sábado, 17 de dezembro de 2011

Fernanda facultativa


Tentava agradar de todas as maneiras, a pobre Fernanda. Nasceu em berço nobre, teve boa criação e nunca tirou uma nota ruim no colégio. Bons pais, bons tutores, boa aparência... Ótima aparência na verdade, porém preferia ocultá-la embaixo de óculos de tartaruga, camisas onde caberiam duas ou três dela dentro, e aparelhos dentários de ligas laranja. Ensino fundamental e médio, a mesma negação, a mesma auto afirmação. A crise da adolescência, da pré-juventude. O medo de crescer, de enfrentar o mundo. A falta de tudo ao redor, o bullying com nerds, a carência afetiva, o primeiro beijo que nunca chegava. Contrastando com isso, vinham as responsabilidades. O pai cobrando a melhor pontuação no vestibular, a mãe exigindo os melhores estágios antes mesmo da moça ingressar no bacharelado. A família cobrando o modelo perfeito de garota perfeita. O sucesso era obrigatório.

Eis que enfim o milagre aconteceu. O vestibular, a aprovação, a era universitária - finalmente - iniciava-se na vida da jovem, exatamente no mesmo ano que os óculos foram substituídos por um rayban pouco menor que a antiga armação, mas por alguma razão aquilo não era problema. Fernanda não entendia, mas agora todos usavam óculos parecidos com os dela. Seus cabelos lisos, sempre penteados com a ponta dos dedos apenas, agora eram tão comuns pelos corredores universitários quanto as camisas grandes e quadriculadas que, desde infante, roubara do armário de seu irmão mais velho. Não entendia a razão de suas calças de lycra que antes lhe eram razão de vergonha, hoje combinarem com essas camisas - deveriam combinar, já que todas as meninas da faculdade usavam. Foi em meio a essas descobertas que Fernanda conheceu Isadora. Motoqueira, tatuada, charmosa e a maior “pegadora” de todo o bloco de humanas. Foi na cama de Fernanda, em meio aos ursinhos de pelúcia e troféus de feiras de ciência, que Isadora arrancou os óculos grandes do rosto da moça, para não atrapalhar o entrelaçar das línguas, que acompanhava as carícias violentas das mãos da badgirl por dentro da camisa quadriculada, que logo seria atirada para o lado, seguida pelo soutien, e depois pelo jeans. Fernanda estava nua, livre, como nunca estivera antes. Isadora tateava seu corpo alvo, como quem busca um tesouro em algum deserto perdido. O fluxo perene da cachoeira quebrava na rebentação dos lençóis, dos toques, das línguas e dedos que corriam por toda parte, e entrelaçavam-se posteriormente onde deveriam. No ponto certo para que Fernanda apertasse o ombro de Isadora com toda força, fazendo o dragão tatuado no braço da motoqueira banhar-se em sangue e suor. Sangue. Dor. Prazer. A ofegante Fernanda agora compreendia a razão de ter se sentido diferente, excluída, descartada por toda sua vida. Aquela vida cheia de obrigações, e vazia de sentir, de estar, de tocar... Não poderia caber em um mundo de obrigações, pois agora, era facultativa.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Pique-esconde

Permanecia sentado empertigado durante as aulas de qualquer um dos professores, como um típico sabe-tudo. Ainda não estava plenamente acostumado com a constante troca de professores num único dia da semana, de matemática para ciências e logo depois para redação, por exemplo. Havia ingressado no oitavo ano há pouco tempo. O aumento na expectativa dos professores e a pouca conexão entre o mestre e seus alunos eram sentimentos generalizados. Quero dizer, o oitavo ano é uma fase de transição; fase esta que começamos a nos tornar cada vez menos crianças e mais adolescentes. Com isso, novas brincadeiras pipocam aqui e ali, num misto do infantil e do adolescente. As meninas se agrupam em bandos, passando a viver de risinhos e olhares. Os meninos elegem líderes entre si em constantes disputas pouco óbvias de força e dominação, baseados em contar vantagens e em aparência. Eu permanecia alheio a tudo isso, e mantinha minha pose superior, pétreo.

Minha pouca idade influenciava esse meu posicionamento quanto ao que acontecia ao meu redor. Veja bem, eu era um único ano mais novo que meus companheiros, mas isso parecia fazer toda a diferença no desenvolvimento dos meus comportamentos. Enquanto eles brincavam de se empurrar e se dar socos, meu olhar se voltava para os brinquedos antigos, agora esquecidos por todos eles. No início ainda tentei voltar para a infância, onde tudo era mais simples, mais puro. Porém as risadas por causa de meu comportamento infantilizado fizeram com que eu me voltasse à realidade e avançar lentamente, avançar para onde a maioria caminhava em uníssono. Naquela época, eu não quis andar naquela direção.

Conservava ainda demasiado orgulho por ser o mais novo da turma, usualmente tratado com diminutivos, que geralmente só intensificavam mais minha imagem de criança. Para mim, aquele orgulho era plausível e necessário. Era o que me fazia sobreviver por ser tão discrepante daqueles ao meu redor. Observava-os de cima, como se eles fossem comuns e isso os fizesse inferiores. Eu, ao contrário, era perspicaz e inteligente, além de ser geralmente o foco de atenção de todos os professores e adultos. Este pensamento me mantinha preso num sentimento de segurança, num mundo iluminado acima das expectativas do grupo em que eu estava obrigatoriamente inserido fisicamente. Aquele mundo era longe de qualquer reprovação dos adultos, que eu insistia em afirmar que consistia de mais alta importância, e dissociado do mundo dos outros. Os outros eram cheios de pecados e dignos da mais pura reprovação, afinal, eu sabia de tudo o que faziam quando estavam longe dos olhares mais experientes. Achava-me similar à uma ave, que tem a permissão de acesso a dois mundos completamente diferentes, porém não pertence por inteiro a nenhum deles; afinal, nem eu nem uma ave poderíamos sobreviver sem transitar livremente por estes espaços paralelos.

Naquele momento eu observava Camila a certa distância. Havia nela algo de divino, algo que a diferenciava das outras garotas. Seus longos cabelos lisos e louros não eram avolumados como era comum na minha sala de aula. Seus cabelos combinavam perfeitamente com suas feições, eram finos e esguios. Eu a considerava tal qual uma princesa. Refinada. Aristocrática. Intocável. Ainda não havia percebido alguns traços de meus desejos, e ainda confundia demais minha apreciação poética com meu lado instintivo masculino. Para lhe falar a verdade, ainda o negava quase que completamente. O único indício de que eu havia um sexo era a minha vontade escondida no mais recôndito pedaço da minha alma: ser igual. Às vezes eu demorava a dormir de noite, quando admitia a dualidade disso. Querer ser diferente e querer ser igual. Estes dois animais brigavam incessantemente no meu ser, dilacerando-se/me através da noite, arrancando-me lágrimas e gemidos. Ainda não conhecia o amor nem a auto aceitação. Ainda não os conheço completamente.

Passei vários dias ‘apaixonado’ por Camila. Ou seja, observando a leveza de seu andar e sua feminilidade exacerbada. Pensava que um dia poderia leva-la para passear pelos jardins públicos e, de repente, segurar suas pequenas mãos entre as minhas. Neste momento olhava para as minhas próprias mãos e ficava frustrado ao perceber que elas eram pequenas, menores do que as de outros meninos, o que lhes dava uma aparência feminina. E a frustração se intensificava quando eu me pegava fazendo comparações entre o tamanho dos outros rapazes e o meu próprio. Olhava-me no espelho e via um raparigo magrelo, de feições refinadas e olhar frio; sempre via aquele rapaz pequeno e frágil. Então eu começava a reparar em rapazes da minha sala. O Diego tinha um ar de malandro, o qual deixava todas as garotas meio assanhadas por ele, e carregava sempre um sorriso de desdém extremamente atrativo. E então me irritava por estar prestando atenção nele, e voltava meu pensamento para a minha própria imagem.

Uma vez eu estava em uma roda de garotos, o que ainda não me era completamente estranho. Eles conversavam de modo desleixado, lentamente, deixando uma atmosfera densa. Às vezes, enquanto conversava com eles, me imaginava em um filme de traficantes de drogas. Todos os homens sentados ao redor de uma mesa, um cigarro pendendo da boca de alguns deles e uma mesa cheia de cartas e copos de whisky. Mas aquela sensação não era simples de entender. Conservava um pouco de perigo, como se eu tivesse sido carregado para o mundo das trevas extremamente atrativo para a criança Sinclair; além de sensualidade. É. É essa a palavra: sensualidade.

- Então, é normal quando tu ficas mais velho esses pelos começarem a aparecer mesmo. Né, cara? – perguntou, olhando para outro menino que estava na roda.

O outro assentiu, mas naquele instante percebi que era por pura aceitação incondicional dos fatos apontados pelo Diego. É como se ele fosse o líder do bando, o macho alfa. Todos os outros meninos o seguiriam para qualquer lugar e sequer perceberiam essa tendência. E, por mais que tudo aquilo fosse magnético para mim, meu consciente não queria estar ali. O meu lado sofisticado queria estar longe. Meu lado mundano, no entanto, queria ser o líder daquele bando ou subjugado por aquele que fosse mais forte.

Aquelas sensações começavam a borbulhar dentro da minha alma. Uma mistura de atração pelo delicado e diáfano cheiro de Camila e pela pujança natural de Diego. Tudo aquilo chegou a confundir toda a minha organização e comecei a me perguntar se todos eles passavam por tamanha dificuldade também. Mas todos eles pareciam tão cheios de si, tão conforme o que seus instintos os mandavam fazer. Não parecia para mim que poderia haver qualquer confusão dentro deles.

Alguns dias depois que me apercebi em tal situação, um dos professores pediu que fizéssemos um trabalho em dupla. Jamais faria um trabalho com o Diego; já que ele não parecia expor qualquer habilidade para tais atividades. Revistei a sala para verificar se haveria alguém para estar numa dupla comigo, desejando silenciosamente que Camila ainda não tivesse caído nas garras de suas amigas fofoqueiras. Era de mais extrema ingenuidade pensar que, mesmo que ela ainda estivesse livre, ela faria aquela atividade extraclasse comigo. Para o bem de meu ego todas as meninas da sala já tinham se ocupado entre si. Caio, um dos seguidores de Diego, aproximou-se de mim sozinho. Olhei-o meio surpreso com aquilo, pois ele jamais deixava a companhia dos outros meninos a não ser na hora de ir embora da escola. Ele era um rapaz um pouco menor que Diego, mas conservava o mesmo estilo de aparência e imposição que o outro; ainda que fosse, em minha opinião, mais esperto. Perguntou-me sobre o que eu estava jogando, e eu respondi que começara a jogar Resident Evil 4 num Playstation 2 que meu pai recentemente me dera; mas estava mais interessado em cortar a baboseira e saber o que ele queria comigo. Não era nada comum ele ir falar comigo, mesmo na companhia dos outros, e aquilo me parecia muito incomum. Após algumas linhas de conversa sobre games, Caio me convidou para fazer o trabalho com ele. Iríamos nos reunir em sua casa naquele mesmo dia, às três horas da tarde. Deu-me seu endereço anotado e disse que iria me esperar no horário marcado.

Parti inquieto para casa ao fim da aula. Não sabia o que imaginar com aquela mudança repentina no comportamento de Caio. Imaginei diversas vezes que ele estava planejando alguma coisa, mas não conseguia precisar o quê.

Avisei para minha mãe que iria para a casa de um amigo da escola naquele horário e saí de casa um pouco antes do horário marcado. Sua casa não era muito distante da minha e ficava bem perto de nossa escola, sendo que minha mãe me deixou ir sozinho para lá por causa disso. Cheguei a frente à sua casa. Ela era bonita e com um ar aristocrático. O muro da entrada era coberto por trepadeiras e culminavam em uma série de espinhos metálicos na parte superior da estrutura. Um pequeno telhado cobria a parede de concreto que separava o exterior da garagem. Apertei na campainha, curioso para ver a casa por dentro. Em poucos minutos uma senhora me atendeu. Não, não uma senhora. Era uma mulher extremamente bonita, com traços fortes e um tanto quanto masculinizados, de cabelos negros e olhar impositivo. Vestia-se como advogada. Deixou-me entrar e me avisou que o Caio me esperava na sala para fazer o trabalho.

Entrei na casa sentindo-me acanhado. Observava a estrutura da casa com certa curiosidade, mas já não conseguia me atentar completamente a ela. Avistei meu colega de classe sentado no sofá, jogando videogame. Sentei-me ao seu lado e logo recebi um controle pra jogar um pouco com ele. Paramos de jogar depois de uma meia hora e fomos logo fazer nossa atividade. A tarde foi bastante agradável. Ficamos conversando por horas sobre alguns jogos e personagens, e depois ele me acompanhou até em casa com a desculpa de ir até uma pequena loja para comprar refrigerante. A partir deste dia começamos a nos dar bem e ele se tornou o meu primeiro amigo de verdade. Ao menos eu o considerava assim.

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Após algumas semanas comecei a perceber uma movimentação estranha pela sala. O Caio sentava agora logo atrás de mim, tendo se mudado para ali apenas alguns dias depois de fazermos aquele antigo trabalho. Passara todo esse tempo absorto em sua companha, envolvido pelo seu sorriso e conversa mansa sobre nossos gostos em comum. Raramente olhava agora na direção da menina por quem um dia eu alimentara uma pequena paixão platônica, tampouco na direção de Diego, quem eu tanto admirara semanas antes. Mal percebera que este último agora estava mais arredio com algumas pessoas da sala, inclusive comigo.

Numa terça-feira, logo no começo da aula, eu já estava ansioso pela chegada do Caio. Passara de uma fase bastante difícil na noite anterior e queria dividir tudo com ele. Fiquei observando a porta da sala, vendo todo mundo da sala entrar um após o outro, até a chegada da professora de matemática. Franzi o cenho, curioso e preocupado. Fiquei imaginando motivos para ele não ter ido à aula, mas nada de plausível me vinha à cabeça. Na chegada do segundo período, quando os retardatários poderiam entrar na sala, a mesma ansiedade surgiu em mim; mas ninguém além de uma das amigas de Camila entrou na sala. Iria à sua casa logo depois da escola para verificar se ele estava bem. Em pouco tempo o intervalo chegou e eu decidi ficar na sala. Conservava o hábito de andar por ela quando estava vazia para poder pensar nos livros que lia e imaginar diferentes finais ou ações dos personagens. Nem percebi quando Diego entrou na sala e ficou me observando de modo sorrateiro.

Quando olhei na direção da porta me surpreendi com sua presença. Ele me observava com o típico sorriso maroto. Fazia algum tempo que eu não parava para lhe observar. Ele estava bem vestido como sempre e seu cabelo arrumado num perfil coincidentemente desleixado. Um dândi. Murmurei um ‘oi’ um tanto encabulado, achando que ele havia entrado apenas para pegar algum dinheiro para seu lanche ou algo do gênero. No entanto, Diego foi se aproximando de mim como um caçador; e eu recuando para a parede, assustado com o que ele poderia fazer comigo. Encostou-me à parede, seus braços postados de cada um dos meus lados, impedindo que eu me movimentasse com fluidez.

- Queria saber por que às vezes você é assim meio metido... – falou, olhando-me diretamente aos olhos.

Uma confusão de sentimentos começava a me devastar. O primeiro deles foi medo por estar sozinho numa sala escura, encurralado por um cara maior do que eu. O segundo foi vergonha por estar sendo enfrentando tão diretamente e não ter força física nem mental para rechaçar aquele ataque como um dos personagens de meus jogos e livros. O terceiro: excitação. Ainda não sabia discernir o que era aquilo, aquele aumento no número de batimentos cardíacos e aquele nervosismo exacerbado. Fiquei confuso com seu perfume invadindo-me os poros e me deixando encantado. Senti uma pressão conhecida na minha região pélvica, mas preferi ignorar aquela sensação. Mandei ele me deixar em paz, mas ele continuou ali à minha frente, sorrindo obsedante.

O alarme que sinalizava o término do intervalo entre aulas soou. Diego se afastou de mim, ainda olhando diretamente nos meus olhos. Acendeu a luz da sala e me deixou ali, estático e extático.

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Dias se passaram e não conseguia esquecer o que acontecera naquele intervalo de apenas quinze minutos. Seu perfume ainda estava tão real para mim quanto naquele instante. O nervosismo ainda crescia forte e pungente dentro de mim só de pensar naquela cena. Parecia-me uma cena de um filme. Passei várias noites pensando e pensando. Em uma noite cheguei à única conclusão que não machucaria meu ego: ele gostava de me perturbar. Era o mais simples e eu deveria dormir com isso. Todas aquelas minhas outras sensações deveriam ser esquecidas e eu jamais poderia pensar nele de outra forma. Tive um sono inquieto. Sonhei que estava num passeio com meus pais, e quando olhei para o lado eles não eram mais os mesmos. Agora andava de mãos dadas com Camila e Diego. Os dois se aproximavam de mim e começavam a me tocar indecentemente, descendo suas mãos até minhas pernas de criança. Acordei exaltado, aquela cena ainda em minha cabeça e os efeitos visíveis no meu sexo.

Precisava contar do que acontecera com o Diego para alguém para ter alguma certeza de que aquilo nada significava. Meu único amigo era o Caio, mas não sabia se deveria contar para ele este tipo de coisa. Por fim, resolvi que deveria lhe contar de uma maneira que deixasse evidente minha irritação com o acontecido, para então ver sua reação. Falei com ele na escola sobre ir à sua casa durante de tarde para conversarmos. Ele bateu de ombros e disse que pediria para a mãe comprar uma pizza no supermercado para lancharmos. Saí nervoso da escola pela conversa que viria. Almocei apressadamente e fui jogar Naruto para esperar o tempo passar.

Cheguei a sua casa um pouco depois das 14 horas. Passamos direto para o seu quarto e eu murmurei um rápido bom dia para sua mãe, que estava conversando com alguém ao celular. Nos trancamos em seu quarto, como de hábito, mas sem nenhum motivo em especial. Agora eu já estava acostumado com seu quarto. Um beliche ficava em um dos cantos, sendo que a cama de baixo era lotada de CDs e quadrinhos de super-heróis. Subimos para a cama de cima com alguns dos quadrinhos logo depois de ele colocar Aerosmith para tocar em seu laptop. Mostrou-me algumas das novas aventuras dos Vingadores, até que eu reuni coragem para entrar no assunto que eu realmente queria abordar.

Contei-lhe com detalhes sobre como o Diego me abordara dias antes, e de como eu tinha ficado irritado com aquilo. A tensão subiu em mim e comecei a respirar mais rapidamente, esperando que ele respondesse alguma coisa. Caio ficou parado por mais de dois minutos, parecendo entretido com alguma coisa em sua revista. Eu fiquei lhe observando, nervoso. Ele levantou a cabeça lentamente, como o slow motion dos filmes do Zack Snyder, e me encarou. A tensão entre nós cresceu conscientemente e se tornou palpável. Ele se aproximou e me deu o primeiro beijo na boca, deixando-me completamente sem reações. Não sabia o que fazer a partir dali e não correspondi da forma que ele esperava, tanto que ele se afastou. Desculpou-se e pediu para que eu fosse embora. Guiado por ele eu voltei para minha casa.

Aquele beijo despertou um fogo dentro de mim. Cada célula minha clamava por uma segunda experiência, e então por uma terceira e por uma quarta; assim infindavelmente. Passei o dia pensando em como seria se tivesse correspondido como já tinha visto nos filmes e novelas. De noite, deitado em minha cama, aquele fogo voltou a se expandir em mim. Cada parte do meu corpo se sentia extasiado com a lembrança do primeiro beijo, sobrepujando completamente o delicado em Camila e o charme de Diego. Pela primeira vez eu descobri o prazer de me tocar. Sentia cada parte do meu corpo explodindo como mil fogos de artifício a cada toque das minhas mãos; e logo percebi o quanto o meu sexo necessitava ser tocado também. Minha mão esquerda descobria cada local sensível do meu corpo, e minha mão direita se movia lentamente envolvendo meu pênis. Aquele prazer culminou em pouco mais de um par de minutos num jato de prazer e êxtase. Por um momento me desesperei com aquilo que me estava acontecendo, com a mente nublada e querendo saber o que estava sentindo. Logo aquilo passou, deixando ainda alguns arrepios frenéticos após o ponto máximo.

Dormi num misto de culpa e felicidade pela minha autodescoberta.

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Não sei bem o que mudou em mim desde aquela noite. Comecei a me sentir um homem, não mais uma criança ingênua. Comecei a invadir o espaço de Diego, como se a desafiá-lo; mas ele não voltou a me atacar tão diretamente como daquela vez, ainda que eu desejasse que acontecesse novamente. Caio parou de falar comigo, ainda que eu tentasse constantemente que ele correspondesse ao meu afeto. Camila foi esquecida por todo aquele período. Pensar nela não me dava aquele prazer recém-descoberto, então se tornou pouco importante para mim. Acabei por ir deixando de lado a birra de Caio comigo, já que um pequeno problema em casa me aparecera.

Estávamos morando os últimos anos em uma casa relativamente pequena, e meus pais queriam uma casa maior. Haviam encontrado uma um pouco distante da escola, com piscina e uma grande área ao redor da casa onde eu poderia brincar e correr. Uma noite meu pai chegou com a grande novidade de que tinha fechado um bom negócio pela casa e que agora teríamos uma piscina e eu poderia finalmente ter meu cachorro. De onde ele tirou a ideia de que eu queria um cachorro eu não sei, mas a piscina me pareceu interessante. Em poucos dias me acostumei com a ideia de me mudar. A única coisa próxima dali que me prendia era o Caio, mas a mãe dele poderia levar ele para me visitar assim que ele resolvesse voltar a falar comigo.

Em pouco menos de um mês já estávamos na casa nova. Passei os primeiros dias me divertindo sozinho na piscina durante quase toda à tarde, pensando em reinos distantes e imaginando outras coisas fantásticas. De noite eu estudava, jogava e lia; e um pouco antes de dormir me rendia aos meus prazeres animalescos. Agora já estava acostumado a me tocar, e descobrira um canal na minha televisão que auxiliava minha imaginação. Ainda que fosse bom, não era o suficiente.

Alguns dias depois eu saí para comprar refrigerante, e na volta eu observei um rapaz meio magricela em frente de uma casa quase em frente à minha. Seus cabelos eram bem negros e em formato de cuia, seu rosto arredondado, quase feminino, e seus traços orientais. Ele tomava banho com uma mangueira que saía de sua casa e eventualmente jogava água num carro. Quando passei ele desviou o jato de água em minha direção, sorrindo feliz. Não chegou a me acertar. Eu sorri de volta, desconcertado, mas receptivo ao óbvio convite. Corri para casa, deixei o refrigerante em cima da mesa da cozinha e voltei para brincar com o menino que ainda nem sabia o nome. Passamos toda aquela tarde quente brincando, uma parte em frente de sua casa e logo depois na minha piscina. Isso se tornou um hábito.

Nos dias seguintes começamos a jogar todo o tipo de jogo de videogame, até que descobrimos um jogo que nos deixava animados em demasia: o bom e velho Mortal Kombat. Jogávamos em meu computador com dois controles de cabo USB, e depois brincávamos de luta na água. Nossas lutas eram sempre entre Shao Tsung (eu) e Kung Lao (ele). Ficávamos nos empurrando, dando socos e chutes, espirrando água no outro e... nos segurando firmemente um de encontro ao corpo do outro. A princípio eu não percebi qualquer conotação sexual naquilo, mas em uma de nossas brigas para salvar o mundo ou dominá-lo eu senti seu sexo rijo encostando-se a mim. O meu ganhou virilidade na mesma hora, e continuamos nossa intensa briga na água.

Dias se passaram e nossas brincadeiras continuavam daquela mesma forma. Ninguém parecia querer tomar o próximo passo. Um dia corríamos ao redor da casa, ainda entre seus muros. Brincávamos de pique-esconde, e logo o encontrei atrás da porta da Lavanderia, bem ao fundo da casa. Cheguei sorrindo e fui avançando para ele. Não sei que ímpeto me deu, mas lhe beijei com todo o vigor que me foi possível. Começamos a esfregar nossos sexos, o que nos arrancava gemidos de prazer, enquanto nossas línguas se envolviam num frenesi encantador. Pique-esconde se tornou uma brincadeira constante em nossa vida, e eu sempre o encontrava atrás de cortinas, debaixo de camas ou em algum lugar desabitado da casa.

Algumas semanas depois Caio voltou a falar comigo, como se nada tivesse acontecido em primeiro lugar. Sentou-se na minha frente, como nos velhos tempos. Perguntou-me se estava jogando alguma coisa interessante e como era a minha nova casa. Perguntei-lhe de volta:

- Gostas de Pique-Esconde?

domingo, 11 de dezembro de 2011

Notre Belle Èpoque pt. 4

Páginas retiradas dos diários de Amélia Cavaleiro

Belém, dezenove de agosto de mil oitocentos e oitenta e dois.

Acabo de recostar-me esbaforida à parede de meus aposentos. Após respirar com tanta voracidade que minhas palpitações pareciam quase visíveis em meu colo alvo, corri para a penteadeira, e destranquei a gaveta onde escondo meu diário, na carência desesperada de relatar meu infortúnio. Hoje era chegada a noite pela qual eu tanto ansiava, em meio a meus devaneios. Notoriamente não se assucedeu como esperado por mim, levando em conta o estado que me encontro, descrito linhas acima, porém a mudança na ordem dos fatos ocorridos não indica necessariamente que a noite foi ruim. Muito pelo contrário! A noite foi encantadora, maravilhosa... quase não encontro adjetivos para descrever os tão sublimes momentos por mim vividos horas mais cedo. O caso é que não posso de fato afirmar que a noite, como um todo, foi assim magnífica. Corri perigo, senti medo. Estas sensações afloraram-me no início da noite, e retornaram no final dela... Nem sei dizer se já se foram de vez.
Fui ao Theatro, como outrora combinara com Anita. Esperava encontrá-la como eu mesma me encontrava, a sós. Não aconteceu. Carlos estava ali, no auge de sua elegância de bancário, parado ao lado de sua elegantíssima esposa. Anita. Minha doce e bela Anita. Sempre conservando seus bons modos, seu fino porte, sua cálida delicadeza. Surpreendi-me inicialmente. Tivera tanto trabalho para conseguir sair naquela noite sem que Joaquim me acompanhasse! Mais trabalho ainda para que ele me permitisse sair sem ele. Agora, lá estava ela, e Carlos, lado a lado. Eu, sozinha, correndo o risco de ser mal vista. Mal interpretada. Talvez tomada por adúltera ou solteirona, levando em consideração que estava desacompanhada. Preferi afastar esses pensamentos, a visão de Anita me inebriara o bastante para que eu esquecesse temporariamente o constrangimento do momento. Carlos perguntou-me por Joaquim, e informei a ele o motivo, inventado anteriormente por mim, para que meu cônjuge não estivesse presente para apreciar a ópera conosco. Levei em conta que não poderia ser diferente, e parti rapidamente para o camarote na companhia do casal, esperando ser reconhecida por poucos amigos da família, e a ausência de Joaquim passar despercebida. Por certos momentos, lamentei não tê-lo levado, mas sinceramente não faria diferença. Ele não entenderia absolutamente nada sobre a ópera de qualquer jeito, apesar do Carlos Gomes sempre jantar em nossa residência com a família, e de Joaquim anunciar de maneira enfadonha a cada novo encontro o quão maravilhosa estava a Salvador Rosa, sua nova ópera (a bendita ópera a qual eu, Anita e Carlos Simões vislumbramos hoje), eu e Joaquim sabemos muito bem que ele sempre dorme quando vamos ao Theatro, e que por vezes é preciso que eu o balance com força para que pare de roncar tão alto.
O ponto forte da noite, no entanto, foi o momento em que Carlos nos deixou a sós para pitar um cigarro do lado de fora do teatro. Eu e Anita finalmente encontramo-nos a sós. Sorri para ela, enquanto a ópera acontecia, e ela retribuiu de forma serena. Comentei sobre a amizade de Joaquim com o autor da obra, e ela parecia confortável, até o instante sublime em que a ópera tornou-se mais intensa, mais forte, mais envolvente. Anita, frágil como é, sobressaltou-se, e não sei se por susto ou emoção, tocou-me o braço com as pontas dos dedos, apertando-os levemente em torno de minha pele. Senti aquele toque único, latente, aveludado como tudo em Anita, e então foi meu coração que sobressaltou-se. Ela disfarçou o constrangimento após o ato, e recolheu sua mão ao próprio colo.
A noite seguiu-se calma, sem maiores impressões. Carlos ofereceu levar-me até em casa, mas minha carruagem aguardava-me ali, e mesmo assim nossa propriedade não ficava tão distante. Agradeci, e retornei para casa agradecida pelo novo encontro com Anita, ansiando um novo e breve.
O caminho de volta, no entanto, trouxe-me uma preocupação. Notei uma carruagem estranha seguindo a minha, com as cortinas fechadas e cavalos negros, de crinas muito bem escovadas. Ao passo que meu cocheiro acelerava, sob minhas ordens, a carruagem repetia nossos atos, sem hesitar. Perguntei ao cocheiro se aquilo significaria algo para ele, e ele disse para não me preocupar.
Joaquim está subindo as escadas. Preciso cumprir com minhas obrigações. Vou pensar em Anita.

Notre Belle Èpoque pt. 3

Aviso: Infelizmente tivemos um atraso para postar este final de semana. No caso, este meu post deveria ter sido ontem (10/12/2011), no entanto não pude postar. Hoje, portanto, haverá um post meu e da Sacha Tavares.


Páginas retiradas dos diários de Anita Simões.

19 DE AGOSTO DE 1882

Ah! Que noite maravilhosa! Poderia passar a eternidade buscando palavras dos mais variados poetas medievais e românticos, mas jamais encontraria algumas que parecessem corretas para descrever o que hoje ocorreu. Já tive o prazer de apreciar os bucólicos quadros de Salvator Rosa (tenho especial apreço pela obra intitulada “L’ombre de Samuel apparaissant à Saüt chez la pythonisse d’Endor”, o qual pude admirar em minha estadia em Paris). Admiro de longa data sua obra, encontrando uma parte de mim há anos perdida, a porção pouco ortodoxa e extravagante, despedaçada ao longo de um casamento tradicional. Minha rebeldia de moça, outrora tão aparente, pouco se revela nos dias de hoje, tomando como recôndito meus diários e escritos; os quais tenho o prazer de me entregar enquanto meu doce marido ingressa no terreno onírico. Suas insolentes sátiras também me são aprazíveis e adoraria ter em mãos páginas suas que tanto traçam sobre o natural e os defeitos humanos, diferenciando-se assim dos autores de sua época, mas apenas tive o prazer de tê-las em uma biblioteca na França.

Fui convidada para ir a uma ópera por Amélia há uma semana, e mais cedo concretizamos o convite em uma maravilhosa descoberta de minha parte. De mesmo nome do pintor e poeta que antes comentei, mas de cerne completamente diferente deste, foi a ópera a qual assistimos. Encantou-me por suas melodias cotidianas e extremamente naturais em uma vida na cidade. Mas não foi apenas a sublime arte de Antônio Carlos Gomes a esse estado de felicidade ideal. A companhia foi perfeitamente agradável.

Creio, no entanto, que houve alguma espécie de obstáculo em sua residência, já que Joaquim não a acompanhava. Faço silenciosos votos de que não tenha sido nenhuma espécie de problema com sua saúde, tampouco problemas tão singulares aos casais. Disse-nos que ele estava indisposto por causa do trabalho, mas nem sempre a verdade deve ser dita publicamente, principalmente para pessoas recém-conhecidas. Nesta sociedade, cabe-nos perfeitamente o papel de enfeitarmos nossa realidade com todos os acessórios que a Europa puder nos oferecer, tornando-se assim aceitável à vista dos desocupados. Percebi um pouco de desconforto, inicialmente, partindo tanto de Amélia quanto de Carlos. Tinha conhecimento que ele esperava companhia masculina para se conservar ocupado, pois pouco lhe interessava aquele gênero de eventos que eu tanto apreciava. Fazia-me as vontades, e este era um dos motivos de ser tão querido. Quanto à pobre Amélia, deve ter ficado dividida entre a pequena vergonha de faltar um compromisso social marcado antecipadamente e o de ser vista sozinha, como uma dessas mulheres que valorizam os prazeres mundanos, ou ainda pior, solteira.

A música de Carlos Gomes era imortalizada em meu pensamento e transcendíamos num êxtase infindo. Apesar de todas nossas peculiaridades, eu e Amélia aparentávamos estar no mesmo ritmo naquele instante, em uma sintonia divina. Percebi que em um dos instantes meu marido se retirou de nosso camarote, provavelmente para fumar um charuto em algum local da titânica construção, e fiquei só ao lado de minha mais nova conhecida. Comentou algo sobre uma amizade próxima com o compositor daquela peça que certamente será um marco milenar na história da música, mas, em dado instante, os violinos adquiriram uma intensidade tantalizante e senti todo o meu corpo estremecer diante os acordes. Uma pressão partia do meu interior em direção ao ambiente num súbito prazer pungente. Não pude conter minha mão, que se agarrou ao braço de Amélia, envolvendo-o em parte. Quando meu coração voltou a se acalmar e meus pensamentos já eram donos de si, percebi minha falta de educação que permanecera sobre sua pele. Enrubesci imediatamente num calmo, mas complexo, encontro e posterior desencontro de prazer pela proximidade e vergonha pela fissão de nosso decoro feminino.

Permaneci inquieta durante a continuação do evento e um pouco mais quando Carlos avisou para Amélia que poderia levar-lhe em casa, mas esta negou sabiamente a oferta (afinal, sua carruagem já a esperava em frente ao Theatro). A noite trouxe a benção do olvido devido a doces conversas que tive com meu consorte. Mas aquela inquietação surge silenciosa, atravessando minhas portas e me alcançando, impassível à minha dor. Temo não ser levada a todos os sonhos que normalmente a noite me concede.

 
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