atenção em outro canto da casa. Desesperei-me com aquela cena, pois exigia toda sua atenção para mim, somente para mim. Hesitei por alguns segundos. Pensei-lhe em tocar as mãos, suplicando-lhe seu olhar e palavras; mas não, isto seria de uma ousadia exacerbada. Enquanto imaginava várias outras maneiras fantásticas de dar continuidade à conversa, Amélia voltou-se para mim. Falamos apaixonadamente de vários outros assuntos, como pequenos festejos em nosso meio social e algumas atrações que haveriam de ocorrer no recém-fundado Theatro da Paz. Infelizmente, eu passara os últimos anos em Paris e, por isso, ainda não tinha tido a oportunidade de visitar a obra neoclássica e suas peças. Ela me respondeu com toda a paixão que dedicava ao arquitetônico, explicando-me bastante sobre o estilo da construção e tudo que ali ocorria. Convidou-me para lhe acompanhar a uma ópera no local. A conversa não se alongou por muito mais tempo, visto que os homens haviam terminado seus negócios. Agradeci-lhe por toda a hospitalidade que nos havia reservado, elogiei uma última vez seu bom gosto para decoração e lhe disse que em breve nos encontraríamos.
Poucos minutos atrás eu informei a Carlos sobre o convite que Amélia nos estendeu, e provavelmente ele não se importará em aceita-lo juntamente comigo. Já estou a imaginar como será tão magnífica noite. Estou ressentida com meu amado esposo, pois este está me exigindo seus direitos conjugais.
Post construído com auxílio da co-autora Sacha Tavares.