sábado, 24 de março de 2012

Encontro das Águas

Certo dia meu pai conseguiu algumas entradas para um passeio bem diferente. Visitaríamos uma das últimas áreas da floresta amazônica que ainda estavam de pé, supostamente intactas. Quero dizer, muitas crianças passavam anos pedindo para seus pais que as levasse ali para passear, ver as florestas tão altas quanto os prédios chineses e, se tivessem alguma sorte, até algum animal vivo. E lá fomos nós, uma semana depois. Meu pai não estava realmente animado com aquilo, mas meu coração batia forte com a perspectiva de pisar naquelas terras ancestrais, onde ainda havia vida selvagem; e não apenas prédios titânicos e autômatos.

Toda essa minha ansiedade não provinha apenas de animação, mas sim do medo. Medo de que eu estivesse esperando demais daquele passeio. Aliás, passei anos me debruçando sobre livros velhos dos meus avós maternos, enquanto observava fotos de seres magníficos que não mais existiam. Onças de boca escancarada com seus dentes prontos para o bote, aves de penas mais coloridas que o carnaval, salamandras tão pequenas quanto a ponta de um dedo, peixes que nadavam uma distância gigantesca só para por seus ovos... Tudo acabado. E eu costumava chorar, deixar ali minhas lágrimas infantes, tão inocentes. Imaginava como toda aquela vida havia se perdido e o quão isso era injusto, e tudo causado pela soberba. Sim! Soberba! Uma espécie acreditando que não precisava mais das outras. Minha alma estava presa naquele martírio eterno, melancólica como se alguma parte dela tivesse sido arrancada e destroçada.

De qualquer forma, fomos ao passeio em um dia de chuva suave. Chegamos lá e havia algumas outras pessoas se reunindo num átrio pequeno. Meu pai falou com algumas, provavelmente clientes, enquanto fiquei sentado num canto. Após vários minutos o guia entrou na sala na qual esperávamos e começou a nos conduzir para a entrada da trilha. Fui andando devagar, bem atrás do grupo, para não ter que ouvir a ladainha dos outros e para poder ter uma experiência própria, pessoal.

O primeiro passo nas folhas úmidas daquela floresta foi mileumanoitesco. Senti um pulso elétrico partindo da terra e disparando por todo meu sistema nervoso, deixando-me arrepiado. Deslumbrado, agachei-me ali mesmo e toquei o chão com a ponta dos dedos. Senti a umidade em minha pele enquanto algo acontecia em meu coração. Um sorriso, impossível de esconder, surgiu em minha tez adolescente. Olhei de soslaio para o grupo à frente, verificando se estavam reparando em mim. Ao perceber que estavam ensimesmados, arranquei meus sapatos e meias, e deixei meu pé encostar-se às folhas e galhos caídos no chão da floresta. Tal qual uma criança levada, segui-os cuidadosamente para que não vissem minha transgressão.

Estava deslumbrado pelos pequenos detalhes da mata ainda intocada. Ouvia o canto de aves, que só tinha visto em filmes e em vídeos na internet, mas nunca ao vivo. Eram de uma suavidade divina, que poderiam trazer a qualquer pessoa um pouco de felicidade espontânea. Reparei numa esperança do mais vivo verde apoiada em uma folha e me lembrei de tudo o que havia lido sobre aqueles insetos em meus livros. Fui me aproximando lentamente, querendo saber se seus membros traseiros realmente eram alongados e preparados para o salto. Quando estava a apenas alguns centímetros, ela saltou repentinamente. A beleza daquilo me arrancou o fôlego, e meus olhos marejaram.

Procurei onde o pequenino havia pousado, dei mais uma olhada para o grupo, que agora ouvia uma longa explicação sobre o passado, e segui para dentro da mata. Fui chegando perto novamente, como sabia que felinos selvagens costumavam fazer quando estavam preparando um ataque surpresa, e tentei captura-lo, em vão. Mais uma vez ele fugira de mim e se embrenhara por entre as árvores. Comecei a seguir seus saltos, concentrado naquela alegria inocente que toda criança deveria ter tido, mas que fora arrancada da nova geração por seus arrogantes antepassados. Feliz, pulei de local em local, por vários minutos, sempre perseguindo meu pequeno amigo.

Comecei a ouvir o barulho de água correndo e neste instante perdi o inseto de vista. Observei que um pouco distante de mim passava um rio bem na beira da floresta, como se esta estivesse prestes a ser coberta pela água. O estranho: aparentemente havia alguém ali. Cheguei perto devagar, com medo de que a pessoa brigasse comigo por ter me desviado do grupo de turismo. Mas, qualquer coisa, diria que tinha me perdido - e o máximo que a pessoa poderia fazer seria reclamar por algum tempo.

- Com licença? Você trabalha aqui? – perguntei quando cheguei a uns dois metros da pessoa. Percebi que era uma mulher de longos cabelos negros que escorriam por sua pele morena. Ela estava virada para o rio, suas pernas mergulhadas na água que passava lentamente por aquele trecho.

Por um momento ela pareceu não ouvir o que eu tinha falado. Deslizava sua mão na superfície da água, e eu percebi que havia dezenas de minúsculos peixes ali, como se ela estivesse lhes alimentando. Após alguns segundos, nos quais eu fiquei em dúvida se saía dali enquanto tinha a chance ou se tentava lhe dirigir a palavra novamente, ela virou seu rosto delicadamente em minha direção. Tinha traços indígenas puros, seu nariz curto e arredondado levantado num aspecto altivo e olhos puxados. Embasbacado e com o coração a ponto de sair pela boca, sentei-me ao seu lado, deixando a água cobrir minhas canelas e molhar minha calça jeans; sua beleza era sobrenatural, sedutora, feérica.

- De certa forma, sim. Trabalho aqui, vivo e sou aqui. – respondeu, voltando-se novamente para a atividade de deslizar sua mão sobre a água.

Fiquei lhe observando por minutos sem nada falar, ainda tentando entender o que ela estava fazendo na beira do rio sem ninguém por perto. Depois destes minutos, percebi o quanto deveria ser estranho um babaca lhe olhando por minutos sem falar nada – além de assustador, é claro. Abri a boca, incerto do que falar para engatar uma conversa com a moça. Mas logo que decidi sobre o que falar, ela recomeçou:

- Trouxe-te aqui por um motivo, mortal. – falou, fixando seus olhos negros nos meus com intensidade, quase agressivos. – Há muito tempo eu estou e sou esse rio, essas águas. Vi flechas e balas, remos e motores, negros e brancos, vida e morte. Mas agora estou desaparecendo, junto com meus santuários, crenças e tudo o que represento.

Algumas lágrimas vertiam de meus olhos enquanto vertigens surgiam, deixando-me inerme diante aquele ser. Cada célula do meu corpo gritava de medo e dor, querendo paradoxalmente fugir e me agarrar àquela divindade, temer e adorar. Séculos se passaram em minha cabeça, como se eu estivesse ligado às lembranças dela. Vi índios pescando, botos nadando, frutos caindo e peixes nascendo - tudo ali, naquele rio que agora era o alvo do meu amor. Ela se aproximou e encostou seus lábios nos meus, e senti um vapor deslizando e entrando em meus poros e garganta. Senti sua energia milenar me preenchendo como um todo e finalmente me deixando completo, ciente do meu amor maior transcrito de cada proteína do meu corpo.

- Carregue parte da minha essência e divida-a entre os merecedores. Preciso descansar. Peço-te que me proteja enquanto isso. Não deixe esta última essência da vida morrer. – Apesar de seu porte orgulhoso, sabia que era uma súplica desesperada da respiração final da natureza.

Afastou-se de mim e entrou na água, fundindo-se a ela. Levantei em silêncio e voltei para o grupo. Mas agora todas as sensações eram únicas. Eu enxergava cada ligação daquela floresta e a possibilidade de cada mínimo ser viver ou padecer. Percebia em cada árvore seus inúmeros habitantes, andando rotineiramente naquele perigo maravilhoso que a vida oferece. Mais do que isso: sentia-me parte daquilo, e a dor por ter de me afastar por um tempo era absurda. Mesmo assim os encontrei novamente e sequer pareciam ter percebido meu sumiço. Segui com eles, como tinha de ser, mas agora com um objetivo.

Não permitirei que a vida se esgote.

1 comentários:

Thiago "James" Leite Cruz disse...

Lembro desse conto, o primeiro que vc me mandou pra ler. mt bonito e bem escrito, cunho ecológico e fantástico. diverge do conteúdo comum do presente blog, mas vale a pena ser lido. abraços.

 
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